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  • HM Macahé

Episódio 34. Em Macaé, brilha a Estrela do Oriente - Especial Folia de Reis. (2ª parte)


Créditos de imagem: Fundação Rio das Ostras de Cultura (FROC)

06/01/2022.


OUÇA O EPISÓDIO:



História da Folia de Reis em Macaé


Falar sobre a Folia de Reis em Macaé é algo complexo. Primeiro porque há muito tempo atrás existiam grupos espalhados pela cidade e na região serrana e que, infelizmente, não existem mais. Sobre alguns destes grupos, falaremos no próximo episódio, o último desta série sobre a Folia de Reis em Macaé. Em segundo lugar, falar sobre o grupo que existe atualmente, implica entender não só o momento em que foi criado aqui, porque na verdade ele não foi criado em Macaé. Toda folia carrega em seu nome uma tradição e devoção familiares que passa por várias gerações. Falar sobre a Folia de Reis Estrela Oriente, de Macaé-RJ, é contar a história de um grupo que renasceu aqui na cidade no ano de 2013, mas que já desfraldava, 100 anos antes de sua recriação, a sua bandeira representativa da visita dos reis magos à Belém.


Foi na Fazenda Fervedouro, na localidade de Monte Verde, em Cambuci-RJ, que o mestre Geraldo Chaves deu início a esta festividade em 1913. De lá pra cá, ao se mudarem para outras cidades do Estado do Rio, filhos do mestre Geraldo foram criando outros grupos. Como o caso de Zeca Chaves, o Zeca da sinuca, que criou o “Estrela da Guia” em Aperibé, cidade próxima à Itaocara. Também o Pedro Chaves, mestre muito respeitado e mencionado como o grande disseminador da tradição, fundou em Itaperuna folia de mesmo nome. Da mesma forma em Macaé, Martha Chaves também trás para a cidade a tradição, mantendo o nome também.


Folia de Reis Estrela do Oriente, de Itaperuna. Fundado por Pedro Nolasco Chaves (de chapéu na foto), integrante da família que também deu origem ao grupo de Macaé.

(Foto: acervo particular de Martha M. Chaves. Anos 80)


Se observarmos bem a proximidade das cidades, que carregam essa tradição, com o Estado de Minas Gerais, não é por acaso. Em um trabalho sobre a folia de Reis em São Fidélis, Nelzimar Lacerda e Stéphano de Freitas afirmam que “a instalação das Folias de Reis no município de São Fidélis se deu no contexto da zona rural nos séculos passados, cujas divisas do município com a região do estado de Minas Gerais favoreceu para isso, inclusive o ritmo das folias. Segundo o mestre da Folia Estrela da Guia de São Fidélis, Ademilson Filho, o ritmo das folias existentes, até hoje, é o ritmo mineiro…”. Esse processo se inicia com o ciclo do ouro e do diamante em Minas Gerais, gerando um grande impacto no território fluminense.


Nelzimar e Stéphano continuam: “... O Estado do Rio de janeiro passou a ser o escoadouro de ouro, desenvolvendo o comeŕcio e propiciando o surgimento de rotas de ligação com as Minas Gerais. No final do século XVIII, o Estado do Rio de janeiro estava transversalmente todo cortado por caminhos e provido de portos e pontos de passagem que, inicialmente eram feitorias e pousos que se transformaram em aldeias, arraiais e vilas, entre as quais a cidade de São Fidélis, que pertencia à Capitania de São Tomé. Com a exaustão do garimpo, a economia brasileira voltou novamente a depender de exportações agrícolas. O plantio do café introduzido no Estado, por volta de 1830, modificou a economia fluminense, bem como de todo o Império ao longo do século XIX. A repercussão da prosperidade econômica no processo de ocupação foi enorme, de modo que contribuiu para o surgimento de núcleos urbanos e agrícolas. É exatamente neste cenário que surgem as manifestações das Folias de Reis, percorrendo pelos caminhos do ouro das Minas Gerais e se estabelecendo na região norte e noroeste do Estado do Rio de Janeiro, sempre com o mesmo objetivo religioso – o da anunciação do nascimento do menino Jesus…”



Entrei em contato com Ronalt Aguiar Santiago, o mestre Roninho. Ele tem 67 anos, é produtor cultural formado pela UFF, mestre de capoeira, folião de Reis, jongueiro, artesão, poeta, dentre outras qualidades. Folião desde criança, cresceu em Pureza, distrito de São Fidélis-RJ, e vem desenvolvendo um importante trabalho sobre a Folia na região Norte-Fluminense, em especial na nossa vizinha Quissamã, com o Terno de Reis. Diferente da Folia de Reis, em Quissamã o Terno de Reis é composto por um grupo reduzido de músicos do Fado, outra tradição do local, onde Roninho integra o grupo trajando o seu palhaço de folia e fazendo visitas, seguindo roteiro semelhante ao das companhias. Ele nos conta um pouco mais sobre a tradição da Folia e sobre seus trabalhos na região:


Mestre Roninho: eu fiz um trabalho de TCC sobre Folia de Reis aqui do Norte-Fluminense, que começa em Macaé e termina em Cardoso Moreira. Mas eu também sou folião desde criança, eu estou sempre envolvido com isso. Escolhi esse tema até por isso também… e pelas pesquisas que eu fiz, isso começa com a religiosidade, o catolicismo. Aqueles autos de santo, auto de natal. As igrejas, os jesuítas, faziam esses autos e, na maioria das vezes, segundo Carlos Brandão, eles soltavam folias, na própria igreja católica, pra que angariassem fundos e fazer a festa do santo de interesse da igreja. O que mais chamou a atenção das pessoas é o “Santos Reis”, celebrar no dia 6 [de janeiro] nas proximidades e angariar fundos pra fazer a festa, por determinação e controle da igreja. Com a ida do brasileiro pro interior, essas manifestações continuam, mas agora sem a presença da igreja e sem autorização da igreja católica.


Então essa coisa foi se alastrando pro interior, mas o início dela foi com a catequese. Celebrar essas festas, os autos. E aí cada dono, cada pessoa que quisesse manifestar, fazia o próprio grupo e realizava suas festas. E essa coisa do uniforme e da introdução de outros personagens, ritmos, cantorias, isso veio com o tempo. Isso é do folclore, vai se folclorizando e as pessoas vão dando idéia e cada grupo vai se formando de acordo com a vontade do seu dono. Isso foi lá no século XVII. Nós temos no Norte-Fluminense folias com dois palhaços, no máximo. Mas há regiões que têm vinte palhaços (do sul fluminense). Falando em termos de Estado, em Espírito Santo e Minas Gerais (que eu acredito que isso foi muito forte nas Minas Gerais), porque foi todo mundo pra lá no ciclo do ouro. Então de lá que surgiu mais essa coisa da religiosidade, e isso veio se alastrando de novo, retomando pra zona urbana. Cada região faz uma adaptação ao bel prazer. No sul é de um jeito, São Paulo de outro, Bahia “não é de um jeito”, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás… cada uma se manifesta de uma forma um pouco diferente. Mas é o mesmo santo, a mesma manifestação. Hoje você já sai por questões de promessa, pra sair durante um tempo e me alcançar uma graça x ou y.


"A origem das festividades de santos reis remetem à Europa medieval, em países como França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e Bélgica. Os dramas litúrgicos eram usados como instrumento de ensino e divulgação da doutrina cristã, principalmente pela ‘Companhia de Jesus’. A temática dos reis magos foi se popularizando através dos dramas medievais como o “Miracle” e “Mistérios”. Os monges dominicanos de Milão adaptaram, em 1336, a forma processional de carros-palco num auto sobre os reis magos. Assim surgiram os cortejos, vinculados aos templos religiosos das cidades, que encenavam essa temática dos magos, bem como grupos peditórios no âmbito dos povoados rurais que, de casa em casa, levavam a mensagem do nascimento de Jesus.


No Brasil, as festividades de Reis foram introduzidas pelo primeiro governador geral Tomé de Sousa, por volta de 1559, sob a forma de canto, dança e encenação, para catequese e ensino. O culto aos reis magos e sua folia esteve presente na inauguração do forte, em 1598, na cidade de Natal-RN. José de Anchieta (1534-1597), formado na escola de Gil Vicente, compôs, ensaiou e representou sua peça teatral “Auto da Pregação Universal”, re-intitulada “Na Festa de Natal”, na Igreja dos Jesuítas em São Paulo de Piratininga (primeiro nome dado à cidade de São Paulo), no natal do ano de 1561, no ano novo e no dia de Reis, em 06 de janeiro de 1562. Este é o primeiro registro de um auto encenado no Brasil que, com adaptações diversas, foi repetido por toda a costa brasileira, em aldeamentos jesuíticos. Posteriormente, foi inserido nas jornadas de pastorinhas, que percorriam as casas recolhendo donativos para finalidades assistenciais. Na segunda década do século XVIII, Nuno Marques Pereira (1652-1728), em seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, registra a presença de Grupos de Reis peditórios na Bahia: “uma noite dos Santos Reis saíram estes (homens) com vários instrumentos pelas portas dos moradores de uma vila cantando para lhes darem os Reis em prêmio que uns lhes davam dinheiro e outros doces, frutas etc.”" (Santos; 2008)



Continuação - mestre Roninho…


Roninho: Quando fiz minha pesquisa, encontrei em Quissamã o Terno de Reis. Inclusive hoje eu participo do Terno de Reis em Quissamã. É uma variante da Folia de Reis.


Magno: o termo “Terno” vem de três, né?


Roninho: isso. Porque, geralmente, eram 3 pessoas que saíam visitando de casa em casa, fazendo o mesmo papel das folias de reis.


Palhaço Roninho acompanha o Terno de Reis em momento histórico. Evento realizado na localidade de Barra do Furado, por ocasião do encerramento do ciclo do divino, no dia 30/01/2019.

(Fonte: Ricardo Gomes - site folha1.com.br)


Magno: é na origem, o Terno, ou só uma variante?


Roninho: segundo a minha pesquisa, a folia começa com os padres botando grupos de pessoas… é um grupo de gente lá pra cantar, pegar dinheiro, prendas, pegar boi e alimento pra fazer a festa de santos reis. Então saía um mês antes, visitava a fazenda, pegava aquelas folhas e botava no carro de boi e traziam pra igreja pra fazer a festa. Foi sempre o papel da igreja celebrar estas festas. Tem folia de São Sebastião, São Cosme e Damião, de São Pedro… e o que ficou permanente por aí são as Folias de Reis, porque elas não estão muito ligadas às igrejas. Elas estão livres. Ela [folia] se espelha muito no batalhão da guarda real: são duas fileiras, uma de cada lado. É todo mundo uniformizado. O nome do cara que transporta a bandeira tem o mesmo nome do antigo tenente, que é o alferes, o condutor da bandeira.


Roninho nos fala sobre algumas características das orquestras musicais dos grupos de Folia em diferentes locais da região sudeste…


Nossa região, de Macaé até Cardoso Moreira, que é a região Norte-Fluminense, e a noroeste também, pegando Friburgo, Cantagalo, região serrana e o Rio de Janeiro, o que eu conheço é uma folia de reis de caixa. Muita caixa e pouca melodia. Já no sul de Minas, você encontra muita melodia e pouca caixa. A folia parece uma orquestra de cordas, mas com todos os aspectos, também: uniforme, bandeira. Uns usam de uma forma, o estandarte, outro usa bandeira do tipo “capelinha”. Ou do tipo lapinha, que é uma bandeira tipo um presépio, tipo uma igrejinha. Outros já são banner, tipo estandarte ou galhardete. Cada região entra com uma forma e a gente não tem como julgar, "essa está certa" ou "essa está errada".


A gente, aqui em São Fidélis, é muito conservador. A gente tenta segurar tudo aquilo que a gente aprendeu, também. Porque a gente pegou aqui com os nossos antepassados, nos anos 60, final dos anos 50, a gente mantém essa tradição. Muito suave, meio procissão, uma coisa bem lenta, apesar de ter instrumento de couro. Aqui não tínhamos o hábito (está até entrando agora) de usar o tarol com esteira. Não era essa algazarra, não. A coisa é mais no couro simples. Instrumentos de madeira, feitos artesanalmente. Mesmo assim, alguns grupos já estão entrando com essa coisa do barulho… eu não sou muito fã disso, não. Na nossa folia também, o palhaço é uma espécie de poeta. Poeta cordelista, repentista, conta casos engraçados, faz piada e tal. Já o palhaço lá do sul fluminense, onde tem esse monte de palhaço junto, eles são mais acrobatas, meio capoeirista, dão saltos, cambalhotas. O que não é comum aqui em nossa região. Mas eles tem justificativa para aquilo lá. O excesso de palhaços, na nossa visão, seria o exército de Herodes perseguindo os magos. Os palhaços fazem parte de um batalhão de soldados de Herodes. Na nossa área aqui, um ou dois palhaços significa “espião”. Tem nomes também: aqui é palhaço; em São Paulo é “bastião”. Aqui o nome é o palhaço que escolhe, que ele se auto-intitula. Tem o “Ventania”, o "Pantera", o “Tempestade”... Outros são conhecidos pelo próprio nome mesmo. Acaba que, em algumas cidades, absorvem um pouco de uma e de outra. Duque de Caxias tem um grupo que pega um pouco desse tipo de palhaço do sul fluminense e um pouco do modelo do norte. Daí faz uma miscelânea dananda! Mas como é folclore… segundo um um professor que eu tive: “folclore a gente não dá pitaco, a gente faz registro. Não tem como interferir”. O folclore sofre essas mudanças de acordo com a vontade de quem está à frente do movimento.


O retorno do reisado macaense


Dia 06 de janeiro de 2022. Dia que marca o retorno do Reisado macaense, depois de quase 2 anos de uma pandemia que ainda não acabou. Porém, todos já vacinados com as duas doses recomendadas e outros também já com sua dose de reforço tomada. Dia marcante para mim que, como músico e mentor do projeto HMM, fiz minha estréia como folião e mais feliz ainda por estar junto ao meu filho de 14 anos, que também fez sua estréia. E é por isso que na segunda parte desta série sobre a folia de reis, cumprirei o prometido: narrar todo o roteiro da folia neste dia, descrevendo as características do grupo e suas abordagens musicais. E desta vez, a jornada ocorreu na cidade de Rio das Ostras, à convite da Fundação de Cultura de lá.


Tudo começa antes mesmo da viagem para Rio das Ostras. Na casa da família Chaves, fundadora da Folia, os foliões, mais os palhaços, vão chegando e se preparando. Todos uniformizados com suas fardas: calças e sapatos sociais de cor branca, camisas de cetim verde/azul/branca; e bonés enfeitados com espelhos, fitas e argolas. Destaque para o mestre que possui farda diferente dos demais foliões. Mais do que isso: usa, com orgulho, a farda herdada do seu tio e mestre Pedro. Todos aguardam as instruções do mestre Jean Chaves. Um breve ensaio, com o mestre puxando versos e os músicos tocando estribilhos e cantando toadas. Devido ao horário, não foi realizada a ladainha, como de costume. Na ladainha são feitas algumas rezas, invocando proteção para o bom êxito da caminhada que se aproxima. Todos prontos, seguimos viagem. O ponto de partida de nossa marcha é em frente ao Teatro Popular de Rio das Ostras, na Avenida Amazonas, sentido centro. Já na concentração, o mestre “capitão” coordena e organiza as duas colunas formadas pela orquestra musical, composta por 30 músicos, em sua maioria amadores: 2 bumbos, 3 caixas, 1 triângulo, 3 tan-tans, 3 pandeiros, 2 sanfonas, 6 violões, 1 viola, 2 pandeirolas, 1 reco-reco, 2 ganzás, 1 cabaça, 1 afoxé, 1 flauta transversal, 1 trombone e 1 fiscal. Apesar da fartura de instrumentos não ser comum em outras folias, isso reflete um aspecto positivo no que diz respeito à participação cada vez maior de foliões e o compromisso de todos em manter a tradição viva.


A frente de todos encontra-se a alferes, também chamada de bandeirista ou bandeireira. Junto a ela estão duas pastorinhas, uma de cada lado. e cada uma com seu pequeno ganzá. Como não poderia faltar, os dois palhaços Gaguinho e Renan, convocados de Miracema especialmente para a ocasião, caminham junto aos foliões, sempre pelo lado de fora das colunas, um de cada lado. E o mais importante: nunca devem passar a frente da bandeira.


A alferes Martha Chaves guia os foliões com a bandeira do grupo.

Foto: FROC


Iniciada a jornada, em posição militar e em marcha lenta, como uma procissão, percorremos parte da Avenida Amazonas e um trecho da avenida principal (RJ-106) em direção à Igreja Matriz. Neste trajeto, cantigas populares foram tocadas e cantadas pelo grupo. Canções de louvor como “Mãezinha do céu”, “Obrigado senhor”; e outras canções folclóricas como “Calix Bento”. Os instrumentos de corda e as sanfonas fazem a harmonia, a Flauta do mestre conduz a melodia e o trombonista convidado dá o reforço melódico. Os bumbos da orquestra dão o peso dos graves, marcando sempre os tempos 1 e 3 das cantigas, lembrando um pouco as cirandas, que possuem marcação forte do grave basicamente no tempo 1 da música. As caixas complementam os bumbos, fazendo toques sincopados com rulos que lembram marcações militares, mas sem aquela dureza técnica exigida nos moldes dos quartéis. Completando o ritmo base, temos alguns tambores de som médio, os tan-tans, que tocam nos entremeios dos bumbos, fazendo duas colcheias nos tempos 2 e 4. O restante da percussão dá o colorido sonoro e os floreios necessários.



A chegada na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição


Entrada da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, centro de Rio das Ostras.

Foto: FROC


A chegada na Igreja Matriz de N.S. da Conceição segue o mesmo procedimento das visitas às casas, como manda a tradição. Logo na entrada da Igreja, ao lado do portão se encontrava o presépio (ou lapinha). Nesta chegada, a orquestra, que tocava suas cantigas ininterruptamente desde o local de partida, interrompe a música. O mestre dá as boas-vindas ao público presente e fala sobre a trajetória do grupo. Logo em seguida dá-se início à saudação ao presépio. Enquanto isso, os dois palhaços ficam do lado de fora da igreja, como manda o costume, e aproveitam para descansar e tirar suas máscaras. Como falado no episódio anterior, na folia de Macaé o mestre (capitão) puxa sempre dois versos falados, dando entrada para a orquestra iniciar o chamado 'Estribilho' e depois a toada, onde serão cantados os versos.


Este formato - versos, estribilho e toada - se repete novamente sendo que, desta vez, os versos falados pelo mestre, precisam rimar com os versos anteriores, completando uma quadrinha simples, rimando o 2º verso com o 4º (A-B-C-B). O estribilho é tocado repetindo duas vezes uma mesma melodia (A-A) e finalizando com outra melodia (B). Antes de finalizar o estribilho, o mestre repete os versos, de modo que todos memorizem e se preparem para cantá-los. Finalizada esta parte, começa a toada, que é a cantoria dos versos puxados pelo mestre. As cantorias são à base dos rituais. Variam muito de região e de grupo para grupo. Cada um tem seu estilo próprio, dependendo também da toada. Em nosso caso, as toadas são lentas e cantadas em uníssono, no primeiro verso. No meio do segundo verso, as vozes se dividem, surgindo um segundo grupo cantando uma terça acima, logicamente entoando notas mais agudas. Durante o desenho melódico as terças podem variar entre terças menores e maiores. Basicamente assim se define a cantoria da Folia de Macaé.


Alguns versos usados nas toadas da Folia de Reis Estrela do Oriente, de Macaé:


“Oh meu Deus onipotente

cheio de graça e ternura”


“Pedimos licença à Deus

pra cantar as escrituras”


“Vou louvar todos os santos

que é de minha obrigação”


(“No meio de Jesus Cristo

todos nós somos irmãos”)


Momento de grande simbolismo: saudação ao presépio.

Foto: FROC


As cantorias seguem a forma de pergunta e resposta, conhecida também como responsorial. Estas canções e toadas são remanescentes de antigos cantos da igreja em sua origem, de um catolicismo popular ibérico. O coro segue à risca a toada de preferência do mestre, que começa tirando os versos a partir de um repertório que muitas vezes pode ser improvisado. A segunda voz cantada uma terça acima do tom, realiza a primeira resposta integral da cantoria. Essa primeira resposta é conhecida como contralto. Há grupos que fazem outras vozes, cantando uma oitava acima e no final entra uma sexta resposta, que é um grito muito fino, entoando um arrastado de lamento. As melodias e as letras das músicas são tradicionais e imutáveis, mas os capitães inventam outras, geralmente improvisadas na oportunidade de pedir uma esmola ou fazer um agradecimento. Música, letra e toada, muda de grupo para grupo. Os ritmos também são diferentes. Os cantos são de "chegada", onde o líder ou embaixador pede permissão ao dono da casa para entrar; cantos de "saudação" à lapinha e cantos de "despedida", onde a Folia agradece as doações, a acolhida e se despede. Tradicionalmente, a cantoria funciona assim: costumam-se ser sete vozes, desde a primeira (Embaixador), até a última (Requinta), lembrando a escala das notas musicais.


Primeira voz: é o embaixador, capitão, mestre ou puxador. É o elemento principal da Companhia, o puxador de versos e cantoria, geralmente representa o Folião mais respeitado e “sabido” de todo o grupo. Precisa ser repentista, catequista e trovador.

Segunda voz: faz dueto com a primeira voz, ajudando a responder. É a dupla da frente.

Terceira voz: é o caceteiro. Uma voz forte que dita o padrão, fazendo a função da coluna vertebral da cantoria.

Quarta voz: Tala. Um tom acima do caceteiro.

Quinta voz: Contra Tala.

Sexta voz: é o Tipe.

Sétima voz: Requinta. É a voz mais aguda, a última. Porém existem vários outros grupos, que cantam apenas com duas duplas, somente com a primeira e a segunda voz.


As folias da região norte-fluminense seguem um modo simples de fazer as cantorias. Isso se dá por várias razões. E o mestre Roninho nos dá melhores esclarecimentos sobre isso:


Roninho: Eu acredito que esse movimento que você acabou de citar aí [o de sete vozes], é um movimento muito típico de São Paulo. Lá, realmente, tem um mestre que puxa a toada. Ele canta uma parte e depois o pessoal repete com mais algumas pessoas. E até o final entra uma coisa mais aguda, que é chamada “requinta”. Mas aqui na nossa região, o máximo que se faz é dividir em dois coros: coro de frente e coro de trás. Coro de frente, canta e coro de trás, responde aquelas quadrinhas. O coro da frente, pra não cansar muito, canta o 1º e 2º versos. Quando é a resposta, o 3º e 4º versos já é cantado com outro coro formado por 3 foliões, que fazem o coro de trás. Isso é pra adiantar a cantoria, pra não ficar o mesmo grupo repetindo. Enquanto um canta, outro descansa. Esse é o mais comum aqui em nossa região.


A folia hoje está totalmente urbana. Então, o pessoal se encontra fim de semana e com alguma habilidade eles vão levando: canta junto todo mundo, canta uma coisa só. Dá o segundo verso, todo mundo canta junto… Não tem essa coisa de ensaio e ninguém sabe que voz está cantando porque, na maioria, são amadores também. Lógico que se você pegasse um professor de música e jogasse ali, uma espécie de canto coral, dando notas, dando tons, pra que as pessoas harmonizassem um coro, com três ou quatro pessoas, seria mais interessante. Mas para o folclore, hoje, isso é muito insipiente, muito difícil acontecer. Porque o negócio é na base de se reunir final de semana e sair cantando. O mestre dá o verso e os foliões cantam repetindo o que ele disse e por aí vai.


Os palhaços

Depois da chegada e da saudação ao presépio, que se localiza na entrada da igreja, chega o momento mais aguardado pelos foliões e conhecedores da folia: a entrada dos palhaços com suas chulas. E o cenário é o próprio pátio da igreja. Já bastante comentado aqui, os palhaços simbolizam Herodes e seus soldados que, ao verem a criança na manjedoura, decidem segui-lo. Suas roupas, e principalmente as máscaras, são heranças de várias culturas européias. O palhaço é cheio de simbolismo e sua presença reforça a oposição entre o bem e o mal, entre o sagrado e o profano. Na folia de reis, essa oposição é bem demarcada, de modo que a vantagem esteja sempre ao lado do bem - representado pelo nascimento do salvador, em relação ao mal - representado pelo palhaço que está sempre subordinado às regras de comportamento: limitam-se a emitir sons curtos e jocosos nos intervalos da cantoria porque não podem cantar; não podem tocar na bandeira e nem passar a frente dela; dentre outras limitações. Usam macacão ou calça e blusão de chita estampadas, cobertas por fitas, feitas de retalhos de tecidos, geralmente bastante volumosos. A máscara é da escolha do dono, mas normalmente tem chifre, chapéus cônicos e afunilados denominados de cafuringas ou gafurinha, com bordados, espelhos e fitas coloridas. O palhaço é o elemento profano, o brincante pedinte, o poeta repentista e improvisador.


Agora o clima mudou. Os palhaços - de mero coadjuvantes da jornada - se tornam a atração principal. A sanfona é o centro da harmonia e fica responsável de puxar um ritmo mais acelerado e executar uma melodia que lembra muito o jeito de tocar o Calango, o Mineiro Pau, e outros gêneros musicais de origem rural. O Calango era muito tocado pelo noroeste fluminense. Prova disso é um registro em livro, de 1986, de Cáscia Frade. Ela percorreu, em 1983, cidades como Bom Jesus do Itabapoana, Cambuci, Itaperuna, Miracema e Santo Antônio de Pádua, entrevistando vários grupos que tocavam em bailes na zona rural. No calango, dois ou mais cantores desafiam um ao outro improvisando versos, em forma de pergunta e resposta, enquanto os músicos fazem o acompanhamento basicamente usando uma sanfona, um tambor e um pandeiro. O próprio IPHAN afirma que “matéria prima de uma de nossas mais ricas e negligenciadas tradições artísticas, o calango é verso e canto de desafio do sudeste brasileiro".


As folias de reis parecem ter absorvido muitos desses ritmos folclóricos para executarem as chulas. Ritmo e melodia bem animados. Mas isso é realmente relativo, pois fica a critério do sanfoneiro puxar vários ritmos, como o baião, samba, sertanejo e por aí vai. “Chora, sanfona!” - é uma das frases que o palhaço diz quando termina seus versos e chama a música. A sanfona puxa e os músicos voltam a tocar. Eles vão tocando até que, de repente: “OOOOPA!” Grita o palhaço, interrompendo a música e voltando a falar os versos. O mestre, muita das vezes, usa seu apito para interromper os músicos. Nesse meio tempo, os palhaços brincam com o público e pedem dinheiro, como de costume. Até o padre da Igreja Matriz não escapou dos palhaços, que tentaram um dinheirinho, mas não conseguiram nada, coitados! (Risos)


Encerrando a jornada


Terminada a brincadeira dos palhaços, fizemos a despedida para prosseguir com a jornada rumo à Casa de Cultura de Rio das Ostras, passando pela praça José Pereira Câmara e seguindo caminho pela orla até o destino final. Na saída da igreja, a alferes conduz o ritual de despedida, se retirando da lapinha e levantando a bandeira defronte à porta da Igreja enquanto os foliões voltam a tocar cantigas. Dali, todos vão tocando sem parar pela orla até a Casa de Cultura, onde deu-se o encerramento da jornada e nos oferecido um delicioso lanche.


Considerações finais:


Hoje podemos conhecer melhor a única folia que representa Macaé atualmente. Mas nem sempre foi assim. Em Macaé já existiram vários grupos, na cidade e também na região serrana. Como foi o caso do distrito de Glicério que, nos anos 50 e 60, tinha sua folia cujo mestre era o sanfoneiro Leodite Vilela. Aqui na cidade, só para citar um exemplo, existia uma folia de reis no bairro Botafogo, conduzida pelo mestre Nedino. São essas e outras curiosidades que vamos procurar conhecer melhor e trazer até aqui, em episódio, no próximo encontro. Ficamos por aqui, até breve e um grande abraço!



Referências:




Fundo Musical:


  • Calix Bento, obra recolhida do folclore mineiro. Composição de Tavinho Moura interpretado por Milton Nascimento, no disco Geraes. 1976;

  • Folia de Reis Estrela Guia de Pureza se apresentando no Festival de Monnerat, distrito de Duas Barras-RJ. 21/01/2018;

  • Folia de Reis Peregrinos de Santos Reis, de Três Corações-MG. Dez/2021. Disponível no canal do Youtube "Folia de Reis Sul Mineira";

  • Junção de trechos da jornada da Folia de Reis Estrela do Oriente (Macaé) em Rio das Ostras. 06/01/2022;

  • Folia de Reis São Marcos. Varginha-MG. Toada família Dias. 2022; Disponível no canal do Youtube "Folia de Reis Sul Mineira";

  • Grupo de Calango "Itakalango", Vassouras-RJ. Projeto Jongos, Calangos e Folias - fita 01.0088. Canal do Youtube "LABHOI UFF Oficial";

  • Folia de Reis se apresenta em Rio das Ostras no dia de Reis. Áudio extraído de vídeo do "CANAL RIOOSTRENSE TV". Postagem dia 13/01/2022.


FIM.

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