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  • magnoeliasbatera

Episódio 14 - Homenagem à Marcelo Carneiro, o Badá.

Badá - 2011

Foto: Ricardo Altoé


OUÇA O EPISÓDIO:




Homenagem à Marcelo Carneiro, o Badá.

É com grande pesar que o Histórias da Música em Macahé recebeu a notícia, na última quinta-feira, do falecimento deste grande ser humano e músico, conhecido pelos amigos como Badá, vítima de um AVC. Marcelo Carneiro da Silva, nascido em 08 de Janeiro de 1972, tricolor apaixonado, trabalhava na área offshore como Técnico de Segurança do Trabalho. Um amante da música, dono de uma bela voz, violonista, guitarrista e grande incentivador desta arte que atinge a alma dos homens de bem, como ele foi.


Badá (à direita) e colegas de trabalho tocando numa plataforma offshore


Decidimos entrar em contato com alguns amigos em comum e conseguimos relatos que, mais um vez, comprovam como este amigo era querido por todos.

Falamos com o Vinícius Amado, o Vinicinho, baixista que conheceu Marcelo nos tempos da Escola Técnica, em Campos dos Goytacazes. E ele nos conta como começou essa amizade e como, tempos depois, puderam finalmente tocar juntos:


Vinicinho: bom, em primeiro lugar, eu queria falar que o Marcelo é uma pessoa que estava sempre com um sorriso no rosto, uma pessoa muito bacana, de um astral maravilhoso. E eu vou contar aqui, mais ou menos, um episódio como eu conheci o Marcelo, né. Eu morei em Campos, acho que foi em 1990, 91, uma coisa assim. O Marcelo era estudante da Escola Técnica, morava numa república. E coincidiu de eu morar no prédio que ele morava, no décimo andar e ele morava no sexto... num belo dia meus amigos me convidaram pra conhecer o pessoal do sexto andar, pessoal bacana, legal. Coisa de jovem, vamos nos encontrar, falar com o povo lá de baixo. Até então eu conhecia o Marcelo de vista daqui de Macaé... Que eu sou macaense, Marcelo também...


Quando chegou lá, na República dele, pessoal me apresentando, algumas pessoas que moravam lá não sei se eram 4 ou 5 pessoas, todos jovens... 18, 17, 16 (anos). Eu, na época, tinha uns 17 e encontrei o cara (Badá) lá no quarto dele tocando uma música no violão do Pink Floyd, do disco 'Animals', que marcou muito pra mim porque eu era muito jovem e tinha a coleção inteira do Pink Floyd, em Vinil. E me marcou, me chamou a atenção porque poucos conheciam o Pink Floyd, e quem conhecia era 'The Wall' e Darkside of the Mono, que são discos mais conhecidos. E eu, por conhecer todos os discos, me chamou a atenção quando entrei no quarto e o pessoal falou assim: esse aí é o Marcelo. O Marcelo olhou pra mim, deu um sorriso e não parou de tocar. Ele tava tocando uma música maravilhosa do disco 'Animals', do Pink Floyd. Aquilo ali me marcou e virei fã do cara 'de cara' (de primeira). Virou meu amigo nem sem a gente ter tido um momento de conversa. Já gostei dele.


E aí virou uma amizade. Eu morei aquele ano ali em Campos, voltei pra Macaé, encontrei com ele algumas vezes mas não teve aquele momento que a gente teve de amizade lá em Campos. Passaram-se os anos, eu me tornei... tentei ser músico e estou tentando sempre, vou morrer tentando... comecei a formar bandas e nesses ensaios da vida eu me encontrei com ele no estúdio 'Cafofo', do Luís, nosso amigo em comum, e ele falou: "cara, não acredito que você está tocando!! A gente vai ter que fazer um som, um dia!" E ficou aquele desejo. Um dia a gente se encontrou para tocar com o Marquinhos, um cara que eu já conhecia, muito bacana... então quando a gente entrou no estúdio na casa dele - ele tem um estúdio na casa dele muito legal, com tudo que a gente puder imaginar pra ficar perfeito pra fazer um som, os instrumentos... A disponibilidade de ter um computador pra ouvir tudo que quiser ouvir na hora, e tocar de novo, ensaiar... eu encontrei esse momento maravilhoso que foi tocar nessa formação que ficou meio sem nome, a gente inventou um nome meio engraçado e tal. A gente começou a ensaiar e formamos uma banda: eu, Marquinhos e o Marcelo. E esse momento foi único, ficou na memória, ficou no coração. Selou uma amizade que vinha de anos atrás e confirmou a pessoa maravilhosa que ele era. Um pai maravilhoso, marido, pai de família, pessoa do bem que marcou muito e ficou marcado pra mim, pra minha família, a minha esposa teve a oportunidade de conhecê-lo.


Vinicinho, Marquinhos e Marcelo Badá.

E a gente teve esse momento de tocar. Acho que a gente tocou por um ano, um ano e pouco, quase dois. Fizemos algumas apresentações por aí mas passou. Formei outra banda depois disso, toquei uns 3, 4 anos com um pessoal que também viraram grandes amigos e saí da banda naquela ideia de um dia reencontrar Marcelo e tocar novamente... Porque ele ficou na memória e virou um amigo eterno. Infelizmente a gente não pôde ter essa oportunidade novamente, o que foi muito dolorido pra mim mas Deus sabe de todas as coisas e o que aconteceu foi isso. Uma amizade que aconteceu, mais ou menos, em 90, 91... Durou até a gente se reencontrar e confirmar esse carinho um pelo outro, um cara maneiro, muito bacana. Muitas mensagens a gente trocava pelo Facebook e tal. E terminou como tinha que terminar, como Deus sabe o que tem que fazer. É uma pessoa que vai ficar na memória de todos que o conheceram, porque foi uma pessoa que além de muito talentoso como músico, muito criativo, compositor. Uma pessoa do bem, sempre com um sorriso no rosto e muito querido.


Outra coisa que eu queria deixar registrado é uma coisa que vai ficar pra sempre: roda vez que eu ouvir Pink Floyd eu vou lembrar desse cara. Ele era muito fã do guitarrista, do David Gilmour, que tem solos maravilhosos, melódicos, muito lindos e eu compartilhava desse gosto dele também. Então eu nunca vou esquecer, quando eu ouvir Pink Floyd eu vou lembrar desse cara.

Marquinhos batera, citado pelo amigo Vinicinho, também foi convidado para falar de sua amizade e da parceria musical com Badá:


Marquinhos: Marcelo, há poucos anos atrás, através de outro músico macaense, chamado Vinicinho, que toca baixo, tinha uma banda de Reaggae... me convidou: "pô, Marcos, tem um cara lá no Horto que tem um estúdio maneiro, o cara é gente boa pra caramba. Vamos lá fazer um som". Isso foi o start. Marcelo, não precisa dizer, é um cara inteligentíssimo, excelente músico, virtuoso. Um cara que se dedicou a essa área musical. Ele tinha o lado dele de sobrevivência, de família, de manter o emprego dele, fora da música, mas ele tinha aquela estrutura maneiríssima, você conheceu o estúdio dele. Um cara 10 de coração, gostava de receber as pessoas, adorava. "Vem aqui em casa, vem aqui em casa." Tudo era "vem aqui em casa". Vai fazer muita falta. Pegou a gente de surpresa... A vida é isso: a gente tem que entender que a gente está aqui de passagem.


Fica aqui a lembrança, a família, a Cíntia e a filha dele. Marcelão é um cara que fez a passagem dele aqui e marcou, deixou a assinatura dele. Pegou todo mundo de surpresa. Mas essas coisas acontecem e ninguém consegue... O equilíbrio da natureza é uma inteligência muito maior que comanda essas coisas e a gente não tem capacidade de entender isso. Marcelão foi com Deus, está com Deus, com certeza. Valeu, Magno!!


Badá e os amigos Christian Souto e Toninho no famoso estúdio em sua casa



Marcelo não só gostava de "fazer um som", era um músico, artista, que entendia a essência daquilo que se propunha a fazer. Além disso, incentivava os amigos a serem cada vez melhores. Foi o caso de Antônio Luis, o Toninho, outro grande músico de Macaé, vocalista das antigas e um apaixonado pela batera. Cantou em várias bandas, com destaque para as bandas Arte Bélica e Black Caviar. Atualmente canta na banda Km Rodado. Ele nos conta uma conversa que teve com Badá e de como isso foi importante para sua carreira:


Toninho: ele foi o responsável por eu cantar as notas mais altas... Eu tinha uma banda chamada Arte Bélica, depois tive a Black Caviar aqui em Macaé e tal. E era uma banda que a gente tocava só Pop/Rock. Eu sempre curti uns "rockão" mas eu achava que não tinha voz pra cantar. Ele virou assim: "p*** T-Rex, (como Badá chamava o Toninho), tá dando mole! Tem que tocar essa música aqui. Aí ele botou uma música do Queen "Tie your mother down". Aí eu falei: "pô, Marcelo, não vou conseguir cantar essa p*** não, alta demais! Badá: "não consegue é o ca***. Vai lá, duvido se não conseguir. É a sua voz, rapá!! E daí eu consegui encontrar a minha voz, achei meus caminhos. Eu falei: caramba!! E foi por incentivo dele.


Toninho e Badá


Toninho também comenta sobre a passagem de Badá pelas bandas Jam Session e Km Rodado:


Toninho: a gente conviveu muito junto no Jam Session, muito antes da Km Rodado, 10, 11 anos antes da Km Rodado. Tocávamos eu, Kleyton, Marcelo e Orlando. E era muito engraçado porque a gente era sempre muito divertido. Marcelo sempre muito inteligente. A galera toda com um nível legal, né. E a gente amava aquilo ali, o que a gente fazia, que era tocar aquelas músicas. E logo com a morte do Orlando, na época, a gente acabou não levando mais pra frente, a Jam Session. Quando a gente se encontrou mais a frente, em 2011, pra fazer um som - a gente nunca perdeu o contato, na verdade, mas a gente se reencontrou novamente pra fazer um som - ele queria fazer um som no estúdio, aquela onda toda e falei: "demorô, partiu!!"... Aí começou despretensiosamente. A turma de sempre: eu, Kleyton, ele... entraram algumas pessoas, enfim. E o negócio começou a ficar tão bom - eu tava na bateria, tava cantando - e eu falei: "legal se eu fosse pro vocal, achasse um baterista." Aí Badá falou pra chamar o Téia da Rei Midas... aí Téia veio, fez o teste, tava meio enferrujado. Aí a galera ficou meio assim: "pô, esse cara tá meio enferrujado!" Depois chegou no segundo ensaio, arregaçou tudo. Falei: caramba, é o cara!! A galera foi e começou a brincadeira. Daí veio o 'Bica' e formou a Km Rodado, por muita perspicácia do Marcelo (Badá). É isso, por Marcelo gostar muito do Rock'n Roll.


E não foi só isso, não. Além da Km Rodado, a gente ficava horas lá brincando no estúdio, bebendo uma cerveja, trocando uma idéia, vendo vídeo. Marcelo cheio de história, muito bom, muito inteligente e a galera Rock'n Roll demais. Então... a gente falava assim: daqui a pouco a eu tô de volta aí. Esse "daqui a pouco" era 4 horas, 5 horas da manhã (risos). Mas eu não me arrependo de nada, foi muito divertido. Eu vou sentir muita falta.



Bebeto: fala, galera, aqui quem fala é Bebeto, vocalista da Rei Midas. Ainda meio afetado e triste pelo desenlace do nosso amigo Marcelo Badá... a idéia aqui é trazer uma lembrança boa dele, né, e eu espero contribuir. Particularmente eu já conhecia Marcelo de vista, das noites em Macaé. Eu também, morava na Télio Barreto e ele na Aroeira. Então, volta e meia a gente se esbarrava. A gente se conhecia de vista mas não era amigo, né! E uma vez a Rei Midas foi participar de um festival em Madalena e nos intervalos que a gente teve lá a gente foi conhecer a cidade e a gente achou ele, estava tocando num barzinho lá... A banda Rei Midas já existia, com o primeiro guitarrista que era Fábio e alguns anos depois ficou vaga a posição de guitarrista na banda.


A gente passou por outros guitarristas depois do Fábio, teve Evandro, o Júnior... veio o Kleyton fazer um teste com a gente. E foi aí que Badá surgiu na vida do Rei Midas. Depois do ensaio, Kleyton falou: " pô, um amigo que toca comigo, a gente se dá muito bem na guitarra. O que vocês acham de duas guitarras?" A gente nunca tinha feito duas guitarras na banda. E aí resolvemos fazer. Chamamos ele pra ensaiar, ele chegou lá pra ensaiar e o ensaio foi maneiro pra caramba. Todo mundo concordou que a banda agora seriam seis. E a partir dali foi muita história, né. Muito show, muita coisa boa que aconteceu. Que eu posso falar, né? Muito sofrido falar do nosso amigo. Interessante lembrar dele assim, uma amizade muito grande que ele tinha com Kleyton. Eles meio que se completavam. Era uma história de ódio e amor incrível. A gente presenciou isso e era muito legal estar perto daquilo ali.


Fizemos muita música, muitos shows. Foi muito legal participar da vida dele dessa forma, musicalmente. Ele era um cara musical e com poder de agregação muito grande. Incrível como ele tinha contato com várias tipos de tribos, gente de diferentes idades. Pessoa incrível. A gente fica lamentando um pouco, pensando aqui... mas vamos levantar a cabeça, ver as coisas boas que a gente viveu com ele. Vamos tentar lembrar disso aí, a pessoa maneira, incrível que ele foi. E vai continuar sendo. Acho que falo em nome de todo mundo do Rei Midas. Obrigado pela chance de participar desse projeto. Valeu!!



Agradecimentos:

Gostaríamos de agradecer imensamente aos amigos Vinícius Amado, Marquinhos, Toninho e Bebeto pelos depoimentos prestados. E ao Marcelo Téia por ter intermediado alguns dos contatos. À todos vocês, nossa gratidão!!

... Eu costumava falar que ele era o maior fã do Pink Floyd que eu conhecia. Uma pessoa muito culta, de boa conversa, gostava de sorrir, brincalhão, grande amigo! Um dos poucos amigos que eu visitava e ficava horas vendo filme, fazendo um som no estúdio, conversando, churrasco... vivendo! Estou muito triste, meu amigo. Lembrando dos shows com a Rei Midas, Km Rodado e tantos momentos bons com sua guitarra. Poxa vida, quanta história!

Marcelo Téia.


Christian, Badá e Téia

Marcelo foi um grande amigo de meus tempos de Escola Técnica Federal de Campos. Nós falávamos o tempo todo sobre música. Éramos estudantes de guitarra e ficávamos compartilhando ideias de sons, timbres, bandas, etc. Sempre foi uma conversa boa, divertidíssima. Me lembro do show do Andy Sammers em Macaé, na praia. Ele gritava: MOTHEEEERRRRR!! para o Andy ouvir. Era uma música muito louca da banda. Eu ria sem parar com a cena... Era o Marcelo. Um cara com brilho que, infelizmente, a gente perde ao longo da estrada. Vai com Deus, Guitar Man!!

Nelson Junior


Fundo Musical:


  • Comfortably Numb, composição de David Gilmour e Roger Waters, de 1979, que faz parte do disco 'Echoes - The Best Of Pink Floyd ;

  • Pigs on the wing 1, música de Roger Waters que faz parte do disco 'Animals', gravado em 1977;

  • Menina mimada, música do Barão Vermelho, tocada nesta gravação pela banda Midnight Bone's, num ensaio no estúdio Cafofo, com o Badá na voz e Guitarra base;

  • Bucólico, música, letra e arranjos de Marcelo Badá. Gravada em abril de 2015 no estúdio Vagalume;

  • Under the Blue, música da banda Km Rodado gravada ano passado em formato de vídeo clipe. Disponível no Youtube;

  • João Ninguém Futuro, música da banda Rei Midas gravada em formato vídeo clipe ano passado durante a pandemia. Disponível também no Youtube;

  • Pigs On The Wing 2, do álbum 'Animals';

  • Trecho da Comfortably Numb, com voz e violão de Léo Azeredo em homenagem ao nosso querido Marcelo Badá;

Considerações finais:


E assim, finalizamos mais um episódio de HMM, prestando esta breve e singela homenagem à Marcelo Carneiro da Silva, o Badá. Certos de que sua vida é muito mais cheia de boas histórias e muita música. Voltamos em breve com mais um episódio de Histórias da Música em Macahé, agora com o sua nova página na internet: www.hmmacae.com ... Fácil, não é mesmo?

Até mais galera e um grande abraço!!



FIM.

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