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  • HM Macahé

Episódio 37. Dona Carolina e o carnaval da Aroeira.


Dona Carolina e a camisa que ganhou, com a estampa que será o tema do próximo enredo do Carnaval da Aroeira, em homenagem ao artista plástico e carnavalesco Ely Peron.

(Foto: HMM. 18/02/2022)


OUÇA O EPISÓDIO:



Dona Carolina, natural de Cachoeiro de Itapemirim-ES, é moradora do bairro Jardim Santo Antônio, em Macaé, desde o início dos anos 60. Com seus 93 anos de vida, conserva boa memória, cujas recordações revelam uma vida repleta de lutas e realizações. Dentre suas conquistas, uma em especial: protagonizou a criação de uma das mais tradicionais agremiações carnavalescas do município, que já conquistou diversos títulos nestes 60 anos de existência. Estamos falando do GRES Acadêmicos da Aroeira, agremiação criada num bairro de grande valor histórico e cultural do município. Mas quem vai contar melhor toda essa história pra gente é a Dona Carolina, que recebeu gentilmente o HMM em sua casa, e nos revela os bastidores do Samba na Aroeira ...



D. Carolina: quando eu vim morar aqui na Aroeira, tinha só umas casinhas sorteadas… era muito bom. Depois, o meu marido comprou aqui, o Acrísio, trabalhava com seu Duboc. Compramos essa casa aqui, tinha 3 cômodos e ficamos aqui até hoje. Aí foi aumentando a cidade, Aroeira virou um bairro grande, né.


Chiquinho: Quantos anos a senhora mora aqui?


D. Carolina: deve ser quase 60 anos.


Chiquinho: é, porque foi no início aqui com Duboc…


D. Carolina: ele [Acrísio] era carpinteiro, trabalhava com serraria, e a gente foi vivendo. Aqui era loteamento “Doca Barreto”. Depois Duboc comprou o lado de lá, começou fazendo casa e foi aumentando [o bairro]. Mas naquela época eu não… a vida mesmo era pra trabalhar. Eu lavava muita roupa pra fora, Acrísio era carpinteiro, e nós continuamos. Depois, mais pra frente, fomos conhecendo mais gente. Não sei se vocês se lembram de Milton “Caidô”.


Chiquinho: Milton era meu amigo, músico. Tinha um Conjunto…



A VERDADEIRA MADRINHA DA ESCOLA DE SAMBA DA AROEIRA ...



D. Carolina: ele trabalhava na Leopoldina. Também na Leopoldina tinha o “Cabeleira” (Paulo César “Cabeleira”), que era da Escola de Samba de Deguimar, lá do Cajueiros. Aí panhamos amizade. Tinha o Clube Atlético onde participamos, trabalhamos muito lá… Um dia eles falaram comigo: “dona Carolina, vamos fazer um bloco pra sair na rua? Eu falei assim: “sei lá o que que é isso!! Esse negócio de carnaval, não entendo desse negócio não! Ele[Caidô ou Cabeleira] disse: não, eu entendo. Eu tenho uns colegas muito bons lá no Rio, na São Clemente. E eu posso conversar com eles… e eu disse: e nós vamos fazer isso aonde? Ele: a gente combina com o diretor que é o seu Salvador Paes, que é o “tomador de conta” [zelador] do Atlético. Daí, conversando lá, concordaram. Nós formamos a turma, trouxeram os rapazes do Rio de Janeiro. Começamos a ensaiar, o Atlético emprestou o clube pra gente pra gente ir ensaiando lá. Mas quando chegou no primeiro ensaio, teve uma reunião da diretoria. Essa época era Ramid, era o presidente do Atlético. Tinha o Roberto Mourão, que era o secretário. Aí veio um conhecido do Acrísio, lá de Glicério, seu Leodite. Lá eles tinham um bloco grande, ele e dona Izidora. Foram morar ali e logo a gente panhou conhecimento. Eles entraram pro samba. Tem o filho dela, acho que o Messias.


Mas quando acabou a reunião, a bateria nossa já estava toda no salão pra começar o ensaio, o primeiro ensaio. Aí estavam os meninos lá da Escola de Samba [do Rio], estava o Milton Caidô, o Cabeleira, Adilson, Heraldo. Eles tudo eram da Bateria de dona Deguimar. Quando acabou o ensaio, foi o seu Zé Pires, falou assim: “olha, eu tenho um recado pra dar. Roberto Mourão mandou eu no lugar dele, porque ele não pode vir, não. Pra eu dar o recado: ele não concorda com ensaio aqui no Clube, não. E nem sair por aqui (quer dizer: a escola de samba sair para desfilar usando o nome do Clube)... D. Carolina: aquela época eles achavam que uma Escola de Samba era gente ruim lá do morro, tinha muito preto e muita discriminação. Aí, quando ele falou assim, o pessoal se revoltou porque a maior concentração do Atlético era de gente escura, principalmente Ramid, que era negro, e Cabeleira também. Dona Izidora, quando ele falou isso, deu um soco em cima da mesa que o cinzeiro voou lá em cima e voltou… “por quê que não pode sair, porque é preto? É gente também!! Aí foi aquela confusão danada, todo mundo revoltado. Aí eu perguntei: “Seu Zé Pires, e o presidente daqui é branco? Ele disse que não (era o Ramid). Eu falei: então, se o presidente não é branco, por que não pode ensaiar a Escola de Samba que tem preto? Zé Pires: “Ah, ele [Mourão] não concorda porque aqui é um clube de família, e ele não concorda com isso, não. Ele acha que Escola de Samba é lá pro morro… Viemos embora, todo mundo zangado. Eu falei assim: “Eu, nem que seja ensaiar na rua, mas que a Escola vai sair, vai! Aqui era um quintal grande, até lá embaixo, onde é a casa da minha filha.


Magno: A senhora pode lembrar essa época? A senhora tinha quantos anos?


D. Carolina: eu tenho 93 anos agora. Nessa época eu era mais nova, tinha uns 30 anos. Então isso foi há uns 60 anos atrás. Aí, eu tinha uma carreira desses ?? grandes “paulista”. Os pés estavam tudo carregado, mangueira, tudo no quintal. Acrísio, no outro dia, falou comigo: “Carolina, se você não fizer questão de arrancar as plantas, arranca e começa o ensaio aqui. Eu disse que não teria problema, era só marcar o dia. Aí veio Cabeleira, Adilson, veio a turma toda. Eu saí de casa e fui lá em Dona Maria. Deixei eles lá, arrancaram e tiraram tudo…


Chiquinho: quer dizer, preparam uma quadra, né. [Risos]


D. Carolina: foi aí que começou o ensaio. Não tinha tapagem, nada não, era chão. Daí começou a Bateria, puseram tábua pra bateria ficar no alto, botar o som também. Adilson, Cabeleira e Milton tinham muitos amigos lá na São Clemente. Eles iam lá, aprendiam a música… quem fez os primeiros enredos da nossa Escola foram os rapazes da São Clemente. Tinha o seu Geraldo (já um senhor) e mais duas pessoas. O Milton trouxe eles para explicar como é que se fazia, como não se fazia. Levaram dois dias aqui. Eles dormiam na casa de Orbilio e durante o dia o almoço era aqui em casa. O primeiro enredo que eles fizeram pra nós foi apresentando a Bahia. É um enredo mais fácil pra vocês que estão começando e daqui a gente vai partindo. Foi onde começamos, fazer…



UMA KOMBI ILUMINA O CARRO ALEGÓRICO



D. Carolina: Botamos na rua. No primeiro ano a Escola saiu Verde e Branco. Eu não gostei. Nem eu, nem D. Maria, a diretora, D. Izidora. Eu falei: “ai, que coisa triste Verde e Branco. Esquisito! Aí, Deguimar e os meninos deixaram a Bateria lá [dos Cajueiros] e vieram tudo pra cá. Era Heraldo, Milton, Cabeleira, Adilson. Vieram tudo pra cá….


Chiquinho: esses personagens são muito importantes, muito participativos na cultura macaense…


D. Carolina: Milton, por causa dessa Escola, perdeu até o serviço na Leopoldina. Ficou envolvido, faltava o serviço. E a gente foi pelejando, um dava uma coisa, outro dava outra. Começamos aí, na pobreza mesmo. Cada um dava dinheiro…


Magno: Isso já começou como Escola de Samba ou era um Bloco Carnavalesco?


D. Carolina: como Escola de Samba.


Magno: pelo que entendi, a São Clemente batizou a Escola. É a madrinha da Escola de Samba da Aroeira.


D. Carolina: O Bloco só saiu uma vez, o Atlético, Preto e Branco. Já no outro ano entrou Orbilio de Lima, entrou o Jurandir, que fazia as [??] no Fluminense. Ele era amigo de Orbilio… E daí nós saímos na Escola. No dia de sair, os homens se arrumavam na casa de Orbilio e as mulheres aqui em casa. Trazia tudo aqui pra casa, as costureiras… uma filha minha, Lúcia Helena, tinha a Magali, D. Maria… vinha tudo pra cá. Era uma costurando, outra bordando e a gente ficava até de madrugada. No primeiro ano o enredo era apresentando a Bahia. Saiu uma carreta grande, que eles fizeram, enfeitado. Veio o seu Manoel Marcante, montador de Quadrilha, entrou como diretor da Escola. Quando o pessoal já tinha descido tudo pra rua, fizeram aquela carreta grande e cadê que o motor da bicha pegava! Não saía de jeito nenhum. Arrumaram um trator pra puxar a carreta, tapou tudo, cadê que pegava? Foi um desespero.


Eu me lembro que estava sentada e alguém que estava botando a luz na carreta, disse que não tinha jeito não e que a carreta ia sair no escuro. Eu disse: “meu Deus, como é que pode? No escuro ninguém vai ver nada! Sentei numa escada e comecei a chorar. Chegaram o Heraldo, Milton e Adilson e perguntaram o que tinha acontecido. Eu falei que deu tanto trabalho e agora a carreta ia sair no escuro porque o motor não quer pegar. Eles disseram que no escuro não ia sair. Chegaram com uma Kombi pra iluminar a carreta e conseguiram iluminar tudo. Daí continuamos, né. Começou a juntar mais gente, um dava uma coisa, outro dava outra. Fizeram um barracão grande aqui, de fora a fora. No segundo ano, nós saímos[desfilamos] representando o Pão de Açúcar. Também vieram os rapazes de lá[São Clemente], fizeram o enredo e saímos. Daí começamos a sair direto.



PERÓN VIRA CARNAVALESCO



Chiquinho: como é importante a São Clemente na vida da Escola de Samba da Aroeira.


D. Carolina: São Clemente é a verdadeira madrinha da E. S. da Aroeira. Eu lembro que foram três enredos que eles desenharam pra gente: a “Carmen Miranda”, o “Pão de Açúcar” e outro [Chiquinho: a Bahia] que saiu na carreta grande representando o “Dego”(??). Depois Orbilio conheceu Peron lá no Tênis Clube. Ele que enfeitava o Tênis C., o Fluminense…


Chiquinho: ele e Sérgio Quinteiro…


D. Carolina: Isso. Aí, Orbilio era sócio do Fluminense e falou com Perón. Ele falou: “Não, Orbilio, eu nunca fiz Escola. Eu enfeito a rua, o Clube, mas Escola de Samba eu não tenho prática.” Orbilio: “mas eu confio em você, rapaz. Você está fazendo aí, pode fazer Escola. Daí Peron disse que ia ver. Não sei se ele foi no Rio, só sei que a outra foi ele que fez, o [enredo] “Brasil Guerreiro”. Daí pra frente foi ele que fazia a Escola. Aí quando nós ficamos imprensado, o seu[Doca Barreto??] tinha dois lotes de terra aqui e emprestou. Nós fizemos uma quadra toda cercada de bambu. Ficamos quase 1 ano lá. Depois ele precisou dos lotes para vender, renderam. Aí, estava Doca Barreto e seu Duboc já tinha comprado isso tudo [ela se refere a um trecho do Jardim Santo Antônio] e desmanchando tudo… Orbilio saiu procurando um lote para comprar e só tinha lá aonde é agora, que era um pântano, um brejo e ninguém queria comprar. Eram 4 lotes. Orbilio fez uma reunião e disse que o único jeito era comprar ali. E como ia fazer?


Nessa época, Cláudio Moacyr era deputado e foi ele que arrumou os caminhões pra aterrar. Duboc estava fazendo o loteamento e foram tirados 366 caminhões de barro que saía dali pra aterrar o pântano onde hoje fica a quadra da Escola de Samba. Aterrou, e todos nós trabalhamos muito: eu, D. Maria, as meninas dela… fazia angú, feijoada, fazia tudo. Um sol quente de janeiro! Não tinha cobertura, não tinha nada, botava um plástico grande e a gente ficava ali trabalhando. Eu e D. Maria carregamos muito carrinho de massa pra cimentar. As pessoas só podiam ir à noite porque à tarde trabalhavam. A gente ficava até de madrugada. No outro dia, outra vez. Até que conseguimos murar, pra começar os ensaios. E começavam os ensaios assim mesmo, na chuva e tudo. Eu falei assim: “Engraçado, trabalhei esses anos todos e não fiquei com 1 troféu”. Quando Perón entrou pra figurinista, nós ganhamos 11 anos em primeiro lugar. Aí era a Barra, que entrou como Escola, tinha a de Cajueiros, uma no Visconde de Araújo…


Chiquinho: a briga feia era entre Aroeira e Princesinha [do Atlântico].


D. Carolina: era uma briga danada da gente com Perón. Depois que seu Duboc fez uma porção de casa, tinha uma casa que só faltava pintar e emprestou pra gente costurar. A gente ficava até de madrugada. Perón ia ao Rio fazer compras e a gente ficava esperando. Quando ele saiu [da Aroeira] foi pra Mocidade. Aí o pessoal velho da Escola começou morrendo todo mundo, os fundadores: Cabeleira, Milton, Heraldo (morreu de desastre, de carro)...


Ely Peron Frongilo, dentre várias qualidades, também foi carnavalesco, graças ao convite feito, à época, pelo presidente da Escola de Samba da Aroeira, Malvino Orbilio de Lima. Daí em diante, foram vários os títulos de campeã para a agremiação.

(Imagem: facebook 'Macaé das Antigas'. Postagem de Jailton Machado - 03-12-2021)



Chiquinho: Cabeleira era um negro forte e parecia com Paulo Cezar Caju, que jogava futebol. E ele trabalhava, durante o dia, como estivador… Até que ano, a senhora lembra que esteve à frente da Escola junto com o pessoal?


D. Carolina: 30 anos.


Chiquinho: meu Deus! Uma vida!!


D. Carolina: o nosso trato, quando fundamos a Escola, Orbilio (era o presidente na época) falou: “quando os fundadores não puderem tocar a Escola, ou morrer, nós vamos doar a quadra para a prefeitura fazer alguma coisa aqui para as crianças, um colégio…”. A atenção dele era fazer corte e costura, pra aprender, ensinar. O seu Alcides Ramos foi prefeito duas vezes e fomos lá. Orbilio faleceu e fomos eu, as irmãs dele e D. Maria. Os dois mandatos dele, foram lá. Foi fiscal, mediu. São 4 lotes que tem ali. Nós pagamos 50 cruzeiros por mês, Orbilio ia lá no Rio até César Parada Crespo pra pagar o dinheiro do seu Doca [Barreto]. Veio seu Silvio Lopes, prefeito por duas vezes. Nós fomos lá, falou que ia fazer, emprestamos a quadra pra colégio, mas ele não fez nada. Veio o Riverton. Marcamos uma reunião com ele, e ele disse que a quadra estava fechada e que não podia vender. A irmã de Orbilio falou: “e quem tá falando em vender? Nós queremos doar. Temos o documento, o recibo de liquidação, e nós queremos doar para a prefeitura fazer alguma coisa qualquer lá”.


Quando foi agora, mês retrasado, Zezê ligou pra cá e disse: “avisa a tia Carolina que Perón ligou aqui pra vovó, que dia 20 ele vai apanhar ela e vovó pra comer uma feijoada.” Aí eu fui. 13 horas ele chegou aqui, eu já estava arrumada, saí com ele. Quando chegou ali embaixo, falei com ele: “Perón, onde é essa quadra que você vai fazer essa feijoada? Perón: “mas aonde que tem quadra?” E eu disse: “sei lá! A quadra acabou.” E ele disse que eu ia saber onde era a quadra. Quando ele dobrou pra entrar lá pra Escola[de Samba], eu falei: “ah, Perón, não vai me dizer que a quadra é essa aí? Perón: “sim.” Se eu soubesse que era aqui, não vinha. Porque nunca mais eu passei aqui… Ele foi buscar D. Maria enquanto eu esperava lá fora porque eu não queria entrar. Eles chegaram e entramos juntos. Olha, não tenho vergonha de dizer, mas chorei muito quando entrei, porque a quadra estava a coisa mais linda do mundo.


As duas madrinhas da Escola de Samba da Aroeira, D. Maria e D. Carolina, presentes na feijoada realizada no dia 14/11/2021. Na foto, agachado: Jorginho de Paula. Em pé: Francis (Bô)


AROEIRA NÃO É SÓ CARNAVAL


Magno: Eu queria fazer outras perguntas, eu não sabia que a senhora era tão ligada à Escola de Samba daqui. Porque aqui no bairro, antigamente, existiam outras manifestações culturais, né.


D. Carolina: quando eu me mudei, tinha o seu Ailton Pires, tinha o Bloco “Bate-Papo”, tinha Jongo em seu Ailton, essas coisas todas…


Magno: Tinha uma coisa aqui chamada de “Escambau”. A senhora lembra o que é isso?


D. Carolina: Não.


Chiquinho: Escambau tem a ver com a cultura Afro.


Magno: Deve ter a ver com o Jongo. Era um nome daqui…


Chiquinho: o Escambau, quando chegou no Brasil, eles transformaram em Jongo. Era a mesma coisa.


Magno: A senhora ouviu falar alguma coisa sobre Fado, aqui também?


D. Carolina: Não.


Chiquinho: o que a senhora tem pra falar pra gente sobre a Boneca Filomena?


D. Carolina: ahh! Foi feita aqui, no quintal de Orbilio e Tereza. Minha boneca Filomena foi feita com a gente aqui.


Chiquinho: Quando eu cheguei em Macaé e vi a Boneca Filomena, eu nunca tinha visto aquilo. Fiquei maravilhado! Descobri que saía aqui da Aroeira e fui atrás.


D. Carolina: guardava na casa de Orbilio. Depois o Gilmar tomou conta. Aí foi acabando, carregaram ela lá pro morro [??], nem sei se tem mais. Começa entrando gente bagunçando, sabe!


Macaé carrega, nos Blocos de Rua, grande tradição cultural. Dentre eles os Blocos com Bonecos. Nos anos 70 e 80 a boneca Filomena dominava a cidade nos períodos de carnaval.

(Imagem: facebook 'Macaé das Antigas'. Postagem de Marcos Nunes - 14/04/2020)



Chiquinho: o carnaval de Macaé, essencialmente, era Clube. E tinha esses Blocos de rua.


D. Carolina: Depois saiu um casal ali da Barreira, né? Tinha a boneca e o boneco.


Chiquinho: e eu fiquei encantado pra ver quem é que estava embaixo daquela boneca, eu ficava curioso. Uma vez, alguém foi dar uma água e quando levantou, era um garoto… Quando a Boneca Filomena chegava na cidade, ela descia ali na Télio Barreto, dobrava, entrava na Tenente Cel. Amado, passava perto da Igreja São Paulo Apóstolo. E D. Mulatinha, avó de minha mulher, ficava na esquina esperando a Filomena para render homenagem. Ela[Mulatinha] se curvava. Era como se fosse uma Deusa. Uma coisa fantástica, eu até me arrepio quando lembro! Pra mim foi uma sensação diferente, pois estava acostumado com o carnaval do Rio. Quando vi aquilo, falei: “que manifestação cultural bonita!”


D. Carolina: A gente fazia, costurava. A finada Dorsília fazia a roupa, vestia ela quase inteira.


Chiquinho: Os moradores ajudavam, davam um dinheirinho pra comprar tecido. Eu, até agora, quando as crianças batem em casa pedindo dinheiro pra fazer o boneco, eu dou dinheiro, ajudo.


Magno: É mais o Boi, hoje, né?


D. Carolina: O Boi acabou, né! Tem o Gilmar. Ele fazia cada Boi bonito abessa.


Magno: A senhora é macaense?


D. Carolina: Sou do Espírito Santo, de Cachoeiro de Itapemirim.


Magno: A senhora veio pra cá com quantos anos?


D. Carolina: Quando saímos de lá, viemos… não teve a Companhia Coteca? Meu padrinho (meu marido trabalhava com ele) veio fornecer lá no Morro do Côco. Quando vieram embora, tinham dois primos deles de Campos[dos Goytacazes], Dinarte e Dionísio. Eles tinham comprado essa Fazenda Califórnia. Aí meu padrinho entrou de sócio com eles. Moramos ali por muito tempo e depois que os primos voltaram pra Cachoeiro, Acrísio trabalhava com Duboc e viemos aqui pra Macaé.


Chiquinho: A senhora tinha algum apelido/nome artístico na época?


D. Carolina: Não. Era Carolina mesmo.


Chiquinho: Nós estivemos aqui na casa de Dona Carolina, que é uma das fundadoras da Escola de Samba da Aroeira. Tivemos o prazer de ter esse papo maravilhoso com ela e espero que venha engrandecer o nosso podcast.


Magno: Eu tenho que agradecer à senhora a atenção e a disponibilidade de estar recebendo a gente.


Dona Carolina: Eu que agradeço vocês.


Foto em conjunto, para registrar esse momento tão precioso para nós do HMM.

D. Carolina, Chiquinho e Magno. 18/12/2022.




Referência(s):


Fundo Musical:


  • Samba-enredo do GRES Acadêmicos da Aroeira "Enfim, saímos da vida pra entrar na história". CD Sambas-enredo de 2008;

  • Samba-enredo do GRES Acadêmicos da Aroeira "Verás que um filho teu não foge à luta". Desfile na Linha Verde. 2014;

  • Desfile de Bois-Pintadinhos - Boi Riquinho. Carnaval 2013.

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