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  • HM Macahé

Episódio 35. A caixa de guerra de uma milícia jesuítica.




OUÇA O EPISÓDIO:

Imagem acima: Igreja de Sant'anna, Macaé (autor e data desconhecidos); ao lado: "soldados índios civilizados da província de Curitiba. trazendo de volta selvagens cativos. JB Debret, Viagem Pitoresca ao Brasil.

Abaixo: soldado tocando caixa; ao lado: Aldeamento indígena levado a cabo por jesuítas. Ilustração sobre o original de Zacharias Wagener.

Montagem: Magno.


Baseado no artigo de Márcia Amantino: “Exposição do Padre Antonio Vaz Pereira acerca da degradação dos Índios do Aldeamento de São Lourenço e de São Pedro. Queixas contra os Padres José dos Reis e Manoel de Andrade da Companhia de Jesus. 1757”



Estamos no ano de 1757. Macaé era um arraial com basicamente duas fazendas: a de Imboassica (antes “Imboacica”) e a Fazenda de Macahé (ou Fazenda de Sant’anna), esta última compreendida entre a foz do Rio e o morro que leva o mesmo nome. Macahé (com H) dava seus primeiros passos até se tornar uma Vila, em 1813. Tinha uma capela no topo do morro (sob a invocação da mesma santa), um cemitério, um Colégio e um engenho, que produzia açúcar e farinha de mandioca. Na fazenda também havia curral - para descanso e engorda do gado que vinha de Campos dos Goytacazes antes de chegar ao Rio de Janeiro - e a produção de madeira era alta, destinada para a construção naval e edificações. Nesta época quem controlava o arraial era a Ordem dos Jesuítas, um poder paralelo que acumulava muitas terras e exercia grande controle da mão-de-obra indígena, escrava e dos colonos. Desde o século XVI a Companhia de Jesus havia conseguido amealhar uma considerável fortuna através das doações recebidas, dos imóveis alugados, das terras arrendadas, das fazendas produtoras de riquezas, da venda de produtos e da cobrança por serviços prestados.


Longe de ser um lugarejo pacato do interior, já nessa época Macahé apresentava sinais de uma crise causada por um agravamento das relações sociais. Todo esse poder e riqueza dos jesuítas começaram a gerar conflitos que já se desenrolavam desde o início do século XVIII, causando grande desconforto na Corte. De aliados da Coroa, desde 1540, os inacianos passaram a ser inimigos até que, em 3 de setembro de 1759, D. José I assina a lei que os expulsaria da Companhia de Jesus, tanto de Portugal quanto do Brasil. Aqui, tal ordem ficou a cargo do Marquês de Pombal.


Padre jesuíta no Brasil colônia

Fonte: http://library.brown.edu/create/fivecenturiesofchange/chapters/chapter-2/the-jesuits/


Em junho de 1755, duas leis foram promulgadas: a primeira, em 6 de junho, restituia a liberdade aos indígenas; a segunda, no dia seguinte, retirava dos missionários a administração temporal dos aldeamentos e, consequentemente, retirava também os benefícios de seus dividendos. Em maio de 1757 foi instituído o “Diretório dos Índios”, um projeto civilizatório voltado para a regulação da liberdade concedida às populações indígenas dois anos antes. Foi redigido por Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal e administrador do Estado do Grão-Pará e Maranhão. Isso preocupou as autoridades eclesiais da época, como o bispo D. Miguel de Bulhões, governador interino da Capitania do Grão-Pará, que expôs em carta ao futuro Marquês de Pombal sua preocupação em relação às leis de junho, argumentando que “a libertação dos índios poderia acarretar o desmantelamento da já precária economia da colônia. Libertá-los, sem qualquer instrumento que os obrigassem ao trabalho, despovoaria os engenhos e as lavouras e provocaria a revolta dos colonos”.



Coube a um padre, de nome Antonio Vaz Pereira (presbítero do Hábito de São Pedro), redigir um documento direcionado ao rei, com data de 24 de agosto de 1757, onde queixava-se sobre o poder excessivo dos inacianos e seus comportamentos violentos em algumas regiões da Capitania do Rio de Janeiro. Eles agiam em desacordo com as novas leis. Mas foi sobre Macahé que o padre se deteve com maior atenção, expondo na carta o poder temporal dos jesuítas, seus desmandos e as riquezas da Ordem. Fora isso, apontou inúmeros casos de maus-tratos a negros, índios, brancos, pobres ou não. Antonio Vaz cita um feitor da fazenda de Macahé, de nome José dos Reis, um padre que praticava absurdos contra a população local: mandava bater em quem não seguia seus mandos, ateava fogo nas casas, confiscava madeiras, espancava cruelmente os índios e negros que trabalhavam sob seus domínios, dentre outras atrocidades mais. Nem mesmo a Igreja e os dias sagrados eram respeitados. Além de José, figurava outro padre da mesma Companhia: Manoel de Andrade. Para realizar suas aventuras truculentas, José dos Reis e Manoel de Andrade tinham uma milícia pessoal que andava pela fazenda impondo suas vontades.


Tratava-se de um corpo armado de 50 homens e um fato curioso: a milícia tinha, entre seus sequazes, índios e negros. Tanto é que o nome dado por José dos Reis ao grupo foi “Henriques e Camarões”, em alusão ao ‘Terço do Camarão’ e ao ‘Terço de Henrique Dias’. Ambos têm ligação com movimentos responsáveis pela expulsão de invasores holandeses do nordeste, no século XVII. Os terços acabaram se tornando importantes aliados da coroa portuguesa, como força auxiliar na estrutura militar da colônia. Detentores de um status social diverso das tropas regulares, essas milícias foram utilizadas em diversos empreendimentos no contexto da expansão do império português. Compostos por negros forros, índios e mestiços, essas milícias se consolidaram por bastante tempo tendo, inclusive, lutado contra o Quilombo dos Palmares.


Apesar de algumas semelhanças com os terços, as ações arbitrárias e criminosas da milícia de José dos Reis em Macaé não se comparam com a conjuntura dos terços no século anterior, a não ser em relação aos seus membros, em sua maioria índios e negros. Isso afrontava a sociedade macaense da época, que estava à mercê daqueles considerados como inferiores. Eram eles que batiam e impunham exigências. Toda essa situação chegou ao limite quando a própria casa de Antonio Vaz Pereira foi queimada e também alguns de seus índios. Agora, o mais curioso: durante as investidas da milícia, saía à frente dela uma caixa de guerra. Em um trecho de sua carta, Antonio Vaz diz o seguinte: “... tem o suplicante [Antonio] sua residência no Rio de Macahé e na Barra dele se acha o padre José dos Reis, da mesma Companhia, feitor de uma fazenda em que está fabricando um engenho de açúcar para o seu Colégio em terras dos índios, o qual tem obrado contra os moradores e os índios absurdos seguintes: preparou uma caixa de guerra e armou coisa de cinquenta homens entre índios e pretos, a quem apelidou “Henriques e Camarões”, com armas de fogo, chuços e lanças…”.


Em outra ocasião, diz Antonio: “... Os escravos do Colégio, em quem o dito Padre tem dado público castigos e extraordinários, são os seguintes: Ao Preto Gonçalo mandou dar cinqüenta açoites em cada canto da povoação daquela fazenda com um pregão que dizia: “”Justiça que manda fazer o Reverendo Padre José dos Reis, Superior desta fazenda, a este homem por falar no seu crédito”” e logo lhe faria beber um molho de sal, pimenta e vinagre, tocando a sua caixa de guerra entre seus Henriques e Camarões…”. Para finalizar com mais um exemplo, diz Antonio em outro trecho: “... Em véspera do Espírito Santo desceu o dito Padre, ao som de uma caixa de guerra no centro dos seus Henriques e Camarões, tocando a degolar contra o povo a favor de seu compadre Manoel de Mello por ter este dado muita pancada em um Mascate chamado Antonio Luiz, que se opôs à Santa Unção, e haveria muitas mortes se o Missionário Suplicante não se achasse naquele lugar…”.


O viés militar de José dos Reis, apesar de grotesco e criminoso, segue uma tendência que vai de encontro aos primórdios da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola em 1534, porém só aprovada oficialmente através da Bula “Regimini Militantis Ecclesiae” (do latim “O governo da Igreja Militante”), em 27 de setembro de 1540. Inácio, de origem basca, foi um aspirante da carreira militar, leitor de livros de cavalaria e tornou-se exímio cavaleiro, participando de vários combates. Numa batalha contra os franceses, teve a perna direita estraçalhada após ser atingido por uma bala de canhão. A partir daí sua carreira espiritual começa. Impossibilitado de continuar suas aventuras militares Loyola - de acordo com o historiador inglês Jonathan Wright, autor de “Os Jesuítas” - “identifica alguma coisa de invejável nas vidas heróicas dos santos, uma espécie de cavalaria espiritual, e seguiu o exemplo”. José dos Reis, ingênua ou intencionalmente, parece invocar o pai desta Ordem religiosa ao cometer suas arbitrariedades.


Considerações finais:


Mas nosso episódio é sobre música, e por isso vamos falar brevemente sobre este instrumento que chama muito a nossa atenção, justamente por ser muito popular e exercer importante função musical desde muito tempo. O tarol (tarola), ou caixa, é um tambor do tipo bi-membranofone e de corpo cilíndrico que sofreu várias adaptações com o tempo.


"Os tambores são instrumentos musicais presentes nas mais remotas civilizações humanas. Em muitas culturas, sua execução é ligada às funções rituais, solenidades e atividades sociais diversas, bem como associada (muitas vezes de forma inseparável) à dança e ao canto. Os instrumentos de percussão em geral e em especial os tambores têm longa associação com a guerra…" (Braga, 2011). Mas os tambores do tipo "caixa'' têm sido usados em contextos de desfiles e batalhas, movendo as tropas a partir das cadências da batida. A caixa descende de um tambor medieval chamado de "Tabor", muito comum à época e era feito com um laço único amarrado na parte inferior. É um pouco mais alto do que o tom médio e foi usado pela primeira vez na guerra. Por volta do século XV, o tamanho da caixa aumentou e ela adquiriu uma forma cilíndrica. Este tambor simples com uma esteira ajudando na ressonância, tornou-se popular com as tropas de mercenários suíços, devido à influência dos tambores no exército turco Otomano da época.


"Três vistas de uma caixa militar". Note o pequeno laço na parte inferior, que veio a dar origem à esteira.

Jean Antoine Watteau - 1713; Frick Collection.


Sua única mudança ocorreu no século XVII, com o uso de parafusos para prender as duas peles, dando um som mais brilhante do que o chocalho de um laço solto. Depois disso, sua forma se manteria constante até o século XX quando ela passou a ser feita de metal.


E assim terminamos mais um episódio de HMM, remetendo a 265 anos atrás para falar de uma milícia de um padre jesuíta em Macaé, que usava uma caixa de guerra com sua tropa, cometendo barbaridades com os antigos habitantes do arraial. Vejam só que coisa interessante, não é mesmo? Então é isso, meus amigos. Por hoje é só e até o próximo encontro. Um grande abraço!!


FIM.



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