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  • HM Macahé

Vanderlei Pereira - entrevista exclusiva (1ª parte)


OUÇA O EPISÓDIO:




ENTREVISTA REALIZADA EM 16/03/2021.


Apresentação:


Ele vive em Nova York desde 1988 e é um dos músicos mais requisitados da cena jazzística brasileira contemporânea. Já acompanhou e gravou com inúmeros artistas nacionais e internacionais como Sivuca, Romero Lubambo, Airto Moreira e Flora Purim, Tito Puente, Toots Thielemans, Paul Winter e por aí vai. Nasceu em uma família musical em nossa querida Macaé-RJ e é o caçula de sete irmãos, dois dos quais também músicos profissionais: Dulcilando Pereira, o maestro Macaé (in memoriam) e Dirceu Pereira, o Ceceu. Aos oito anos ele aprendeu sozinho a tocar em uma bateria que construiu com latas de biscoitos. Mais tarde, estudou teoria musical e leitura à primeira vista na Sociedade Musical Nova Aurora e começou a tocar profissionalmente ainda adolescente. Além do domínio dos ritmos brasileiros, desenvolveu fortes traços pop/rock em bandas cover locais, mergulhando o tempo todo no jazz das coleções de discos dos irmãos. Mudou-se para o Rio ainda jovem, onde seguiu uma carreira multifacetada no jazz, na música popular e clássica, incluindo um estágio de seis anos em Performance com a renomada Orquesta Sinfônica Brasileira (OSB).


Teve perda total de sua visão poucos anos antes de se radicar na América. Enfrentou novos desafios e lutou por algum tempo para aceitar tal condição, mas se manteve firme em seu trabalho com a música e não deixou de realizar grandes sonhos que já sonhava desde muito tempo. Além de seu amplo trabalho como sideman, ele lidera o dinâmico sexteto de jazz brasileiro “Blindfold Test”, cujo repertório inclui suas composições originais e também obras de alguns dos maiores compositores contemporâneos do Brasil. Seu primeiro CD “Vision for Rhythm” foi lançado no dia 22 de maio de 2020 pelo selo Jazzheads. Vanderlei Pereira, seja bem-vindo ao Histórias da Música em Macahé...


Vanderlei: é com imenso prazer que estou aqui falando pra vocês diretamente de Nova York. Prazer imenso de estar aqui falando com meus caros amigos Francisco Carlos do Amaral, Magno Moreira e Ulysses Cabral. Prazer imenso poder reviver a minha vida musical em Macaé, na cidade onde eu tenho o maior orgulho, um grande orgulho de ser macaense. Estou aqui à disposição de contar fatos sobre a minha vida em Macaé. Eu quero esclarecer muito bem sobre essa entrevista é que simplesmente vou relatar a minha história. E eu quero que vocês tenham em consideração que eu não estou aqui pra falar bem de mim ou falar que sou isso ou sou aquilo, baseado num Vinícius de Moraes, porque: “o homem que é, não é. Porque quem é mesmo, não diz. O homem que dá, não dá...” (risos). Então eu só estou contando a história. Eu quero que vocês entendam isso. Não estou aqui para me enaltecer, porque a música é uma coisa que quanto mais você pratica e estuda, quando você pensa que está sabendo, a música vai lá e “pumba”. Se lembra daquele metrônomo que mexe pra direita e pra esquerda “pen pen pen pen” ... está dizendo pra você: “não, não, não... então não estou aqui para me enaltecer, simplesmente contar história.


Magno: Ok, Vanderlei. Qual sua data de nascimento?


Vanderlei: eu nasci no dia 6 de novembro de 1954 na rua Antero Perlingeiro 456 e nasci em casa mesmo com a parteira. A mesma parteira que fez o nascimento da minha sobrinha, que nasceu 15 dias antes de mim. (Risos) Então eu nasci lá mesmo, em Macaé. E um fato interessante sobre esse nascimento que o meu irmão mais velho, vocês conhecem, o Dulcilando Pereira, o maestro Macaé, ele estava chegando do SENAI e viu que tinha um grupo de gente em frente à minha casa... aí ele entrou lá e viu mamãe segurando um nenênzinho. Aí ele: “ué, mamãe, como é que não percebi que você estava grávida? Não sabia que era você!” Mãe: “esse aqui é o seu irmãozinho que nasceu algumas horas atrás.” Dulcilando: “ah é, como é que é o nome dele? Mãe: “ah, não sei, a gente nem pensou!” Dulcilando: “então deixa eu sugerir, porque você não chama ele de Vanderlei? Vanderlei é um grande professor lá do SENAI. Vanderlei fotógrafo... ele é um cara muito legal, eu admiro muito!! Aí minha mãe gostou do nome Vanderlei e “pimba”, carimbou lá a certidão de nascimento.


Magno: você está se referindo ao Wanderlei Gil?


Vanderlei: Wanderlei (com W) Gil, exatamente... que teve um pai e filho com mesmo nome e eu sou Vanderlei homenageado a eles.


Magno: bonito demais! Eu queria lançar a primeira pergunta, diante desses fatos, que é o seguinte: o nome do seu pai é Licínio, né?


Vanderlei: Licínio Pereira...


Magno: eu sei que você tem dois Licínios na sua vida, eu gostaria que você falasse sobre os dois Licínios da sua vida...


Vanderlei: começando com o Licínio que me deu a vida, o meu pai. A profissão dele era bombeiro. Chamavam ele de Liciniozinho, mas ficava estranho. Então ele acabou sendo conhecido como Zinho bombeiro. Meu pai era um cara apaixonado pela música e ele nunca foi músico profissional, tinha a carreira de bombeiro. Mas ele sempre gostava de música... já nasci com disco do Pixinguinha em casa já. Já nasci sabendo “Carinhoso”, aquelas coisas todas. Porque o Benedicto Lacerda era macaense e tinha disco lá em casa. Me lembro de garotinho, sentado na praia escutando Carinhoso, escutando flauta, essas coisas todas. E o meu pai tocava o violão tenor, um violão de 4 cordas menor, entre o cavaquinho e o violão. Instrumento muito bonito, melódico, né. Ele só tocava como hobby mesmo.


Ulysses: e a sua paixão pela bateria começou em que época, mais ou menos?


Vanderlei: desde criança, vindo de uma família totalmente musical. Sou o caçula de 7 irmãos. Foram 3 mulheres e 3 rapazes: o Dulcilando, o Ceceu, o nome dele é Dirceu Pereira, e eu. Então a música já estava jorrando dentro de casa o tempo todo. E já já eu vi que eu tinha uma certa tendência rítmica, batendo na mesa e, as vezes, nas panelas da mamãe... aí todo mundo falou: “pô, esse moleque vai ser baterista. Toca o rádio eu já estava lá “páparapapá”... aí o Ceceu botava o rádio e “tá ouvindo aquele negócio lá?” Isso aí é a bateria... eu ficava ligado, arregalava os olhos. Eu não nasci cego, né... aí eu era um garoto muito levado e teve um belo dia, eu tinha uns 5 ou 6 anos de idade e tinha em Macaé um programa musical ao vivo, de platéia, chamado “Sabatina Alegre”, que se reunia aos sábados. Ou as vezes era no ginásio do Ypiranga ou era no Cine-Teatro Santa Isabel... e teve um dia que Ceceu decidiu me levar numa Sabatina Alegre que se realizou num palanque lá no Luiz Reid, perto da cantina. E foi a primeira vez que eu vi uma bateria montada e quem estava cantando lá era a irmã do Ademilde, Vavá... eu vi aquela bateria de verdade e Ceceu notou que eu fiquei quietinho olhando pro cara com os olhos arregalados. E quem tava tocando era o Licínio. Eu estava tentando saber o nome dele completo e ainda não fui bem sucedido. E o Licínio era o baterista com quem meus irmãos tocavam. Nessa época o Dulcilando não morava mais em Macaé, já estava fazendo sua vida no Rio de Janeiro. E o Ceceu falando: “olhe, o Licínio trabalha no SENAI. É um cara muito habilidoso com as mãos. Ele que construiu a madeira, as ferragens, mandou moldar os parafusos. Até as baquetas, ele construiu tudo.


Francarlos: é porque no SENAI poderia fazer isso tudo. Tinha ferramenta, tinha tudo pra isso.


Vanderlei: SENAI era uma escola nacional de serviço ...


Francarlos: Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Eu fiz SENAI.


Vanderlei: lá você tinha todas as carreiras, né. E outro fato interessante sobre mim, também, que desde criança, do jardim de infância, eu tinha um talento para o desenho. Engraçado! Tudo que precisa de visão, se refletia no meu cérebro. Então, ouvindo essa história sobre o Licínio, que eu estava lá com as duas mãos pra trás ouvindo ele tocar, depois ele pega uma vassourinha e “xiquexiquexique”... pegava uma baqueta de feltro e “burulum”... eu fiquei arrepiado. Parece que Deus me mandou aquele jato de luz. Eu me lembro claramente que chegou aquela mensagem: “caramba, acho que agora eu encontrei o que eu quero fazer pro resto da minha vida! Deus está mostrando o que eu quero fazer...” e foi lá no coração mesmo. Cheguei em casa, peguei um pedaço de papel e comecei a desenhar a bateria, e botei um cara sentado lá e escrevi no bumbo: LICINIO. Ele era o meu ídolo, então o que eu fiz fui lá no quintal, achei uma lata de biscoito Duchen, aquele biscoito quadrado. Meu pai era bombeiro, então tinha uns canos de cerâmica e botei aquilo em pé. Ficou no tamanho perfeito, a altura da caixa. O banquinho era um bujão de gás, com um pedacinho de madeira pra sentar. E o bumbo da bateria era um caixote de sabão...


Licínio Gomes Vieira, grande influenciador de Vanderlei. Liderava o Conjunto musical que levava o seu nome - Licínio e seu Conjunto - e, além de baterista, também era um grande desenhista. Segundo Sérgio Gomes, seu sobrinho, era Licínio que pintava os letreiros e cartazes dos filmes dos cinemas Santa Isabel e Taboada.

(Créditos de imagem: Sérgio Gomes Vieira. Anos 60)


Francarlos: era um caixote de sabão português.


Vanderlei: acho que era isso mesmo. Então eu fui lá colher um pedacinho de borracha, e aquilo já tinha um som grave, era o bumbo da bateria. Os pratos, num barzinho da esquina tinha a tampa de Coca-Cola, anunciava a Coca-Cola num negócio redondo, o fundo era vermelho e a Coca-Cola em branco. Aí um dia a placa estava quase caindo, com aquela ventania. Um dia ninguém tava olhando, subi no muro, segurei na placa, firme e pulei. Levei a placa pra casa. Cortei redondinho, fiz a cúpula do prato, o buraco. Mas e agora, como que ia montar o prato? Aí tinha um carrinho de mão, aquele tubo com uma curva, cortei e tal. Meu pai usando as ferramentas de bombeiro, preguei do lado do caixote e aquilo foi o prato da bateria. O pedal do bumbo eu copiei o do Licínio. Fui na sucata do meu pai e tinha uma alavanca de chuveiro Lorenzzeti, um pedaço de metal com uma bola na ponta. (Risos) e funcionou... então era caixa, bumbo e prato, o elemento rítmico da bateria. E com essa bateria consegui toda a coordenação pra tocar qualquer ritmo. E muito importante é que, nessa época, meio dos anos 60, já havia a explosão da Bossa-Nova e Elis Regina já era famosa com o Fino da Bossa, com o Jair Rodrigues. Ali eu já sabia fazer todos aqueles ritmos, ouvindo do rádio e da televisão. Foi uma explosão grande, né. Ali nessa bateria já tive toda a coordenação. E o fato engraçado é que eu tocava no quintal debaixo do pé de abacate. Teve uma vez que eu estava tocando e minha mãe chegou assim: “puxa, você tá tocando aí, nem tá vendo o abacate. Tô pegando abacate... vai tocando aí que enquanto você toca, Deus tá mandando comida lá de cima. Significa que não vai faltar comida pra você. Você vai tocando, vai ficando melhor e Deus vai te pagando”. (Risos)


Ulysses: então sua família sempre apoiou...


Vanderlei: a família sempre apoiou, sempre. Mas eu tocava no quintal, o engraçado era o seguinte: é que a vizinhança toda escutava a bateria. Eu morava na Antero Perlingeiro e lá atrás da minha rua, estava a rua de Santana com a rua J. Kopp. E o Marinho (Mário Bacalhau, Mário Pimentel da Cruz), que morava perto e que mais tarde vim a conhecer, ele disse que já escutava a bateria. E lá na outra rua, de longe, na rua Conde de Araruama, também a turma escutava de longe aquele ritmo. Aí a turma queria saber quem era esse garoto! Eu já tinha uns 8 pra 9, 10 anos. Por aí.


Teve uma caso, uma vez, que Ceceu já estava tocando no Conjunto de Pedro, Pedro e seu Conjunto. E os integrantes do Conjunto eram o Adaury Mendonça, de Órgão; Pedro, na Bateria; Ceceu, de Baixo-elétrico e as vezes, Guitarra; Robertinho, no Saxofone; o Nilson, que tocava Sax Barítono; e eles estavam ensaiando a música “Meu Limão, meu limoeiro”. Que a gente tinha disco do Wilson Simonal em casa. Naquela época, além da Bossa-Nova, foi o movimento da Jovem Guarda, de música Pop. A música pop estava invadindo, superando a música genuinamente brasileira, o Samba e a Bossa-nova. Aí, houve a necessidade de se criar um ritmo chamado “Pilantragem”. Você combinava a música Pop com a Bossa-nova, e um pouquinho de música latina. No Brasil estava havendo uma grande invasão de boleros e coisas vindo dos países latinos.


Ulysses: tinha um pouquinho de Soul, também, né?


Vanderlei: Soul, não. Na Pilantragem teve um toque do Pop. Pop era iêiêiê mesmo. Jovem guarda, entendeu? O Soul foi chegando um pouco mais tarde, no final dos anos 60. Aliás, é bom mencionar, um dos grandes benefícios teve com a ditadura foi o seguinte: estava havendo uma lavagem cerebral e o governo brasileiro decidiu abrir as portas para as músicas internacionais. E com isso, nós brasileiros ficamos mais versáteis a tocar qualquer ritmo, né. Magno, por que você está tocando agora Heavy Metal, tudo isso... veio da ditadura. Talvez a única coisa boa, mas foi uma lavagem cerebral. A minha geração não foi bem escolhida em comparação aos meus irmãos. A escolas deles eram muito mais fortes e instruídas. Por isso que brasileiro toca qualquer coisa muito bem. Começou por causa da ditadura. Então, voltando pro ensaio... eles estavam ensaiando “Meu limão, meu limoeiro”, e os músicos estavam perdendo a paciência com o Pedro. Tadinho, ele usava o pé esquerdo no bumbo, porque o pé direito era aleijado, usava muleta. Ele não conseguiu entender a Pilantragem. Aí, o Mendonça e o Robertinho: “poxa, Pedro, estamos a 1 hora pra ensaiar essa música” ... e eu estava lá quietinho assistindo no cantinho... “aposto que Vanderlei toca. Vanderlei, vem aqui...” foi a primeira vez que sentei numa bateria profissional. Sentei lá, peguei a baqueta do cara e “tumtitácumtum...”. E todo mundo olhando pra mim e “não é que ele sabe mesmo!” Todo mundo sorrindo, olhando pra mim. E eu feliz da vida!


Ulysses: isso com 8, 9 anos?


Vanderlei: mais ou menos. Mas aí, voltando a minha bateria de quintal, eu estudava no Matias Neto, eu era aluno. E tinha um grupo, conheci uns garotos ali. Aliás hoje eu falei com um deles. Daí começamos a ensaiar. Um cara tocava guitarra, o nome dele era José Honório de Almeida, morava ali na rua Conde de Araruama 520 (me deu o endereço hoje). Risos... e tinha uma varanda na casa dele e parecia um palco. Então o Zé Honório tocava guitarra – o pai dele era jornalista - comprou uma guitarra elétrica com um aparelho pequenininho, e o baixista era Hudson Siqueira, filho do dentista, irmão do Valtinho Siqueira, que era violonista. E o Guitarra de ritmo era César Gonçalves Costa, da família que tinha a mercearia Costa. Então a gente tinha um quarteto ali e o nome desse grupo era “The Rebels”, Os Rebeldes. E nesse grupo eu toquei com essa bateria do quintal... e quem era a audiência? Eram os alunos que estudavam no Matias Neto. Tinha as meninas vizinhas que ficavam olhando. Tinha uma que o nome dela era Sheila, e a gente tocava: “Sheilaaa, gata selvagem. Gatinha louca... (Risos) e ali a gente já tocava o repertório de “Renato e seus Blue Caps”, The Fevers... os Beatles já tinham atacado naquela época, estavam no auge, né. Esse foi meu primeiro grupo, tocando com minha bateria feita de sucata, no quintal. Teve uma festa de aniversário na casa do Hudson, que morava na rua Marechal Deodoro, entre a Rui Barbosa e a Rua da Praia...


Francarlos: o Hudson fazia Hi-fi na casa dele... conta pra gente qual foi a sua história com a Nova Aurora, a Lira, com o pessoal de Banda?


Vanderlei: eu já tinha uns 11 anos de idade e o presidente da Nova Aurora, naquela época, era o seu José Rocha. Ele era um ex-militar, tinha vários filhos homens. Aí foi a fundação do Conjunto “The Starshine”. Essa rapaziada, de tanto me ouvir a bateria lá do outro quarteirão, me levaram pra Nova Aurora. E o maestro, naquela ocasião, era o Jodyr Souto Correa. Mas o Jodyr – de novo aquela coisa da Jovem Guarda - tinha escrito arranjos de músicas de Roberto Carlos para a Nova Aurora tocar. Então aquela: “quando você se separou de mim...” ele escreveu tudo isso pra Nova Aurora, mas era Banda, caixa, outro no bumbo, outro no prato. E na hora que tinha que tocar a música eles penduravam o prato numa estante de música, eu botava a caixa numa cadeira. Eu só tocava a caixa e o prato. E o cara que tocava bumbo fazia “pum-pumpumpum-pumpum”... essa foi minha primeira entrada de Nova Aurora. Tocava os dobrados tudo de ouvido. Quando desfilava na parada, eu tocava caixa, tinha o cara que tocava o prato de choque, o cara que tocava o bumbo, e o surdista. Toda a percussão da Nova Aurora era isso. Não tinha pandeiro, não tinha nada do que vocês veem hoje em dia.


Jodyr Souto Corrêa, flautista e saxofonista, foi maestro da Nova Aurora nos anos 60 quando Vanderlei iniciou seus estudos na Banda.

(Créditos de imagem: arquivo pessoal de Jussara Aguiar; Montagem: Magno)


Magno: é o naipe de percussão e a caixa é a caixa clara que fala...


Vanderlei: era assim que eu tocava os dobrados, todo o material. Músicas juninas... A Nova Aurora, hoje em dia, tem um arquivo de partituras inacreditável, muito bom. Eu fui pra lá em 3 fases. Essa foi a primeira fase. Depois mudou a diretoria, seu Rocha não estava mais lá. Me afastei da Nova Aurora, não me lembro a razão, mas claro que eu voltei. Depois disso, seu Rocha decidiu criar o Conjunto The Starshine. Aí eu já tinha uns 13, 14 anos e me chamaram de novo para ser o baterista. Bom, o papo é Nova Aurora, né... aí eu já estava com uns 14 anos e falei: “caramba, parece que agora eu vou ser baterista de verdade mesmo, não é mais lata. (Risos) The Rebels já acabou, com Zé Honório.” Porque em 1968, o Zé foi quando ele saiu e foi pra Niterói. Com o militarismo, a família dele o aconselhou a seguir carreira militar e ele seguiu nessa daí... Aí eu já estava tocando bateria e falei: “caramba, acho que devo voltar pra Nova Aurora porque agora vou aprender música mesmo, ler música direito...” Voltei lá, seguindo os passos e compassos de meus irmãos mais velhos. Quando voltei pra Nova Aurora, falei: “poxa, eu quero aprender música, porque meu irmão Dulcilando disse que baterista não é músico. Pra ser músico tem que saber ler música, saber harmonia, melodia. Se você não sabe música você não é músico. Recebi essa bronca, foi uma das primeiras broncas positivas. Quando cheguei lá, o professor de música – era as segundas e quintas-feiras – era o Tinho. “Ok, Tinho, vim aprender música.” Tinho: “você é irmão do Dulcilando e do Ceceu? Então você tem veia na música, vai aprender rápido...” me mostrou umas notas na pauta, aprendi a marcar compasso e a ler ritmo muito bem. Divisão de colcheia, semicolcheia, fusa e semifusa ... fui estudando, aprendendo e dei uma outra parada, estava tocando em baile. Não sei o que aconteceu, houve um intervalo ali, mas eu já sabia música. Daí encontrei com o Tinho de novo e o caso interessante é que esse Tinho era da Lira dos Conspiradores, mas ele estava insatisfeito com a Lira e correu pra Nova Aurora. Quando eu voltei de novo, o Tinho já tinha feito as pazes com a Lira, já tinha voltado pra Lira e o novo professor era o Jodyr Souto Correa, que também tinha voltado pra Nova Aurora. (Risos)


Francarlos: é que Jodyr era oriundo da Lira...


Vanderlei: isso eu não sabia. Ele tinha um grande talento como desenhista, cartunista, né.


Magno: engraçado, a gente conversou mais cedo, eu e Vanderlei, e ele comentou sobre o maestro Tinho, e eu achava que existia um e ele acabou me falando de outro.


Vanderlei: tinham dois Tinho. Tinha um que era irmão do Pedro Muleta, que era o Tinho que passou a ser maestro da Nova Aurora.


Benedito Passos, o maestro Tinho, foi um importante maestro que regeu a banda da Nova Aurora nos anos 70.

(Créditos de imagem: SMNA. Desfile na Avenida Rui Barbosa, também conhecida como Rua Direita)


Magno: aí você me falou que tinha o Tinho bom e o Tinho Ruim (Risos)...


Vanderlei: o nome do Tinho que me deu aula na Nova Aurora é Everton Pereira Gomes, que morava na Júlio Olivier em frente à casa do Dervam. Ele também era um militar... então por que existiam dois Tinhos? Um, não sei qual era a razão, era o Tinho bom e o Tinho ruim (risos)


Francarlos: o Tinho "ruim" era o irmão de Pedro...


Vanderlei: ele era mais exigente. Se o cara era militar ele tinha que ser exigente. Ele escrevia umas coisas cabeludas. Ele me testou, assim, de tudo. Eu chegava lá impecável. Estudava as aulas, né. Depois teve uma terceira volta que eu vi que o Dulcilando falou: “mas você está cantando dó dó dó ré... você tem que cantar na altura. Isso é chamado solfejo.” Cheguei na Nova Aurora, o Jodyr, professor. Cheguei lá falei: “Jodyr, Dulcilando disse que eu tenho que aprender a cantar na altura.” Ele falou: ‘entra aqui que eu te ensino. Só tem uma pessoa que faz isso aqui, o Carlos Moura.” Mais tarde a gente tocou junto no L-Bossa. Era o trombonista. Ali eu conheci Carlinhos estudando com Jodyr. Aí comecei a tocar, né. Adorei a história do solfejo. Em duas aulas fui pra casa e comecei a transcrever um solo de trompete que escutava no disco. Já sabia o ritmo, que aprendi com o Everton. Dali aguçou o meu ouvido. E como eu já estava fazendo isso (eu já estava com 16 anos) o Jodyr falou: “escuta, a gente está precisando de caixista. Já que você sabe ler música, precisamos de percussionista que leia música. Isso aqui é raro.” Fui lá e comecei a tocar. E a vantagem é que, se você prestar música na Nova Aurora, eu poderia estudar nos colégios ... pra você estudar no Luiz Reid de graça, se você toca na banda do Luiz Reid, você já pode estudar de graça. Eu também toquei na Banda do Luiz Reid, Banda Marcial. Toquei um pouco na Banda do Matias Neto, quando era bem jovem. Fui pro Colégio prof. Antônio Caetano Dias, estudei a noite porque trabalhava durante o dia. E vi logo que não queria ser músico. Fui estudar pra ser contador e trabalhava durante o dia como assistente de mecânico da Mercedes Benz. Porque o trompetista da Nova Aurora eu soube que ele faleceu recentemente, o Lalá. Ele era trompetista, mas durante o dia ele era mecânico. Ele precisava de um ajudante, então eu ajudava a montar todos os motores, limpar... e depois estudava de noite. E depois dos estudos que eu ia ensaiar com os grupos, tipo onze horas da noite, uma da manhã. Então eu trabalhava, estudava e tocava nos Conjuntos nos finais de semana. E também estudava e tocava na Nova Aurora. Mas no Luiz Reid eu falei: “eu já toco na Nova Aurora.” Então você está isento, porque você já toca, presta serviço pra cidade. Mas eu posso tocar nas duas bandas, pois a Nova Aurora desfilava primeiro e dali eu trocava de roupa e ia tocar na Banda Marcial do Luiz Reid. (Risos) E dali veio a minha técnica de tocar caixa e tudo isso foi ajudando.


Ulysses: e tudo isso soma na sua atividade hoje em dia, também ...


Vanderlei: soma. Aí teve um problema, o Jodyr saiu da Nova Aurora e entrou o Tinho, o maestro irmão do Pedro (muleta). E o Tinho tinha fascinação por música sinfônica, música erudita. Ele ia pra São Paulo e conseguia partituras, adaptações de qualquer concerto de Tchaikovsky. Me lembro que toquei “1812”; tocava La Gazza Ladra; toquei Tannhäuser, de Wagner. Tudo na Nova Aurora eles conseguiam partitura. E também tinha uma farmácia do lado da Nova Aurora, a Farmácia Caetano. O dono, Edmundo Caetano, era apaixonado pela Nova Aurora, gostava de música clássica. Então ele passou a ser o presidente da Nova Aurora. Ajudou muito a Nova Aurora, mandava instrumento pra consertar. Precisa de uma caixa, não esperava a prefeitura não. A prefeitura ajuda, mas demora muito. Então o Edmundo investiu com dinheiro, com tudo. E comprou muito instrumento, partitura, cuidava dos arquivos que ele conseguia.


Francarlos: o Edmundo foi patrono da Nova Aurora. Ele comprava muito instrumento na Casa Clarim, no Rio.


Vanderlei: as vezes ia pra São Paulo junto com Tinho. E falava pra todos os músicos: “quem precisar de remédio, qualquer coisa, vai lá.” Ele foi assim, um cara... ele deveria ter um quadro lá na Nova Aurora. Não sei se ele ainda está vivo.


Francarlos: eu conheço os filhos dele, o Gardel, o Cliton, a família toda.


Vanderlei: fala com a família, faz um apanhado, as fotografias. Aquele cara foi uma pessoa com o coração grande. Então, as pessoas chegavam lá e se eram músicos da Nova Aurora, ele tratava todo mundo com o maior carinho. Por causa do Tinho, a Nova Aurora participou de muitos concursos de Bandas, internacionais, tirando em segundo lugar. Eu toquei na Globo com um uniforme da Nova Aurora, tocando Tímpano, prato, sabe... naquela época eu já estava investindo em Orquestra Sinfônica. Aprendi ler música bem na NA. Só fui saber que era bem anos depois.



Quadro de Edmundo Caetano, farmacêutico e amante da música. Foi sócio honorário, diretor de patrimônio e presidente da S.M. Nova Aurora nas décadas de 60/70.

(Créditos de imagem: S.M. Nova Aurora)


Magno: essa experiência com a Nova Aurora foi interessante pra você, pra sua bagagem teórica, mas eu lembrei agora do seguinte: nós fizemos um episódio sobre o professor João Salgado, que formou muitos músicos. Você fez aula com ele, não é isso?


Vanderlei: durante minha convivência em Macaé, eu estava cursando 3 universidades, paralelamente: uma foi em casa, com a família Pereira; a outra foi com a Nova Aurora e a outra foi tocar em Conjuntos de baile. Bom, quando eu estava na Nova Aurora em minha terceira fase, mais sério, eu estava estudando pra Contador, e descobri que essa carreira não estava em meu coração. E decidi que teria que enfrentar a música sério mesmo. Que tal se eu tocasse música clássica. Esse era o pensamento, porque o músico clássico bota o smoke, só toca em teatro municipal, sala Cecília Meirelles... Então aquela música é o ponto mais alto de vida. Que eu sabia que eu não seria músico de baile a minha vida inteira. Foi bom pra mim, cresci pra caramba. Mas aí, teve um amigo meu, o Paulinho, Paulo José de Souza Lima, irmão do Piry, ele tocava flauta na Nova Aurora também e era meu amigo de infância. A gente era da mesma classe no Matias Neto. E ele: “Vanderlei, esse negócio de ler música é importante mas, bicho, tem que saber teoria musical. Você toca, tem o entendimento geral. Eu tô estudando com João Salgado Chagas. Paulinho fez minha cabeça mais uma vez. Ele fez minha cabeça pra várias coisas. É uma outra universidade também: o Paulinho e o Piry Reis. Acrescentou muito o meu convívio com eles. Aí eu fui falar com seu Salgado: “seu Salgado, vim aqui estudar teoria. Sei que você dá aulas de violão, mas violão é importante, né. Eu tenho violão e posso usá-lo pra poder entender. Não quero ser violonista, mas quero aprender teoria... “No ato ele pediu pra comprar o livro de Maria Luiza de Mattos Priolli. O nome era “ABC da Teoria Musical”. Comecei a ler aquele livro e amei. Era tão claro, tão óbvio o entendimento. Olha que eu já conhecia música, mas entender o que era intervalo diatônico, intervalo cromático e compassos, tempo, subdivisões, voz na harmonia, sustenidos e bemóis... comecei a entender a teoria dos acordes. Foi assim, maravilhoso! Aquele livro volume 1 eu acho que “comi” em 2 meses. (Risos) era pra eu ter aula semanal com seu Salgado, acabei indo duas vezes na semana. Aí, quando chegou no volume 2, foi abrindo um outro nível. E pensei que músico não é músico se não souber teoria. E tudo baseado em teoria clássica, teoria geral que serve pra tudo. Você é baterista, então qual as notas que compõem o acorde de Sol menor? Magno, responde aí...


Magno: sol, sib, ré e lá ... e fá (risos) lá é a nona, deixa o fá. (Risos)


Ulysses: você toca outros instrumentos?


Vanderlei: tocar, não. Os outros instrumentos que eu toco ajudam você a ser músico. Isso foi uma outra fase que Dulcilando falou: “ok, então você já sabe ler música, tocar bateria. Mas você ainda não é músico pois você não sabe de harmonia. Se cola com Ceceu que ele tem um ouvido assim... o cara consegue tocar música que ele nunca ouviu, consegue descobrir os acordes. Se cola nele, vai aprendendo um violão.” Porque família pobre, né. Violão é um instrumento brasileiro que todo mundo pode comprar. Piano é só pra quem é rico, basicamente, naquela época. Tudo que Dulcilando falou pra mim, eu falei com Ceceu. Mas com Ceceu a coisa vai lá atrás. Ele estava dando aula para minha irmã, Dulcélia. E Ceceu explicava, eu era jovenzinho e perguntava se podia pegar o violão e Ceceu: Não! Eu ficava assistindo ele ensinando à minha irmã. Quando ele acabava de dar aula, eu corria lá na casa de meu amigo, um dos Rebels e pegava o violão dele e praticava. Um belo dia cheguei em casa, levei o violão do Zé pra casa, e comecei a tocar pro Ceceu e pra Célia tudo o que ele estava ensinando. Ceceu: ué, como que você aprendeu isso? Eu falei: ué, eu estava vendo você ensinando à Célia e fui aprendendo. Você me proibiu de botar a mão no violão, senão eu ia quebrar. O violão do meu amigo eu não quebro, porque iria quebrar o teu?” (Risos)


Ulysses: O que eu estou notando, assim, a sua história, o tempo todo, você ficou cercado de professores. Professores dentro de casa, professores na banda, na vida, tudo em torno de você...


Vanderlei: “é impossível ser feliz sozinho”. Aí pronto, já era permitido a tocar violão. Comecei a tocar e a minha irmã Lúcia adorava cantar. Ela tem um ouvido e um gosto musical da boa música brasileira, né.


Francarlos: Lúcia é fantástica!!


Vanderlei: ... a música do Milton Nascimento, ela botava o disco e eu tinha que acompanhar a Lúcia. Aquilo foi bom pra caramba. E eu não estava sabendo. Ah, tem que aprender harmonia! E já sabia a explicação teórica do João Salgado todinha: construção de acordes, de escalas, sabia analisar tudo já. E pra acompanhar a Lúcia fui desenvolvendo. E o Ceceu tocava no Conjunto de Pedro na boate do Ypiranga. Eu queria entrar no clube e não podia porque tava duro, né. Tocando Rock’n Roll naquela época. E Ceceu me colocava lá. Eu estava numa idade que não dava pra tocar na boate, que começava onze horas da noite. Aí Ceceu me chamou pra tocar contra-baixo, ele já tinha me ensinado em casa. Mas eu não conhecia as músicas e Ceceu foi tocar guitarra e me disse pra acompanhar as notas. Comecei a tocar no Conjunto de Pedro. Pedro na bateria e o Mendonça no órgão, Robertinho... O Ceceu tocando “Amazonas” e eu já tava tocando baixo-elétrico. E a polícia entrou lá e viu aquele cara “de menor” no clube. Daí, Ceceu foi lá conversar: “não, esse cara é meu irmão. Ele não vai sair do palco, ele não vai beber, não vai fazer nada.” E a polícia: “tudo bem, tudo bem, faz de conta que eu não vi”. (Risos)

E nessa história lá, teve um dia que falei com Ceceu que eu queria dar canja de bateria. É minha experiência... Daí o Pedro: “o que? Vem aqui, vem aqui tocar. Aí Ceceu voltava pro Baixo. Até um dia que eu estava tocando e o Pedro saiu, acho que tinha arrumado uma namorada. Sumiu! Eu toquei mais da metade da boate inteira lá. Chegou no final o Adaury Mendonça: “mas isso é um absurdo. Pedro deixou o garoto tocar. Bom, você vai receber o dinheiro hoje a noite.” Quando o Pedro voltou: “mas já acabou? Adaury: “é o seguinte, Vanderlei hoje tem que ser pago, ele tocou...” e foi assim, eu aprendi a tocar violão e um pouco de Baixo-elétrico. E o piano veio depois, porque eu queria tocar música sinfônica e tem que saber Xilofone, Vibrafone, essas coisas todas.


Os irmãos Pereira em ação. Da esq./dir.: Vanderlei, Dulcilando (in memoriam) e Ceceu tocando no famoso Chaplin's Bar, em Macaé, no ano de 1988.

(Foto: site vanderleipereira.com)


Francarlos: Lelei, vamos lá. Tem uma coisa muito interessante, você deu outra deixa aí: xilofone e vibrafone. Nós tocamos juntos e você tocou vibrafone, lembra disso?


Vanderlei: vibrafone, não. Eu toquei um negócio parecido, da família dos barrafônicos. Quer dizer: notas que saem de barras. A superfície pode ser de madeira ou metálica.


Francarlos: e nós fizemos um som nessa época, eu, você, Mazinho e Edalmo.


Vanderlei: eu tinha um bells em casa, um instrumento de percussão que parece Xilofone mas não é porque a barra é de metal. Eu estava realmente engajado em aprender música, em querer ser percussionista clássico. Daí eu tinha um bells em casa e nem me lembro como foi parar na minha mão. Bicho, não me lembro. Que coisa!!



É, amigos! O que estão achando desta entrevista com o nosso querido Vanderlei Pereira? Eu gostei muito quando ele falou de suas 3 universidades, que influenciaram a sua formação musical: a sua família, a Nova Aurora e os Conjuntos de Baile. Bacana, não é mesmo? São fatos e curiosidades que você só encontra aqui no Histórias da Música em Macahé. Voltaremos em breve com a segunda e última parte desta entrevista, onde vamos saber como Vanderlei decidiu seguir profissionalmente sua carreira de músico, do momento em que ingressa na Orquestra Sinfônica Brasileira até sua viagem definitiva para a América. Um grande abraço!!


FIM DA 1ª PARTE.

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