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Episódio 6 - De Haroldo a Eraldo - As Serestas em Macaé (pt.1)

Atualizado: 26 de abr. de 2021


Haroldo Meireles e Eraldo Lanterneiro

Ouça o episódio:




Crônicas de José Milbs de Lacerda Gama. Do livro "LUAR DE IMBETIBA: Psicanálise de uma Cidade".

A FALA DE HAROLDO MEIRELES, O SERESTEIRO.



Macaé rompeu o milênio e com ela o Velho seresteiro de 75 anos e um pulmão de fazer inveja. Haroldo Meireles chegou em Macaé nos anos 40, como ele mesmo me disse, no dia 2 de setembro de 1943 quando a cidade, ainda com nuvens de um sol meio tímido, recebia os acordes das madrugadas com as retretas da "Lyra dos Conspiradores" e da "Sociedade Musical Nova Aurora."


Eles vieram para a cidade e sua irmã casou-se com uma família tradicional da Rua do Meio. Casou-se com Décio Viana, filho de dona Maria e de seu Bráulio, que moravam perto da cocheira da Prefeitura onde a gente jogava futebol. Esta cocheira ficava a uns 30 metros da praia de Imbetiba ainda sem muralhas, sem pedras sufocantes e navios jogando cocôs e mijos internacionais.


Conta que, depois, se casou com sua atual e sempre companheira que era filha do ferroviário" papa-capim" que, também, era pai de "Waldyr Mergulhão", que toda a cidade conheceu nos bons tempos de mergulhos no "Rodrigo" e nas "Pedras do Hotel de Imbetiba". Com Célia Viana Meireles ele teve 10 filhos dos quais apenas 5 sobreviveram a uma vida de luta e de dificuldades cujo sustento vinha como lustrador da marcenaria do "Manduquinha", "pater-mater" de toda musicalidade desta cidade de sol aberto e luar tímido.


Haroldo é filho de pais também ligados à música. Seu pai violeiro e sua mãe cantora de Igreja em Cabo Frio. As noites macaenses já se acostumaram com este homem de corpo extremamente franzino, cabelos brancos, corpo arquejado, de pele enrugada e deliciosamente pura e quente que canta músicas de Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Dorival Cayme, Carlos Galhardo, Chico Alves e Ary Barroso. Senhor de um domínio fora do comum de palco, sua voz já harmoniza- se com a divindade em tardes noites durante anos a fio.


Zezinho, Ismael e Haroldo. Em evento comemorativo do do centenário de nascimento de Benedito Lacerda, em 2003, no pátio da Sociedade Musical Nova Aurora.


Haroldo não canta, ele se faz veículo da voz. Não tinha e não tem lugar certo para encantar as pessoas. Canta em bares, casas noturnas, boites e cantarola nas praças quando busca tomar condução para sua casinha simples no Bairro de Aroeira. Da rua do Meio recorda de "Meca", o ferroviário que gerenciava a saída do "Bloco do Independente" e sorri de amor em canto de lábio maneiro quando se refere a "Titinha", nossa "Mãe do Samba dos anos 40". Ele me concedeu esta entrevista quando fazia niver e me viu sentado numas das bocadas da noite macaense. E continuava a falar o seresteiro:

OS MEIRELES


Orgulha-se de ter 15 irmãos, todos Meireles vindos de Niterói, uma família que ele diz não ter nada com os Meireles de Ricardo e de Carlinhos. Eles são meus amigos, me aplaudem quando canto, mas sua genética é outra, fala orgulhoso de seus ancestrais. Sua fala ainda mantém o brilho das madrugadas e de um corpo que dificilmente será tombado ainda. Uma mente privilegiada ele tem suas histórias ligadas às essências macaenses e mantém a velha dignidade dos grandes da noite.


Haroldo ainda é dos poucos que chama de "Pinguin", um apelido que soa ainda com gosto de meninice e afeto. De sua voz sai sonora e faz com que a classificação dele de "O velho Pinguin da Rua do Meio" me jogo no lindo labirinto alegre e feliz nas lembrança de meus tempos de menino na Rua Doutor Bueno. Haroldo faz parte de um tempo onde reinava o bom gosto das vozes de Osmar Rocha, pai de "Osmarzinho do Cartório das Pequenas Causas".


Osmar ornamentava as noites de Domingo no Ipiranga onde Armando Marconi, que morava no Hotel Tupã na Praça Veríssimo de Mello, fazia com que o piano tivesse entrada sem porta nas articuladas junções dos auditivos desta época de amor brilhante. Às vezes Osmar chegava meio atrasado para finalizar as tardes noites e o velho Armando se impacientava e repetia músicas que eram sempre acompanhadas por Charutinho, Dulcilando e Shirley Sampaio.

"Cansado de Tanto amar.

Eu quis um dia criar.

Na minha imaginação...

Dei lhe a voz de Dulcinéia.

A malícia de Frinéia

E a pureza de Maria.

Em Gioconda fui buscar

O sorriso e o olhar.

Em Dubarry o glamord...

E assim, de retalho em retalho, terminei o meu trabalho,

o meu sonho de escultor.

E quando cheguei ao fim...tinha diante de mim...

Você, só você, MEU AMOR"....

Está chegando ao fim esta acontecência. Finalizando afirmo: ouvi Osmar Rocha cantar Nelson Gonçalves e vi Nelson, sentado na minha mesa, na "Fazenda Meu Descanso" do ex- deputado Carlos de Freitas Quintella aplaudir e abraçar Osmar Rocha e Haroldo Meireles, pelas lindas vozes nas noites das serestas macaenses. Nelson Gonçalves e seu filho Nelsinho estavam em minha mesa e pude olhar nos olhos do velho seresteiro a felicidade em ter sido clonado tão bem. Era lá, na fazenda do Deputado e Seresteiro Carlos de Freitas Quintella, que se completavam as noites macaenses nos anos 60.

José Milbs - 18/01/2008.

Francarlos, o Chiquinho, nosso companheiro aqui do projeto, lembra de um encontro casual com Haroldo numa padaria, onde ele recitou, à capela, "O Ébrio", de Vicente Celestino:

Nasci artista.

Fui cantor.

Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto.

O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória.

Durante a minha trajetória artística tive vários amores.

Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor.

Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor.

Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa.

Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus.

Não pude mais cantar.

Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha.

Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar.

Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita...

E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar.

Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa.

Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo.

Nunca mais fui nada.

Nada, não!

Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio...

Chiquinho: eu estava sentado na padaria Pão e Cia., perto da igreja Nossa Sra. de Fátima e Haroldo Meireles vinha passando. Eu parei com ele e pedi que ele recitasse pra mim a introdução da música do Vicente Celestino "O Ébrio", e ele não só recitou toda a parte inicial da música… que essa música começa com um drama, ele conta um drama da vida. Então ele primeiro recita, ele fala sobre a música, o porquê da música e depois ele entra cantando "O Ébrio". E Haroldo fez isso sentado na padaria comigo à capela. Aliás, foi a única pessoa que eu vi até hoje cantar essa música e recitando o início dela todo. E segundo o próprio Haroldo, ele sabia mais de 1.500 músicas de serestas de cor.



SEU CARRO BATEU? Eraldo Lanterneiro…


Eraldo Lanterneiro (à direita) e seu irmão Carlinhos, que também aprendeu o ofício de lanterneiro com o irmão. Amigos inseparáveis das noites macaenses, o boêmio Eraldo sempre gostava de ficar sentado à mesa bebendo sua cerveja, enquanto aguardava o momento para cantar.

Os anos 50, em seu finalzinho, se não me falha as paredes empoeiradas de minha mente, chegou a esta cidade vindo dos Campos dos Goitacázes um jovem rapaz. Moreno, alegre, dançarino, olhar sempre a frente das pessoas de sua idade, Um menino pobre, materialmente, mais muito rico em espiritualidade. "Baixou" na Boa Vista e lá ele espalhou uma alegre vivência e logo tomou conta de toda a cidade de Macaé.


Poucos teriam conquistado, em tão pouco tempo, uma sociedade fechada e careta. O menino mulato, campista, malandro por excelência, foi abrindo, no peito e na raça este mundo fechado, Iá dando seus passos nas domingueiras e nas noites dos tradicionais bailes macaenses. Não fugiu das suas origens. Apesar de ter alcançado o social macaense ele se notabilizava pela sua profissão de lanterneiro. Mestre nesta arte. Cobrava caro cada pancada que dava nos luxuosos carros importados. Seu trabalho era uma espécie de artesão. A perfeição era tanta que centenas de pessoas de outras cidades vinham conhecer sua perfeição na arte de lanternar. Dezenas de lanterneiros que existem por toda região foram aprendizes do meu amigo Eraldo Gomes da Silva.

Fui um dos primeiros amigos seus em sua chegada à Macaé. Eu, líder estudantil, militante no PTB de Jango e Roberto e, sempre amante das noites, era um parceiro e tanto para este campista alegre e descontraído.O tempo, que tudo leva mas não apaga os bons momentos, levou Eraldo para outros mundos na comunidade macaense. Casou, filhos os teve, "enricou" como se diz nas esquinas da existência no interior do norte brasileiro. "Enricou" mas não perdeu as suas fincadas nas origens das noitadas. Cantor nato, seresteiro dos mais puros, Eraldo batia bem também nos compassos dos tons que vinham de "Zezinho do Violão" e dos seus comparsas nas tardes noites de uma cidade que se esvai no esquecimento de seus vultos puros e simples.


Eraldo fazia com a voz à mesma perfeição que tinha no martelar de suas lanternagens. Sonorizava o amor, sonorizava o belo que ia de encontro a outros belos de pessoas que o ouviam. As carências humanas eram semeadas e colhidas por este belo amigo que sabia bem da psicologia das massas que habitam as noites.


As vivências são ramos, são galhos que vivem pendurados na nossa vida. Iguais aos das nativas árvores. Daí que, das nossas noites, de nossas músicas, de nossas biritas, o sentimento de carinho se renova quando dos reencontros aqui na terra. Eu tive a felicidade de sentar na mesa com Eraldo, nos dois ainda de cabelos negros, e de "resentar" quando o sereno das noites vividas nos colocou lado a lado numa das esquinas das noites em recente evento.


A vida leva anos para ser entendida. Saudades dos bares macaenses e campistas que a gente conhecia. Dadá, Continental, quadrado, Rua do Vieira, mangue, enfim noites de encantos e busca do nada num tudo que flui ao saber de sua morte. Sofreu muito o velho Seresteiro que sempre me dizia: "José Milbs, o dia que eu morrer, quero que você fale de mim". Sei que O REBATE não está circulando, faça um panfleto, lembra as pessoas de nossas ruas empoeiradas, fale de meus amigos Lineu, Calomeni, Oswaldo, Sylvio Lopes, Manoel do Carmo, de Dodô do Bicho, de Zezinho e, principalmente fale para minha esposa e filhos que, se não fui perfeito na vivência familiar como o fui na profissão, isto é "defeito da fábrica humana". Diga que a vida foi boa para mim e dela, se sair primeiro que você, viajo feliz com a certeza do dever cumprido. Vou cantar em outros acordes ..."

José Milbs - 14/05/2007

Milbs complementa: "Este jornal O REBATE on-line, que quando existia no papel, impresso com o suor de noites mal dormidas, forjados no carinho de mãos que, letras por letras compunham, seus textos, homenageia este bravo amigo, colocando, como nos anos 60 e 70 a frase que tornou célebre o amigo que se foi."

SEU CARRO BATEU? ERALDO LANTERNEIRO!!

Referências:



Fundo Musical:


  • Voz de Haroldo Meireles, participando do centenário de Benedito Lacerda, acompanhado de Zezinho do Violão e Ismael do bandolim, em evento na sede da S.M. Nova Aurora, em 2003. Neste trecho, ele canta "Boneca", composição de Benedito Lacerda com Aldo Cabral e "Favela", composição de Roberto Martins e Valdemar Silva.


  • Escultura, composição de Adelino Moreira e Nelson Gonçalves. Do LP de mesmo nome, 1958. Interpretada também por Nelson no filme "Camelô da Rua Larga", no mesmo ano.


  • O Ébrio, música de Vicente Celestino lançada em 1936 e que inspirou o filme epônimo de grande sucesso 10 anos depois, sendo o próprio Celestino o protagonista, além de ter sido o escritor da peça e diretor desta obra cinematográfica junto a sua esposa Gilda Abreu.


  • Marina, música de Dorival Caymmi lançada pela primeira vez em 1947, ao som do Regional do Canhoto. A versão escolhida se encontra na coleção "Retratos", de 2004.


  • La barca, música de Roberto Cantoral, composta em 1957, interpretada por Luis Miguel no álbum "Romance", lançado em 1991.


  • Risque, de Ary Barroso. Interpretada por Nelson Gonçalves e acompanhado pela Orquestra e Conjunto da RCA. Arranjos e regência dos maestros Orlando Silveira e Nelsinho, disco Jóias Musicais, de 1982.

Agradecimentos:


Um agradecimento especial à Angela Bitar, por autorizar o uso dos escritos do nosso eterno José Milbs. Ao Jorge Benzê, pelo uso do áudio referente a participação de Haroldo Meireles nas comemorações do centenário de Benedito Lacerda, em 2003. E também ao Cléber, sobrinho de Eraldo Lanterneiro, que cedeu gentilmente a foto onde seu tio está ao lado do seu inseparável irmão Carlinhos, pai de Cléber. À todos vocês, nossa gratidão!!

Considerações finais:


E assim terminamos mais um episódio, prestando uma singela homenagem a estes dois seresteiros de Macaé, e porque não dizer, macaenses. Quantos cidadãos aqui radicados não mereceriam o título de cidadania honorária? Aí vai uma dica ao poder legislativo da cidade. Em tempos tão sombrios os quais vivemos, onde muitos direitos se perdem e, ao que tudo indica, o próprio direito a vida, ainda encontramos na arte da música, a esperança ante a barbárie. Nos despedimos com a bela voz de Haroldo Meireles acompanhado, nada mais nada menos, por Zezinho e Ismael, na certeza que nos encontraremos em breve para mais um episódio de Histórias da Música em Macahé, e contar um pouco mais sobre as nossas Serestas. Um grande abraço à todos!!


FIM.

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