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  • HM Macahé

Episódio 17 - O Conjunto THE RELLS

Atualizado: 24 de jun. de 2021



OUÇA O EPISÓDIO:




INTRODUÇÃO:


Os grupos musicais, dependendo de sua formação e do contexto em que atuam, recebem nomes específicos. É comum falarmos hoje em dia BANDA para dar nome à vários desses grupos, mas algumas décadas atrás essas bandas eram chamadas, no Brasil, de CONJUNTOS. Mas esses grupos se encaixam melhor no contexto de "BANDAS MUSICAIS", pois existem também as "BANDAS DE MÚSICA", que são casos diferentes. Bandas de música e bandas musicais não são a mesma coisa? Pensando bem, não! Bandas de música normalmente são aquelas com um número maior de músicos, que tocam instrumentos de sopro e percussão. Como exemplo temos as Bandas Marciais e as Bandas Sinfônicas. Estas últimas normalmente fazem parte das Sociedades Musicais Centenárias. Em Macaé temos duas: a S.M. Nova Aurora e a S.M.B. Lyra dos Conspiradores.


É bem interessante observar como, ao longo da história, grupos musicais com reduzido número de integrantes surgem em contraponto às grandes orquestras. Instrumentos de orquestra como o Piano, Contra-Baixo acústico, Flauta Transversal, Clarinete, Violino e Trompete, por exemplo, saem desse plano da música erudita e começam a se popularizar, se integrando à outros instrumentos já populares como o Violão e Cavaquinho. constituindo grupos de variados formatos. Sem contar os instrumentos de percussão que possibilitaram a invenção da Bateria. No Brasil da segunda metade do século XIX, já se formavam os primeiros grupos de Choro, com Violão, Cavaquinho e Flauta transversal (não existia o pandeiro, como algumas fontes inventam por aí). No século XX as bandas musicais, num formato parecido com o que conhecemos hoje, já começavam a se constituir a partir da formação de trios de Jazz, com o uso da Bateria, Piano e Contra-Baixo acústico. No Brasil dos anos 30, um grupo chamado Trio Carioca era composto por Luciano Perrone, na Bateria, o maestro Radamés Gnattali, no Piano e Luiz Americano, no Clarinete. Na década de 40, ainda com Radamés, no piano, Perrone na bateria e Pedro Vidal no Baixo, o 'Quarteto Continental' já usava uma Guitarra Elétrica, tocada pelas mãos de Zé Menezes. Esse quarteto é considerado um marco na música popular brasileira por ser um dos primeiros grupos instrumentais de pequena formação que passou a tocar música popular com arranjos previamente estabelecidos, o que era comum apenas para orquestras e bandas.


Além dos trios e quartetos musicais, há também os duos, quintetos, sextetos e as BIG BANDS. Estas últimas com um número maior de músicos porém não comparadas às Bandas de música e Orquestras. E com o tempo surgem os instrumentos de corda elétricos, como a Guitarra elétrica e o Baixo elétrico. E também os Teclados Sintetizadores. Com esses novos recursos tecnológicos, as bandas foram tomando novos formatos. Surge o Rock'n Roll à partir dos anos de 1950, que penetra mais fortemente no Brasil através da instauração do regime militar de 64, abrindo o mercado fonográfico, principalmente norte-americano, para o Brasil. Desta forma, 0 Estado Brasileiro é 0 realizador, mais uma vez, de uma espécie de modernização conservadora, fornecendo toda a infraestrutura necessária à implantação da indústria cultural no país em nome da segurança nacional.


É neste cenário que, na Macaé dos anos 60, surgem diversos Conjuntos Musicais. Mas vale lembrar que nem sempre estes grupos se deixavam influenciar pela música estrangeira, apesar disso tudo ter sido um prato cheio para os músicos enriquecerem ainda mais o seu vocabulário musical. Dentre esses Conjuntos, um merece destaque, pelo seu nível de organização profissional. Eles até possuíam um Microônibus para realizarem suas viagens pelo Estado do Rio. Estamos falando do Conjunto 'THE RELLS'.


O CONJUNTO


"1965 - Com o surgimento na época de vários grupos musicais em Macaé-RJ, entre os quais o saudoso L-BOSSA que, por sua vez, mantinha a linha de músicas românticas, um grupo de jovens resolveu formar um conjunto musical de músicas jovens. Daí, Paulo Roberto Neves da Cunha, Ricardo Ramos e Ércio Saião convidaram Everaldo para organizar e empresariar o grupo que tencionavam formar..." (trecho do release do Conjunto The Rells, escrito em 1984)


Everaldo: o que influenciou o The Rells foi Roberto Carlos. Eu, Zuca (Ricardo Ramos), Paulo Roberto Neves da Cunha e Luiz Fernando, nós nos reunimos todo final de semana pra assistir o 'Jovem Guarda' que tinha Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Rita Lee, Vanderléia... e dali nós fomos conversando, lá no Luiz Reid, naquele murinho. A gente sentava lá a noite e ficava batendo papo até tarde. Zuca gostava de tocar violão. Aí chegou Ércio, que gostava de tocar bateria. E daí nós pensamos em formar uma banda. Vamos formar uma banda, pra a gente fazer um barulho, fazer uma brincadeira? Aí foi que nós conseguimos formar o The Rells, que no início nem tinha, nada. Só formamos. Juntou Paulinho, que gostava muito de cantar músicas de Roberto Carlos e logo depois ele veio a falecer. Aí ele nem fez parte da banda. E Zuca, Luís Fernando, Ércio, aí nós começamos a tocar ali mesmo. a fazer um violão, Zuca com violão... e vamos ver o contrabaixo... veio o contra-baixo. Aí foi aumentando. Vamos fazer a banda, vamos formar banda. Daí formamos a banda. Aí eles falaram: aí eles falaram: "olha, Everaldo, você vai ser nosso empresário". Tudo de brincadeira, né! Então tá. vamos sim, vamos tocar pra frente. Aí fomos, o negócio foi crescendo. Eu comecei a ir lá para o rio, lá para a Casa Clarim comprar os instrumentos. Comprava uma coisa, comprava outra. Tudo com muito sacrifício. Naquela época não existia ajuda de ninguém. Tudo era com nossos meios. Nós continuamos, fomos tocando, comprando aparelho, comprando microfone... e formamos a banda. Aí começamos a tocar no Americano (F.C.), no Atlético. Era difícil até da gente entrar no Ypiranga, Tênis, Fluminense nem se falava. Aí começamos no Americano, no Atlético, no Rodo...


Primeira formação do Conjunto The Rells: Ércio Saião, bateria; Ricardo Ramos "Zuca", Guitarra; Luiz Fernando, Guitarra e Luiz Alberto "Pardal", baixo-elétrico.

Ano: 1965



Magno: tinha o Rodo Futebol Clube também, né?


Everaldo: tinha o Rodo. Aí a gente começava a tocar lá, fomos tocando, tocando e aumentando. O público gostando. Até que firmamos contrato com o Fluminense, com a 'Domingueira'. Depois com o Ypiranga também, com a 'Domingueira'. E fomos levando pra frente. Até que chegou numa determinada época que formou o 'The Thanderes'. Apareceu um pessoal lá do Rio que tinha uma banda com esse nome. Vieram reclamar que a banda deles estava registrada. A nossa não tinha registro, aqui não tinha nada mesmo. Aí nós tiramos o nome The Thanderes e colocamos The Rells. Vamos escolher outro nome. Aí foi que surgiu a idéia de colocar as iniciais dos componentes da banda: R de Ricardo, E de Everaldo, um L de Luiz Alberto, outro L de Luiz Fernando e S de Saião. Aí ficou RELLS. E começamos a 'mandar brasa', trabalhar muito com muito sacrifício. Daí a pouco, o The Rells já estava numa situação que fazia bailes no Ypiranga. Fizemos muito baile no Ypiranga pra ajudar o Ypiranga a pagar a luz. Que cortava a luz do Ypiranga. Aí eles pediam o The Rells pra fazer um baile para angariar fundos, pra pagar a luz e o clube não ficar sem luz.


Magno: isso anos 60, ainda?


Everaldo: isso, mais ou menos: 60, 70... na década de 70.


Magno: você comentou do... foi no Luiz Reid que o pessoal começou a se encontrar. Vocês estudavam lá, a maioria ou alguns de vocês?


Everaldo: não! Todo mundo estudava no Luiz Reid. Só que a gente se encontrava era a noite. Tinha um murinho baixinho ali na frente e a gente ficava ali batendo um papo. Naquela época era tudo... não tinha problema nenhum. Na frente tinha uma igrejinha, a gente ia pra lá pra paquerar as meninas da igreja. Aquela coisa de jovem.


Colégio Estadual Luiz Reid nos anos 60.

(Fonte: Jornal da Cidade - acervo Museu Solar dos Mellos)


Magno: nessa época falava muito em 'Conjuntos', né. Hoje em dia as pessoas falam muito de 'Bandas', mas o termo Banda remete à grupos específicos, com formações específicas. Até andei fazendo umas pesquisas sobre isso. Tem, por exemplo, as Bandas Marciais, Bandas Sinfônicas, como essas Bandas Centenárias aqui. Temos o caso da Nova Aurora, por exemplo. Por quê que se usava, antigamente, esse termo 'Conjunto'? Tinha um porque de falar de 'Conjunto'?


Everaldo: é... porque naquela época, já existia o 'The Fevers'. Era o Conjunto The Fevers, Conjunto Lafayette. Era tudo Conjunto. Não existia Banda. E aí era o que a gente usava... depois, com as mudanças, as coisas vão evoluindo, foi se transformando em banda. Assim mesmo, o The Rells, a gente falava banda mas nos contratos era Conjunto The Rells. E outra coisa que eu queria esclarecer pra você é que, eu toquei (falei) aqui em The Fevers. O The Fevers, na época, um dos melhores conjuntos que existia aqui na nossa área aqui, né. Nós fomos batizados pelos The Fevers, lá em Rio das Ostras. Um baile lá em RO, The Fevers foi fazer o show e o The Rells foi fazer aquela introdução... e o The Fevers já veio com esse propósito de fazer o batismo do Conjunto The Rells. E também, aproveitando, o The Rells, no ginásio do Ypiranga, nós fizemos muitas apresentações no ginásio com Roberto Carlos, Alcione, Gonzaguinha, Martinho da Vila, Baby Consuelo, Pholhas... todos esses artistas vinham fazer show...

Capa do primeiro compacto simples do Conjunto The Fevers, gravado no mesmo ano em que o grupo se formou, em 1965.


Geraldo: Chacrinha...


Magno: a gente vai falar sobre isso. Calma! (Risos)


Everaldo: vinha fazer shows aqui em Macaé, que o Ypiranga contratava, aí o The Rells era o que fazia a abertura do show...


Geraldo: e acompanhava os calouros...


Everaldo: e ainda dava uma "colher" pra banda que os artistas traziam.


"Em 1967 as coisas foram melhorando, pois o Conjunto The Rells continuava mantendo sua linha de organização e disciplina, procurando sempre oferecer o que havia de melhor para o público macaense e das cidades vizinhas, se atualizando tanto na parte de repertório quanto na parte de equipamentos..." (trecho do release)

Magno: vocês além de tocar, produziam eventos também, ou não?


Everaldo: não. Era só contrato. Só fazia contrato de baile. Nem show. A gente não fazia show, era só baile. 5 horas de baile...


Magno: era contratação normal, chamavam vocês, vocês iam ...


Everaldo: chamavam, assinava o contrato, a gente fazia o baile, tocava o baile, de onze às 04 da manhã. Não tinha chegado ainda a essa posição.


Magno: na época tinha outros conjuntos na cidade, né. O The Fevers era da onde?


Everaldo: The Fevers era do Rio...


Geraldo: do Rio: Lafayette, Joni Maza, Cry Babies, de Niterói. Bossa 4, de Teresópolis. Ed Lincoln.


Magno: em Macaé, nessa época também, na déc. de 60...


Everaldo: Macaé tinha o L-Bossa, tinha... (risos de Geraldo)


Geraldo: tinha os Capeta da Bossa também. (Risos)


Everaldo: tinha Pedro e seu Conjunto...


Magno: ahh, foi o nome que o Escovão deu, não é?


Everaldo e Geraldo: Escovão, isso!


Everaldo: Escovão foi motorista de Claudio Moacyr e foi o Conjunto de Pedro que gravou com a minha irmã o hino de Macaé.


Geraldo: foi o 'Los Românticos' também...


Magno: foi quando Macaé completou 150 anos? Porque Macaé virou Vila em 1813. Mais 150 anos vai dar 1963, faz as contas... foi neste ano que o Tonito e o Lucas Vieira compuseram o hino de fato, né.


Everaldo: a minha irmã gravou não foi o hino de Macaé, foi um hino sobre os 'Cavaleiros' (praia). Falava: "Cidade linda és tu, Macaé de encantos mil...". Muito bonito! Eu vou te dar a gravação.


Magno: é uma letra anterior `a essa letra que a gente conhece do hino de Macaé, ou não?


Everaldo: não, eu acho que é depois. Porque esse aí o compositor desse disco que a minha irmã gravou, Silvinha, o compositor foi... não me recordo.


Magno: foi o Lucas também...


Everaldo: o Lucas, Pedro... a minha irmã cantou. são dois hinos.


" ... Em 1970 o campo se abriu ainda mais, pois o conjunto contava com componentes que restavam do The Rells e com alguns do ex-The Locks o trabalho sério e bem estruturado de Everaldo contribuiu para que o nível do conjunto se elevasse, e com ajuda de seus companheiros conseguiu manter em Macaé um conjunto atualizado..." (trecho do release)


Magno: olhando o release, nos anos 70, a banda ampliou o número de membros e começou a viajar mais. Foi isso mesmo? Foi a partir daí que vocês começaram a sair de Macaé, não é isso? No início dos anos 70...


Geraldo: a realidade foi o seguinte: existia um conjunto chamado 'The Locks', que eu tocava. Já existia o The Rells. O The Locks acabou. Aí meu irmão (Orlando) e o Francisco foram convidados a tocar no The Rells. Aí ficou eu, Renildo e Mazinho, sobrando. Aí depois a gente foi entrando na banda. Zuca saiu pra estudar, não foi?


Everaldo: isso. Zuca saiu, Ércio saiu também. Luíz Alberto saiu, foi pra Brasília. Wagner (Soutinho).


Magno: e vocês sempre tocaram mais pelo Estado do Rio ou já saíram fora também? Aqui no release fala que vocês tocaram nas cidades do Estado e nos distritos dessas cidades...


Everaldo: tocamos no Espírito Santo, Iuna. No Rio, na Estudantina...


Magno: Vocês tinham um ônibus. Era microônibus ou ônibus?


Everaldo: no início era lotação... depois partimos pra ambulância do quartel, aquelas ambulâncias antigas. Eu comprei essa lotação que servia pro conjunto transportar os equipamentos. Na época tinha pouca coisa, pouco equipamento. A gente tinha a lotação e tinha a veraneio. A veraneio era pra transportar os músicos e a lotação carregava o equipamento. Sempre tinha um carro para transportar os músicos e outro carro pra levar os equipamentos.


Mazinho, Celinho, Afranio, Landinho, Geraldo e Renildo - The Rells e o primeiro microônibus da cidade usada por uma banda musical.


Magno: vocês tinham uma organização, a banda era bem organizada, né. Teve uma época que vocês começaram a investir em equipamentos. Conte um pouco sobre isso... até para as pessoas que tem banda hoje, as vezes fica meio perdida.. Como foi esse investimento que vocês fizeram?


Geraldo: eu posso falar... uma vez, a gente estava de folga, era aniversário de Macaé e nós fomos num baile do Fluminense com os filhos. Quando chegou lá - a gente ia cedo pra ver a aparelhagem. O que nós vimos lá? Um lançamento da Giannini que eles trouxeram. Acho que eles ganharam de presente. Lembra, Everaldo? Tera, Thor. Lembra? Os amplificadores desse tamanho assim, eram duas caixas. Ele (Everaldo) comprou três, depois. Aí chegou na hora do baile: "Everaldo, olha ali aqueles amplificadores!!"


Everaldo: a gente ia vendo qual equipamento, né ... naquela época era muito difícil. Não era bem não, era muito.


Magno: aqui só tinha uma loja que trazia os equipamentos, não?


Everaldo: aqui não tinha nada. Eu tinha que sair daqui, ir pro Rio lá na casa Clarim. Aí eu peguei um conhecimento com o dono da Casa Clarim. Compramos muita coisa lá, muito equipamento na Casa Clarim. E a gente comprava financiado, fazia os bailes e pagava, tudo certinho. Daí fomos ampliando. Chegou ao ponto que a gente tinha que ter 2, 3 montadores... Ia fazer um baile, tinha que ter o pessoal que montava o equipamento. Terminava o baile tinha que desmontar tudo. Era muita coisa. E naquela época o importante é que, tudo o que obtivemos, foi com o esforço total do pessoal do Conjunto. A gente fazia os bailes, tinha toda semana a prestação de contas. Reunião e prestação de contas. Eu tenho o livro guardado até hoje com a assinatura de todos eles, com toda a prestação de contas. Está lá: baile em Araruama = tanto $. Despesa: montador, motorista, óleo, combustível pro carro e mais um monte de despesa. O pagamento da Casa Clarim... tirava tudo e o que sobrava dividia pelos componentes da banda. Partes iguais pra todo mundo, pra mim e pra eles.


"1976 - vendo a necessidade de um aperfeiçoamento maior na qualidade sonora, o Conjunto The Rells resolve adquirir uma mesa de som de 20 canais e também a aquisição de um Harpstring Multmen. Para tanto, houve a necessidade da contratação de um solista, tendo em vista que passaria a operar a mesa de som o solista Orlando. Foi contratado então como solista o jovem Celio Lima Pinto, passando para a seguinte constituição: empresário e responsável: Everaldo; Téc. som: Orlando; Baterista: Geraldo; Tecladista: Ruzimar; Contra-baixo: Afranio; Solista: Celio; Ritmista: Renildo; Crooner: Francisco. Por aí foi o Conjunto The Rells, sempre levando muito a sério todo o seu trabalho e procurando sempre colocar, acima de tudo, a organização e a disciplina, atravessando todos os obstáculos que encontrava.


Esq./Dir.: Celinho, Ruzimar, Francisco, Orlando, Afrânio, Geraldo e Renildo.

Nova formação do Conjunto em 1976.


Magno: alguém vivia da banda, da música?


Everaldo: não. Naquela época todo mundo era novo. Eles trabalhavam, tinham seu serviço, né Geraldo. Você trabalhava na Casa Chaloub, Landinho trabalhava na Soul Mil. Renildo trabalhava na Transitório. Eles tinham o serviço deles. Mazinho era da Emater... aí todos eles tinham o seu emprego, eu tinha o meu também. Então aquilo era um biscate, um extra que entrava pro pessoal. Mas era importante porque teve componente da banda que comprou terreno, comprava carro...


Geraldo: eu comprava carro, trocava de carro todo ano.


Everaldo: tudo com dinheiro do Conjunto. Trabalhava, corria atrás, era difícil. Mas dava pra entender. E tinha reuniões que era tudo preto no branco, não tinha nada escondido. Tudo certinho.


Geraldo: eu queria falar uma coisinha aqui: depois que comprou essa aparelhagem, eu quero trocar de bateria, não quero mais essa bateria não (risos). Aí você sabe o que ele (Everaldo) fez? Comprou uma bateria de acrílico de dois bumbos e quatro tons.


Magno: sério? Até hoje eu não comprei bateria de dois bumbos. Quais marcas que tinham na época?


Geraldo: era Gope, Caramuru, Pinguim. Era só. Aí eu estava trabalhando e entregaram lá no Ypiranga. Foram lá na loja: "Geraldo, sua bateria chegou". Larguei a loja, larguei tudo e fui pra lá. Só fui pra loja no outro dia. (Risos)


Everaldo: naquela época, o Conjunto, todo mundo tocava, era tudo amigo um do outro. Tinha festa na casa de um, ia todo mundo. Um ajudava o outro. Havia aquela confraternização


Geraldo: tinha festa de final de ano, amigo oculto...


Everaldo: tinha tudo, era uma confraternização bonita, sabe? O que hoje em dia é difícil você juntar, fazer isso. Por isso que hoje a pessoa as vezes chega: "ah Everaldo, vamos montar uma banda, vamos fazer isso, vamos botar o The Rells aí..."!! Eu digo: "não, não"! Eu caio fora porque não tenho mais paciência pra suportar certas coisas que andam fazendo. Hoje eu tenho um sítio em Sta. Maria Madalena, eu vou pra lá, passo em Conceição, e, Madalena, as vezes tem gente lá que lembra do The Rells. E como tem!!


Magno: vocês tocaram muito por lá, né?


Everaldo: muita coisa! A gente tocava muito em Madalena, Trajano, na época que a estrada era tudo de chão. Não existia asfalto. Era um sacrifício danado mas valeu à pena.


Geraldo: a gente tocava em Casimiro de Abreu, a estrada era de chão.


" ... 1980 e 1981 - continuou o Conjunto The Rells na sua escalada maior em todo o Estado do Rio, criando e promovendo bailes em todos os clubes locais e de cidades vizinhas. Neste período aponta como destaque os shows apresentados por Chacrinha e suas Chacretes, onde o "velho guerreiro" apontou o The Rells como o melhor Conjunto do Estado do Rio de Janeiro ..." (trecho do release).


Everaldo: isso aí foi um show que o Chacrinha veio fazer aqui, aquele programa dele de televisão. Ele fazia os shows nas cidades. Aí o Ypiranga contratou o Chacrinha. Tinha o programa de calouros e o The Rells tocou. Acompanhava os calouros e fez o programa todo no Ginásio do Ypiranga. E o Chacrinha, ele declarou ao público lá que gostou muito do The Rells. Podia estar certo que era um dos melhores Conjuntos do Estado do Rio de Janeiro. Isso foi declaração do Chacrinha, dele próprio, no ginásio do Ypiranga. Me recordo também, no ginásio, num show que - Luizinho era o presidente, que contratou TIm Maia pra fazer o show e o The Rells fazer a abertura. O ginásio do Ypiranga cheio, lotado e nada de aparecer Tim Maia. Aí Luizinho, apavorado, me chamou pra ir lá na secretaria, chamou o empresário de Tim Maia. Fomos pra lá e o empresário ligou pro Tim Maia e Tim Maia estava em Copacabana num bar bebendo. E o empresário disse: "pega um avião que o ginásio está lotado, o povo vai quebrar isso tudo aqui". Tim Maia foi e "não dá pra ir não! E o Luizinho disse que ia processar ele. Ele disse: "eu já tenho vinte e tantos processos. Mais um não vai fazer diferença, não!" E o Conjunto The rells estava lá tocando. Aí Luizinho: "pelo amor de Deus, Everaldo, vamos aguentar essa turma aí". Aí foi pra lá, anunciou e transformou aquele show num baile, pro pessoal aguantar e não se revoltar muito, né. Nós viramos a noite fazendo baile pra aguentar a turma lá, o Ypiranga devolveu os ingressos do show, que ia fazer um outro show... nós que seguramos a peteca lá.


Magno: é um evento à parte, não teve a ver com o programa do Chacrinha?


Geraldo: o Chacrinha, toda vez que ele ia nos lugares a gente estava com ele.


"... procurando inovações, o Conjunto The Rells resolve partir para uma escalada ainda maior, coordenado pelo seu responsável e com apoio total de seus componentes, o Conjunto parte para o lançamento de seu primeiro disco. Compacto simples com o selo da SGS gravado no estúdio B da gravadora Transamérica e prensado na Polligram. Para que este trabalho seja realizado, na sua maior parte, por macaenses, o Conjunto resolveu procurar o jovem e talentoso Lívio Campos para realizar a parte final que é a capa. (trecho final do release).


Capa e contra-capa do compacto, gravado em 1984.


Everaldo: nós gravamos esse compacto, não foi com fins lucrativos. Nós gravamos pra propaganda. Todo o lugar que a gente ia fazer os bailes, a gente sorteava os compactos. Era mais assim, promocional. Nada pensando em dinheiro, em lucro, nada. Tanto é que você tá vendo que eu já trouxe pra você três. (Risos) Hoje eu passo em Conceição, vejo um cara que fala comigo sobre o The Rells, "Ahh Everaldo, e o The Rells?" Quando vejo que o cara é muito fã, na outra semana que eu passo lá já levo o compacto pra ele. Até hoje eu faço isso, essa propaganda.


Magno: Geraldo quer falar um pouco como foram esses bastidores pra vocês comporem essas músicas...


Geraldo: essa música foi composta por Sílvio Peixoto, a 'Quem Foi'. E nós que fizemos os arranjos.


Magno: porque tem a parte da letra. Tem a composição musical e tem a letra...


Everaldo: a letra é de Sílvio Peixoto. Era professor, muito conhecido e inteligente dentro de Macaé. E o 'Lance Audaz' era de Celinho. Foi Celinho que fez a letra e o arranjo também.


Geraldo: nós tiramos de letra. Ensaiamos rapidinho e fomos gravar na Transamérica.


Magno: vocês chamaram o Livio Campos, o fotógrafo...


Everaldo/Geraldo: isso. Pra fazer a capa.


Geraldo: foi legal abessa. Fomos na Kombi, levamos os instrumentos. Ele (Everaldo) gostava muito de amarelo. A ambulância do quartel ele pintou de amarelo. A Kombi ,pintou de amarelo. Por que, Cordeiro (sobrenome de Everaldo)? Tinha um jipão amarelo, também.


Everaldo: é porque é cor de ouro. Tem um lance interessante, também, o vice-prefeito de Macaé, Celinho Chapeta, ele foi motorista do The Rells, muito tempo. Tinha uma Kombi velha e fazia frete pro The Rells. As vezes tinha baile que não ia o ônibus do conjunto, ia a Kombi...


Magno: essa formação maior que vocês tiveram, quais os instrumentos além da "cozinha"? Bateria, Baixo-elétrico...


Everaldo/Geraldo: guitarra base, guitarra solo, teclado, vocalista e percussão.


Magno: não tinha naipe de sopro?


Everaldo: sopro, não.


Geraldo: depois teve sim, Everaldo. Nós colocamos Miltinho. Mas não era fixo, não.


Magno: tem algum outro momento marcante, assim...?


Geraldo: um momento marcante da banda sabe o que foi, também? Quando Evinha ganhou o festival de música, lembra? "Eu vou vestir o meu casaco marrom...". Ela veio fazer um show em Barra de São João e nós acompanhamos ela. Evinha, irmã dos 'Golden Boys'.


Magno: então, assim: além de vocês terem a banda completa, com crooner, vocal, vocês também eram chamados pra acompanhar outros artistas?


Geraldo: acompanhamos Biafra, Jair Rodrigues, no Ypiranga.


Everaldo: tinha um que era doido pra cantar com o The Rells, mas eu não deixava. Ali no Americano. (Risos) Hoje ele tá famoso. Elimar Santos. Ele quase saiu no pau comigo lá no Americano. Ele chegou lá e queria dar uma "pala". O The Rells tocando lá e o Americano lotado. Daí eu disse que não dava, que tinha que ensaiar primeiro, porque depois ele erra e o problema seria do conjunto... aí ele criou um caso, foi lá no presidente do clube, o Juvenil, que pediu pra eu dar um jeito. Eu disse que não tem jeito não. Aqui ele não sobe não. Se ele subir o The Rells desce. Eu era assim e foi assim que eu levei o conjunto esse tempo todo.


Everaldo e Geraldo. Ao lado, estúdio do Geraldo.

Fotos tiradas no dia da entrevista (14/05/2021) e seguindo todos os protocolos sanitários.


RELEASE DO CONJUNTO THE RELLS, ESCRITO EM 1984. NA ÍNTEGRA:





Agradecimentos: que história bacana, não é verdade? Infelizmente não conseguimos reunir os outros ex-integrantes do conjunto, certos que foram muito bem representados. Gostaríamos de agradecer a disponibilidade destes dois novos amigos que concederam a entrevista: ao Geraldo, baterista que atuou 20 anos no The Rells e nos recebeu carinhosamente em sua casa, onde tem um estúdio bem bacana, com aparelhagem de som e um pequeno palco com sua batera. Isso aí, não podemos parar!! E também ao Everaldo, empresário da banda, à época, e que com todo o cuidado guarda todos os registros da banda. Grande satisfação conhecê-los e muito grato também pelos compactos que ganhei de presente.


Fontes de Consulta:


  • Correa, Marcio Guedes. Gêneros e instrumentos da música popular urbana na “música de concerto” de Radamés Gnattali. Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU-FIAM-FAAM). 2019.

  • Dias, Marcia Tosta. Os donos da Voz - Indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura. FAPESP. 2000.

  • Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira. Quarteto Continental. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/quarteto-continental/dados-artisticos Acesso em: 23 mai. 2021.

  • Wikipedia.



Fundo Musical:


  • Alegria, Alegria, é uma canção composta por Caetano Veloso que foi o marco inicial do movimento Tropicalista em 1967. O single foi lançado (com Remelexo no lado B) em 1967 e também integrou o álbum Caetano Veloso, do mesmo ano;

  • É proibido fumar e Um leão está solto nas ruas, duas primeiras faixas do terceiro disco de Roberto Carlos, gravado em 1964;

  • O primeiro compacto simples do Conjunto The Fevers, lançado em 1965;

  • Summer Holiday, hit lançado em 1972 e que tornou popular o cantor brasileiro Terry Winter;

  • Hino em homenagem à Macaé, cantado com a bela voz de Silvinha, irmã de Everaldo e que, segundo ele, foi gravado por Pedro e seu Conjunto com arranjos de Lucas Vieira;

  • Tell me once again, música do grupo Light Reflections e faz parte do álbum One Way, lançado em 1973;

  • Our love dream, outro grande sucesso de Terry Winter gravado em 1972 e faz parte do compacto Shadow Dark and Blue;

  • Simulação de um programa do Chacrinha;

  • Quem foi e Lance Audaz, os dois singles gravados em compacto simples pelo Conjunto The Rells em 1984;

  • Casaco Marrom (bye bye Ceci), hit da cantora Evinha lançado em 1969 em seu primeiro álbum, "Eva 2001".


Considerações finais:


Ficamos por aqui mas já ansiosos pelo próximo episódio, sempre com um conteúdo enriquecedor para a história e a memória deste importante patrimônio imaterial que é a nossa música. Até breve e um grande abraço!!


FIM.

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