HM Macahé
Episódio 51. Curiosidades do Benê - o Avião e o Aviário. (Parte 2)

Benedicto Lacerda (à esquerda) posa na foto com o seu avião Junker Tri-motor ao fundo. Ao lado dele está o famoso e notável Trio das grandes vozes dos anos 1930 e 40, o Trio de Ouro, composto por Nilo Chagas, Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. Este último, também proprietário do avião.
(Fonte: Revista do Rádio, ed. 46. Ano: 1950)
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O "Avião da Alegria"
Não é de hoje que o rádio tem oferecido as mais completas e variadas situações e os mais disparatados acontecimentos. Por isso, quando soubemos que Benedicto Lacerda e Herivelto Martins eram proprietários de um avião de passageiros, não deixamos de achar tudo muito simples e comum. Entre o fato noticiado e o encontro de Benedicto foi tudo obra de um instante. Encontramos o popular compositor e flautista e ficamos a par de como conseguiram o belo e valioso presente.
Depois dos primeiros goles de uma cerveja gelada, Benedicto nos relatou que tudo partira do Dr. Ademar de Barros. Amigos íntimos do governador de São Paulo, Benedicto e Herivelto eram sempre solicitados a comparecer às festas do palácio e nunca deixaram de atender às solicitações do grande político bandeirante. Certa ocasião, em palestra, o Dr. Ademar perguntara a Benedicto e Herivelto o que é que eles tinham mais vontade de possuir. Brincalhão e sorridente, Benedicto declarou que estava juntando dinheiro para comprar um avião. Ao que o governador declarou que possuía um para vender. Certos de que era brincadeira, Benedicto e Herivelto perguntaram o preço, e ao saberem que o aparelho custava 600.000 cruzeiros, pediram que lhes fosse dado um contrato de venda. O Dr. Ademar de Barros chamou o seu secretário e providenciou a papelada. E, assim que tudo ficou assinado e pago, declarou: "a partir deste momento, são proprietários de um avião Junker de três motores, com capacidade para 18 passageiros e três tripulantes."
A princípio, ficamos meio atoleimados mas, já no dia seguinte, éramos surpreendidos no Campo de Congonhas pela presença do comandante Nelson La Case de Miranda, que nos levou visitar o aparelho e declarou estar à nossa disposição para nos trazer ao Rio. A partir deste dia somos proprietários de um belo aparelho, tri-motor, marca Junker, com capacidade para dezoito passageiros e que até bem pouco tempo levou a Santos a Orquestra de Ruy Rei. Satisfeita a nossa curiosidade, Benedicto nos convidou a visitar o aparelho, o que fizemos rumando para Manguinhos, onde tivemos oportunidade de visitar o "Avião da Alegria", nome pelo qual foi batizado o PP-DZY, avião que nos levou rapidamente à Fábrica Nacional de Motores, num vôo de cinco minutos.
O comandante Nelson La Case, piloto do aparelho, tem mais de oito mil horas de vôo e, antes de comandar o aparelho de Benedicto e Herivelto, foi piloto da Panair, da Aerovias e bem assim como instrutor de vôo cego. É um tipo alegre e folgazão que está a todo momento contando novas e mais recentes histórias sobre aviação, rádio e política. Durante a viagem que fizemos até a Fábrica Nacional de Motores, a verve de Benedicto esteve casada à alegria do comandante Nelson e às piadas de Herivelto Martins preocupado com Cumulus, Nimbus e outras nuvens que se agrupam nos céus para atrapalhar a vida dos pilotos.
Na volta, Benedicto teve oportunidade de nos mostrar mais três motores novos ainda encaixotados que irão substituir os atuais, tão pronto atinjam as mil horas de vida que a fábrica garante. Falando-nos do avião e do seu nome, Benedicto nos declarou que o Avião da Alegria servirá para conduzir artistas do Rádio em tournées pelas cidades do Brasil e por isso é que recebeu o nome que ostenta.
Estão, pois, de parabéns os artistas do rádio no Brasil e talvez, dentro em breve, Benedicto e Herivelto deixarão o "broadcasting" para se dedicarem à navegação aérea comercial, pois não tardará muito que em que o Avião da Alegria se tornará insuficiente para atender as necessidades de expansão artística dos radi-astros cariocas.
O Aviário

Não é de hoje que Benedicto Lacerda gosta de lavoura e, nos seus fins de semana, quem o conhecer, verá que não passa um sábado e um domingo no Rio, sempre seguindo no seu carrinho para Macaé onde comprou um sítio e desde 1948 vem se dedicando ao trabalho da terra.
Apesar de agricultor aos sábados e domingos, Benedicto não abandonou sua flauta e, foi assim que, entre a música e a agricultura, dentro de dois anos conseguiu uma fazenda de 16 alqueires, lavoura de feijão, mandioca, milho e cana-de-açucar. Não satisfeito, procurou criar gado leiteiro e adquiriu gado Jersey que lhe fornece, em média, 150 litros de leite por dia. Montou em suas terras um moinho para beneficiamento de farinha e instalou um alambique para destilar 100 litros diários de aguardente de cana. Estava feito o sonho do flautista. Apesar disso continuou trabalhando e sua fazenda crescendo dia a dia. Este ano, porém, Benedicto Lacerda deixou a Tupi e continuou nos seus trabalhos de agricultura, viajando para Macaé constantemente e só parando quando adquiriu um avião em parceria com Herivelto Martins, para se entregar a um novo ramo de negócios: o de transportes aéreos. Pouco tempo durou a febre aeronáutica. Depois de desfazer-se do avião, Benedicto resolveu comprar uma granja.
Se bem pensou melhor o fez e, em janeiro, ainda do ano corrente, comprou um aviário da Glória, em Campo Grande, na estrada do Morro Cavado, 75, onde, de pronto, instalou seus galinheiros com 2.500 galinhas. Estava dividida sua atividade entre a fazenda do Estado do Rio e o aviário de Campo Grande.
Encontramos Benedicto Lacerda na rua, quando o conhecido compositor e músico saía de um restaurante onde fôra entregar uma encomenda de ovos. Depois das naturais expansões de amizade, ele nos convidou a entrar no seu carrinho, pois vinha para a cidade e poderia levar-nos onde quisessemos. Iniciou-se, então, nossa palestra:
Revista do Rádio (RR): É verdade que você comprou outro sítio?
Benê: Sim, comprei uma granja, ou melhor, um aviário. o aviário da Glória, onde tenho 2.500 galinhas das raças Leghorn ou New Hampshire. E comprei barato, pois me custou 290 mil cruzeiros.
RR: Quantos ovos você colhe por dia?
Benê: De 1.300 a 1.500.
RR: Mas é muito ovo!
Benedicto sorri de nossa admiração e exclama:
… A população do distrito federal é muito grande e todo mundo gosta de ovos. Além disso, os restaurantes compram toda a produção que você tiver. Olha aqui: só o bar do Oliveira, ali no terceiro andar da rádio Tupi consome nada menos do que 40 dúzias por semana.
RR: Sim senhor! Isso é uma verdadeira exploração da galinha pelo homem!
Continuou rindo e dirigindo o seu carro o autor de "Normalista" de pronto para novas perguntas, por isso não demoramos…
RR: Você abandonou o rádio?
Benê: Não. Não abandonei. Porque não poderia abandonar uma amiga fiel de tantos e tantos anos… minha Flauta! Só voltarei, porém, para fazer programas montados, serenatas, músicas antigas, folclore. Não para fazer introduções nas músicas de calouros ou em programas sem compromisso.
RR: E agora, sua atividade é só de agricultor e avicultor?
Benê: Não. Como presidente da SBACEM, dou meu pontual expediente, todos os dias, na sede de minha entidade.
RR: Só?!
Benê: Não. Continuo compondo ativamente e, para este carnaval, já estou armado: tenho nada menos do que 8 músicas prontas, cada qual mais bonita, além de choros gravados. Como você sabe, jamais me separei de minha flauta e, pode ficar certo, é a única de que minha mulher tem ciúmes.
RR: Você continua com a fazenda de Macaé?
Benê: Claro! E ela já sta valendo o triplo do que me custou. A produção dá para mantê-la e ainda ainda juntar uns cobrinhos.
RR: Você era pobre, não era?
Benê: Sim. Ganhei tudo o que tenho à custa da música, de minhas composições, de minha atividade artística. Sou radialista desde que o rádio surgiu. Além disso, sempre me desdobrei, trabalhando no rádio, nos cassinos e gravando, quer como solista quer como acompanhante. Depois, nunca fui esbanjador, pois segui o lema do vintém poupado, vintém guardado! Trabalhei sempre para proporcionar à minha família o conforto merecido e, como exemplo de tudo está meu filho que, este ano, sairá da Escola de Aeronáutica como piloto, o Aspirante a segundo-tenente aviador Oswaldo Lacerda.
RR: É seu filho único?
Benê: Não. Tenho duas filhas casadas e a caçula que está no Instituto de Educação… e ainda a velha Louzada!
RR: Velha Louzada? Quem é?
Benedicto solta uma das suas boas gargalhadas e, sem perder o volante, exclama:
Pra quem havia de ser?! Minha mãe, que mora comigo, de 76 anos de idade e que, juntos com meus filhos e minha mulher, forma o mais próximo grupo de fans.
RR: Você passa os fins de semana no sítio?
Benê: Sim. Sábados e domingos.
RR: E durante a semana?
Benê: Fica lá meu genro, que é meu sócio e administrador, junto com minha filha. As segundas-feiras ele desce comigo e vai entregar as encomendas e eu sigo para a SBACEM onde vou cuidar do expediente.
RR: Pelo que vemos, você sempre gostou da vida de campo, não é?
Benê: Sempre. Meu pai foi agricultor e eu nasci em meio às coisas da roça, onde cresci amando a terra, os animais, enfim, tudo o que poderá tornar o Brasil mais rico e independente. Enquanto o homem amar a terra, esta lhe será fiel.
RR: Seu aviário, que tamanho tem?
Benê: vinte e oito mil metros quadrados.
RR: Quando é que você pretende abandonar a vida artística?
Benê: Quando a velhice chegar. Enquanto me sentir brotinho, apesar dos anos, vou tocando para frente e trabalhando, feio e forte, para garantir aos meus uma velhice feliz e despreocupada.
RR: Agora, uma última pergunta: você já entendia de avicultura?
Benê: Não. Tudo o que sei aprendi com o mestre Bartolomeu Rabelo, o melhor professor que tenho encontrado, o maior avicultor do distrito federal, pois incuba, por mês, um milhão de ovos.
… Descemos do seu Chevrolet, modelo antigo, que percorre tantas estradas e conhece como ninguém as preferências de Benedicto Lacerda, o homem que deixou o rádio para ir plantar batatas e cuidar de galinhas e ovos.
Referência(s):
Revista do Rádio, Ed. 46, ano: 1950. Disponível em: http://memoria.bn.br/pdf/144428/per144428_1950_00046.pdf;
Revista do Rádio, Ed. 118, de 11 de dezembro de 1951. Disponível em: http://memoria.bn.br/pdf/144428/per144428_1951_00118.pdf.
Fundo Musical:
A Lapa, samba de Benedicto Lacerda e Herivelto Martins lançado no carnaval de 1950. Gravado em 9 de novembro de 1949, com a voz de Francisco Alves;
Morro de Santo Antônio, samba de B. Lacerda e H. Martins. Gravado em 1950 e interpretado pelo Trio de Ouro;
Dinorah, Choro de B. Lacerda e José F. Ramos. Gravado e lançado em 1935 pelo Regional de Benedicto Lacerda;
No Sarguêro, samba de B. Lacerda e Ildefonso Norat. Gravado pelo Gente do Morro, em 1930. Gravadora: Brunswick;
Mistura e Manda, Choro de Nelson Alves. Interpretado por Gente do Morro com solos de Flauta de B. Lacerda. Gravado em 1934 pela Odeon.
FIM.