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Episódio 46. A Santa e o Rabequista - especial Dia do Músico.

Atualizado: 23 de nov.


Santuário da capela de Santa Cecília, que fica na parte central do prédio da S.M. Nova Aurora. Das imagens do altar, está a de Santa Cecília, ao centro.



OUÇA O EPISÓDIO:





Parte I - O pobre Rabequista


Imagem: “O Pobre Rabequista”. Autores: José Rodrigues e Silêncio Cristão de Barros. Gravura: água forte; P&B.; 21,8 x 15,5 cm (matriz); Ano: 1860. Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal.

Em tempos muito remotos os habitantes de uma grande cidade levantaram uma igreja magnífica a Santa Cecília, padroeira dos músicos. As rosas mais vermelhas e os lírios mais cândidos enfeitavam o altar. O vestido da santa era de filigrana de prata e os sapatinhos eram de ouro, feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capela estava constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria um pobre rabequista, pálido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha sido muito longa, estava cansado, e já no seu alforge não havia pão nem dinheiro no bolso para o comprar.




Assim que entrou na capela, começou a tocar na sua rabeca com tal suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vê-lo tão pobre e ao escutar aquela música deliciosa. Quando terminou, Santa Cecília abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos de ouro, e deu-o ao pobre músico, que tonto de alegria, dançando, cantando, chorando, correu à loja de um ourives para lhe vender. O ourives, reconhecendo o sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o à presença do juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-no, e foi condenado à morte.


Chegara o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo pôs-se em marcha ao som dos cânticos dos frades, que ainda assim não chegavam a dominar os sons da rabeca do condenado, que pedira, como última graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao último momento. O cortejo chegou defronte da capela da santa, e quando pararam suplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua derradeira melodia.


Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou, ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lágrimas começou a tocar. Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecília curvar-se de novo, descalçar o outro sapato e metê-lo nas mãos do infeliz músico. À vista deste milagre, todos os assistentes, levaram em triunfo o rabequista, coroaram-no de flores, e os magistrados vieram solenemente prestar-lhe as mais honrosas homenagens. (Domínio Público. Do livro “Contos para a Infância”, de Abílio Manuel Guerra Junqueiro.)



Parte II - Cecília de Roma


"Ao canto dos órgãos, a virgem Cecília, em seu coração cantava só ao senhor, dizendo: façam-se, senhor, o meu coração e o meu corpo, imaculados, para que não seja confundida." (Antífona da Idade Média)


Santa Cecília e a Rabeca. Pintura à óleo em Canvas; Autor: Guido Reni; Ano: 1606. Fonte: Google

A divina protetora da sublime arte de Euterpe, a imaculada virgem inspiradora dos grandes músicos, a excelsa padroeira e mártir Santa Cecília. Ficou conhecida como uma santa virgem e exaltada como modelo perfeito de mulher cristã. Foi uma das mártires mais veneradas durante a idade média e ao longo do tempo foi reverenciada através da arte e da música, ganhando o seu lugar na liturgia cristã. Em 1594, o Papa Gregório XIII nomeia Cecília a santa padroeira dos músicos. A partir daí, dá-se início a sua representação na música, pintura e na escultura. Mas falemos primeiramente da mulher Cecília, como ser histórico e não mítico.





Cecília foi uma nobre romana nascida em princípios do século III, e pertencia à família da ilustre casa dos Metelos. Filha de um senador e cristã desde a infância, ela doou sua casa e um terreno aos cristãos pobres. A casa virou igreja e depois basílica, no bairro de Trastevere, em Roma. O terreno veio a se tornar o cemitério de Calisto, onde foi enterrada a doadora, perto da cripta fúnebre dos papas. No século VI, quando os peregrinos começaram a perguntar quem era essa Cecília cujo túmulo e inscrição se encontrava em tão honrosa companhia, para satisfazer sua curiosidade foi então publicada uma Paixão, que deu origem à Cecília lendária. Segundo esse relato, Cecília foi prometida pelos pais em casamento a um jovem nobre chamado Valeriano. Aconteceu que, no dia das núpcias, a jovem noiva, em meio aos hinos de pureza que cantava no íntimo do coração, partilhou com o marido o fato de ter consagrado sua virgindade a Cristo e que um anjo guardava sua decisão. Valeriano, que até então era pagão, a respeitou, mas disse que somente acreditaria se contemplasse o anjo. Convencendo-se de tal impossibilidade, Valeriano procurou o papa Urbano I, que o preparou e o batizou.


Eram tempos de perseguição dos romanos aos cristãos. Tempos do Imperador Alexandre Severo, que estabeleceu certa tolerância à crença monoteísta professada pelos cristãos. Embora a religião do Império Romano fosse o paganismo e a perseguição e o massacre ao cristianismo fosse intenso naquela época, Alexandre Severo permitiu certa liberdade de culto e tolerou razoavelmente o convívio entre as crenças. Segue a narrativa de que o prefeito de Roma, Túrcio Almáquio, havia proibido de sepultar os cadáveres dos cristãos. Entretanto Valeriano e Tibúrcio se dedicaram à tarefa de recolher todos os cadáveres de cristãos martirizados e sepultá-los. Por isso foram presos e levados diante do prefeito. Este lhes pediu que declarassem adoração a Júpiter. Fortemente defenderam sua fé e foram condenados à morte. Em seguida, Cecília ao recolher os corpos do marido e cunhado para devidamente sepultá-los, foi presa e levada a julgamento. Ao prefeito, que tinha sobre ela direito de vida ou de morte, ela respondeu: “é falso, porque podes dar-me a morte, mas não me podes dar a vida”.


Almáquio condenou-a a morrer no caldarium de sua casa, ao ser colocada em banho fervente até ser queimada. Mesmo agonizando ela cantava gozosamente. Visto que com este martírio não pode acabar com ela, o cruel prefeito mandou que lhe cortassem a cabeça. No entanto, o algoz receoso tremeu ao impingir-lhe os três golpes fatais na nuca, deixando-a semiviva. Em seguida, de joelhos diante da santa, Máximo que fazia parte da guarda romana aceitou a fé cristã. A agonia prolongou-se por três dias. Nesse ínterim Cecília confirmou seus familiares na fé e doou seus bens aos necessitados e às autoridades eclesiásticas, pedindo ainda que sua casa fosse transformada em igreja. Após a sua morte, sua casa foi consagrada em basílica e o Papa Urbano I depositou seu corpo no Cemitério de São Calisto, enquanto que os restos mortais de Valeriano e Tibúrcio foram depositados no Pretestato, bem como o do próprio Papa quando de sua morte.


Ao longo do tempo, principalmente entre o fim da Idade Média e o início do Renascimento, artistas começaram a retratá-la em óleo sobre tela, afrescos, mosaicos e esculturas. Um bom exemplo é o quadro “Santa Cecília” (1606), obra de Guido Reni (1575-1642), músico e pintor do período barroco italiano. Outra obra importante é a escultura “O martírio de Santa Cecília”, de Stefano Maderno (1576-1636), concluída em 1600, depois de ele ter visto seu corpo ainda inteiro e incorrupto deitado em urna na Basílica de Santa Cecília, em Trastevere, na Itália, em 1599. Com feições de mulher jovem e rosto sereno, Santa Cecília aparece sempre segurando um instrumento musical: harpas, de corda friccionada, como são hoje os violinos, ou um órgão positivo, ou portativo. Entretanto não há nenhum indício histórico que Cecília tivesse qualquer pendor musical ou que tocasse algum instrumento específico, somente a indicação "Cantantibus Organis Caecilia decantabat”. Essa antífona das Atas foi suficiente para outorgar-lhe o título de padroeira dos músicos no ano de 1594, pelo Papa Gregório XIII. Isso responde ao que dizem da Santa: na festa das suas bodas, entre o som e o ruído dos instrumentos musicais que tanto a amenizava, cantava mentalmente a Deus. Os órgãos de que se trata a antífona, eram as cítaras, órgãos e alaúdes usados nas orquestras pagãs, para amenizar, divertir e alegrar as reuniões.


Martírio de Santa Cecília, de Stefano Maderno. Escultura datada do ano de 1600, localizada na Basílica de Santa Cecília, em Trastevere-Roma. Na escultura, Santa Cecília estende três dedos com a mão direita e um com a esquerda, testemunhando a Trindade, três pessoas em um só Deus. O escultor atestou que era assim que seu corpo incorrupto estava quando seu túmulo foi aberto em 1599.


Deu-se início a uma série de homenagens musicais à santa desde a Idade Média, passando pelo Renascimento Italiano, até chegar ao seu apogeu com os Festivais Cecilianos realizados na Inglaterra, durante o período Barroco. Em se tratando de texto e música, houve um poeta que escreveu várias poesias intituladas “Odes a Santa Cecília”, que mais tarde foram musicadas por dois importantes compositores ingleses: Purcell e Haendel. O dia de sua festa e celebração foi afixado pela Igreja em 22 de novembro, que corresponde a seu nascimento, adotado mundialmente como o “Dia da Música”. Quando em 1584 se fundou a Academia de Música de Roma, foi tomada Santa Cecília para padroeira e, desde então, cada vez mais se tem acentuado essa tendência, sendo a santa honrada por todas as Sociedades Musicais.



Parte III - As comemorações de Santa Cecília em Macaé.


O Regenerador, ano II, n43, de 12/11/1911.

Na Macaé de antigamente, ainda no início do século XX, a sociedade era bastante enraizada no catolicismo, e as festas litúrgicas eram a oportunidade que todos tinham de desfrutar de lazer e cultura na cidade. Muitas dessas tradições já não existem mais, como no caso da Festa do Divino, relatada em episódio no Histórias da Música em Macahé. A festa de Santa Cecília era um desses momentos aguardados com grande expectativa pelos devotos e admiradores da sublime arte. Em Macaé, a Santa é a padroeira da S.M. Nova Aurora, onde se faz representada numa capela que fica na sede da banda.


Nas programações festivas consultadas, entre os anos de 1907 e 1914, chama a atenção o fato de que, além da Santa Cecília, outros dois santos acompanhavam-na com suas imagens durante os cortejos: São Roque e Nossa Senhora dos Remédios. Assim começa o rito comemorativo de costume: nos dias que precedem a data da excelsa padroeira dos músicos (22 de novembro), as imagens dos três santos eram conduzidas, em marcha processional, da capela de Santa Cecília até a Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento (SS). Chegando lá, era cantada uma imponente novena. Em outras ocasiões, a banda social da Nova Aurora percorria as ruas junto a uma comissão de devotos, recolhendo esmolas em benefício da festividade que se aproximava.


Na aurora do esperado dia 22 de novembro, a banda tocava seus magnéticos acordes que confundiam-se com o gargalhar das girândolas, o troar dos fogos, os estampidos das salvas e o som metálico e alegre dos bronzes dos campanários, anunciando o grande dia em que o mundo católico rende culto de adoração a celestial inspiradora de Viriato Figueira, Ernesto Couto, Benedicto Lacerda, Nelinho Santos, Lucas Vieira, Dulcilando Pereira e tantos outros imortais nomes. Prosseguindo com a programação do dia (a exemplo do itinerário festivo de 1911), são cantadas com maestria as músicas "Missa e Credo", do insigne maestro Luigi Bordése; "Oh! Salutaris Hóstia", do maestro Mesquita e “Tantum Ergo”, do maestro Francisco Manoel da Silva. Seguindo o rito litúrgico, executa-se o “Ave Maria”, do laureado maestro Carlos Séssa. Um sermão em homenagem à santa padroeira é pregado pelo pároco e, já no final da tarde, sai a banda pelas ruas da cidade executando seus dobrados, a caminho da Igreja Matriz. Após a execução do "Te-Deum Laudamus", música do reputado maestro Baldi, os devotos saem em marcha processional carregando as imagens até o seu local de origem, a capela de Santa Cecília, na Sede da S.M. Nova Aurora. Um leilão de prendas e aparatosa kermesse fecham o dia ao som do espoucar dos fogos de artifício, preparado caprichosamente por um pirotécnico. (Parágrafo adaptado de "O Regenerador ", ano II, ed. 43, de 12/11/1911).


Outro caso interessante foi em 1908, quando as comemorações de Santa Cecília se realizaram tardiamente, no último domingo de dezembro (29/12). Isso acabou coincidindo com o aniversário da SMB Lyra dos Conspiradores, comemorado no dia 25 de dezembro. Em nota, a imprensa local relata algo inusitado entre as bandas rivais. Sob os esplendores luminosos de uma linda tarde acompanhada por grande multidão religiosa, saiu à hora marcada a procissão seguindo o itinerário de costume. De volta, ao passar o préstito em frente à sede da SMB Lyra dos Conspiradores, subiram ao ar fortes girândolas, executando a banda desta Sociedade, em formação na rua, uma marcha vibrante e se incorporando, em seguida, à procissão, com o andor de N. S. da Penha, carregado por algumas moças. E assim caminharam as duas bandas musicais, confraternizadas, até a Igreja do S. Sacramento. Depois de ter se recolhido à procissão, a Nova Aurora, correspondendo ao gesto cavalheiroso e gentil da sua rival, acompanhou a imagem de N.S. da Penha até a sua capela. Em ocasião anterior, durante a festa da excelsa N.S. da Penha celebrada pela Lyra dos Conspiradores, à passagem do cortejo religioso por sua sede, a Nova Aurora saudou-o também com um bonito dobrado, cujos sons, vibrando intensamente, se misturavam com o estrugir repetido de uma salva forte de foguetes. Tal rasgo de fidalguia foi agora, como se vê, retribuído com outro igual - belo e emocionante. (O Lynce, ano XIII, ed. 641, de 04/01/1908)


Assim era realizada, em Macaé, a festa da preclara virgem Santa Cecília, padroeira dos músicos e da S.M. Nova Aurora. À você, músico devoto ou não, músico por hobby ou por profissão, rendemos aqui a nossa homenagem! Ficamos por aqui e até o próximo episódio. Um grande abraço!

Banda Sinfônica da Nova Aurora na capela de Santa Cecília, sede da Banda, ensaiando para a cantata de natal a se realizar em Búzios, nos próximos dias 9 e 10 de dezembro.

(Imagem: Facebook "Helinho Rodrigues". 21/11/2022)



FIM.



Referência(s):



Fundo Musical:

  • Sonata n° 3 para violino, BWV 1005; J.S. Bach; Largo St. Cecília. Interpretado por Henryk Szeryng. 1968;

  • Hail, bright Cecília. Ode for Sta. Cecília's day (1692), Z 328; Henry Purcell; Gabriel Consort & Players; Dir.: Paul McCreesh;

  • Mass of Sta. Cecília, de Charles Gounod. MOM Bartók Béla mixed Choir. Church St. Francis wounds, Budapeste;

  • Marcha de Procissão Santa Cecília. Do disco "Marchas e Dobrados do Brasil;

  • Barão do Rio Branco, do maestro Francisco Braga. 1904. Executada pela Banda Sinfônica Nova Aurora em concerto realizado no Teatro Municipal de Macaé; Jun/2017.

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