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  • HM Macahé

Episódio 44. As fantasias do menino Ernesto.


OUÇA O EPISÓDIO:



Introdução


"Eu começo esta chronica saudando enthusiasticamente uma criança que já é uma glória para o nosso paíz. Uma criança que não há ainda muitas noites foi victoriada pelo nosso público, e que em breve vai aprender na Europa o pouco que lhe falta para entrar triumphante no templo dos artistas privilegiados. Uma criança a quem o porvir reserva as suas mais deslumbrantes glórias e cujo nome será um dia posto ao lado dos de Thalberg, Listz, Gottschalk e Arthur Napoleão. Depois de tudo quanto vai dito, é claro que esta saudação é dirigida ao menino Ernesto Couto, talento precoce que há ainda bem poucas horas tive nova ocasião de apreciar e ao qual auguro um dos mais brilhantes futuros de que possa haver notícia na história das artes." (Revista A Vida Fluminense, ed. 253, de 02/11/1872. Comentarista não identificado).



O pianista prodígio


Antônio Álvares Parada, o nosso eterno Tonito, foi o que revelou pela primeira vez o nome de Ernesto Couto no seu livro “Histórias Curtas e Antigas de Macaé” (1995), lançado postumamente com vários registros do autor sobre acontecimentos históricos de nossa cidade, baseados em suas pesquisas em fontes jornalísticas antigas e publicadas entre 1978 e 1985 em alguns órgãos da imprensa de sua época. Vamos reproduzir a pequena história de número 45:


“... registremos um caso ocorrido nos primeiros anos da década de 70 do século passado [no caso, séc. XIX]. No Rio de Janeiro, no dia 17 de fevereiro de 1871, na grande festa artística da Sociedade Propagadora das Belas Artes, na presença de SS. MM. Imperiais exibiu-se, com grande brilho, um pianista. Seu nome: Ernesto Couto. Sua idade: 6 anos. Sua terra natal: Macaé. Após a exibição, o imperador Pedro II mandou chamar o artista precoce, fez-lhe várias perguntas e, juntamente com a Imperatriz, dirigiu-lhe palavras animadoras, exortando-o a prosseguir seus estudos. Seu sucesso fez com que o presidente da S.P. das Belas Artes o condecorasse com a medalha “Recompensa ao Mérito”. No ano seguinte, em 1872, temos notícias de dois brilhantes recitais de Ernesto. Um em 29 de janeiro no Teatro São Salvador, em Campos, e outro em 7 de fevereiro, no Santa Isabel, em Macaé. Nesta mesma época, o jornal macaense “O Telegrapho" estampava “Tributo de Admiração”, poesia a ele dedicada por Belisário de Souza Botelho. No ano seguinte, o mesmo jornal, na edição de 8 de agosto estampava “No Álbum de Ernesto Couto”, versos de Luiz Leopoldo Fernandes Pinheiro Junior. Pois bem, daí para a frente, nada mais. Silêncio total sobre o promissor músico. O que teria acontecido a Ernesto Couto? (Do livro “Histórias Curtas e Antigas de Macahé” - História 45, de A. Alvares Parada. 1995.)


Pois bem, Tonito. Será que conseguiremos quebrar este silêncio? O que mais se sabe deste pequeno grande pianista? Há um boato de que ele foi para Europa estudar. Será? Mas, enfim, chega de silêncio! Uma coisa que nós, do Histórias da Música em Macahé, não gostamos é desse tal “silêncio”, e nem de inverdades. Esclarecido isso, vamos ver se encontramos mais alguma coisa sobre a vida de nosso Mozart macaense …

Revista A Vida Fluminense - ed. 166, de 04/03/1871.



As fantasias do menino Ernesto


Na tenra idade de 4 anos, quando as distrações eram poucas para os divertimentos infantis e para aceitar os desvelos e carícias dos seus pais, ele abandonava tudo isso para se entregar a distração do instrumento de Gottschalk. Ele, o fenômeno Ernesto Augusto da Costa e Couto, nasceu em Macaé no dia 27 de fevereiro de 1865 e revelou um gosto apurado e raro pela música. Filho de Antônio Joaquim da Costa e Couto e Gertrudes Lopes da Costa e Couto, precisou se mudar para a capital da côrte com sua família, diante das dificuldades de estudar música numa cidade como Macahé. Lá, encontrou o maestro inglês John Jesse White (1833-1916), violinista, pianista e regente da Orquestra do Club Mozart.


Recebendo as primeiras noções teóricas de piano, tão rápida foi sua compreensão que, apenas decorridos 3 meses, estava apto a executar uma extensa obra. Importante destacar este espaço cultural que foi o Club Mozart. Fundado em 1867, teve como um de seus fundadores, o já mencionado John J. White. Era uma agremiação particular que promovia a difusão da música vocal e instrumental. Realizou recitais, concertos e tinha orquestra própria. Foi neste contexto, de difusão das obras clássicas e sinfônicas no Brasil, que o menino Ernesto Couto surge em cena fazendo a sua estréia oficial no Club no dia 18 de dezembro de 1870 e, portanto, Ernesto contando apenas 5 anos de idade. Essa data não foi escolhida por acaso já que, há exatamente 1 ano antes, falecia o grandioso pianista Louis Moreau Gottschalk. Ernesto, a partir dos 6 anos de idade, começa a aparecer com mais intensidade nos principais jornais e revistas do Brasil recebendo inúmeros elogios e homenagens de importantes poetas e literatos. A própria família imperial, impressionada com seu talento, passou a se aproximar mais, fazendo com que Ernesto tornasse um ente necessário e indispensável a todas as festas onde as SS. MM. Imperiais se faziam presentes.

Louis Moreau Gottschalk (1829-1869) foi um importante pianista e compositor norte-americano que percorreu alguns países da América do Sul, chegando ao Brasil em maio de 1869, mesmo ano em que veio a falecer, em Dezembro. Deixou vasta obra musical, dentre elas a "Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro" e, sem dúvida, foi uma grande referência para Ernesto Couto.

(Montagem da imagem: Magno; Fonte: Wikipedia e IMSLP)


Importante evento a se destacar, neste sentido, foi a que se realizou em fevereiro de 1871 (citado por Tonito em sua pequena história 45), em que Ernesto fora convidado para tocar na celebração do 14º aniversário da Sociedade Propagadora das Bellas Artes, realizado no salão do externato do Colégio Pedro II. Ademais, houve a entrega de prémios aos alunos do Lyceu de Artes e Ofícios. Além da presença de artistas amadores, figuram outros dois músicos convidados de alto quilate: Joaquim Antônio da Silva Callado Jr. e seu aluno e parceiro musical Viriato Figueira da Silva. Viriato também é macaense (vide episódio 3) e juntamente com Callado Jr. foram os expoentes do que veio a se tornar a maior expressão musical urbana do Brasil: o Choro. Pois é! Dois macaenses juntos: um pequeno prodígio, próximo de completar 6 anos de vida, e um jovem flautista de 20 anos de idade (Viriato nasceu em 1851). Na ocasião, Ernesto toca um trecho da ópera Ottelo. Nota-se que, nesta época, era muito comum tocar trechos de óperas famosas. Tanto Viriato quanto o menino Ernesto se destacavam exatamente por tocarem variações de temas operísticos. O imaginário infantil - com suas brincadeiras, aventuras e fantasias - faz parte deste mundo fantástico projetado pelas crianças. Mas para Ernesto era diferente. Seu mundo de fantasias eram as complexas obras musicais executadas ao piano.

Evento comemorativo do 14º aniversário da Sociedade Propagadora das Bellas Artes, ocasião onde os dois macaenses, Viriato e Ernesto, se encontraram.

(Fonte: Diario do Rio de Janeiro, ano 4 - nº 50, de 19/02/1871)


Como já explicado em nosso 3° episódio, sobre o Viriato F. da Silva, as fantasias exigiam dos músicos uma técnica apurada do instrumento ao executarem um determinado tema melódico de forma virtuosística. Portanto, as fantasias são variações que ocorrem durante o desenvolvimento de um tema melódico sem descaracterizá-lo, provocando o prolongamento da estrutura original. Percebemos a melodia mais espaçada, diluída, enquanto essas variações vão sendo executadas pelo músico improvisador. Observando alguns dos programas musicais de Ernesto Couto, como no caso do programa realizado no Teatro Dom Pedro II, no dia 18 de outubro de 1872, percebe-se a ênfase do músico em tocar fantasias sobre motivos operísticos, merecendo destaque alguns pianistas e compositores europeus que o influenciaram, como: Henri Rosellen, Julius Schulhoff, Sigismund Thalberg, Ferdinand Beyer, William Vincent Wallace e H. Alberti.


Alguns dos compositores europeus que influenciaram os estudos de Ernesto Couto.

Da esq./dir.: Julius Schulhoff; Sigismund Thalberg; Henri Rosellen e William Vincent Wallace.

(Montagem: Magno; Fonte: Google)


Esses músicos, além de excelentes compositores e arranjadores de temas operísticos, também criaram métodos de estudos para piano que se tornaram poderosas ferramentas na formação profissional do jovem macaense. Dentre as peças executadas no emblemático 18 de outubro de 1872, temos: uma fantasia das "Vésperas Sicilianas", composta por H. Rosellen, cuja ópera foi escrita pelo Italiano Giuseppe Verdi; Árias Bohemias, de Schulhoff; Fantasia de La Fille du Règiment, composta por F. Beyer para piano a 4 mãos, baseada na ópera cômica de Gaetano Donizette; e a Grande Fantasia sobre o Hino Nacional, de Gottschalk, acompanhado de Orquestra.

Programação do Concerto do dia 18 de outubro de 1872, divulgado por alguns dos jornais à época. À esquerda, jornal Diario do Rio de Janeiro; e à direita, jornal A Nação. Ambas as edições do dia 17/10/1872.



(Bloco 2)


Percebe-se que a infância de Ernesto Couto foi dinâmica e intensa, marcada pelos holofotes da imprensa e sob vários olhares. Praticamente endeusado era o menino, que já em tenra idade entrou no rol dos grandes músicos brasileiros e estrangeiros. Apenas para citar alguns nomes como: Arthur Napoleão, Gottschalk, Henrique Alves de Mesquita, Carlos Gomes, Listz, Mozart, dentre outros. Durante todo o ano de 1871 e 72, Ernesto Couto foi convidado para tocar em diversos eventos, principalmente naqueles realizados pela S.P. das Bellas Artes e pelo Club Mozart. Não por acaso recebeu desta primeira uma medalha de honra, e do segundo o diploma de sócio honorário. Em fins de 1871 e início de 1872 (como mencionara Tonito), o menino Ernesto retorna a sua cidade natal para realizar um concerto no Teatro Santa Isabel, deixando todos surpresos. Por outro lado, surpresos também ficaram diante da falta de reconhecimento do governo macaense para com o nosso conterrâneo. O Tribuno do Povo, jornal local, em um trecho escrevia: “... É pena que o nosso governo, tão pródigo às vezes com superfluidades, não destine um prêmio, um auxílio, para que talentos como Ernesto Couto possam aperfeiçoar-se” (Tribuno do Povo - 13/12/1871). Num domingo do dia 28 de janeiro de 1872, é a vez do Teatro São Salvador, em Campos dos Goytacazes, estremecer com o nosso pianista. Entre o público presente estava o historiador campista Augusto de Carvalho (que morou em Macaé e foi membro fundador da SMB Lyra dos Conspiradores), que distribuiu aos participantes o seguinte acróstico*:

Jornal do Commercio / 15/02/1872

Ei-lo, o filho das castas harmonias,

Rico de sonhos, louco de esperanças!

No peito um coração que lábios d’anjos

Estrearam co’a chuva de seus beijos!

Salve! Salve! Luzeiro do futuro!

Trevas! Trevas! Fugi - desfez o caos …

O sol da inteligência o mundo aquece!

(Jornal do Commercio - 15/02/1872)


* Acróstico, neste caso específico, é uma composição em versos, construídos verticalmente a partir das letras iniciais do nome de quem se pretende homenagear.


Em “Cartas a Philinto - cap. XVII", publicado no Diário do Rio de Janeiro em sua edição 295, de 29 de outubro de 1872, o pseudônimo Alceste (nome do autor não identificado e que faz alusão a um personagem de Molière), comenta sobre Ernesto Couto e demonstra conhecer bem a nossa cidade. Ele fala sobre a “região encantadora, que se estende entre as fronteiras do Espírito Santo e as ásperas serranias de Cabo Frio, mãe fecunda do entusiasmo poético e da inspiração”. Alceste cita os nomes de Casimiro de Abreu, Teixeira de Mello, Narcisa Amalia e Ernesto Couto que, por poucos anos, enriqueceram as suas glórias locais. Enfatizando o jovem pianista, ele diz: “o último é caro ao meu coração. Nasceu nas brancas praias de Macahé, para onde me levam saudades infindas e immorredouras. Saudades quase da infância, das primeiras lutas da inteligência, da primeira revelação do futuro deste imenso império …". "... Ernesto Couto pertence a outra classe de espíritos: às borboletas douradas da arte, que pousam nos raminhos de flores e esvoaçam à roda dos lagos encantados. Musa fácil, artista inspirado pela natureza, há de prender as turbas ao teclado de ébano e lançar os clarões de sua glória aos olhos deslumbrados que o contemplarem …".


É chegado o momento de decidir sobre os estudos de Ernesto na Europa. Seu pai recorre à Câmara dos Deputados e, ao que parece, recebe o apoio do Visconde de Taunay que, além de político, escritor, engenheiro militar, professor, também era músico e um dos poucos parlamentares preocupados com o assunto. No requerimento apresentado em plenária no dia 30 de abril de 1873, consta o pedido de um auxílio de 2:000$ (2 contos de réis) anuais durante 4 anos, totalizando 8:000$ (8 contos de réis) para o custeio dos estudos do menino. A comissão de pensões e ordenados da Câmara aprova o requerimento, porém, em sessão da Câmara no dia 15 de maio, o projeto é colocado em 1ª discussão e é rejeitado sem nenhum debate. Isso causou grande repercussão na imprensa. O jornal macaense O Telégrapho lança nota em 03 de junho lamentando o ocorrido, não deixando de criticar o vultoso auxílio concedido a alguns bispos brasileiros para uma viagem ao Vaticano. No final da nota, escreve: “... e diga o immortal Carlos Gomes o quanto tem sofrido, as privações por que tem passado, as necessidades que o torturavam, porquanto o obrigaram a vender o seu Guarany, a mesma sorte teve a grande Fosca, e os senhores deputados não acolhem com os braços abertos a patriótica idéia do muito digno Exm. Sr. Dr. Taunay.” Após estes acontecimentos, uma brecha toma conta nos veículos de comunicação a respeito de Ernesto Couto, já a partir do ano de 1874. Enquanto isso, ele continuava seus estudos primários no Colégio Abílio, no Rio de Janeiro, pertencente ao médico e educador Abílio César Borges. E assim, Ernesto, longe dos holofotes, parece viver uma vida normal até a conclusão do ensino primário, no início dos anos de 1880.

Diário de Notícias, ano 2 - nº 13, de 12/01/1871.


Poucas são as notícias encontradas sobre Ernesto Couto desde meados dos anos 1870 e início dos anos 1880. O silêncio que ainda não conseguimos quebrar - mesmo depois da frustrante tentativa de um auxílio financeiro para seus estudos na Europa - é se Ernesto conseguiu realmente viajar para o exterior em algum outro momento da vida e de alguma outra forma. O que conseguimos observar pelos recortes encontrados, é que ele concluiu o curso primário no Rio de Janeiro por volta de 1880/81, já com os seus 15/16 anos. Não parece ter saído do Brasil, pois informações avulsas nos jornais fazem crer isso. Em 1884, por exemplo, ele aparece novamente no então distrito de Sumidouro para tocar num sarau, à convite do fazendeiro Arnaldo Bugger, que realizou uma festa para comemorar a vitória do sobrinho Dr. Oscar Varady, recém-eleito deputado provincial. Nesta época Ernesto morava em São José d'Além Parahyba, que será melhor explicado adiante.


Em 1887, o português açoriano natural da Ilha de São Miguel, o ator, teatrólogo e poeta João Augusto Soares Brandão, o "Popularíssimo", relata em seu livro autobiográfico (publicado em edições da revista O Malho) como foi a participação do pianista em sua Companhia Dramática, à começar pelo próprio convite feito. Ao desembarcar na estação ferroviária de Porto Novo, em São José d'Além Parahyba-MG (hoje Além Paraíba), Brandão se encontra com a família de Ernesto, faz o convite a ele obtendo o retorno esperado. A Grande Companhia Dramática Brandão se preparava para uma temporada de apresentações por Minas Gerais, começando por Juiz de Fora, no Teatro Perseverança. Brandão tinha poucos dias para resolver um problema nada fácil: conseguir um piano para Ernesto. Para isso, os dois foram até o Rio de Janeiro em direção à Casa Buschmann & Guimarães, local onde também editavam e comercializavam partituras musicais, incluindo as do próprio Ernesto Couto.

Página do livro autobiográfico do ator Brandão, o "Popularíssimo", onde ele narra (em um dos capítulos) a parceria bem sucedida que fez com Ernesto Couto.

(Livro: "O Ultimo Acto: Memorias do actor Brandão". 60 anos de Theatro). Publicação póstuma.


Brandão também relata que Ernesto precisou interromper suas atividades temporariamente devido a uma moléstia. Em junho do ano seguinte, o jornal "O Paiz" noticia a cirurgia de um abscesso da fossa ilíaca que acometera Ernesto. Em agradecimento ao médico cirurgião, Dr. Pedro Affonso Franco, Ernesto escreve: "Achei-me gravemente enfermo e desenganado por diversos notáveis e facultativos desta côrte, quando tive a feliz lembrança de entregar-me, em estado desesperado, aos cuidados do distinto operador cujo nome serve de epígrafe a esta pequena mas sincera manifestação do meu eterno reconhecimento. Cumpro, portanto, um dever sagrado, tornando bem público que, a esse distinto apóstolo da ciência devo hoje a vida, depois da mais difícil, mas ao mesmo tempo a mais feliz operação cirúrgica na fossa ilíaca. Não devendo olvidar-me também do muito que cooperou o ajudante do mesmo operador, o distinto clínico Dr. Henrique Toledo Dodsworth. (Rio de Janeiro, 6 de junho de 1888. Ernesto Couto)



(Bloco 3)


A Republica - 19/08/1890.

Ernesto também participou da Companhia Cômico-Lyrico-Dramática do ator e empresário Moreira de Vasconcellos, que entre julho e setembro de 1890 se apresentou em Campos dos Goytacazes, no Teatro São Salvador. Nesta ocasião, Ernesto não atuou somente como pianista, mas recebeu a grande tarefa de reger e ensaiar uma Orquestra. Em uma dessas récitas, Ernesto pôde mostrar ao público uma polca de sua autoria chamada "Precipício". (Jornal A República, 17/07/1890).


Dos meados dos anos de 1880 em diante, Ernesto dedica-se a compôr músicas e a lecionar aulas de teoria e piano. Disponibilizamos, aqui, uma lista com os nomes de algumas das composições autorais de Ernesto Couto, encontradas durante as pesquisas sobre ele. São 23 músicas (em sua maioria valsas) sendo que uma delas - a valsa Amor Fugaz - está disponível em partitura no site da Casa do Choro.










Valsas:

  • Sempre

  • Irene - Valsa para piano dedicada à gentil filhinha do Dr. Eustáquio Garção Stockler

  • Mistério

  • Lizi (em outro jornal aparece “Zizi”)

  • Phenéa (ou Phrynéa)

  • Lisette

  • A Brisa

  • Evelina

  • Guinguinha

  • Porteña

  • Amor Fugáz (partitura disponível)

  • Lala

  • Augusta (1894)

  • Biloca

  • Andaluza

  • Pequetita

  • Caçuleta


Polcas:

  • Precipício

  • Percepção

  • Eu sei


Quadrilhas:

  • Borboletas


Schottischs:

  • Sorridente


Fantasias:

  • Fantasia para piano sobre motivos da ópera Condor, de Carlos Gomes. (Ernesto apresentou essa fantasia em 23/07/1891, no estabelecimento da Companhia Importadora de Pianos e Partituras, na rua Gonçalves Dias. (Jornal Novidades - 24/07/1891).



Morte precoce

Por uma enfermidade ou acidente ainda não descoberto em nossa pesquisa, Ernesto Couto vem a óbito precocemente em 29 de junho de 1898 (corrigindo: 30 de junho), aos 33 anos de idade. Como dito em um trecho de noticiário da época: "Ernesto sucumbiu à indiferença de um meio em que as vocações artísticas não dão para a subsistência. Ele era, a par de insigne executante, compositor inspirado e deixa bom número de trabalhos dignos de nota". (Jornal A Notícia - 03/07/1898)

Jornal do Commercio - 01/07/1898

(Correção: ao que indica, é o dia 30 de junho a data do falecimento de Ernesto Couto, e não dia 29, como referido em nossa matéria).


Para quem não se lembra, destino semelhante ao de Ernesto Couto teve também o nosso grandioso Viriato Figueira da Silva, acometido por uma tuberculose e vindo a óbito praticamente com a mesma idade de Ernesto. Fica aquela indignação de saber que eles teriam toda uma vida pela frente para se dedicarem à sublime arte e deixarem um legado bem maior. Até porque, por muito pouco, Ernesto não presencia uma revolução tecnológica com a chegada das gravações fonográficas no Brasil, trazidas pela Casa Edison 4 anos depois de sua morte, a tempo de nos dar o privilégio de ouvir os registros sonoros do macaense que um dia foi considerado o Mozart brasileiro.


Ficamos por aqui e até o próximo episódio. Um grande abraço!!



A criança Gigante


Pássaro infante, já devassas os ares,

transpõe as nuvens, quer falar aos astros!

Altura não pertence, a outras plagas

Sedento viajor, em seu fadário

Conquista aplausos, extasias as turbas!

É o gênio da harmonia - Ernesto Couto! - José Sampaio, Campos dos Goytacazes - 9 de fevereiro de 1872. (Dr. José Sampaio, considerado, à época, o decano dos médicos desta cidade, autor do poema “Riachuelo”)



FIM.



Referência(s):


Fundo Musical:

  • Carnaval de Veneza (N. Paganini), Op. 22; Aeolian Piano. Comp.: Julius Schulhoff;

  • Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, Op. 69. L. M. Gottschalk, executada pela Orquestra Sinfônica de Berlim. Piano: Eugene List. 2014;

  • Grande Fantasia para o Barbeiro de Sevilha (Rossini), Op. 63. Sigismund Thalberg. Piano: Valentina Lisitsa;

  • The Last Rose of Summer, de W. V. Wallace. Arr.: L. Auer; Violino: Mischa Elman; Piano: Arthur Loesser. 1921;

  • Caprices Sur des Airs Bohémiens, J. Schulhoff - Op. 10; Piano: Adrian Ruiz.

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