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  • Foto do escritorHM Macahé

Episódio 59. Alfredo Soares e o “caso sensacional”.



OUÇA O EPISÓDIO:



Nos idos de 1870, dois irmãos de origem portuguesa, Francisco Soares Homem e Albino Soares Homem, chegam à Macahé e instalam na cidade uma oficina de tanoaria, arte ancestral que consiste no fabrico de vasilhames de madeira para o armazenamento do vinho e, posteriormente, da cachaça. Ofício mais ligado à produção nas regiões vinícolas, desenvolveu-se junto das zonas ribeirinhas. A palavra é sinônimo de tanoa, que por sua vez vem do termo da língua bretã Tanu, que significa carvalho, cuja madeira é a mais utilizada neste fabrico.


Hábeis artistas, os dois irmãos logo entraram em contato com as principais figuras do comércio local, como foi o caso do comendador Torres (irmão do Visconde de Itaborahy), oportunidade em que, durante alguns anos, os irmãos prestaram grandes serviços à sua casa comercial. Apesar de aparentarem uma vida modesta, logo correu o boato na cidade de que os irmãos eram possuidores de grande fortuna, que fora deixada pelo pai, Manoel Homem, que por sua vez, a herdara por modo desconhecido de um dos muitos piratas que traficava nas costas do país e que perecera em naufrágio no litoral de Cabo Frio. Patacões de prata e dobrões de ouro constituíam a fortuna da pirataria, que salineiros e pescadores macaenses já haviam sinalizado nos boatos.


Fato que veio robustecer tais boatos, foi o investimento dos irmãos em um novo empreendimento: uma grande fábrica de cal. Nesta ocasião, foram adquiridas embarcações (faluas) a preço de ouro, sob as vistas curiosas e invejosas de alguns conhecidos. Tendo feito fortuna neste empreendimento, Albino fundou uma outra companhia para explorar apenas o comércio de sal, em sociedade com o capitão Vacani, o coronel Bento Affonso e o Dr. João Victório Pareto, constituindo a firma “Soares, Affonso, Vacani & Cia., a mais importante empresa do comércio local. Com a morte de Albino Soares, em 16 de maio de 1903, Manoel Taboada passa a integrar a empresa, com o nome de “Affonso, Taboada e Cia.”. Com o seu grande capital, o empreendimento é considerado a maior e mais sólida do Estado do Rio, passando a razão comercial a se chamar “Taboada e Cia.”



O inventário


De sua vida marital com D. Senhorinha Mathilde da Silva, Albino Soares deixou cinco filhos: Alfredo, Aristides, Leocádia, Anna e Ismênia. Em 1911, uma ação judicial expedida pelo juiz de direito da comarca de Macahé João Maria Nunes Perestrello, decide arrematar os bens do finado Albino Soares, incluindo vários imóveis, terrenos, apólices da dívida pública, objetos estimados em 800:000$000, além de grande quantia em dinheiro. Quando vivo, Albino Soares recebia os serviços de corretagem de Antônio da Costa Miranda, que trabalhava na antiga capital federal e era também o seu correspondente na grande firma. Antônio reivindicava uma quantia no valor de 45 contos de Réis relativos aos serviços de corretagem devidos pelo finado, razão pela qual a justiça impetrou ação de penhora em todos os bens dos herdeiros. Foi acordado entre os herdeiros de Albino e Antônio o pagamento de outro valor, dando por terminada a questão. Porém, em consulta com os advogados que atendiam a causa da herança, Alfredo Soares decide quebrar o acordo selado anteriormente, o que desacelerou o processo durante muitos anos e criou uma série de imbróglios judiciais. Tal atitude de Alfredo fez desmoronar por completo toda a fortuna do antigo tanoeiro e abastado comerciante, pois o antigo corretor, melindrado com o aspecto que o caso tomara, levou à praça todos os bens do espólio.


Acontece que, por um lapso da justiça, os bens deixados por Albino Soares voltaram à posse dos seus herdeiros, que deles os bens logo se desfizeram, vendendo-os para cobrir as vultosas despesas com as repetidas discussões da justiça.



No espólio, instrumentos musicais do século XVII e XVIII


Entre os bens deixados por Albino Soares Homem para o seu filho Alfredo encontravam-se dois imóveis na Avenida Presidente Sodré, números 36 e 37, na antiga Rua da Praia. Em decorrência das más condições dos imóveis, desabitadas há muito tempo, a prefeitura requereu a demolição delas, o que foi levado a cabo no dia 04 de agosto de 1937. No mês anterior, mobílias velhas e objetos como louças e utensílios domésticos foram levados a leilão. Pertences mais importantes da família foram reclamados por Ulysses Soares Coelho, filho de D. Leocádia, e pelo afilhado de D. Ismenia Soares, Raphael Garcia, residente em Patrocínio de Muriahé, Minas Gerais. Em uma das mobílias, um velho “toilette”, arrematada pelo comerciante local Eurico Coelho, dono de uma casa de ferragens na cidade, foram encontradas 231 apólices da dívida pública do Estado do Rio que, apesar de nominais, não estavam nomeadas. E outra surpresa: em uma das gavetas tinha duas flautas transversas, sendo uma de ébano e outra de prata.


Nos pertences recuperados por Raphael, constavam um piano Pleyel, um relógio de parede, os retratos de seus pais e uma mala contendo louças, assim como três violinos e uma mobília austríaca, que eram de exclusiva propriedade de D. Ismênia. Em relação aos três violinos, vale destacar que eram bastante antigos, todos datados e com suas inscrições. Em um deles, lia-se bem claro o seguinte: “Antonius Stradivarius Cremonensis - Faciebat Anno 1722”. Um outro, com legenda semelhante, constava a observação: “Copie” (cópia do original); e no terceiro violino, a seguinte inscrição: “Nicolaus Amatus - fecit in Cremona, 1656”. As inscrições se referem a dois italianos, ambos da cidade de Cremona, na Lombardia: Antonio Giacomo Stradivari (1644 - 1737) e Nicola Amati (1596 - 1684). Tanto um quanto o outro exerciam a difícil arte da luthieria nesta cidade, que tornou-se um importante centro de fabricação de violinos, a partir do sé. XVI. Cremona ainda é conhecida pela produção de instrumentos de alta qualidade, raros exemplos dos quais podem ser vistos ao visitar o “Museo del Violino” local. Em 2012, o “Artesanato tradicional do violino em Cremona” foi declarado patrimônio cultural imaterial pela UNESCO.


Foto do jornal "A Noite", onde aparecem as dus flautas transversais, uma de ébano e outra de prata.


As irmãs Soares


Inicialmente, o que motivou a criação deste episódio foram algumas informações encontradas sobre as três irmãs de Alfredo Soares, que eram exímias cantoras e sempre participavam de eventos culturais na cidade, principalmente aqueles ligados ao calendário anual litúrgico. Nas festas de padroeiro, como as do Divino Espírito Santo, a de Sta. Cecília, a do SS. Sacramento e de São Roque, lá estavam as irmãs cantando juntas. Com a descoberta de seus nomes, outros foram aparecendo, como foram os casos de Albino Soares e Alfredo Soares, este último tendo seu nome citado como maestro pela  imprensa local.



Alfredo Soares: vida solitária e misteriosa


Alfredo Soares Homem

Alfredo Soares Homem, o principal protagonista do rumoroso caso que tanta repercussão causou em Macaé, é uma figura cujo passado sempre foi tido como misterioso, vivendo uma vida isolada da sociedade local e de hábitos dos mais esquisitos. Ao tempo em que possuía grande parte da fortuna que o pai lhe deixara, trajava-se elegantemente, e como era hábil musicista, frequentava quase todos os concertos musicais realizados em Macahé, tendo por diversas vezes regido a Banda de Música da Sociedade Musical Nova Aurora. Prova disso foi um grande evento ocorrido em 1914, na Festa de Santa Cecília, a santa padroeira dos músicos e da referida Sociedade, oportunidade em que Alfredo regeu uma Orquestra composta por músicos da Nova Aurora e outros que vieram especialmente da então capital federal, Rio de Janeiro.


Já nos anos 1920, Alfredo desaparece da vida pública e seu vulto só era visto nas noites macaenses, perambulando pelas ruas ermas da cidade, ou sentado ao fundo de um café. Nos anos 30 vai morar na capital, hospedando-se em hotéis e andando à toa pela cidade, pobremente vestido e em estado de comiseração. Houve quem dissesse que o infeliz filho do importante comerciante de Macahé já não estava em boas condições mentais. Quando voltava para Macaé, encerrava-se em sua casa já arruinada e saía à noite talvez para evitar o contato com o público.


Sobre as apólices, sabe-se que do total de 449 deixadas por Albino Soares, 218 foram partilhadas aos herdeiros (filhos e viúva), sendo que para Alfredo caberia receber somente 83 delas. Mas com a descoberta de mais 231 apólices no toilette de sua casa na Rua da Praia, presume-se que Alfredo se apoderara de todas elas, usufruindo por muito tempo dos juros que não foram levados a penhora, consequência da demanda que a justiça do Estado do Rio procurava solucionar.



Fato ou fake? O “tesouro encantado” escondido nos Cavaleiros


Segundo reportagem do jornal “A Noite”, do ano de 1937, que é nossa principal base de apoio na construção deste episódio sobre o caso de Alfredo Soares e sua família, a fazenda Cavaleiros, que pertencia ao coronel José de Lima, neto de Duque de Caxias, oferece um novo capítulo para a complicada história da herança de Albino Soares Homem. Segundo uma lenda antiga e conhecida na cidade, em algum lugar da fazenda foi depositado um grande tesouro pertencente ao antigo comerciante português.


Esta vultosa riqueza, ao que parece, é a mesma que diz respeito ao tesouro do pirata que naufragou nas águas de Cabo Frio. Moradores macaenses mais antigos comentavam que forasteiros nacionais e estrangeiros já tentaram, sem sucesso, encontrar o tesouro encantado. Consta que Albino Soares possuía um mapa que indicava com precisão o local exato do tesouro, que continha barras de ouro e de prata, além de moedas das coroas portuguesas e espanholas. Outro rumor é que, ninguém tendo encontrado o tal mapa do tesouro, Albino Soares o tenha atirado nas águas do Atlântico.



Referência(s):




Fundo Musical:

  • Em edição ...





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