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  • HM Macahé

Episódio 41. Impérios e Coretos - Um curioso batizado em Cabo Frio. (Parte 2)



OUÇA O EPISÓDIO:



“Festa em Cabo Frio.”

Noticiário do Jornal O Lynce de 03/06/1899. (Reeditado de 31/05/1899)


Em Cabo-Frio, bela cidade do nosso Estado, realizou-se, com a maior imponência, a legendária festa do Divino Espírito Santo. Daqui partiu, no dia 19, embarcada no hiate São João, a banda musical da Sociedade Lyra dos Conspiradores, convidada para abrilhantar a festa, sendo ali afetuosamente recebida pelo povo cabo-friense, que lhe dispensou todas as atenções. Por não dispormos de espaço que nos permita longa notícia, passamos a dar, em resumo, as notas que graciosamente nos forneceu um prestimoso cavalheiro. E são as seguintes:

O Lynce, anoIV - nº 209, de 03-06-1899

Sábado, 20 - por entre amistosas saudações, percorrendo a localidade, a Lyra dos Conspiradores cumprimentou a Câmara Municipal, falando em nome da sociedade o seu orador, Sr. Domingos Ribeiro. Respondeu-lhe em eloquente alocução, agradecendo, o digno presidente da Câmara, Sr. Jonas Garcia Terra.


Domingo, 21 - Às oito horas da manhã, a banda da Lyra, de Macahé, dirigiu-se à residência do Sr. tenente-coronel Antônio Ferreira, presidente da Lyra dos Conspiradores de Cabo Frio onde, no meio de afetuosas expansões, trocaram-se brindes diversos. Eram duas horas da tarde quando, terminada a missa solene, realizou-se o batizado do estandarte da florescente SMB Lyra dos Conspiradores Cabofriense, servindo de padrinhos os Srs. José da Silva Gallo e Fernando Gualter dos Santos, e de madrinha a Lyra dos Conspiradores macahense que, no ato, executou o hino nacional.


Encerrada a cerimônia procedeu-se ao sorteio do novo festeiro, para o ano vindouro. Coube a sorte ao Sr. Antônio José Leite de Oliveira. Em seguida usou da palavra o vigário de Cabo-Frio que saudou o povo macahense ali representado pela Lyra dos Conspiradores, desta cidade. Agradecendo, respondeu-lhe o Sr. Domingos Ribeiro. Marcharam, então, as duas sociedades co-irmãs - Lyra de Macahé e Lyra de Cabo-Frio - vinculadas pela fraternidade que as unia, em direção à residência do novo festeiro do Divino Espírito Santo, onde o cumprimentaram.


Durante o percurso, vivas calorosos eram erguidos ao povo de Macahé e ao de Cabo-Frio. à Lyra macahense e à daquela localidade. Às quatro horas da tarde batizou-se um interessante filhinho do Sr. José Joaquim Godinho, conceituado comerciante daquela praça que foi, à tarde, cumprimentado pela Lyra de Macahé que, em seguida, dirigiu-se à casa do Sr. Candido Pacheco. Ali, trocadas as primeiras expansões de cordialidade, a respeitável esposa deste ilustre cavalheiro, colocou no estandarte da Lyra uma bonita medalha de ouro, representando o Divino Espírito Santo e pediu à diretoria para conservar sempre aquela lembrança no estandarte da sociedade.


Dirigiu-se então a Lyra ao edifício do grupo musical Cabo-friense, sendo brilhantemente recebida entre flores e confetti. Orou o Sr. Domingos Ribeiro por parte dos visitantes. Respondeu-lhe o ilustre orador daquela corporação, agradecendo a visita. No leilão, à noite, os Srs. Cândido Pacheco e José Euphrosino Souza e Silva, arremataram uma bela lyra ornada com primorosas flores artificiais e gentilmente a ofereceram à Lyra de Macahé.


Segunda-feira, 22 - a Lyra dos Conspiradores de Macahé fez entrega de diplomas de sócios a diversos cavalheiros. No edifício da Lyra dos Conspiradores de Cabo Frio, a qual foi conferido o diploma de sócia benemérita, falou agradecendo a desvanecedora distinção, o ilustre coronel Abílio Alves de Sousa, prestigioso chefe político daquela localidade. Ao concluir o seu discurso, que foi vibrante e muito aplaudido, levantou um brinde de honra ao preclaro republicano Dr. Alberto Torres que tem, em Cabo Frio, uma legião de bravos que o apoiam convictamente.


Às cinco horas foi a Lyra despedir-se do grupo musical Cabofriense, que ofereceu-lhe, como lembrança, uma delicada cesta de flores artificiais. Convidada pelo Sr. José da Silva Gallo, padrinho da Lyra de Cabo Frio, dirigiu-se, à noite, a Lyra de Macahé à casa do Sr. Adolpho Beranger, onde a aguardava carinhosa recepção. No hotel Alvarenga, o Sr. Fernando Gualter ofereceu à Lyra de Cabo-Frio um copo de cerveja, sendo, por essa ocasião, trocados amistosos brindes, entre macahenses e Cabo-frienses.


Terça-feira, 23 - Era o dia da partida. Às cinco horas da manhã a Lyra despedia-se da hospitaleira população Cabofriense, profundamente grata pelo carinhoso acolhimento que lhe foi dispensado. E partiu, deixando sob o peso de tristezas, corações extremamente bons, almas infinitamente grandes.


Jornal O Lynce, ano IV - número 209, de 03 de junho de 1899.



Liras e Jagunços


Ainda no Brasil Império, em Cabo Frio, dois grupos políticos rivais intitulados de Liras e Jagunços, dividiam o poder da cidade e reuniam-se em torno de duas bandas: a Lyra Luso Brasileira e a Euterpe Cabofriense. As brigas eram comuns entre as bandas quando as facções políticas se encontravam. A situação ficou tão descontrolada que já na República Velha, no dia primeiro de janeiro de 1907, a cidade foi sacudida por uma luta que culminou na morte de um membro dos Jagunços (da Euterpe), e no incêndio da sede da Lyra.

Edição da Revista O Malho, de 12 de janeiro de 1907, ilustrando o conflito entre as bandas de música de Cabo Frio e satirizando o então presidente (governador) do Estado do Rio de Janeiro, Alfredo Backer. O mesmo já tinha sido, em anos anteriores, presidente da Câmara de Vereadores de Macaé.


Como podemos perceber, nesta época são mencionadas duas bandas, uma delas com o nome de Lyra, mas não a Lyra dos Conspiradores mencionado pelo jornal macaense O Lynce. Fomos atrás de mais informações para sanar essas dúvidas e acabamos conhecendo o Sr. Célio Mendes Guimarães. Filho de Clodomiro Guimarães de Oliveira, maestro fundador da Sociedade Musical Santa Helena, em 7 de setembro de 1937, e portanto, fundado num dia das comemorações da Independência do Brasil. Célio é escritor e aos 92 anos de idade já lançou diversas obras literárias, dentre elas intitulada "Trajetória da Sociedade Musical Santa Helena", onde o autor também revela os bastidores das primeiras bandas de Cabo-Frio e os incontáveis conflitos ocorridos. Ele aceitou gentilmente nosso convite para contar um pouco sobre esta época. Durante a conversa, um segredo é revelado. Vamos ouvi-lo…


Célio Guimarães: essa história do Lira e Jagunços, ela é um pouco longa, cheia de artifícios, vingança, mortes inclusive. Uma rivalidade muito grande entre as duas bandas, mais ou menos em 1840. As duas eram dirigidas por grupos políticos, coronéis, da época.


Magno: um dos jornais que tinha aqui em Macaé, na virada do séc.XIX para o XX, era "O Lynce". Eu vi uma reportagem que a Lyra dos Conspiradores de Macahé - porque em Campos já tinha banda antes de surgir a Lyra daqui. Lá em Campos tem a Lyra Conspiradora e a Lyra de Apollo, esta inclusive batizou a Lyra daqui. Só que nessa reportagem que eu li, de 1899, a Lyra dos Conspiradores daqui (que era uma Sociedade Musical abolicionista), foi à Cabo-Frio batizar a Lyra dos Conspiradores de Cabo-Frio. Essa que é a questão!


Célio: Interessante!


Sr. Célio Mendes Guimarães

Imagem: jornal Folha dos Lagos. 2021


Magno: Porque eu não ouvi falar, além das duas bandas citadas (Lira Luso-Brasileira e Euterpe Cabo-friense), sobre essa tal "Lyra dos Conspiradores de Cabo-Frio".


Célio: geralmente havia esse intercâmbio de uma banda batizar a outra. Por exemplo: a SM Santa Helena daqui, ela foi batizada pela Nova Aurora, de Macaé. Ela é madrinha da SM Santa Helena.


Magno: Que interessante! Acabou uma coisa levando a outra. Vou acabar mudando o foco da entrevista. (Risos)


Célio: a SM Santa Helena foi fundada em 1937, no dia da independência.


Magno: Mas era basicamente assim, a pergunta que eu queria lançar pra iniciar o bate-papo. O jornal menciona uma tal Lyra dos Conspiradores de Cabo-Frio. Existiu essa banda?


Célio: deve ser Lira Luso-Brasileira, me parece. Ela foi apelidada de "Lira Conspiradora", porque conspirou contra a outra banda.


Magno: se o senhor puder fazer um resumo, de quando surgiram essas primeiras bandas, pra ter uma noção de data…


Célio: elas foram fundadas (não há uma posição firmada sobre isto) por volta de 1840. É a data presumível que elas foram fundadas.



Importante destacar que, mesmo a Lira Luso-Brasileira recebendo o apelido de “Lira Conspiradora”, como mencionado por Célio, isso não condiz com o fato dela sofrer influências abolicionistas e/ou republicanas, como é o caso de nossas Liras de Macaé e de Campos dos Goytacazes. Pelo contrário, era a Euterpe Cabo-friense que representava as aspirações do Partido Liberal, enquanto a Luso-Brasileira representava o Partido Conservador. O ano em destaque, do jornal O Lynce, é 1899. O Brasil vivia seus primeiros anos de República e a política fervilhava. As mudanças nos altos comandos representavam a queda de uns e a ascensão de outros. Os músicos de ambas as agremiações, embora pertencentes aos partidos políticos, não eram inerentes aos bastidores de seus mandatários. Participavam de muitas festividades religiosas, procissões, ladainhas e eram contratados, logicamente, de acordo com a posição partidária do festeiro.


Na narração que reproduzimos, nossa banda de música de Macaé foi convidada para os festejos do Divino Espirito Santo em Cabo-Frio, oportunidade em que foi madrinha de sua co-irmã Lyra Cabo-friense. Alguns trechos merecem destaque: “... domingo, 21 de maio, eram 2 horas da tarde quando, depois de terminada a missa solene, realizou-se o batizado do estandarte da florescente SMB Lyra dos Conspiradores Cabo-friense…”. No dia anterior, A Lyra de Macaé, percorrendo a localidade, cumprimentou a Câmara Municipal através de seu orador Domingos Ribeiro, respondendo em eloquente alocução, o digno presidente da Câmara Sr. Jonas Garcia Terra. Terra também é mencionado no livro “Trajetória da Sociedade Musical Santa Helena” como o “Majoritário Chefe Político”, fervoroso republicano que tomou posse logo após a proclamação da república e que, no entusiasmo da respaldada liderança, ouviu os acordes da representativa Banda Euterpe executar a Marselhesa, enquanto desfraldava a bandeira da república na janela do Paço Municipal.


Capa do livro "Trajetória da Sociedade Musical Santa Helena", lançado em 1996.

Autor: Célio Mendes Guimarães


Interessante observar que em todo o conteúdo narrado pelo jornal O Lynce, não há nenhuma menção do nome Lira Luso-Brasileira ou que a mesma recebia diferentes alcunhas. O jornal carioca “A Noite”, em “Notícias do Interior”, do dia 04/06/1939, comenta que “... financiado por alguns associados do Tamoyo Sport Club, acha-se em construção um belo campo para basket, voley e atletismo, no terreno da rua Teixeira e Souza, onde existiu o antigo prédio da Lyra dos Conspiradores, cedido pelo atual proprietário Sr. Mario Salles.” Celio Mendes, então, afirma em seu livro que “... uma antiga casa, à rua Teixeira e Souza, ao lado da residência de Luiz Cardoso, atendia como sede, inicialmente, a Euterpe Cabo-friense, enquanto a Lira Luso-Brasileira desfrutava da sua, à Praça Porto Rocha, na antiga sede do Tamoyo Sport Club…”. Mais a frente, Célio menciona que, no início do século XX e na mesma rua Teixeira e Souza, a Lira construiu sua sede própria, um aparatoso prédio de majestática beleza, sob a presidência de Bento José Ribeiro, conceituado e próspero comerciante da cidade. Diferente afirmação faz o jornal O Lynce, mencionando o tenente-coronel Antonio Ferreira como o presidente da “apelidada” Lyra dos Conspiradores. Por outro lado, Jonas Garcia Terra, mencionado anteriormente pelo mesmo jornal como o presidente da Câmara de Cabo-Frio, presidia a banda Euterpe.


Nossa proposta inicial era simplesmente narrar um fato ocorrido em 1899, com a ida da nossa banda Lyra dos Conspiradores à Cabo Frio, numa festa do Divino. Mas isso acabou nos despertando dois interesses: primeiro, entender o significado desta festa, que existia em tempos remotos em nossa cidade. Encontramos algumas respostas, a tempo de fazermos algumas indagações que consideramos importantes. Quem ainda não acessou o episódio anterior (de número 40), acesse e confira; em segundo lugar, ao buscarmos mais informações sobre a possível existência da Lyra dos Conspiradores cabofriense, só encontramos notícias das duas bandas que haviam na época, já mencionadas por demasia no decorrer deste episódio. Em conversa com o Sr. Célio e com alguns historiadores de Cabo Frio, a informação é que antigamente muitas bandas de música eram chamadas de diferentes maneiras, além do nome original. Isso significa que toda aquela narração feita pelo jornal O Lynce sobre uma tal Lyra dos Conspiradores de Cabo Frio se referia a Lira Luso-Brasileira.


Claro que imaginávamos ter descoberto uma terceira banda de lá, mas nada que impeça que sejam realizadas mais buscas, pois são muitos personagens citados nas reportagens da época e, a partir daí, é possível construir relações entre seus nomes, em que atuavam, onde e em que época. O estranho é pensar que a Lyra de Macaé, abolicionista que foi, compareceu à uma festa em Cabo Frio batizando uma outra banda que acabara de florescer, como afirma nosso antigo jornal, mas que na verdade era a velha banda de viés conservador. Isso pode gerar um debate interessante, por exemplo, sobre o posicionamento político dos Lyras de Macaé, desde a fundação da Sociedade, em 1882, até aquele momento narrado pelo O Lynce, em 1899. Ser abolicionista significa ser, necessariamente, republicano? Ou então, ser republicano significa ser, necessariamente, abolicionista? Deixamos no ar essas perguntas.


Então, por hoje é só. Não esquecendo de agradecer a alguns amigos e colaboradores, que possibilitaram a realização do episódio de hoje: aos maestros Hélio Rodrigues e Francisco Silguero; à Susana e Célio Guimarães; e também aos historiadores Luiz Guilherme e José Francisco. Ficamos por aqui e até o próximo encontro. Um grande abraço!



Referência(s):


  • Jornal O Lynce. Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/801240/1;

  • Jornal “A Noite”. Hemeroteca da BN;

  • Cabo Frio : 400 anos de história, 1615-2015 / organização: Flávia Maria Franchini Ribeiro, Luiz Guilherme Scaldaferri Moreira. Brasília. Ibram, 2017;

  • Guimarães, Célio Mendes. Trajetória da Sociedade Musical Santa Helena. Cabo Frio; Editora Artesanal Mendes Guimarães; 1996;



Fundo Musical:

  • Hino do Divino Espírito Santo, interpretado pela banda da Sociedade Filarmónica Euterpe, de Castelo Branco. Dirigida pelo maestro José Amorim Faria de Carvalho. 2012;

  • Hino Nacional Brasileiro, música de Francisco Manuel da Silva e letra de Joaquim Osório Duque Estrada. Interpretado da banda da Casa Edison. 1904;

  • Som de aplausos;

  • Ensaio da Sociedade Musical Santa Helena no seu processo de retomada de atividades no pós-pandemia. Registro feito pelo documentarista Lucas Müller. 2022.

  • A Marselhesa. Banda do Regimento de Fuzileiros Navais do RJ - LA MARSEILLAISE - Rouget de L'Isle. Arquivo Nirez. 1926;

  • Uma Lembrança. Marcha de Procissão, de Juvenal Lira. Do disco "Marchas e Dobrados do Brasil". (Não encontrados a banda e o ano de gravação);


FIM.

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