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  • HM Macahé

Episódio 40. Impérios e Coretos - A Festa do Divino Espírito Santo em Macaé. (Parte 1)


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Introdução


As festas religiosas são, ainda hoje, a tônica do calendário cultural de muitas cidades. Com o tempo, essas festividades foram se mesclando com manifestações culturais ditas profanas, perdendo seu caráter puramente sagrado. As missas, novenas e procissões estão sempre associadas a alvoradas, bandas de música, folias, procissões de bandeiras, levantamento de mastro, refeições coletivas, bingos e feiras, apresentações de teatro, música, gincanas e bailes.


Uma festividade a se destacar é a Festa do Divino Espírito Santo, que é uma das mais antigas celebrações do catolicismo popular brasileiro e que ainda hoje resiste mantendo-se apenas em alguns lugares. De origem portuguesa, foi estabelecida nas primeiras décadas do séc. XIV pela rainha D. Isabel (1271-1336), em 1323, quando da construção da Igreja do Espírito Santo, no convento franciscano da Vila de Alenquer, instalando-se definitivamente no arquipélago dos Açores. A então rainha portuguesa determinou que durante a festa alguém mais pobre fosse coroado rei, que alimentos fossem distribuídos entre os mais humildes e que alguns presos fossem soltos. Conta a história que, em uma Missa de Pentecostes, a Rainha Santa Izabel pediu a seu esposo, o Rei Dom Diniz, de Portugal, que escolhesse uma pessoa bem pobre para que fosse coroado pelo Bispo como “Imperador da Festa do Divino Espírito Santo”. Após a coroação o rei e a rainha cederam o trono ao novo “imperador”. Terminada a Santa Missa a rainha convidou o Imperador e os pobres presentes para almoçar no palácio, quando lhes deu dinheiro recolhido entre os nobres e ricos. Tudo isso porque o Divino iria imperar e cair sobre todos e a terra então viveria em fartura e perdão.


Contudo, José Reginaldo Santos Gonçalves, aponta para estudos em que a criação da festa se deu ainda no século XIII, ligada à ideologia milenarista do abade calabrês Joaquim de Fiore, na qual existiriam três tempos: o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo, que seria marcado pela ausência da mediação da Igreja nas relações entre o Homem e o Divino, e pela caridade. Nesse mesmo contexto se delimitaram rituais e práticas que ainda hoje são considerados basilares para a realização e identificação da Festa do Divino Espírito Santo: a esmola, a comida e a coroação de uma pessoa do povo.

A doutrina do monge italiano calabrês Gioacchino da Fiore (Joaquim de Fiore) exerceu forte influência nas comunidades açorianas. Alguns autores, como João Leal, atribuem as origens da Festa do Espírito Santo aos franciscanos sob forte influência do joaquimismo, creditando aos franciscanos a criação dos festejos ao Espírito Santo e sobrando a rainha Isabel a sua institucionalização e difusão.

Fonte: site "https://pirenopolis.tur.br/"


Segundo o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, esta devoção foi rapidamente propagada, sendo regulamentada pelo código Afonsino e regulada pelo Rei D. João III. Império do Divino, palanques, coretos armados para o assento do Imperador do Divino, criança ou adulto, escolhido para presidir a festa e que gozava de direitos majestáticos, libertando presos comuns em certas localidades portuguesas e brasileiras… A festa, missa cantada, procissão, leilão de prendas, exibição de autos tradicionais, cavalhadas, etc… A Festa do Divino é móvel. Quarenta dias depois do domingo da ressurreição é a quinta-feira da Ascensão do Senhor (Dia da Hora) e dez dias depois é domingo de pentecostes, dia do Divino Espírito Santo…”

A Folia do Divino


É também nesta festividade que se encontra a folia do divino, como define Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro: "A Folia do Divino, bando precatório pedindo e recebendo auxílios de toda a espécie, constituía-se de músicos e cantores com a bandeira do divino, ilustrada pela pomba simbólica, percorriam grandes regiões gastando semanas ou até meses. De seu prestígio basta lembrar que o título de Imperador do Brasil foi escolhido em 1822 por José Bonifácio de Andrada e Silva, porque o povo estava mais habituado com o nome do Imperador (do Divino) do que com o nome de Rei.

"Pedindo para o Espirito Santo". Gravura de Joaquim Teive, simbolizando a "Folia do Imperador do Espírito Santo" (ou Folia do Divino Espírito Santo) no Rio de Janeiro. 1841.

Fonte: Acervo de Iconografia / Instituto Moreira Salles.


Mello Moraes Filho afirma, em “Festas Populares do Brasil'' (1888), que até o ano de 1855 nenhuma festa popular no Rio de Janeiro foi mais atraente, mais alentada de satisfação geral, adquirindo contornos específicos, com mais suavidade e riqueza, muito diferente dos moldes monótonos dos Açores e Coimbra. Ao se referir sobre os festejos, entre o período de 1853 à 1855, nas freguesias de Mataporcos, de Sant’Anna e da Lapa do Desterro, Mello Moraes Filho faz vários registros, e cita um grupo de foliões: " … a música de Barbeiros tocando seus dobrados, quadrilhas e fandangos; a edificação das barracas; a construção do império e dos coretos; a colocação das bandeiras e arandelas; a colocação do mastro, com uma pomba de madeira prateada na ponta e, abaixo, uma bandeira flutuante do Divino, com suas douradas brilhantes e matizes vivíssimos. E a foguetaria estourava, repicavam os sinos, os barbeiros feriam os seus instrumentos e os foliões, que até então conservavam-se quietos, misturavam ao som da instrumentação marcial o rufo acelerado dos tambores, os tinidos dos ferrinhos [triângulos], o tropel das castanholas e o chocalhar dos pandeiros, com que acompanhavam suas cantigas…"


No episódio 32, sobre a música de barbeiros, mencionamos o escritor Manuel Antônio de Almeida (o mesmo que morreu no trágico naufrágio do Vapor Hermes nos mares macaenses). Ele carrega na lembrança os bons momentos de sua infância e descreve, em seu livro ‘Memórias de um Sargento de Milícias’, um grupo de jovens foliões que esmolava durante a novena que precedia o dia de pentecoste: “saía pelas ruas da cidade um rancho de meninos, todos de 9 a 11 anos, caprichosamente vestidos à pastora: sapatos de cor-de-rosa, meias brancas, calção da cor do sapato, faixas à cintura, camisa branca de longos e caídos colarinhos, chapéus de palha de abas largas, ou forrados de seda, tudo isso enfeitado com grinaldas de flores, e com uma quantidade prodigiosa de laços de fita encarnada. Cada um destes meninos levava um instrumento pastoril em que tocavam pandeiro, machete e tamboril. Caminhavam formando um quadrado, no meio do qual ia o chamado imperador do Divino, acompanhados por uma música de barbeiros, precedidos e cercados por uma chusma de irmãos de opa levando bandeiras encarnadas e outros emblemas, os quais tiravam esmolas enquanto eles cantavam e tocavam…”



Festa do Divino em Macaé


Em nossa região norte fluminense, as manchetes jornalísticas do séc. XIX e início do séc. XX, sempre divulgaram suas programações festivas com poucos detalhes. Mesmo assim é bastante nítida a alternância de elementos religiosos e profanos, mas com predominância do primeiro. Um primeiro caso encontrado é em Campos dos Goytacazes. O jornal Monitor Campista lança breve nota com a receita e a despesa de uma festa do divino na capela do Saco, realizada em 1840. As receitas, é claro, são as esmolas e ofertas arrecadadas pelos devotos foliões. Na descrição das despesas constam gastos com missa cantada, sermão, música de barbeiros, armação, foliões, dentre outras. Em 1864, a Cavalhada* aparece como atração na festa de padroeiros de Quissamã, então freguesia da Vila de São João de Macahé.


* A Cavalhada tem origem em Portugal e recria os torneios medievais representando a batalha entre cristãos e mouros. No Brasil, registram-se desde o século 17 e acontecem geralmente durante a festa do Divino.



À esquerda: Jornal Monitor Campista, edição nº 28 de 07/07/1840; À direita: Jornal Monitor Macahense, ano 2 - ed. 157, de 19/01/1864.



Já em 1896, aparece no jornal O Lynce, em sua edição 32, uma programação mais informativa sobre a festa do Divino em Macaé. Durante a novena, num dia 17 de maio, ergueu-se o mastro do Divino, ao som de música, fogos e salvas; dia 23, à noite, novena solene; no romper da aurora do dia 24, o estampido de salvas anuncia o dia festivo e de adoração. Seguindo o roteiro, realizou-se missa e panegírico do Divino. Terminada a missa, sorteio do novo festeiro e demais cargos. "Em todos esses atos, continua o jornal, "tomará parte a distincta e popular banda musical da Sociedade Nova Aurora… e as exímias cantoras exmas. Sras. Ismênia Soares, Leocadia Soares e Anna Soares…". Outra informação bastante curiosa, registrada no programa, é sobre a arrecadação de esmolas. Diz o jornal: "achando-se o povo cansado em concorrer para tantas festas, deixa de pedir prendas e de mandar a bandeira esmolar, ficando ao arbítrio dos devotos suas esmolas ou cumprimento de promessas, que poderão por bondade entregar ao Sr. Bento Martins da Costa…".




Na edição 37, O Lynce lança breve resumo sobre a festa ocorrida dias antes, desta vez publicando os nomes dos festeiros do ano vindouro: "Dr. João da Costa Ribeiro (imperador), capitão Bento Martins da Costa (alferes da Bandeira), Elysio de Oliveira (pagem de estoque) e Pedro de Alcântara Guimarães (alferes do mastro). Destaque para alguns dos festeiros citados: Dr. João da Costa Ribeiro, advogado, juiz municipal e mordomo da Irmandade do Santíssimo Sacramento; Bento Martins da Costa, influente comerciante da cidade e também mordomo da Irmandade do SS; Elysio de Oliveira e Pedro de Alcântara, comerciantes.

À esquerda: Jornal O Lynce, ano 1 - nº32, de 09/05/1896; À direita: Jornal O Lynce, ano 1 - nº37, de 27/05/1896.


Essas informações deixam no ar como o povo realizava esse costume de esmolar com a bandeira. Quem eram seus personagens e o que tocavam ou cantavam? Agora, o povo acha-se cansado de sair às ruas para esmolar com a bandeira e os festeiros sorteados (ou pode-se dizer "escolhidos") são pessoas influentes na vida social e econômica da cidade, sendo um deles responsável da irmandade por receber os auxílios voluntariamente. Uma curiosa transição registrada pelo jornal que merece maior atenção. A banda, que os acompanha "em todos os atos", é a respeitada S.M. Nova Aurora, único conjunto musical presente mencionado.


Indagamos, aqui, o fato de haver ou não grupos musicais que surgem dos próprios devotos, normalmente representados pelas camadas populares. O fato de se pretender romanizar a festa, ou seja, de descaracterizar a representação profana do rito, é um fator a ser considerado. Muitos padres conservadores não admitiam que determinados elementos culturais se agregassem ao que era de costume no calendário religioso. Outro fator era a falta de uma irmandade religiosa do Divino. A festa era feita por alguém que se candidatava para ser sorteado.



A ortodoxia da Igreja


Cascia Frade, em artigo sobre as Festas do Divino no Brasil (2005), afirma que ainda em Portugal “essa festa tornou-se alvo da repressão eclesiástica na medida em que foi percebida como desafio às autoridades romana e papal, pois vaticinava e exprimia, nos símbolos do ritual, o fim da idade do Filho e a vinda do Espírito Santo, como soberano absoluto. A hierarquia católica cuidou de suprimi-la, pondo-a sob controle ou mantendo-a à margem da legitimidade dos programas oficiais da liturgia romana”. Manifestações consideradas profanas ou liturgicamente não ortodoxas, eram reprimidas de forma explícita e violenta. Isso se estendeu até o séc. XX “... Na Beira Baixa, houve proibição por volta de 1928; Na Festa dos Tabuleiros, em Tomar, as comemorações profanizaram-se e tornaram- se sobretudo festejo turístico; em Carregueiros, até 1975, coroava-se o Menino Imperador, mas o pároco impediu que se continuasse o ritual”. Isso se reflete no Brasil de norte a sul, através do controle clerical e do processo de romanização desse festejo. Há que se levar em conta que festas, como as do Divino, são parte de uma cultura que cresceu em ambiente rural. O processo de urbanização de algumas dessas áreas, assim como o êxodo rural para os grandes centros urbanos e também a expansão da religião neopentecostal, são os responsáveis pela degenerescência das tradições populares que, em tempos remotos, eram motivos de alegria e sociabilidade.


Tradicional no Estado do Rio, como já sabemos, e registrada por cronistas, viajantes e folcloristas, a festa do divino foi perdendo seu vigor e reduzindo sua área de incidência, como afirma Cáscia Frade no mesmo artigo. São poucas as cidades em nosso Estado que mantêm a tradição, como é o caso de Paraty e Saquarema. Nelas, a festa é controlada pela Igreja e poder público, com programação articulada de modo a atender aos interesses da paróquia e da prefeitura. Articulação semelhante é o que acontece nos festejos juninos de Santo Antônio, São João e São Pedro, em Macaé (grifo meu). Nas cidades mencionadas, continua Frade, merece destaque a presença de grupos devocionais, totalmente laicos, denominados “Bandeira do Divino”. Trata-se de um conjunto de cinco a sete pessoas, composto por um mestre, violeiro e cantor, um “bandeireiro”, que conduz a bandeira do Divino, e músicos. Cabe ao mestre comandar o ritual, desenvolvido em casas de devotos, previamente agendado. Os componentes, chamados de foliões, são devotos e/ou pagadores de promessa que circulam por sítios, fazendas e residências urbanas, angariando donativos de qualquer espécie para o dia maior da festa, o dia de Pentecostes.” Ainda hoje, essas duas cidades lutam por terem reconhecimento no aspecto legal. Em Saquarema, a festa já é reconhecida como patrimônio imaterial da cidade, porém a folia ainda não.

Cidade mais próxima de Macaé que ainda preserva a festa do divino é Saquarema. Comemorando 253 anos desta tradição na cidade, encontramos esta programação completa, que vai do mês de abril (páscoa) até o dia de pentecoste. Enfatizamos o papel da bandeira, presente em vários atos, e o da "Benção da Mesa", com participação ativa dos devotos foliões.

Créditos: Facebook de Jorginho da Bandeira.



Considerações finais


As festas do Divino constituem-se numa relação de troca com a divindade, são festas de agradecimento, de pagamento de promessas, de cooperação entre os indivíduos da comunidade. São festas das quais não participam pessoas isoladas, mas famílias, formadas pela nuclear mais os compadres, os vizinhos e os amigos. É natural que o envolvimento da comunidade nos festejos sagrados acrescente novos elementos para expressar a sua fé. É como acontece na folia de reis, por exemplo, uma tradição presente em Macaé e que virou tema para dois episódios de nosso projeto (episódios 33 e 34). Também em Saquarema, além da presença da Bandeira do Divino, há uma outra tradição popular peculiar do local que é a "Benção da Mesa", onde se utiliza a farinha como elemento sagrado. Os foliões, ao realizarem a visitação, conduzem seus rituais sempre com cânticos, acompanhados sempre de um violeiro, um tambor rústico, triângulo e pandeirola. O bandeireiro percorre os cômodos da casa de modo a espantar más energias. Na benção da mesa, o dono da casa espalha farinha de mandioca sobre uma mesa, formando uma grande cruz. Enquanto todos cantam, o bandeireiro vai passando a bandeira sobre ela, pedindo fartura. Essa farinha é considerada abençoada, por isso é acondicionada em pequenos sacos que são guardados nos depósitos de alimentos. Vejam que coisa mais bonita de se ver, não é? Um povo simples expressando sua fé de uma maneira não romanizada, sacralizando a farinha que agora se tornou símbolo de fartura, ou seja, um símbolo que impedirá que a fome impere naquele lugar.


Imagem bastante emblemática com as insígnias que simbolizam o sagrado e o profano na manifestação cultural da festa e da folia do divino. Na mesa, tambor, viola, triângulo e pandeirola.

Créditos: Facebook de Jorginho da Bandeira


Ora, mas porquê falar desse passado em Macaé que não existe mais? O primeiro passo foi dado, pois o que era desconhecido e inexistente para nós, agora passa a existir e se torna objeto de questionamentos. Antes de lançar este episódio, conversei com algumas pessoas e todas elas não tinham conhecimento de que em Macaé havia essa festa. Este resgate foi interessante por vários motivos: primeiro, destacamos o contraponto entre os elementos sagrado e profano das festas de santo, que não é uma exclusividade da festa do divino; segundo, porque em Macaé não foram mencionadas as folias nos jornais da época. Sabemos que fontes jornalísticas não são o único caminho para fazer tais descobertas. Ou pode ser que não houve nada disso. Mas como ainda ninguém falou sobre o assunto, deixamos aqui (mais uma vez) nossas provocações para que outros, quem sabe, dêem prosseguimento ao estudo. Ficamos por aqui e até o próximo episódio de HMM. Um grande abraço!




Referência(s):



Fundo Musical:


  • Repique de sinos na festa do divino, em Paraty. 2014;

  • Toada de Bando Precatório. Encontro de cultura caiçara da Costa Verde, Paraty. 2021;

  • Transfiguração. Marcha processional portuguesa, de António Almeida da Silva. Arranjos: Amílcar Morais. Sociedade Musical 1º de Agosto - Banda de Coimbrões. 2019;

  • Toada de entrada em uma residência. Folia do Divino de Saquarema. 2015;

  • Bandeira do Divino, de Ivan Lins e Vitor Martins. Do disco “Nos Dias de Hoje”. 1978.


FIM.

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