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Vanderlei Pereira - entrevista exclusiva (2ª parte)



OUÇA O EPISÓDIO:



SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA, REALIZADA EM 16/03/2021.


Olá a todos os ouvintes e leitores do Histórias da Música em Macahé. Voltamos com a segunda parte desta agradável entrevista inédita com o nosso querido Vanderlei Pereira. Mas antes de continuarmos, uma pequena correção. Diante de tantos fatos e lembranças da época, é normal acontecer alguns equívocos. Alguns amigos que acompanham nosso trabalho solicitaram a correção da seguinte informação: na parte da entrevista onde falamos sobre o Edmundo Caetano, foi dito que Cliton e Gardel eram seus filhos. Na verdade, eles são filhos do saudoso professor Miguel Ângelo da Silva Santos. Então, esclarecido o fato, continuemos ...


Francarlos: como você chegou à Orquestra Sinfônica e como você se sentiu na época... saindo de Macaé você já estava tocando fora, já fazia trabalhos que todo mundo já sabia. Mas você deu um pulo, uma alavancada na sua carreira que foi muito interessante até pro seu aprendizado futuro...


Vanderlei: o que me levou à Orquestra Sinfônica foi o seguinte: eu já tinha terminado o curso de contabilidade em Macaé, já tinha trabalhado em alguns escritórios. Fiz estágio no escritório do Zezinho, que era na galeria do Pigalli e o Lívio Campos. E depois fui trabalhar como contador no “Radar”, uma revendedora da Volkswagen. E vi que deveria seguir carreira de músico mesmo e calhou desse concerto da Orquestra Sinfônica. em Macaé. Por alguma razão eu não assisti este concerto. Era pra comemorar ao aniversário de Macaé, em 1975, 76 por aí. Eu estava em frente ao Lar de Maria assistindo aos desfiles de aniversário de Macaé, de 29 de julho... a Orquestra tocou dia 28. Chiquinho aparece com esse negão alto, super simpático, maior carisma. Francarlos: “Lelei, esse aqui é o diretor do Coral, o Renault.” Comecei a bater um papo com Renault, ele achou o papo interessante e começou a divulgar a Academia da Orquesta Sinfônica Brasileira. Renault: “a gente tem uma escola lá que está recrutando músicos jovens...” Vanderlei: “e como que faz?” Renault: “eu te dou meu número de casa. Se você estiver interessado a gente faz um teste... me liga em março.”


Esperei aqueles 6 meses, já estava no Rio e liguei pro cara. Fui lá na Rua do Passeio, na Lapa. Vários jovens e fui lá fazer o teste de Percussão. Repeti melodias que Renault pedia, teste de ritmo... me perguntou quais são as notas do acorde de Sol com 7ª maior e 13ª. Me lembrei daquele acorde da música “Wave”, de Tom Jobim. Respondi que as notas são: Sol, que é a tônica. Dissonância tem a sétima, que é o Fá. A 9ª não vive sem a 7ª, então é lá. Então a 13ª é a nota Mi. Então Sol, Fá, Lá, Mi. Passei no teste. Fui estudar percussão com David Johnson, Timpanista da Orquestra. Voltei à Macaé, fiz os bailes que tinha que fazer e assim conheci o David Johnson e começou a me mostrar técnica de caixa, como segurar a baqueta, técnica de paraddidle, xerocava uns livros. E daí fui estudando com ele e já sabia que em 6 meses tinha que fazer um teste. Tocar uma peça de caixa pra poder passar ao próximo nível de aluno. Mas pra tocar essa peça, já tinham todos os maestros, todo mundo de paletó e terno clássico. Isaac Karabtchevsky não estava lá mas eram outros maestros, incluindo Renault. O sujeito falava: “olha, a gente aqui da música clássica já está praticando pra você não ficar nervoso. A gente já chama maestro disso, maestro de não sei da onde, catedrático daqui, catedrático de lá. Você vai ter que tocar pra esses caras e eles vão acompanhar o que você está tocando. Se você errar, todo mundo vai saber, no ato.


Então, meu relacionamento com a Orquestra foi por isso aí mesmo. Fiz aquele teste na presença de todo, passei nesse segundo teste e minha performance foi assim... agradou à eles. Então eles me deram um contratozinho para ser aluno estagiário da Orquestra, um “internship”. E assim eu ganhei um cachêzinho, uma remuneração, ajuda de custo dos estudos mensal, um salário básico e daí continuei estudando. Na medida que fui ficando bom, que fui me preparando, eles me deram chance pra tocar com as Orquestras. E quando eles precisavam de mais percussionistas, eu chegava lá, as vezes pra tocar um pandeiro, tocar uma caixa. Pandeiro sinfônico, não é o pandeiro de samba... eu estava tendo a oportunidade de utilizar as aulas que estava tendo com David Johnson e também com Luiz Almeida d’Anunciação, que era o chefe da cadeira de Percussão e comecei tocar e aplicar. E também a Orquestra tinha uma sala onde eu tive acesso a todos os instrumentos de percussão para poder praticar.


Magno: você se referiu ao Luiz. É o Bituca?


Reencontro de Vanderlei e Luiz Almeida D'Anunciação, o "Pinduca" (in memoriam). Pinduca era maestro, compositor, concertista e professor titular de Percussão da OSB no período em que Vanderlei estudou na orquestra.

(Imagem: site www.vanderleipereira.com)


Vanderlei: não. Bituca era o percussionista clássico do Teatro Municipal Brasileiro, além de baterista. Esse que estou falando é Pinduca, Luiz Almeida d’Anunciação. Bituca, acho que o nome dele era Edgar Rocha... então eu toquei com a Orquestra Sinfônica e participei de concertos no Teatro Municipal, na Sala Cecília Meireles, e várias vezes eu terminava um concerto, que começava umas 17h e terminava às 19h. E várias vezes eu terminava o concerto no Rio de Janeiro e corria pra rodoviária, pegava um ônibus dia de sábado pra fazer um baile em Macaé, as vezes no Fluminense, Ypiranga... e teve uma vez que peguei um ônibus do Rio direto pra Campos tocar no Saldanha da Gama. As vezes chegava atrasado, o Edervam estava tocando bateria, eu pegava ...


Francarlos: sim, Saldanha da Gama, eu lembro desse baile...


Vanderlei: pois é, eu fiz muitos bailes lá pra tocar com L-Bossa. Foi o último grupo que eu participei em Macaé antes de começar minha carreira no Rio. E antes do L-Bossa eu toquei no Distúrbio Magnético e no The Starshine. Um fato interessante sobre o L-Bossa é que o L significa ao Licínio. O Licínio tinha um conjunto que chamava “Licínio e seu Conjunto” e o Nini, Adenildo...


Francarlos: Joadenildo Carlos Brandão...


Vanderlei: isso. Nini e Edervam Carlos Crespo, eles eram parte do Licínio e seu Conjunto. O Licínio veio a falecer, infelizmente, na praia dos Cavaleiros. Ele tava boiando, veio uma onda, ele tava relaxado na bóia e as ondas atiraram a bóia dele em cima daquelas pedras que tem lá nos Cavaleiros. E assim ele bateu com a cabeça nas pedras e foi uma lesão muito forte e ele veio a morrer. Acho que foi em 71, uma coisa assim. Daí o Edervam Crespo e o Nini tomaram a gerência do Licínio e seu Conjunto, continuaram a homenagem e mudaram para L - de Licínio - Bossa. Eu só entrei na banda depois, quando eu estava no final. Eu fui tocar no The Starshine e a banda acabou. Depois eu formei uma banda chamada Distúrbio Magnético, junto com Ruzimar da Silva, Mazinho, Ruzilande Neném, o baixista. O Mário Perrota tocou guitarra e “Bacalhau” era o cantor. A gente começou o Distúrbio usando aparelhagem do L-Bossa pra tocar no Ypiranga. A banda The Starshine tinha acabado e um dos diretores do Ypiranga era o “Seu Fré”, acho que era um delegado da cadeia de Macaé. Ele era fã do Bacalhau e a gente não tinha aparelhagem e seu Fré queria que a gente tocasse lá. Aí o L-Bossa – tinha o matinê no Ypiranga – e a boate começava 22:30 e ia até 01:30 da manhã. O L-Bossa tocava na boate e não sei o que aconteceu que o L-Bossa cedeu a aparelhagem pra gente fazer o matinê. Foi assim que muitas vezes a gente tocou. Aliás, isso foi o final do Distúrbio Magnético, com direção de Alailson Lanes. Ele era também do Starshine...


Mas aí o Edervam era o baterista do L-Bossa. E ele não tinha tempo pra praticar. Ele trabalhava na Eletrônica Crespo, consertava rádio, TV e fazia instalação de som em carro também. Ele me viu tocar e me perguntou se eu queria tocar no L-Bossa. Eu falei que isso seria o maior elogio da minha vida, chegar a esse nível como músico, de poder merecer de sentar na cadeira do grande Licínio e tocar a bateria que ele construiu, a primeira bateria que eu vi na minha vida. Isso é um troféu... e ali toquei no L-Bossa, de 74 até 78.


Francarlos: 78 foi o final do L-Bossa.


Formação do L-Bossa com Vanderlei Pereira (ao fundo, de óculos). Na foto: Adilson (violão base), Robertinho (sax alto), Vanderlei Pereira (bateria), Adaury Mendonça (teclado), Neném (crooner); sentados no meio: Joaquim (guitarra e violão base), Carlinhos (trombone); na frente: Roberval Aprigio (Baixo) e Ismael (crooner). Faltaram na foto: Miltinho, Francarlos (Chiquinho) e Neguinho.

(Ano: 1978)


Vanderlei: ... que eu estava indo pro Rio tocar com a Sinfônica. Levava dois dias no Rio e voltava pra Macaé, ensaiava. Eu estava naquele período de transição até 78 e, de repente, de tanto ir ao Rio nesse vai e vem me apareceu uma oportunidade. Eu apareci pra fazer uma audição porque estavam a laço procurando baterista que soubesse ler. E todos os bateristas que sabiam ler música no Rio, a grande maioria, estavam tendo dificuldades. Daí meu nome caiu, como sendo irmão do Dulcilando, e eu tinha feito um baile com Anselmo Mazzoni. Ele virou pro Valter Amaral, que era o diretor do Solaris, uma casa de samba exportação no Rio, falou: “ liga pro Macaé (Dulcilando) porque ele tem um irmão que toca na Sinfônica. Ele é baterista e se ele toca na Sinfônica, ele lê qualquer partitura. Aí me ligou e me convidou pra fazer uma audition... cheguei lá meio capial, de Macaé: “olha, minha leitura tá ok. Agora, meu ritmo... eu toco bateria mas vim de Macaé...”. E o cara botou a primeira partitura... só era eu, o baixista, o pianista e o maestro. Li a primeira partitura, tudo bem. Li a segunda, li a outra e toquei junto com o piano, o baixo e tal. Depois da sexta música, ou sétima, o cara parou: “vamos jantar!” Fui lá no banheiro, eles cochicharam. “Escuta, hoje é segunda-feira. Você está pronto pra atacar na próxima segunda?” Eu falei: “Ué! (Risos) vem cá, e o ritmo? Valter: “a gente botou as músicas mais cabeludas e você tocou tudo. É claro que o material todo são vinte e tantas músicas, mas a gente botou aqui as mais cabeludas... seu samba não está tão mal assim como você imagina. Na quinta-feira agora é o ensaio geral do show inteiro, com os sopros, os cantores. A gente vai ler isso tudo de novo e você traz um gravador e grava, leva a partitura pra casa, escuta a gravação e você ataca na segunda-feira. No ensaio você traz a carteira de trabalho, a gente vai assinar tudo, traz uma foto. Você já está contratado...”


E daí eu fiz 8 shows por semana. Esse foi meu primeiro trabalho no Rio de Janeiro. Por ironia, eu sem problema de visão e consegui um trabalho por causa da minha leitura. Então, caramba! Então quer dizer que todo aquele “blábláblá” da Nova Aurora foi bom pra caramba! Pela segunda vez: passei pra Sinfônica por causa da minha leitura e musicalidade. Passei agora nesse trabalho remunerado, com carteira assinada, direito à férias e tudo. Então quer dizer que, poxa, a Nova Aurora tá muito bom. Só depende de quem? Do aluno. Se ele quiser levar a sério. Porque Deus dá o talento, mas o talento só é a metade. Imagina quantos músicos no Brasil que poderiam ter essa oportunidade. Cheguei no Rio de Janeiro e isso foi abrindo outras portas. Quando conheci o Rildo Hora, ele fazia um som com músicos de Jazz. Ele foi num clube de Jazz e eu estava tocando com Paulo Russo e Romero Lubambo. E o Rildo chegou lá – era pra atacar o show na Funarte na terça-feira. Um ensaio na sexta, outro na segunda e o show ataca na Funarte na terça. Cheguei no ensaio sexta, né. O Rildo tinha partitura pra Baixo, pra guitarra, pro piano mas não tinha pra bateria. E o Rildo botou a primeira música, difícil pra eu memorizar. Eu falei : “Rildo, escreve a partitura. Eu sei ler.” Quer dizer: o ensaio estava aquela lenga-lenga porque era muita coisa pra memorizar, cheio de detalhes... Chegou no ensaio segunda-feira o Rildo botou a música mais cabeluda, me deu a partitura. Eu pedi pra ele: “olha, eu uso óculos. Então usa aquela caneta Bic Futura, que é bem preta e eu trago uma luz pra poder ler.” E o Rildo chegou e me deu aquele bloco de partitura. Eu saí tocando e, daqui a pouco, alguém errou e parou no meio da música. O Rildo pulou com a gaita dele, foi lá em mim e me deu um abraço e disse: “puxa vida, você realmente ler. Eu estava lá escrevendo partitura o final de semana inteiro. Não pude ir à praia, ao churrasco, preocupado com a partitura. E eu estava pensando: se o Vanderlei não ler eu vou ficar muito puto.” (Risos)


Rildo Hora - O Tocador de Realejo. Disco instrumental, lançado em 1987, com participação de Vanderlei em algumas faixas.


Ensaiamos o show tudinho, ataquei e fiz o show. Ele me chamou pra gravar com Beth Carvalho, quando Wilson das Neves não podia. Eu gravei o primeiro disco do Rildo Hora, instrumental. Eu estou lá, tocando faixa. Tudo por causa da minha leitura. E não é que eu fiquei cego!


Francarlos: como é que pode, não é rapaz!! Foi você que me apresentou ao Romero Lubambo, lembra?


Vanderlei: pois é. Romero ficou meu amigo lá no Rio de Janeiro. Uma vez eu trouxe ele à Macaé. Levei no Ypiranga, fomos à praia...


Francarlos: nós viajamos juntos para o Espírito Santo: eu, você, ele e Marcão percussionista.


Vanderlei: Marcão eu conheci na Sinfônica, mas Romero não estava nessa banda. Era o Neguinho o guitarrista do L-Bossa. O Marco era um dos alunos da OSB. Ele tocava uma conga e um pouco de bateria, mas ele não conseguia se defender na bateria. E várias vezes lá no Rio ele pegava um trabalho de bateria, não dava recado e eu ia lá e tocava. E com essa ele até me arrumou uma gig pra tocar na Globo, com Sérgio Mendes. Mas aí eu fui como percussionista porque precisava de um cara de cor pra fazer uma cena de tubadora, meio afro. Mas o que eu quero dizer, nesse pedacinho da história no Rio de Janeiro, tudo isso foi graças a experiência que eu tive em Macaé tocando, lendo música e levando a sério para ser profissional. Me preparei para isso e não sabendo que Macaé, Nova Aurora e a prática de tocar com L-Bossa, tocar samba e vários estilos... não sabendo que eu estava pronto pra encarar a vida lá no Rio.


Meus shows no Rio eram 8 por semana. Começavam dez horas da noite e quando era 15 pra meia noite, eu já tava livre. E caía na noite no Rio... comecei a ser taxado como músico de samba. Mas eu ia aos clubes de Jazz. Um belo dia um cara deixou eu dar uma canja tocando Jazz. Comecei a tocar e a turma: “pô, bicho, seu Jazz está muito bom pra um baterista de samba!” Aí eu caí na cena do Jazz e quando fui gravar com Rildo Hora, só tinha cara de Samba lá. E meu nome começou a circular no mundo do Jazz. E tocando com os caras do Samba, dava o intervalo e um comentário assim: “bicho, seu samba tá muito bom pra um baterista de Jazz. (Risos) bom, o que eu sou? Minha cabeça ficou... eu sou músico brasileiro e músico brasileiro é versátil, é pau pra toda obra, né! Tudo isso a minhas 3 universidades em Macaé. O lado do Jazz, eu ia pra casa do Piry e Paulinho. Lá que eu escutei, pela primeira vez, Hermeto Pascoal, Milton Nascimento, Ron Carter. Gravei com ele aqui em NY já, duas vezes. Me conhece, entendeu? O Paulinho “cara de vaca” me deu um triângulo e um chocalho. “escuta aí o Airto (Moreira). E o resto é história.


Magno: O Piry... você participou de algumas gravações de discos dele... tem um que é o homônimo...


Vanderlei: 3 discos. Rio zero grau, não lembro os títulos. No meu website tem tudo lá escrito com os títulos, gravadoras...


Francarlos: você gravou o “Coisa Rara”?


Vanderlei: gravei algumas faixas. O Nelson Farias está em uma das versões do Coisa Rara. Através do Piry, ele trouxe o Egberto Gismonti pra gravar um dos discos. Conheci o Egberto, já fui à casa dele. Tudo por causa do Piry que abriu muito as portas pra mim no campo musical. No Rio toquei em vários shows com ele, e também em Macaé, incluindo o Chaplin’s. Eu trouxe o Ademir Cândido, guitarrista. Ele mora na Suiça. O Idriss Boudrioua também, o saxofonista, tocou no Chaplin’s. E todo mundo tocou com Ceceu lá.


Magno: eu queria fazer uma ponte com a sua ida aos EUA. Queria que você contasse um pouco esse processo. Tem um fato interessante que você tem um grande ídolo que você conheceu, o Helcio Milito, do Tamba Trio. Como foi esse processo de ida, de morada pros EUA, e como foi ter conhecido o Helcio e como ele te encaminhou nisso...


Francarlos: Helcio é irmão do Osmar, né?


Vanderlei: corretamente, os fundadores do Tamba Trio. Depois o Helcio passou a ser produtor e entrou um outro baterista chamado Rubens Ohana. Bom, lá no Rio comecei a tocar nesse trabalho de samba. Trabalhei de 79 até 82 fazendo 8 shows por semana. Era tipo um mini Broadway, tinha uma orquestra, e o Dulcilando acabou trabalhando comigo lá no Solaris. Ele entrou depois de mim, mas já entrou como maestro. Começou a escrever arranjos e as partituras de bateria de Dulcilando era, mesmo, super detalhista. Eu aprendi muito trabalhando com ele. Foi um aprendizado meio duro... mas aí, eu saia na noite nos clubes de Jazz e conheci o Carlos Walker. Ele era amigo do Paulinho e do Piry, que trabalhou muito com o Walk. O Walk precisou montar uma banda no Rio para lhe acompanhar e eu fui o baterista. Levei os meus colegas da Sinfônica que tocavam percussão, o Ricardo Ferraz e Marcão. E o Marcão sugeriu um guitarrista muito bom de Jazz, garoto jovem da Tijuca chamado Romero Lubambo. E naquela época eu já tava fazendo Teatro, por causa da minha leitura (de novo aí a leitura). E toquei num Teatro com Sônia Braga, que era uma das atrizes. Lá eu conheci um flautista e levei pra tocar com Walk. E fiquei muito amigo do Romero, a nossa afinidade foi em comum porque nós dois gostávamos de Jazz. E o Romero conseguiu um trabalho numa casa chamada “Viro da Ipiranga”, aonde o Chiquinho foi me ver tocar. Nessa época eu já tocava com Luiz Carlos Vinhas no Rio Pallace Hotel, carteira assinada, tudo direitinho. Não tinha nenhuma leitura, porque o Vinhas não lia música. (Risos) era um bom músico.


Romero Lubambo e Vanderlei Pereira.


Francarlos: Lelei, só um parêntesis: explicar pra galera que no Rio, naquela época, essas carteiras eram assinadas. Eu trabalhei na Flor de Lis com carteira assinada.


Vanderlei: pois é. Carteira de trabalho, músico profissional mesmo. Eu já tinha a carteira da OMB quando ainda morava em Macaé. Fui no Rio e tirei a profissional, porque tinha a de amador, você não precisava ler música, só precisava ser musical, saber alguns ritmos. No meu caso não, você tinha que ler música e saber muitas outras coisas. Mas o Romero, fui ver ele tocar no “Viro do Ipiranga e o baterista era o Robertinho Silva. Mauro Senise estava tocando, Paulo Russo e eu estava na platéia tomando um vinho. E batendo um papo com Robertinho ele soube que eu era irmão do Dulcilando e Robertinho tinha um filho com nome de Vanderlei. Ele tava lá, tinha tomado umas e outras, e me convidou pra dar uma canja. O Paulo Russo e o Senise fizeram aquela cara. Toquei e quando levantei da bateria, o Senise e o Paulo Russo agarraram meu braço: não, senta aí e toca mais uma. Robertinho tá meio bebum paquerando a mulher lá. (Risos) acabei tocando o set inteiro. Eles adoraram e ficou por isso mesmo. 3 dias depois recebo um telefonema do Paulo Russo, que era o diretor: bicho, você quer atacar lá como baterista? Eu falei: mas e o Robertinho? Paulo: o Robertinho tá ocupado viajando com Milton Nascimento. Eu gostei da sua afinidade... Então eu falei com ele pra me aguardar 1 semana porque eu tenho que sair do Luiz Carlos Vinhas pra poder vim tocar. E a grana tava sempre aumentando. Saí do Solaris, estava com carteira assinada, fui tocar com o Vinhas o preço era quase dobrado.


Depois do Rio Pallace fui tocar no Viro do Ipiranga, o preço era quase que dobrado. (Risos) e era direto, de terça à domingo. E nessa aí, fui tocando, e Romero decidiu vir pra América. Daí mudou a banda toda do Viro da Ipiranga. Fiquei lá e falei que um dia eu vou, porque eu sempre tive o sonho de ir pra América. Ele veio pra cá em 1985 e eu continuei tocando no Viro do Ipiranga. Um belo dia, meu telefone toca. Foi uma americana, Susan: “ah, eu sou amiga do Romero, ele me deu seu número. Vim aqui no Rio porque eu toco samba em Nova York. Toco Surdo e vim ao Rio pela primeira vez... ela falando português só no tempo presente. Encontrei com ela, tomamos uma cerveja. Foi lá em casa, fizemos uma batucada. Ficamos na amizade, que durou 1 ano. Depois ela voltou de novo no Rio, definitivamente pra tocar na escola de samba. E na primeira vez que ela veio, eu ainda cheguei a ver o rosto dela. Isso foi em 86. Daí eu fiquei cego no verão de 86, e em julho fiquei cego totalmente. Fiquei em contato com ela. E quando ela voltou em 87, eu já estava totalmente cego. E aí nos apaixonamos um pelo outro depois de 1 ano de amizade a flechada do cupido.


Eu sempre tive esse sonho de ir pra América. Ficava escutando as bandas aqui: Blood, Sweat and Tears, Chicago Transit... então, ficamos nesse relacionamento a distância. Ela vinha pro Rio, passava 1 semana comigo e voltava. Falei: “olha, to fazendo minhas trouxas que eu vou pra NY. E naquele último ano, no Rio... a história do Helcio Milito, né. Eu tava tocando já cego, no Peoples, acompanhando o Quarteto em Cy. Era eu, Adriano Giffoni, no Baixo; um pianista, Cid Alvarez, bem jovem; Célia Vaz, que era diretora musical, no violão; e o Quarteto em Cy. E eles não queriam bateria. Mas viram que as cantoras estavam cantando pra cá, o ritmo caía, e a Célia: “a gente precisa de uma baterista.” Fui lá, fiz o teste, toquei belezinha. O diretor era Aluízio de Oliveira, famoso, parceiro de Jobim. O cara bateu nas minhas costas: “tá contratado!” Fui lá fazer o show. Toquei lá, bem quietinho, de vassourinha. Veio um cara, com um sotaque italiano de São Paulo: “me diz uma coisa aqui, onde você aprendeu essa vassourinha tão bonita. Eu estava escutando aqui...” Virei pra ele: ah, bicho, vassourinha, lá em Macaé eu escutava os discos de meus irmãos, do Tamba Trio. Eu ficava escutando o Helcio Milito e meus irmãos falavam que aquela vassourinha... E o cara: como é que é? Tamba Trio? Aí esse cara me levou lá na mesa, mesa cheia e me fez repetir a história. Eu estava dizendo pra esse cara que aprendi vassourinha escutando o disco do Tamba Trio. Eu segurando a bengala, né. E na mesa todo mundo começou a rir (kkkk). E falei: o que que foi engraçado? Me ofereceram qual bebida eu gostaria de beber, Whisky, que iam pagar tudo... E eu falei qual era a graça, e daí me falaram que o cara que gostou da minha vassourinha é o próprio Helcio Milito. E eu não sabia. E aí eu falei: é mesmo, você é meu ídolo? (Risos) Sentei, tomei um drink com eles no intervalo do show e falei pro Helcio que estava indo para NY em Novembro. Helcio: tá aqui o meu cartão. Eu moro em NY. Quando chegar lá, você me liga. Cheguei em NY em 26 de novembro de 1988. O Magno não era nem nascido. Não, já era. (Risos)


1º disco do Tamba Trio, lançado em 1962. Luiz Eça, Bebeto Castilho e Helcio Milito formavam o trio que muito influenciou Vanderlei em sua infância.


Magno: 6 aninhos...


Vanderlei: Cheguei aqui (NY), com uma lista telefônica pequena, com o contato do Romero Lubambo, que já estava aqui, do Nilson Matta e Helcio Milito. Fiz 3 telefonemas. Helcio, aqui quem fala é Vanderlei Pereira, se lembra? Aquele ceguinho lá com vassourinha acompanhando o Quarteto em Cy... Helcio: ah, pois é, chegou na hora certa. Preciso de um baterista pra me substituir nas duas próximas sextas-feiras. Já está contratado, chegou na hora certa. Adorei sua vassourinha ... Desliguei o telefone e falei com Susan que já tinha trabalho na sexta. Não tenho bateria, nada. Ela não acreditou porque em NY é difícil conseguir trabalho. Ela arranjou uma bateria emprestada, cheguei lá, conheci o Cidinho. Era um Hotel pra tocar: um piano, baixo e batera. O pianista era brasileiro, Cidinho Teixeira, que trabalhou muito com Simone, Djavan, Gil. Fui lá, toquei, agradei e na segunda vez que fui tocar, já estava uma platéia pra ver... a notícia correu logo que tinha um baterista cego em NY. Meu telefone começou a tocar, comecei a gravar com várias bandas, assim que conheci o Helcio Milito; Helcio me deu o primeiro trabalho e ficou meu fã. Depois ele saiu de NY, foi pra California e toda vez que vinha pra NY, me ligava, me via tocar... o meu ídolo passou a ser meu fã.


Francarlos: a sua história de vida, na música, é fabulosa. A gente sabe de tudo que você enfrentou, tudo o que passou. Mas esse caminho foi traçado por Deus...


Vanderlei: e a gente nem falou de cegueira, nem nada. Quando eu perdi a visão no Rio de Janeiro, eu já conhecia gente pra caramba, minha reputação já era boa. Cego mesmo fui apresentada a Leila Pinheiro e mesmo com a cegueira dei conta do recado. Viajei com ela, fui à Minas Gerais. Conheci Amelinha, fui pro Nordeste. Quando eu fiquei cego, minha preocupação foi que a vida de músico acabou. Todos os trabalhos que eu consegui por causa da leitura musical, pensei que minha carreira encerrou. Mas, de repente, o telefone começou a tocar, carona pra levar a bateria, carona pro aeroporto foi surgindo. Aí depois de 3 semanas de cego né, falei: ué! Eu to cego mas continuo tocando. Ué, tô cego mas continuo gravando. Daí que fui entender que não precisei mais de ler música e nem provar nada pra ninguém. Tudo já tinha sido provado nos anos anteriores. Eu fiquei cego em 1986 e já tocava no Rio de janeiro desde 1979. E vim pra América em 88. Eu tive as minha batalhas com Deus, né. Me levou 20 anos para eu aceitar a cegueira realmente...


Magno: você citou o Cidinho, e eu queria puxar pro seu trabalho autoral. Você, ano passado, lançou o seu CD e também ano passado que Cidinho faleceu de AVC ...


Vanderlei: faleceu no dia 26 de fevereiro de 2020. E Cidinho foi com quem eu toquei no primeiro gig lá com Helcio Milito, que ele recomendou. Tem uma faixa do meu disco que se chama “Vision for Rhythm” e tem uma faixa chamada Ponto de Partida, que foi meu ponto de partida no exterior, em NY, e eu dediquei essa música ao Cidinho. Foi o tipo de groove que a gente tocou naquele gig. E com Cidinho eu toquei numa banda com a irmã dele chamada Terra Brasil. Fizemos muitos gigs, até no final da vida dele. Ele tocou essa música Ponto de Partida com um suingue danando, ele tem um suingue de piano invejável. Tinha, né. Tocando com Djavan, Gilberto Gil, Simone. Ele tinha um balanço danado. Além de Cesar Mariano, né.


Magno: sobre o Airto (Moreira), você tem o arranjo de uma música dele também...


Vanderlei: isso, fiz um arranjo do Airto. E a Flora (Purin) foi o seguinte: eu tava tocando com o Cidinho no Clube Amazonas aqui, com a irmã dele e um baixista. Era sexta e sábado, um dos gigs que eu peguei aqui direto... eu tava tocando lá numa sexta-feira e quando deu o intervalo, essa moça chega falando comigo: oi, que som bacana. Eu sou a Flora Purim. Eu quase que engasguei. Eu falei: caramba, eu sou seu fã! Flora: não, tava bom. Tem o seguinte, amanhã eu to trazendo o Airto aqui pra te ouvir. Ele tem que te ouvir. Ela voltou com Airto e sentou do lado da bateria. Eu tava tremendo! Deu o intervalo, o Airto veio falar comigo: engraçado, você usa esse prato aqui, eu também uso um igual a esse... Ele me deu um abraço e uns meses depois o Airto me ligou e a Flora me convidou pra tocar com eles no Village Gate, em NY. Eram duas bandas que dividiram o palco e, no final, tocariam juntas. Eram o Airto Moreira e o Tito Puente. E o Airto precisava de mais músicos, me chamou e a Susan tocou surdo. O Airto toca bateria e percussão e as vezes ele ia só pra percussão. Então foi um sonho que tornou realidade.


O “Misturada” que eu escutei na casa do Paulinho e Piry, um disco do Quarteto Novo, desde que ouvi o Misturada eu falei que um dia que eu tivesse uma banda eu ia tocar essa música. Fiz questão de gravar o disco e mandei mandei a faixa pro Airto antes de do disco ficar pronto. Ele me ligou de volta e disse que foi a melhor da música dele até hoje. A Susan e o flautista fizeram perfeito. A banda tá de arrazar! Eu fiquei “lendo” esse e-mail que ele me mandou umas 15 vezes. Eu não acreditei. Meu ídolo agora tá gostando... Eu liguei pra ele pra saber se poderia usar a citação. Ele disse: use e abuse. Se isso vai empurrar seu disco pra frente, usa e abusa. A Flora também deu um depoimento, a Leila Pinheiro fez um depoimento longo. Posso até mandar pra vocês...



Capa e Contra-capa do CD "Vision for Rhythm", do grupo 'Vanderlei Pereira and Blindfold Test', lançado no ano passado pelo selo Jazzheads.


Magno: gostaria de lançar minha última pergunta. Você já comentou algumas coisas do seu CD que era onde eu queria entrar mesmo. Você poderia contar pra gente sobre o processo de gravação, o por quê do Blindfold Test, o processo de ensaio e como culminou no final de todos vendarem os olhos...


Vanderlei: eu cheguei aqui, já trabalhando com todo mundo, gravando. A turma foi confiando em mim e que apesar de ser cego, sou sortudo pra caramba, né. Fui trabalhando como sideman, nunca pensei em ter disco, banda, nada disso. Tô pagando minhas contas como sideman, pra que ter banda? Até que um dos clubes que eu tocava aqui em NY, Zinc Bar, o dono disse que já estava na hora de eu montar uma banda e quando eu montasse a banda, avisar porque vai ter lugar pra tocar. Olha que isso é raro! (Risos) Já sabia exatamente quem chamar, montei a banda, ensaiava porque não subo no palco sem ensaiar. Daí um baixista que começou a dirigir outro clube me chamou porque ele queria botar música brasileira lá... Fomos tocando e daí começou a cobrança, os músicos querendo gravar. Rolou essa cobrança. Pintou um dinheiro, começamos a ensaiar o material e cada vez que ensaiava eu tinha uma idéia diferente. E sendo cego, eu só chamava músicos que sabiam ler porque aqui ninguém tem tempo. É 1 hora e meia pra ensaiar 12 músicas. Dava idéia pro baixista, pro guitarrista, usei a voz da Susan como instrumento... depois do quinto ensaio, o guitarrista: “Vanderlei, as partituras estão horríveis. Muda de idéia toda hora, rabisca daqui e dali. Não dá mais pra ler nada.”


Mas acontece que eu me lembrei de uma piada que a Susan fez, uma vez que a gente veio do Brasil. No avião ela começou a colecionar aqueles tapa-olhos e virou pra mim de brincadeira e disse: “um dia você vai ter uma banda, vai chamar a banda de Blindfold Test, que significa “teste de olhos vendados”, e você vai pedir pros músicos usarem o tapa-olho pra poderem encarar a música do jeito que você encara.” Achei aquilo engraçado e comecei a rir. Mas durante os ensaios, com os músicos reclamando, eu lembrei da história da Susan e falei pra banda que eles tinham razão. “Vamos memorizar as músicas mais difíceis, quando chegar no dia do show eu levo os tapa-olhos pra vocês e vamos tocar as músicas assim, sem ler nada...” eles concordaram e ensaiamos as 4 músicas mais difíceis. A Susan chegou pra mim e disse que eu estava maluco. Eu disse que estava de brincadeira e a lembrei daquela viagem. Mas só que eles levaram a sério e deixei rolar. No dia do show, sábado, um ia pra segunda parte, outro na primeira... depois cada um se acertava. Daqui a pouco, eles aprenderam essas 4 músicas e eram o ponto alto das gigs. A platéia não acreditava e os músicos estavam melhores. Era um frevo, eu passava pra jazz, e passava pra merengue. A banda ia, tocava mais rápido, mais lento. A banda lá juntinha, tocando perfeito! Virei pro guitarrista e falei pra ele fazer solo numa música. Ele fez o melhor solo, com os olhos vendados. Mandei a gravação pra ele – eu sempre gravei os shows ao vivo – e ele não acreditou.


Eu queria gravar o disco com a mesma energia dos ensaios de estúdio. Não teve playback, foram 6 pessoas tocando “no pau”. Eu estava super nervoso, pois uma coisa é você dirigir uma gravação com meu nome, eu tinha que dar resposta pra tudo. A gente gravou em três sessões, fora da cidade. Levei a banda toda pra fora da cidade, bloqueei 2 dias no estúdio e dormimos no estúdio mesmo. Levei vinho, cada uma levou suas coisas... e foi assim. A pianista Deanna Witkowski, uma pianista tremenda. São 3 brasileiros e 3 americanos. Aqui a gente mistura tudo, independente de tudo. É uma cidade onde funciona. Esse disco conseguiu um selo que, na verdade, eu tive que pagar pra tudo. O selo foi masterizando, mixando, lancei o disco e no início era só pra registrar, se eu não gostasse eu não lançava. O processo foi ficando bom e a gravadora lançou o disco 1 semana antes da pandemia, no início de março. O disco saiu nas plataformas digitais dia 08 de março do ano passado, mas só foi lançado oficialmente dia 22 de maio. E em junho começou a tocar em todas as estações de LatinJazz e todo mundo gostou. Começou a rolar entrevistas e quando chegou em agosto, mais ou menos, o disco tinha rodado mais de 2 mil vezes só aqui nos EUA. Chegou também na Austrália, Áustria, Inglaterra, Havaí e por aí vai. Teve uma estação de rádio em Orlando que tocava meu disco 6 vezes por dia, durante 3 meses.


Vanderlei Pereira e seu sexteto Blindfold Test em ação, tocando de olhos vendados.


Chegou em outubro, eu tinha uma merreca de grana aqui e Antonio Adolfo me indicou um divulgador lá no Rio, paguei a ele e fiz essa divulgação toda, de outubro até fevereiro agora. Saíram entrevistas de norte à sul: Porto Alegre, Recife, Belém, São Paulo, Rio e são essas entrevistas todas que vocês viram. Eu falei: poxa, sabe o que devo fazer? Devo escutar o disco agora.


Magno: esse disco foi um convite ao músico tocar do jeito que tem que tocar: com o coração, com feeling...


Vanderlei: Brazilian Jazz, pois a música brasileira ainda é a melhor música... de manhã eu estava escutando o disco da Elis “O Trem Azul”, é de dar água nos olhos. Como é que a música brasileira é tão rica! Um profissionalismo. Aquelas músicas do Milton... é um negócio seríssimo!


Magno: gostaria muito de você ter aceitado o convite. Essa entrevista, com certeza, vai ser marcante pra mim. Espero um dia a gente se encontrar.


Francarlos: sabe qual a música de baile que me faz lembrar de você, toda vez que eu ouço? Lady love. (Risos)


Vanderlei: Lou Rawls. Ele faleceu. De vez em quando ele toca nos programas de rádio de Jazz aqui. Tem uma rádio chamada WBGO, sexta-feira passada eles tocaram meu disco, a faixa “Ponto de Partida”. Continuam tocando de vez em quando. Agora tá no hora de falar com a arrecadadora, de ver a merreca. (Risos)


Ulysses: Vanderlei, nós somos seus fãs.


Vanderlei: muito obrigado por me dar a chance de falar...


Ulysses: a gente é que agradece demais. Gratidão total!


Francarlos: nós é que agradecemos. Você não imagina o prazer que foi poder ouví-lo, contando a sua história de vida. Eu conheço algumas passagens da sua vida. Somos amigos há quarenta e poucos anos, desde 1973. Fico com muito orgulho, quando eu falei com a galera que a gente ia te entrevistar, trazer à tona, porque a gente tem que fazer esse trabalho de resgate sim! Ou a gente resgata ou a gente morre sentado numa cadeira de balanço sem realizar nada.


Vanderlei: muito obrigado. Mas Magno, você pode incorporar coisa brasileira. Um dos ídolos meus, do Brasil, é o Chico Science. Vê o que ele fez com a Nação Zumbi. Tocando rock, usando Maracatu. Então muito pode ser feito. Só existem dois tipos de música no mundo: a boa e a ruim. Só isso!


FIM DA ENTREVISTA.



FUNDO MUSICAL:


1ª PARTE DA ENTREVISTA:

  • Ponto de Partida, composição de Vanderlei pereira que tem dois fortes significados: a primeira, retrata sua ida definitiva para o exterior; a segunda, homenageia seu grande amigo e parceiro das Gigs, Cidinho Teixeira, que nos deixou no ano passado. É a segunda faixa de seu disco autoral 'Vision for Rhythm', lançado em maio do ano passado;

  • Misturada, composição de Airto Moreira e Geraldo Vandré, lançada pela primeira vez em 1967 pelo grupo Quarteto Novo, disco que muito influenciou Vanderlei. O que ouvimos no podcast foi o arranjo feito por Vanderlei e grupo para a gravação de seu disco;

  • Carinhoso, música de Pixinguinha sem uma data precisa de sua criação, porém com primeira gravação feita em 1928 pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga;

  • Moonlight Serenade, de Glenn Miller. Provavelmete uma das músicas exploradas por Licínio e seu Conjunto, de acordo com relatos coletados pelo Facebook 'Macaé das Antigas';

  • 1ª faixa, um Pout-pourri cantado por Elis Regina e Jair Rodrigues no disco 'Dois na Bossa', lançado em 1965 e acompanhados pelo Jongo Trio. Esta foi a primeira gravação registrada da cantora Elis Regina;

  • Meu limão , meu limoeiro, música dos anos 30 composta como motivo folclórico baiano, por José Carlos Burle. Gravada pela primeira vez em 1937 com as vozes de Silvio Caldas e Gidinho, acompanhados pela Orquestra Copacabana, mas que se tornou famosa pela voz de Wilson Simonal nos anos 60;

  • Feche os olhos, de 'Renato e seus Blue Caps';

  • Overture 1812, de Peter I. Tcháikovsky, com arranjos de Ioshihiro Kymura e executada pela Banda Sinfônica Nova Aurora no Teatro Municipal de Macaé durante as comemorações do aniversário da cidade , em 2016;

  • La Traviata, de G. Verdi, arranjos de J.A. Pina, interpretada pela Banda Sinfônica do Conservatório Superior de Castilla La Mancha;

  • Corrupião, faixa do álbum de Vanderlei Pereira and Blindfold Test;

2ª PARTE DA ENTREVISTA:

  • De volta à Festa, de Vanderlei Pereria and Blinfold Test;

  • Maurice Ravel - Suíte Daphnis et Chloé nº 2, executada pela Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) em concerto realizado sob a regência de Isaac Karabtchevsky, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, através do projeto Aquarius. Foi televisionado em 03/12/1978 ou 03/01/1979. Acervo de Neusa França. Registro não-comercial realizado por seu marido Oswaldo França, a partir do áudio da televisão, em fita-rolo e digitalizada pelo Instituto Piano Brasileiro - IPB. Áudio disponível no canal do Youtube do instituto;

  • Duas primeiras faixas 'Arara' e 'Sinhá Tô', com participação de Vanderlei Pereira na Bateria. Fazem parte do disco instrumental de Rildo Hora, O Tocador de Realejo, lançado em 1987;

  • 7 primeiras faixas do primeiro disco do Tamba Trio, de 1962. São elas: Tamba (Luiz Eça), Batida Diferente (Durval Ferreira e Mauricio Heinhorn), Influência do Jazz (Carlos Lyra), Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim e Newton Mendonça), Alegria de Viver (Luiz Eça), O Barquinho (Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli) e Minha Saudade (João Donato);

  • Vanderlei Pereira Trio ao vivo no The Kennedy Center, tocando Garota de Ipanema com Cidinho Teixeira, no piano e Itaiguara Brandão, no Baixo Acústico; postagem no Youtube de 20/05/2011;

  • Mercado Modelo, O Que Ficou e Vision for Rhythm, também do disco 'Vanderlei and Blindfold Test'.



CONSIDERAÇÕES FINAIS:


Finalizamos esta rica entrevista muito felizes por termos completado mais uma missão em prol da memória da música em nosso município. É muito encorajador vermos figuras como Vanderlei Pereira, que foi em busca de seus sonhos e, mesmo diante de algumas dificuldades, nunca desistiu. Que sua história nos sirva de exemplo. Parabéns Vanderlei! Parabéns à toda essa família musical que enche de orgulho todos que vivem aqui nesta terra querida.


Voltamos em breve com mais um episódio de Histórias da Música em Macahé, com mais novidades pra vocês. Um grande abraço!!


FIM.

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