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  • HM Macahé

Episódio 47. 140 anos da Lyra dos Conspiradores e os velhos problemas.



OUÇA O EPISÓDIO:




Baseado em reportagem do jornal O Fluminense, de 31/12/1982, quando das comemorações do centenário da Lyra dos Conspiradores, de Macaé-RJ.



""Criada em 25 de dezembro de 1882, a SMB Lyra dos Conspiradores completou este mês 100 anos de existência. Com um passado cheio de glórias e aventuras, não faltou apoio a luta abolicionista que em Macaé se acirrou naqueles anos, onde eram comuns as desavenças entre ricos fazendeiros e os elementos da Sociedade da Lyra, que repeliam os escravizadores a porretes. Como se lê num boletim histórico da corporação musical, a Lyra dos Conspiradores nasceu após uma dissidência ocorrida na SPM Nova Aurora, sua coirmã de 100 anos "porque alguns membros não concordavam com a discriminação racial que estava ocorrendo na no Nova Aurora". Desta maneira um brioso grupo de admiradores da divina arte se reuniram, e entre eles estavam: Luiz Augusto Quaresma, José Cyriaco, Candido de Freitas Coutinho, Antônio José de Carvalho Torres, Francisco Augusto de Paula Carvalho, Carlos Henrique Villar, Anselmo Casto, Eduardo Torres Tibagy, Dr. Júlio Maximiano Olivier, Henrique Lorena e Dr. João Cupertino, e fundaram a SMB Lyra dos Conspiradores.


No início, os dissidentes se reuniam na casa de Luiz Augusto Quaresma, que num gesto de despreendimento e nobreza deu um terreno à Sociedade e, mais tarde, doou a quantia para que fosse construída a sede da corporação musical. Desde a sua fundação, a Lyra dos Conspiradores lutou arduamente contra a escravidão nas terras fluminenses. Certa manhã, no dia da realização da festa de N. Sra. de Sant'Anna, e edição do jornal O Século foi apreendida pelos fazendeiros que tinham escravos, porque o seu diretor e amigo da Sociedade combatia, em artigos, a escravidão em Macaé. Mas, na mesma tarde, o velho jornalista, ajudado por amigos, conseguiu colocar uma nova edição nas ruas e agora a distribuição era gratuita.


Certa vez, a convite da Lyra dos Conspiradores, o abolicionista Carlos de Lacerda compareceu a Macaé na sede da Sociedade, criando um clima onde a violência imperou devido a reação dos fazendeiros que não queriam que ele divulgasse as idéias abolicionistas. O posicionamento da Lyra começava a intrigar a Côrte e D. Pedro II mandou um enviado para saber porque eram conspiradores. Como resposta obtiveram o seguinte: "Conspiramos contra uma Sociedade Musical. Também conspiramos contra tudo que achamos errado". Se, no passado, a Lyra era a principal rival da Nova Aurora, onde cada uma queria se sair melhor nas retretas e apresentações que realizavam - quando muitas das vezes no encontro das duas bandas ocorriam verdadeiros quebra-paus, com maestros, músicos, simpatizantes e desordeiros se atracando - hoje em dia esse ódio é coisa do passado. E tanto a Lyra quanto a Nova Aurora sabem que precisam estar unidas para manterem viva uma das coisas mais sadias que uma sociedade pode ter: a sua música regional.


Neste sentido, os 150 associados trabalham conjuntamente com a presidência da entidade para que ela não feche. São cerca de 35 músicos que fazem parte da banda sem receber salários. A Lyra sobrevive de pequenas contribuições de deputados federais que não chegam, cada uma delas a 10.000 cruzeiros anuais, e uma pequena cota da Prefeitura Municipal que não chega a 16 mil cruzeiros anuais. Planos, a diretoria atual, presidida por Demerval Fernandes de Oliveira, têm muitos. O que falta mesmo - ele se queixa - são os recursos. Se não somos nós a pagar do próprio bolso as contas de luz, de água e despesas de conservação, a Sociedade já teria fechado. Há pouco tempo, Demerval teve que dar dinheiro do próprio bolso a um músico desempregado que estava com a mulher doente. Para que a Lyra adquirisse uniforme que ficou orçado em quase 1 milhão de cruzeiros, teve que iniciar uma grande campanha na imprensa pedindo donativos.


Demerval acredita que se as autoridades incentivassem mais as bandas, o público voltaria a redescobri-las. Ele adiantou que um passo o importante que poderia ser dado por uma administração, seria a recuperação do antigo coreto, situado na praça Veríssimo de Mello, onde as duas bandas sempre realizavam suas retretas e eram prestigiadas pelo público.""


Jornal O Fluminense - edição de 31/12/1982.



Em 1982, quando a Lyra dos Conspiradores comemorava o seu centenário, o jornal O Fluminense divulgava em seus escritos mais um dos velhos problemas enfrentados pela corporação musical. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência, pois uma sociedade centenária como a Lyra de Macaé não poderia passar, ainda nos dias de hoje, por situações de tamanho constrangimento, muitas das vezes sendo vista não como um patrimônio que impõe respeito pelo seu protagonismo histórico, funcionando ativamente com sua banda que sempre fez ecoar sua música pelas ruas de Macaé, mas como um lugar depreciativo, tratado com olhares de piedade por parte do público. Isso enfraquece e distorce aquilo que deve ser forte e vivo.


A diretoria da Lyra não encontra forças para gerir tamanha complexidade. Seria negligência, inexperiência? O que será então? Não convocam a negritude para mostrar o significado daquele lugar e que ali pertence a eles. Na época em questão, em 1982, a Lyra possuía 150 associados e já enfrentava outros problemas. Mas hoje, o que se faz para convocar novos membros para se associarem? Afinal de contas, não era assim que sobrevivia a Sociedade antes? O prédio se deteriora pouco a pouco com a ação do tempo e principalmente sob ação da chuva, que mina água no seu teto, gerando goteiras e danificando paredes e toda sua alvenaria antiga. E o poder público, até quando esperar sua benevolência? Já não deu tempo de perceber que essa morosidade é mais uma estratégia, uma forma de depredar o patrimônio?


Uma das infiltrações no teto da sede da Lyra, ocasionada pelas chuvas.

Foto: Facebook "Cleiton Pororoca". Publicação de 30/03/2022.


Não é fácil gerir um espaço como a Lyra dos Conspiradores, pois são muitas frentes para atuar: a preservação e manutenção do seu prédio histórico; coordenação das aulas de música e das atividades da Banda; organização do calendário festivo anual; parceria com o poder público; participação dos velhos e novos associados; despesas correntes, dentre outras coisas. Mas principalmente, o comprometimento daqueles que ocupam a diretoria diz muito. Eles devem ser os guardiões e porta-vozes da Sociedade. Queremos ver a bandeira da Lyra hasteada e flamulando em sua fachada. É um ato simples que não demonstra vergonha e sim orgulho de quem está ali. É uma forma de respeito aos antepassados que lutaram pela Lyra sem pensarem em benefício próprio.


A pergunta que devemos fazer é: por que temos que ver a Lyra dos Conspiradores como se aquele lugar fosse digno de pena, ao invés de um espaço vivo, representativo e forte? O que precisamos fazer? Ficamos por aqui e até o próximo episódio. Um grande abraço!!



FIM.


Referência(s):




Fundo Musical:


  • Áudio tirado de trechos de vídeos da participação da Lyra dos Conspiradores em evento comemorativo do centenário de Benedicto Lacerda, em Macaé. 2003.


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