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  • magnoeliasbatera

Episódio 57. Macaé vence Festival Nacional de Cantigas de Umbanda.


(Créditos de imagem: Instagram @xangomeninomacae)

OUÇA O EPISÓDIO:



(Pesquisa que teve como ponto de partida publicação do Xangô Menino em sua página do Instagram no dia 28/03/2022);



(Bloco 1)


Umbanda e os Orixás


No período colonial, ao chegarem no novo mundo, os africanos foram forçados e condicionados a uma vida somente de trabalho e de esquecimento de suas raízes. Já na travessia do Atlântico, passavam por muitas provações. Muitos entravam em depressão, não comiam e nem bebiam, adoeciam e eram jogados dos navios tumbeiros em alto mar. Chegando em terras brasileiras, continuavam as humilhações e privações. Houve luta e resistência, mas isso é no plano físico, pois a dor não era só na carne. Doía a alma. Como lidar com tudo isso senão professando suas crenças, buscando conexões espirituais com seus ancestrais? Quem poderia ouvir suas preces e de que maneira se daria essa comunicação?


"Laroiê, Exu!" Assim se faz saudação a essa entidade responsável pela comunicação entre os homens e os Orixás. Ele abre os caminhos para superar as dificuldades e conquistar os objetivos. Com o passar do tempo, seus descendentes afro-brasileiros mantiveram o culto aos Orixás. Os Orixás são as forças da natureza, protagonistas do mundo mítico-histórico da ancestralidade negra, cuja primeira referência é o antigo Egito, berço das civilizações africana e ocidental. Assim já afirmava Cheikh Anta Diop.


Nas senzalas brasileiras, os negros escravizados costumavam incorporar o que hoje chamamos de Pretos-Velhos que, para eles, eram antigos escravos. Ao incorporá-los, compartilhavam conselhos e consolo aos que recebiam a entidade. Entretanto, foi através da Umbanda que os rituais tomaram contornos definidos. A Umbanda é uma junção de elementos africanos, através dos orixás e o culto aos antepassados; indígenas (através de seus caboclos e os elementos da natureza; católicos, através do cristianismo e seus santos que foram sincretizados pelos negros africanos; e os espíritas, com seus fundamentos sobre reencarnação, lei do karma, progresso espiritual, etc. A Umbanda prega a coexistência pacífica e o respeito ao ser humano, à natureza e a Deus, respeitando todas as manifestações de fé, independentes da religião. Em decorrência de suas raízes, a Umbanda tem um caráter eminentemente pluralista, compreende a diversidade e valoriza as diferenças. Não há dogmas ou liturgia universalmente adotadas entre os praticantes, o que permite uma ampla liberdade de manifestação da crença e diversas formas válidas de culto.

Denúncia do jornal conservador Monitor Macahense, edição de 27/07/1866, sobre um agrupamento Cambembe na Boa-vista, que se reunia à noite para realizar seus rituais sagrados. Boa-vista é uma localidade que margeia o Rio Macaé, já bem próximo de sua foz, local onde já funcionou o Porto do Limão e algumas redações de jornal.


Portanto, a Umbanda é singular, autêntica, nasceu no Brasil como resultado da usurpação da dignidade do homem negro africano e seus descendentes, pois se tornou um marco de sincretismo religioso e de organização comunitária. Ela reinterpreta os valores, as visões históricas e os acontecimentos nacionais, dialogando com a realidade social de forma a articular, pelos rituais, a inclusão social, sendo um meio de elaboração de experiências sociais traumáticas de determinados grupos sociais.

Os Pontos e a Curimba


Desde a Antiguidade a música é associada a um universo transcendente e mágico, empregada nos mais diversos rituais religiosos com finalidades de ligação, louvação, cura e contemplação a Deus e suas criações. Os ensinamentos, a atuação dos sagrados Orixás e Guias Espirituais em seus campos de força, entre outras características, são musicalizados e transmitidos através dos pontos, ressaltando a oralidade como instrumento de perpetuação ancestral, base da identidade umbandista. Os pontos cantados trazem à gênese da Umbanda, sua ancestralidade, a benevolência, a fé. A música enquanto ferramenta de professar o espiritualismo e a perpetuação de mensagens e conhecimentos advindos do Plano Espiritual vem de tempos imemoriais. O ponto cantado é a reza do umbandista, os corações se abrem ao plano superior e através das palavras entoadas é que a se manifesta a fé, a devoção e a gratidão.


O ponto cantado possui magia agregadora e vital à construção de vibrações positivas atuantes no terreiro. Contudo, é importante ressaltar que cada templo, cada terreiro administra os pontos de acordo com seus fundamentos e sessões específicas. Através destes cânticos que os umbandistas exteriorizam sua fé e entram em contato direto com os Pilares Espirituais que os acompanham. As palavras nas canções geram frequências vibratórias vitais, necessárias e indispensáveis aos trabalhos mediúnicos. As preces, além de serem cantadas seguidas de palmas, evoluíram com a miscigenação dos toques de nação Angola, Congo, Ketu, Nagô, no uso dos atabaques. Normalmente usam-se três tambores de atabaque: o Rum (mais grave), o Rumpi (médio) e o Lê (agudo), que podem ser acompanhados de outros instrumentos percussivos como os ganzás, agogô, macumba, xequerê, pandeiro, chocalhos, adjá, etc. Quando não há um coral no terreiro, responsável pelo canto dos pontos e hinos, os pontos são cantados pelos ogans, e por todos os filhos de santo. À todo esse conjunto responsável pela música e dança no terreiro, dá-se o nome de Engoma, mais conhecido por Curimba.


Instrumentos sagrados nas religiões de matrizes africanas, os atabaques possuem tamanhos variados e funções específicas no contexto das curimbas. Da esquerda para a direita: Lê (tambor menor e mais agudo); o Rumpi (tamanho médio) e o Rum (o maior de som grave).



O Orixá dos Tambores


O Tambor (Ilu), segundo os povos tradicionais de matriz africana, é uma divindade. Ele tem a sua própria voz, o espírito capaz de conectar os dois mundos. Ayán, é ele que conecta os seres humanos às luzes. Parafraseando o educador Paulo Freire: “Cultura é o tambor que soa pela noite adentro. Cultura é o ritmo do tambor. Cultura é o gingar dos corpos do Povo ao ritmo dos tambores”. (FREIRE, 1989, p.83-84). Seja nas rodas de Capoeira, de Samba, Batuque e Umbanda, sejam das festas populares: dos Carnavais, Frevos, Maracatus, do Axé e Afoxé, do Pagode ou mesmo para incentivar guerras, o Tambor não tem marca, fala de tradição, de história, da alma afro-brasileira, de um Tambor que sensibiliza pela sua sonoridade, ressonância e vibração. Portanto é um instrumento sagrado. Mas ele não emite seus sons sagrados sem o toque das mãos de alguém. Aquele que toca o tambor (o Onilu) também é considerado um elemento sagrado. É através de suas mãos que o tambor emite vibrações capazes de liberar energias e despertar os ancestrais. Os tambores são a morada de Anyan, que não se confunde com Ayán, uma árvore cuja madeira é muito forte, dificilmente cortada pelo machado.

(Bloco 2)



Macaé no Festival Nacional de Cantigas de Umbanda


Os ogans faziam vibrar seus atabaques emitindo sons vibrantes como nas danças africanas. Platéia e cantores se confundiam no terreiro, prestando saudações aos Pais de Santo com cantigas de Umbanda para Iansã, Matamalê, Oxalá, Sete da Lira, Iemanjá e Darumê, recebendo os saravás no I Festival Nacional de Cantigas de Umbanda, realizado em 1971. O grande público reunido na sede do Engenho de Dentro Atlético Clube, no domingo (25/07) aguardava a hora da apresentação das quinze finalistas. Adeptos da Umbanda e curiosos se misturavam para formar as torcidas de um Festival de Canção diferente, sem vaias e com muita fé para a louvação espiritual.


Dentre as 15 cantigas finalistas, uma em especial: "Agô para Vovó Cambinda" (ou "Agô para o povo de Angola"), cuja autoria é do antigo Pai-Pequeno Adilson Figueira da Silva, que também foi vereador de Macaé nessa época. Um Alá carregado por quatro filhas entra em cena protegendo a vovó Cambinda. De cachimbo na boca e completamente curvada, é a preta velha que apresenta a cantiga. O cheiro do incenso atinge os espectadores e os atabaques rangem. Quem recebe a preta velha é o Banda Silê João Sérgio de Lima, da Tenda Espírita Xangô Menino (antes denominada "Abassá de Banda Silê "). Toda a casa se mobilizou e Macaé se fez representada no festival.


Além de fazer ensaios intensivos para a ocasião, envolvendo os filhos-de-santo e diferentes pessoas, João Sérgio elaborou cenografia, indumentárias, coreografia da apresentação, canto, acompanhamento de atabaques, enfim, todos os detalhes necessários. Ao participar do festival, disputaram eliminatórias, o que exigiu gastos e logística de transporte ao Rio de Janeiro e retorno. Classificados para a final, fizeram uma caravana de umbandistas de Macaé, com convidados de outras casas macaenses de Umbanda. Com esta forte participação, Macaé logra sua vitória no I Festival Nacional de Cantigas de Umbanda. Obtiveram troféus de 1º lugar de melhor intérprete cantor o pai Banda Silê João Sérgio; melhor cenografia; apresentação; ou seja, todas as premiações do festival. Foi uma enorme vitória e sucesso para o Xangô Menino na época, com direito a reportagens em jornais do Rio, como o Última Hora, por exemplo. Foi convidada para representar a nossa mãe e mentora Vovó Cambinda, uma amiga do Xangô Menino chamada Marli, que ficou tão famosa devido ao sucesso da apresentação, passando a ser chamada de “Marli Cambinda”.


Reportagem do periódico "O Jornal" sobre a final do 1º Festival Nacional de Cantigas de Umbanda, em um domingo de 25/07/2023, há exatos 52 anos atrás.


Em 1972, no Rio de Janeiro, houve o 2º Festival Nacional de Cantigas de Umbanda, promovido novamente por Mário Barcellos. O Xangô Menino volta a participar e se classifica para a final. Desta vez a cantiga inscrita, também de autoria do Pai-Pequeno Adilson Figueira da Silva, homenageia Ogum, seu Orixá de cabeça: é o ponto “Ogum Cavaleiro Branco”. Mais uma vez o intérprete foi o Pai Banda-Silê João Sérgio, conquistando o 2º lugar.



Sobre o Festival


Os Festivais de Cantigas tinham por finalidade divulgar o acervo cultural religioso da Umbanda, fortalecer e manter as tradições religiosas de matriz africana e renovar o repertório do gênero. Consta no periódico "O Jornal" que o 1° Festival Nacional de Cantigas de Umbanda realizou-se em 1971, promovido pelo SORE (Supremo Órgão das Religiões Espíritas), na rua Pernambuco nº 1161. Outro fato importante sobre a realização dos primeiros festivais, era a intenção de aplicar os fundos angariados para a aquisição da sede própria do SORE. O Babalorixá Mário Barcellos, organizador do festival, afirmava que o evento “é um grande espetáculo de fé, cores, ritmo e beleza, com participação dos mais tradicionais terreiros da nossa terra”. As músicas que participam do festival se comparam com aquelas que os ogans (uma espécie de mestre de canto) cantam nas aberturas dos “trabalhos” dos terreiros de Umbanda e Candomblé ou quando provoca a incorporação de um orixá num “filho de santo”, bem como a sua preparação para a ló (desincorporação).



Xangô Menino


Em live realizada na página do Instagram de Zuleika Menezes, em 16 de agosto deste ano, o Banda-Silê João Sérgio de Lima conta os bastidores do que veio a se tornar a Tenda Xangô Menino. Tudo começa ainda na infância. Em 1960, com 14 anos de idade, João Sérgio vai com sua avó ao terreiro de Ogum Yara, dirigida pela Iyalorixá Mãe Noca. Durante os trabalhos, ele se manifestou, percebendo que aquilo que sentira era algo familiar que já ocorria desde os seus 8 anos de idade, mas ainda não entendia o porquê. Permaneceu por lá durante 6 anos e com 20 anos de idade ele, o então cambono Adilson Figueira da Silva e Mãe Noca abrem um terreiro na casa de Delvani Pinheiro da Costa, a tia Delva, em 27 de setembro de 1966.


Fundado pela yalorixá Mãe Noca em 23/04/1926, o Centro Espírita Ogum Yara caminha para o seu centenário e é um verdadeiro patrimônio histórico de Macaé, localizado na Boa-vista. Terreiros Ancestrais e histórias ancestrais como a do Ogum Yara precisam ser preservados, apoiados e protegidos por fazerem parte da história do município. É o que defende o Babalorixá macaense Magnum Amado, que também afirma que a transformação dos terreiros históricos em Casas Ancestrais é de interesse histórico-cultural, inclusive como espaços culturais de fomento pelo Poder Público.

(Imagem: Facebook "Centro Espírita Ogum Yara Macaé-RJ")


Banda-Silê ainda lembra que Mãe Noca divergia da forma livre que vó Cambinda trabalhava no Ogum Yara, pois não se dava importância a função do cambono. Isso gerou controvérsias e contribuiu com a ruptura de alguns dos membros, culminando na criação da Casa "Abassá de Banda Silê", nome de origem do Xangô Menino. Pouco tempo depois, os membros do Centro compraram um grande terreno onde, até hoje, está localizado o Xangô Menino, no bairro Miramar. No início, era uma casa simples e pequena, mas com o passar dos anos, foi se tornando o maior Centro de Umbanda de Macaé e um dos maiores do Brasil em termos de espaço físico. São mais de 5 mil metros quadrados de área, com exuberante espaço verde, característica forte da religião que é muito ligada à natureza. Atualmente, o Xangô Menino tem cinco casas filiadas, sendo uma no bairro Lagomar, três em Araruama e uma em Campos dos Goytacazes..


Em 27/09/1966, dia de São Cosme e São Damião, é fundado o Xangô Menino, uma casa umbandista fundamentada em Nação. É considerado o maior Centro de Umbanda de Macaé e um dos maiores do Brasil em espaço físico, com mais de 5.000m² de área, localizado no bairro Miramar.


E assim terminamos mais um episódio de HMM, prestando uma singela homenagem ao Xangô Menino, mostrando a importância histórica que essa casa espírita, assim como muitas outras, representa em Macaé. E, claro, através da música narramos este lindo momento ocorrido há 52 anos atrás, em 25 de julho de 1971, onde Macaé recebeu o seu Troféu no I Festival Nacional de Cantigas de Umbanda. Não achou essa história bonita? Talvez o preconceito continue nos cegando, a ponto de não aceitarmos a realidade como de fato ela é. Macaé possui muitas casas espíritas e muito da história local, e também do Brasil, não se conta somente admirando monumentos arquitetônicos bem preservados, ou seja, através de seus patrimônios materiais. Há que se recontar muito de nossa história através de nosso patrimônio imaterial, da oralidade, dos saberes, da música e da fé.


Ficamos por aqui, até breve e um grande abraço!


FIM.



Referência(s):



Fundo Musical:


  • Hino da Umbanda. CD Centro Afro Xangô Agodô - Umbanda vol. 1; Ano: 2010;

  • "Pontos de Louvação à Oxum". Áudio extraído de vídeo publicado no canal do Youtube do Xangô Menino Macaé;

  • Solos de Atabaque. Do disco “Cantos Religiosos”;

  • Vovó Cambinda de Guiné. Um dos pontos em louvação à esta preta velha;

  • Adarrum. Do disco “É de Umbanda - Toques”. Ano: 2006.

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