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  • HM Macahé

Episódio 49. Especial - O Tocador de Realejo.


L'orgue de Barbarie. Litografia de Paul Gavarni. 1844.

OUÇA O EPISÓDIO:



“A fotografia é para a natureza como o realejo é para a música” - Anaïs Fargueil, atriz francesa do séc. XIX.


O Órgão


A origem do órgão, segundo a sua etimologia do antigo grego "organon", que significa "máquina", não evoca um instrumento musical mas sim um meio mecânico. Voltemos a 2.000 anos atrás, na Alexandria, para encontrar tubos de diferentes tamanhos. No século III AEC, o engenheiro Ktesibios de Alexandria, considerado o pai da pneumática, inventou o "Hydraule" (órgão hidráulico) regulado por um sino de ar imerso em água.


Diz-se, então, que os romanos tiveram que usar este instrumento nos circos para pontuar os jogos e provavelmente para abafar os gritos das vítimas. O romancista Petrônio, em seu livro "Satyricon", nos ensina que no circo romano o Hydraule acompanhava as corridas de bigas. Os romanos também tinham pequenos órgãos que usavam nos teatros. Os gregos e romanos construíram fontes musicais imitando pássaros. Fragmentos desses pequenos instrumentos do período romano foram encontrados em escavações arqueológicas em Avenches, na Suíça, e em Aquincum, na Hungria. O órgão sofreu um período de desaparecimento na Europa Ocidental durante os séculos IV e V, devido a múltiplas invasões bárbaras. Depois das grandes invasões, o órgão permaneceu em Bizâncio, depois apareceu na Idade Média com os soberanos europeus: um órgão foi oferecido a Pepino, o Breve, em 757, por enviados de Constantino V, imperador de Bizâncio. Então, o instrumento se espalhou por toda a Europa, em abadias e igrejas cristãs. O desenvolvimento do órgão, sem dúvida, foi facilitado pelo monge e engenheiro Gerbert d'Aurillac, que construiu órgãos e se tornou papa sob o nome de Silvestre II, no século X.

Órgão hidráulico de Ktesíbios, segundo a descrição de Heron de Alexandria. Fonte - Baumeister, Monumentos da antiguidade clássica. 1885. Volume I, página 565.

O Realejo


A história do realejo remonta ao século XVI, mas só obteve uma maior popularidade no séc. XIX. Apesar das controvérsias sobre ser ou não um instrumento musical, precisamos saber o que é e como funciona este aparelho. Ele tem vários tamanhos, sendo o menor deles chamado de “Serinette”, pendurado sobre o ombro do tocador. Mas basicamente é um órgão portátil classificado como “Automatofone”, termo que engloba todos os instrumentos destinados a produzir música por meios mecânicos.


"Barrel Organ", "Street Organ", "Orgue de Barbarie", são algumas das denominações usadas pelo mundo afora para identificar esta caixa mecânica, cujo sistema é pneumático, ou seja, funciona através de ar comprimido. O menor deles, transportado por ambulantes, consiste em uma caixa que contém foles, tubos, palhetas de metal e um rolo de cilindro, no qual estão adaptados alguns registros. O Realejo, portanto, é um instrumento de sopro mecânico, incluindo tubos, sopros e batentes, com suas complexidades e pertencente à categoria dos órgãos, combinando técnicas do órgão litúrgico com as da mecânica, da relojoaria e até da computação.



O Tocador de Realejo


O realejo é tocado desde o séc. XVII principalmente por peregrinos, músicos itinerantes, mascates e acrobatas. Tocavam nas ruas e mercados para atrair curiosos, anunciar espetáculos e arrecadar doações. No geral, não é preciso ser músico para tocá-lo. Eram os próprios fabricantes que alugavam os instrumentos. Organ-grinder, music street organ, barrel organist, são algumas das formas de denominar o tocador de realejo. Os franceses chamam o instrumento de "Orgue de Barbarie", que quer dizer “barbárie”, referindo-se a qualquer coisa que não fosse francesa. Assim viria o termo "bárbaro", que significa "estrangeiro", porque não se sabia de onde vinha esse instrumento.


A finalidade do realejo era atrair curiosos, que, mediante a introdução de uma moeda, viam um pequeno periquito pegar com o bico um pedacinho de papel onde estava escrito alguma frase motivacional ou sobre o futuro. Além dos periquitos, era comum ver macacos-prego acompanhando os tocadores. Daí por que o realejo ser chamado de mico da sorte. As melodias propostas pelo realejo são todas melodias "populares", ou seja, de muito sucesso e que ficam gravadas na memória. Hoje em dia é raro encontrar, mas ainda existem alguns pelo Brasil, e na Europa são realizados festivais, como na Vila Medieval de Oingt, há trinta quilômetros de Lyon, na França.



O Realejo no Brasil


Embora se fale do Realejo no Brasil como algo comum no início do século passado, já se noticiavam, no Rio de Janeiro, vendas desta máquina há mais de 200 anos atrás, em 1821. Próximo à Macaé, nossa vizinha Campos dos Goytacazes, além dos anúncios de venda, também anunciava a nova atração nos intervalos de peças teatrais. E isso já em 1837.

À esquerda: anúncio de peça teatral em Campos, com apresentação de realejo nos intervalos. Jornal Monitor Campista, 05 de agosto de 1837; Acima à direita: anúncio de venda de Realejo em Campos, em 1841, no mesmo jornal; Abaixo à direita: anúncio de venda de Realejo em 1821, no Rio de Janeiro. Jornal Diário do Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1821.

Sobre a já citada “Serinette”, pequeno realejo transportado ao ombro do tocador, tem sua origem na França da primeira metade do séc. XVIII, e era usado para ensinar melodias aos canários, pois tem som semelhante ao Flautim. Daí seu nome ser derivado do francês serin, que significa “canário”. Também por isso, Serinette em inglês se chama "Bird Organ" (Órgão de pássaro). Provavelmente foram estes órgãos mecânicos que chegaram ao Brasil na primeira metade dos Oitocentos e que, por vezes, apareciam em anúncios de venda. Em Campos e no Rio, eram anunciadas vendas de Realejos com 3 ou 4 cilindros, com capacidade para tocar 23, 32 e até 40 peças musicais. A Serinette é tocada girando a manivela que fica na frente do instrumento, bombeia um fole para fornecer ar aos canos e também gira um barril em forma de cilindro de madeira por meio de engrenagens. Cravados no barril estão pinos de latão e grampos com os quais as peças musicais são codificadas. Montada sobre o cano está uma barra com chaves de madeira conectadas a válvulas por hastes verticais, também de madeira. À medida que o cano gira, os pinos e grampos levantam as chaves, abrindo as válvulas para deixar o ar entrar nos tubos, localizados na parte traseira do instrumento. As melodias são selecionadas levantando primeiro a barra que contém as teclas e, em seguida, deslocando o barril ao longo de seu comprimento. Isso traz um conjunto diferente de alfinetes e grampos alinhados com as chaves.


Serinette francesa do século XVIII. Coleção Leslie Lindsey Mason. 1916.

Em "A Alma Encantadora das Ruas", o jornalista João do Rio reúne crônicas veiculadas entre 1904 e 1907 no Gazeta de Notícias, onde faz uma leitura dos costumes da "Belle Èpoque" carioca. Uma categoria que não passou despercebida foi a dos músicos ambulantes, dentre eles estão os tocadores de realejo: "Músicos ambulantes! Um momento houve em que todos desapareceram, arrastados por uma súbita voragem. Os cafés viviam sem as harpas clássicas e nas ruas, de raro em raro, um realejo aparecia. Por quê? Teriam sido absorvidos pelos cafés-cantantes, dominados pelos prodígios do gramofone — essa maravilha do século XIX, que não deixa de ser uma calamidade para o século XX? Não. Fora apenas uma súbita pausa tão comum na circulação das cidades. Apesar dos gramofones nos hotéis, nos botequins, nas lojas de calçados, apesar da intensa multiplicação dos pianos, eles foram voltando, um a um ou em bandos, como as andorinhas imigrantes, e, de novo, as tascas, as baiúcas, os cafés, os hotéis baratos, encheram-se de canções, de vozes de violão e de guitarra e, de novo, pelas ruas os realejos, os violinos, as gaitas, recomeçaram o seu triunfo."


Após discorrer sobre situações e pessoas, João do Rio finaliza: "Oh! a música, as árias perdidas no ruído das ruas…Alguém já assegurou que a alma do homem conhece sua natureza pelo canto. Cheguemos à suave conclusão de que conhece a natureza e o resto. De que serviria um realejo senão assegurasse ao seu possuidor, além do conhecimento da própria alma, a satisfação do estômago? Há talvez em outras terras, mais gastas e mais frias, a miséria dos músicos ambulantes, sem fogo, sem pão, caindo sob a neve, depois de uma dolorosa vida. Aqui não; os músicos prosperam, o realejo é uma instituição, e do alto azul, a harmonia bondosa da natureza, musa da vida e da alegria, derrama o consolo incomparável do calor e da luz."


Grupo de pessoas ao redor de Realejo, na praça da República, São Paulo. Década de 1910. Imagem: Vincenzo Pastore. Acervo IMS.

“Qual será a occupação de certo malandro morador à rua do Caneca, cujos costumes consiste em servir de Gazeta da vida alheia, para dar alimento a sua extensa língoa? Olhe que, se continuar, o mandarei prosseguir na antiga profissão de tocar Realejo. (O homem do cosmorama - jornal Monitor Macahense, 08/01/1864).



Os realejos mecânicos, definitivamente, tiveram um papel muito importante na história da cultura musical, pois graças a eles um grande público pôde aprender as peças musicais que saíam dos palácios e igrejas para as ruas das cidades. Com o tempo, como sabemos, muitas tradições vão se perdendo devido a tal modernidade, com suas novas invenções tecnológicas. No caso do realejo, presenciamos o seu recuo devido a era dos fonogramas, dos órgãos eletrônicos amplificados, da rádio, da televisão e da internet. Mas ainda hoje as pessoas podem ter a sorte de verem, muito por acaso no Brasil, algum viajante com o seu órgão mecânico movido a manivela, acompanhado de seu gentil canário. Ou então como atração turística, dependendo da sensibilidade do produtor de eventos, incluindo o Realejo em alguma programação cultural.



"O outono toca realejo

No pátio da minha vida.

Velha canção, sempre a mesma,

Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?

Como é possível sabê-lo?

Um gozo incerto e dolorido

De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?

Colher as horas, em suma…

Mas os caminhos do Outono

Vão dar em parte nenhuma!"


Mario Quintana - Canção de Outono


O tocador de Realejo Luiz Carlos e sua papagaia Cristina. São Paulo, 2012. Fonte: valdoresende.com


FIM.



Referência(s):



Fundo Musical:


  • Som do Hydraulis de Aquincum, simulando o som do instrumento criado por Ktesíbios. Reconstrução por Justus Willberg. Cadolzburg, Alemanha (junho de 2015); Maiores informações sobre pesquisas de instrumentos antigos: http://www.emaproject.eu/;

  • Barrel Organ construído por John Smith “Busker” (in memoriam). Maiores informações: http://www.johnsmithbusker.co.uk/busker.html;

  • Som de um Serinette restaurado por Xavier Szymczak, Facteur d'Orgues, "Cylindres, manivelles & Co". 2008. Maiores informações: https://www.orgues-xavier-szymczak.com/;

  • Realejo, de Chico Buarque. Do álbum “Chico Buarque de Hollanda - Vol. 2”. 1967;

  • Velho Realejo, de Custódio Mesquita e Sadi Cabral. Interpretado por Sílvio Caldas e acompanhado por Orquestra. Disco Victor, 23/04/1940.

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