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  • Foto do escritorHM Macahé

Episódio 50. Curiosidades do Benê - Assim me apaixonei pela... Flauta. (Parte 1)


OUÇA O EPISÓDIO:


Neste dia 14 de março, comemoramos o aniversário dos 120 anos do natalício de nosso eterno flautista Benedicto Lacerda. E o Histórias da Música em Macahé preparou uma série de curtos episódios sobre curiosidades de sua vida e carreira artística. Vamos à primeira parte…



Parte 1 - Assim me apaixonei pela… Flauta.


Encontrava-me a sós no meu apartamento ouvindo rádio, quando o locutor anunciou uma de minhas gravações, em solo de flauta. Meu pensamento se fixou naquele instrumento que é a razão de ser do meu sucesso. Deixei-o vagar… e lembrei-me da pequenina cidade de Macaé, no Estado do Rio, onde nasci e onde comecei a tomar gosto pela Flauta. Recordo-me que, certa vez, ficando de castigo, observei uma professora estudando flauta. Apaixonei-me por aquele instrumento pequenino e de som agradável, e quase todos os dias fazia o possível para ficar de castigo, a fim de aprender a manejá-lo. Desse modo, dentro de pouco tempo fui expulso do colégio.


Com a idade de dez anos vim morar no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, comprei uma flautinha, dessas que as crianças costumam ganhar de Papai Noel e comecei a criar melodias. Assim, ao invés de jogar "peladas", brincar de pique ou fazer travessuras, passava o dia inteiro naquele "fi-rim-rim". Tempos depois ingressei numa oficina, como aprendiz de mecânico. Em seguida trabalhei na Cia. do Gás e exerci muitas outras profissões, mas nunca abandonava minha modesta flautinha. Ao completar dezessete anos, eu já estudava a arte de executar aquele instrumento com o velho professor Bernardino o qual, vendo a minha paixão pelo mesmo, vendeu-me, certo dia, uma de suas flautas por cento e cinquenta cruzeiros. Como fiquei alegre com a compra que realizara!


Mais tarde, ingressei como aprendiz de música no batalhão onde servia. Dando baixa, entrei para o Colégio Militar, sendo um dos cento e vinte integrantes da banda de música. Em 1927, fui trabalhar como músico em alguns cinemas. Pouco depois, com o aparecimento do cinema falado, a turma que vivia como eu ficou em pânico. Muitos dos meus colegas foram ser mata-mosquitos. Eu, entretanto, não dei o braço a torcer. Queria viver apenas do meu instrumento e assim fui, então, tocar na Cia. de Aracy Cortes, percorrendo quase todo o norte e o sul do país. Consegui, também, um modesto lugar na antiga rádio Sociedade, tendo atuado ao lado de Francisco Alves e Carmem Miranda que, nessa época, recebiam vinte mil réis por programa.


Da esq./dir.: Aracy Cortes, Carmen Miranda e Francisco Alves. Três importantes cantores na carreira de Benedicto Lacerda, nos anos de 1930.

(Montagem: Magno. Imagens: Google)


Quando o Teatro São José pegou fogo, fundou-se a Casa do Caboclo, que ficava situada na Praça Tiradentes. Foi lá que surgiram muitos elementos de cartaz hoje em dia, como Dercy Gonçalves, Jararaca, Ratinho e inúmeros cujos nomes me escapam no momento. Em 1933, fui inaugurar a Rádio Guanabara, cujos estúdios ficavam na Rua da Alfândega. Comecei, então, a produzir bastante, com sofreguidão e datam deste período os meus maiores sucessos. Dois anos depois, com o meu regional, fui inaugurar outra emissora carioca: a Rádio Tupi. Antes, juntamente com Alzirinha Camargo e Francisco Alves, inaugurara a Rádio El Mundo, de Buenos Aires, a Gaúcha, de Porto Alegre e, como integrante da primeira Orquestra brasileira carnavalesca, visitei Montevidéu. Lembro-me que a minha marchinha "Jardineira", que fôra gravada por Orlando Silva, fez muito sucesso na época.


Orlando Silva canta a marchinha carnavalesca "A Jardineira" no concurso realizado pelo Departamento de Propaganda e Difusão Cultural, em pleno Estado Novo. O ano é 1939, e a marchinha composta por Benedicto Lacerda e Humberto Porto vira febre nacional, e até hoje é tocada nos bailes de carnaval.

(Fonte: Jornal "Carioca", ed. 169, ano: 1939)


Depois passei para o "Copacabana", onde trabalhei durante seis anos, saindo quando o governo acabou com o jogo nos cassinos. Em 1938, pertenci ao "cast" da veterana Rádio Clube do Brasil. Da A-3 alguns anos mais tarde, retornei à Rádio Tupi. Quando, por alguns momentos, recordo fases da minha vida, o nome de Pixinguinha (meu amigo de todos os instantes) vem logo ao meu pensamento, e lembro-me da maneira como vim a conhecê-lo. Foi assim: certo dia, numa de minhas audições, tive o primeiro contato com ele. Como era seu apreciador de longa data, fui me aproximando e passamos a ser amigos. Com o passar do tempo, ele mais me apreciava e eu a ele. Nesse interim, aparece um amigo de nós dois, que teve a ideia de reunir-nos em uma dupla. Veio a mim e disse que Pixinguinha perguntara se aceitava a formação do duo. Afirmei que sim e soube, mais tarde, que ele fizera a mesma pergunta ao Pixinguinha. Como todos os dois aceitassem a ideia, formamos a dupla Pixinguinha-Benedicto Lacerda, a qual, modéstia à parte, conseguiu grandes sucessos.


Acontece que com minha ida para o PRG-3, quase que a nossa dupla se desfaz, pois o meu amigo pertencia à Nacional. Assim, só nos encontrávamos nas gravações. Resolvi, então, solicitar ao Vítor Costa que cedesse Pixinguinha à Tupi, para não prejudicar o duo. O conhecido radialista atendeu ao meu pedido, o autor de "Carinhoso" foi contratado pelo "Cacique do Ar" e a dupla continuou a sua marcha de sucessos.


Uma bela imagem que revela a parceria de dois ícones de nossa música popular: Benedicto Lacerda e Pixinguinha. Fato indiscutível é que, da parceria destes dois gigantes, uma vasta obra foi produzida. As execuções melódicas da Flauta Transversal de Benê com os contrapontos do Saxofone Tenor de Pixinguinha, com certeza elevaram o nosso cancioneiro popular a um novo patamar.


Nessas poucas ocasiões em que repasso os principais acontecimentos de minha existência, não posso deixar de pensar na música popular brasileira que, infelizmente, é tão mal cuidada, pois não se lhes dedicam orquestrações especiais, e ela o merece. Muitos falam dos nossos músicos, dizendo que eles escolhem músicas americanas, esquecendo as nossas. Em parte eles têm razão, porque as músicas importadas vêm com orquestrações bem feitas, bem cuidadas. Se cuidássemos mais de nossa música, tal não aconteceria. Na Argentina, as melodias mais executadas, depois das nacionais, são as brasileiras. Em seguida, vêm as americanas e as mexicanas. Na terra de Perón, usa-se um processo de valorização da música muito interessante: num programa variado, a orquestra apresenta um belo arranjo de música portenha, entrando logo em seguida um Samba ou um Fox "mal tratado". Assim, desvalorizam a música dos outros em proveito de sua própria.


Temos grandes arranjadores, tais como Radamés Gnatalli, o número um, Léo Peracchi, Alberto Lazzoli e Pixinguinha. São esses poucos que cuidam de nossa música. Se não fossem eles, coitado do nosso cancioneiro popular.



Referência:




Fundo Musical:


  • Myrthes, valsa de Benedicto Lacerda acompanhado por Gente do Morro. Gravado em 1933 pela Odeon;

  • A Jardineira, de Benedicto Lacerda e Humberto Porto. Gravado em 1938 e interpretada pela voz de Orlando Silva;

  • Ainda me recordo, de Benedicto Lacerda e Pixinguinha. Gravado em 1947 pela RCA Victor;

  • Flauta e Pandeiro, de Benedicto Lacerda. Gravado em 1945 pela RCA Victor com o seu Regional do Choro.

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