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  • HM Macahé

Episódio 33. Dia de Reis, dia de festa - Especial Folia de Reis. (1ª parte)


Estandarte da Folia de Reis Estrela do Oriente de Macaé-RJ


OUÇA O EPISÓDIO:



"Quanto dava, mais ou menos , 11 horas [da noite], a gente tudo acordado, mamãe fazia tabuleiro de broa (caçarola de broa), papai comprava pão e partia no meio; milho cozido... eu ficava esperando. Quando dava meia-noite, a gente ficava todo alegre porque chegava a folia, com aquela "bateção". Era bom pra caramba. A gente ficava a madrugada toda ouvindo aquela folia. Saía uma entrava outra e a gente ficava feliz da vida, não sentia nem sono. Eu, meu irmão, minha irmã.. vinha os palhaços… papai adorava os palhaços. Dava dinheiro pra eles, uns trocadinhos. Eles sempre vendiam umas galinhas pra terem um dinheirinho, coitados! Porque ele [palhaço] não ganhava dinheiro. Ele trabalhava pra pagar a comida… ele [pai de Helena] só gostava de folia na véspera de natal." (Depoimento de D. Helena - mãe da minha sogra e biza do Pedrinho, sobre a época ainda criança, na década de 50, quando morava na Fazenda São João da Pedra, em Duas Barras-RJ:



Introdução


“Há dias no ano em que o povo precisa fazer-se criança. Contrariar esta lei, é torná-lo triste, desgraçado. Essa bem-aventurança popular, este esquecimento momentâneo das lutas pela vida, só a religião largamente proporciona, visto como exclusivamente ela algema as dores que as sociedades desencadeiam nas contingências imediatas, nos acontecimentos decisivos. A política, que, não sendo exercida por individualidades culminantes, é ofício de vadios, não absorve esse gigante de cem faces, que vive porque combate, que não morre porque é de uma complexidade que se regenera no tempo, no clima e na ação. Em qualquer dos estados, a crença tem para o povo estrelas que o iluminam, horizontes que abrem-se em alas, grinaldas de primavera que lhe perfumam e ensombram a fronte nas calmarias da existência. Dos dias de que falamos são sucedâneos aqueles em que a pátria comemora os seus feitos, relembra as suas glórias. Viajamos sete anos e fomos hóspede da Inglaterra, da França e da Bélgica: nesses países, quanto amor à obra do passado, quanta felicidade às tradições seculares!


E serão estas, porventura, mais belas ou menos ridículas do que as que recebemos de Portugal, que associou-se com desgarre à evolução produzida pelo cristianismo, na poesia, na ciência e nas artes, desde os primeiros vagidos da Idade Média, influindo-lhe no progresso, fecundando-lhe as legendas, nobilitando-se na antiguidade de seus costumes? Entretanto a Europa conserva e afaga o que possui, e nós nos envergonhamos do que nos honra e define! Dos acontecimentos ensangüentados de nossa história política e dos períodos brilhantes de nossa literatura, nem mais nos lembramos; perdemos as nossas tradições e as nossas festas, e ficamos sem elas e sem outras que as supram! É que vamos sendo pacificamente reconquistados... E a árvore das nossas tradições, cuja sombra alongava-se por todo o país, sopro de inverno prematuro despe-lhe as folhas e a impele para o aniquilamento…”. (Mello Moraes Filho, do original ‘Festas Populares no Brasil - Tradicionalismo’)



"Ô de casa, nobre gente

Escutai e ouvireis

Lá das bandas do oriente

São chegados os três reis"



Hoje é dia 6 de janeiro. Dia de Santos Reis. Dia que encerra o ciclo de festejos que começa na noite do dia 24 de dezembro e simboliza a jornada dos três reis magos que saíram ao encontro do recém-chegado menino Jesus. Balthazar, Melchior e Gaspar levaram ouro, incenso e mirra, presentes que carregam grandes significados. O ouro representava nobreza e era presente oferecido apenas para reis. Desta forma anunciavam a chegada do futuro rei dos judeus; o incenso representava a fé e era presente oferecido apenas para sacerdotes; e a mirra representa perfume suave e sacrifício, e era presente oferecido aos profetas. É também neste período (também chamado de "doze noites") que se realiza uma grande celebração através de uma festividade tradicional católica, herdada dos ibéricos (portugueses e espanhóis) desde a idade média, se tornando mais popular a partir do séc. XIX: a Folia de Reis.


O HMM vai falar sobre a Folia de Reis em 3 episódios. Começando com este, onde abordaremos a história deste reisado e os aspectos que o compõem. Vamos falar um pouco da Folia de Reis Estrela do Oriente, de Macaé. No segundo episódio vamos tentar narrar o roteiro de apresentação do grupo que, pela primeira vez desde o início da pandemia, se apresenta hoje na cidade de Rio das Ostras, em um cortejo que passará pela igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição. No terceiro e último episódio vamos resgatar a Folia que existia em Glicério, nas décadas de 50 e 60, e contaremos com o apoio da professora Conceição Franco e do músico Celinho, que darão depoimentos sobre a festividade e sobre os artistas que a protagonizaram.



Em geral, as Folias de Reis são formadas por grupos de cantadores e tocadores que realizam jornadas em visitação às casas de devotos com as bandeiras dos santos do catolicismo, sobretudo Santos Reis, São Sebastião, Divino Espírito Santo e Bom Jesus da Lapa. Por meio de cantos, danças e versos, se dedicam a cumprir promessas, recolher esmolas e distribuir bênçãos por onde passam. São grupos de, no mínimo, 12 foliões constituídos por orquestra musical, mestre, contramestre, alferes, palhaços e pastores. De grande relevância cultural, a folia também cumpre importante papel devocional, de sociabilidade e de transmissão de saberes.



O Reisado


Os autos e cheganças da noite de Natal remontam-se ao alvorecer da idade média, época em que os natais - produções em verso destinadas a celebrar o nascimento de Jesus - confundiam-se com as composições sagradas, e que os trovadores e menestréis, seguindo as procissões solenes, os iam exibir nas lapinhas, em visita ao Messias no presepe de Belém. Todos os movimentos de louvor aos Reis Magos estão ligados diretamente às comemorações do nascimento do menino Jesus. Por volta do século XIII, São Francisco de Assis deu início às comemorações da natividade de Jesus, armando o primeiro presépio na Europa. Esse costume estendeu-se por todo o Velho Mundo e depois nos novos continentes de colonização européia, através de séculos, resultando nas mais diversas formas de comemoração ao redor do cenário que revivia o nascimento do Salvador. A Folia torna-se o exemplo mais presente na atualidade desses divertimentos, já que todos os cantos e louvações dos foliões são feitos diante dos presépios montados nas casas visitadas por eles.


Em documentário na TV Brasil, a historiadora Cáscia Frade diz que “com a criação da Igreja Católica e a necessidade de definir seu calendário de festividades, primeiro ela se deu conta das festas já existentes na humanidade. Uma delas é a de solstício de inverno e a outra solstício de verão. A de verão vai gerar as festas juninas, e a de inverno vai gerar as festas de natal. A idéia do sol, que é vida, que ilumina, fertiliza e purifica, foi associada à idéia de Cristo, à luz, o que salva. Então, a proposta de catequese se disseminou por vários povos e países chegando à península ibérica. Lá, essas celebrações se consolidaram numa forma que se chamou Reisado. O foco não era nem mais o menino Deus que nasceu, mas os reis que foram visitá-lo. Uma coisa mágica, episódica, de sair de suas terras, de seus reinos, que nasceu o Rei dos reis, o Sol de todos nós.”



A Folia no Brasil


No Brasil, apesar de ser uma tradição católica, a folia foi muito absorvida pelo sincretismo religioso e pelos descendentes dos escravizados. Também em alguns Estados têm uma relação forte com as festas de umbanda e candomblé. Minas Gerais é um exemplo forte que guarda muitas tradições sincréticas, pois para lá foram muitos africanos minas, originários da Costa do Ouro e com vasta experiência no trabalho com mineração. O Tata (pai, sacerdote, chefe) Tancredo da Silva Pinto afirma que esta é uma festa de origem africana que encerra grandes fundamentos herdados dos antepassados negros. Minas conserva a tradição dos costumes e vocabulário dos cultos afro de Umbanda. Segundo o Tata, Chico Rei, depois da libertação de seus súditos, saía em peregrinação todos os anos, no dia 6 de janeiro, representando um dos reis magos com sua indumentária apropriada. Todos entoavam cânticos em louvor à Jesus e essa tradição veio dos cultos bantos da Guiné, dizia.


As Congadas são uma outra tradição popular e religiosa que carregam algumas semelhanças com a manifestação da Folia de Reis. São também chamadas de 'Reinados', diferente das folias, chamadas de 'Reisados'.

(Imagem: Rugendas registra uma Congada em Minas Gerais. 1835)

Fonte: ficheiro wikipédia


Normalmente, quem conduz as festividades da Folia de Reis são famílias que passam essa tradição para seus descendentes. Em alguns lugares as festividades começam no dia 20 de dezembro, data que, dizem, foi o primeiro anúncio aos Reis de que a criança ia nascer e eles se puseram a caminho. Em outros locais a festa começa no dia 5 e vai até o dia 7 de janeiro. E ainda em outros, vai até o dia 20, quando se comemora o dia de São Sebastião, padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, e por isso a motivação do encontro social de todas as folias para encerrar as atividades.


Os autos pastoris, no Brasil, acontecem desde o séc. XVI. O primeiro registro de uma Folia de Reis no Brasil provém do padre Manoel Nóbrega que menciona “uma dança de folia, em 1549, em uma procissão de Corpus Christi". Mário de Andrade chegou a classificar a folia de reis como a mais antiga dança dramática do Brasil. Foi introduzido por Anchieta para fins de catequese, a princípio com características litúrgicas e representativas, evoluiu dando origem aos ranchos e no futuro veio a dar origem também às escolas de samba.


Segundo o folclorista Édison Carneiro, em reportagem ao jornal do Brasil, de 03/01/1960, as folias de reis "são originárias das zonas agrícolas dos Estados do Rio e Minas Gerais. Os grupos que as organizavam eram paupérrimos: costumavam sair de casa no natal e perambulavam de fazenda em fazenda, somente voltando depois da festa dos reis magos, a 6 de janeiro". Nas vésperas do Natal, os figurantes se reuniam na casa do mestre e preparavam os instrumentos, nos ensaios consecutivos, passando de pai para filho essa literatura oral que tem muito de história sagrada, acrescentando ao tema bíblico situações locais e as lembranças da escravidão e da faiscação. Inicialmente, as folias eram grupos de três cantadores fantasiados como os reis magos. Por isso 'Terno de Reis'.


Essencialmente, este reisado está ligado às promessas feitas e a devoção aos santos reis magos. A promessa pode ser de qualquer natureza como, por exemplo, a cura de enfermidades. Uma observação que deve ser feita é que a igreja católica não reconhece os reis magos como santos, mas para os devotos os milagres são provas de que eles são. Uma vez obtida a graça, se faz a promessa de organizar a folia no mínimo por sete anos.


Campomizzi Filho, em artigo do jornal Estado de Minas, de 06/01/1963, alertava que "o rádio, a facilidade das comunicações, as migrações internas e o crescimento desordenado dos centros urbanos são os responsáveis pela fuga dessas manifestações centenárias". Ele continua dizendo que "muitos dos antigos mestres se viram na contingência de uma mudança para a capital em busca de uma melhor situação de vida. Daí o aparecimento das Folias no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, principalmente nos arrabaldes mais pobres, onde elas surgem influenciadas pelo novo gênero de trabalho de seus componentes… no Rio de Janeiro, onde os folguedos eram praticamente desconhecidos, surgiram eles através das famílias mineiras e fluminenses que se estabeleceram na periferia do então Estado da Guanabara. Deixando as lavouras e se dedicando a outros ofícios, no comércio ou na indústria, as famílias não se esqueceram das tradições que trouxeram do interior… a presença do palhaço, quase desconhecido nos municípios mineiros, são o resultado das modificações introduzidas em terras cariocas por coestaduanos nossos, aos quais se uniram fluminenses e uns poucos nordestinos…".


Curioso notar que, mesmo sofrendo algumas mudanças no decorrer dos processos migratórios, a folia preserva elementos rurais da música caipira. Primeiro em relação aos instrumentos usados: sanfona, pandeiro, viola, rabeca, só para citar alguns, são exemplos fiéis dessa preservação instrumental que carrega toda a essência musical. E os estilos musicais são vastos: moda de viola e seus ponteados, o cururu, samba rural, ciranda, calango e muitos outros. O trabalho das vozes com seus duetos de cantoria, as tríades com vozes mais agudas cantando o “ai ai ai”. Estes elementos carregam a influência de sua origem rural, que dão o tempero e identidade do festejo.


O que compõe o reisado:


Foliões: são os músicos e cantores. Os instrumentos musicais basicamente são: viola, violão, sanfona, rabeca, tarol/caixa de guerra, pandeiro, triângulo, chocalho e cabaça. Estão uniformizados e marcham a passos descansados em posição militar, acompanhando o estandarte ou bandeira. Os foliões simbolizam os soldados dos reis magos. A sanfona ocupa papel de destaque, sempre solicitada pelos palhaços durante as chulas.


Bandeira ou estandarte: carregada pelo alferes. Identifica a folia e simboliza a jornada dos magos a Belém. É armada com paus em quadro, enfeitada de fitas, papel de seda, espelhos e rosas artificiais, emoldurando um motivo religioso, pintado ou bordado. É a cena da adoração ou da viagem dos reis magos. A folia sempre saúda os presépios, honrando a Jesus e visita as casas dos integrantes do grupo.


Alferes: carrega o símbolo máximo do cortejo, o estandarte. Além desta atribuição, também é responsável por guardá-lo e defendê-lo.


O Mestre: é o chefe da folia, responsável pelos instrumentos, vestimentas e é quem traça o roteiro a ser seguido pelo grupo. Sobre si recaem todas as responsabilidades da jornada, pois à ele cabe a organização da folia e o cumprimento da promessa.


Contra-mestre: auxilia e substitui o mestre quando necessário.


Palhaços: geralmente são três. São o ponto alto da folia. Suas roupas e máscaras, muito semelhantes às formas grotescas da idade média. Sua imagem é enriquecida com o seu bailar, que proporciona mais dinâmica ao personagem. O palhaço nada mais é do que um personagem que representa os soldados que são enviados pelo rei Herodes para saberem quem é este o recém chegado menino que, segundo os reis magos, seria o futuro rei dos reis. Os soldados, chegando lá, ao verem uma família humilde e uma criança nascida numa manjedoura, ficaram comovidos e se converteram. Mas havia um problema: eles teriam que voltar para dar explicações ao cruel Herodes. Ao invés disso, os soldados se disfarçaram de palhaços mascarados para não serem reconhecidos por Herodes. O palhaço, apesar de representar o mal ao incorporar o soldado, não é diabo: é um soldado arrependido e disfarçado que faz versos, pula, dança e que passou a defender a bandeira que simboliza o nascimento do futuro rei dos reis.


Geralmente são três palhaços. Estão obrigados, como os demais, a cumprir sete anos de jornada, mas sofrem restrições em virtude de sua condição. Se a folia penetra em alguma casa, os palhaços ficam de fora. Se a folia canta, os palhaços só acompanham a música entre um verso e outro, exclamando palavras desconexas e sem sentido. Se a folia está em marcha, os palhaços não podem passar-lhe à frente, nem formar com ela e muito menos ficar à frente da bandeira. Porém, terminada a louvação ao menino Jesus, é a vez dos palhaços. Muda a música e são eles que comandam a orquestra. Com seus versos engraçados, pulam e dançam, divertindo o público.


Portanto, é no exterior do ambiente, após as ordens do mestre, que todos os foliões se calam e a atenção recai nas chulas dos palhaços. São seus momentos de glória. Estimulados por uma platéia ansiosa, começam seu bailado desconexo que é antes um padrão de forças visuais cujo impacto sente-se imediatamente e que, interrompidas vezes, dão lugar às chulas - versos improvisados pelos palhaços. A influência indígena na dança também está presente, representada pela figura do pajé. Quando encerram sua apresentação, recolhem as moedas jogadas ao chão pelos espectadores. São verdadeiros artistas do povo, poetas. Eles não só memorizam poesias tradicionais, quadrinhas de brincadeira e jocosas, como também folhetos de literatura de cordel, declamando-os em suas performances dentro da folia.



Folia de Reis em Macaé


Estrela do Oriente presente no 1º Festival de Folia de Reis de Macaé, em 23/09/2013, na Praça Washington Luiz.

(Foto: Secom - prefeitura de Macaé)


Foi na fazenda Fervedouro, localidade de Monte Verde, em Cambuci, norte do Estado do Rio de Janeiro, que nasceu a Folia de Reis Estrela do Oriente, em 1913. Fundada por Geraldo Chaves (que também nasceu nessa localidade) o reisado misturou a energia da fé, a magia da arte e a força da cultura popular de raízes portuguesas com influências brasileiras. Um dos maiores reiseiros já relatados, o mestre Pedro Nolasco Chaves, filho de Geraldo, foi o grande responsável por disseminar essa cultura ao visitar dezenas de cidades brasileiras, incluindo Macaé, onde membros da família Chaves residiam e já tinham contato com a tradição. Com o falecimento de Pedro Chaves em 2001, a Folia de Reis não mais funcionava e emudecida ficou.


Foi no bairro Alto dos cajueiros, popularmente conhecido como Morro do Carvão, na Rua Francisco Drumond Sobrinho - nome em homenagem ao vereador popularmente conhecido como 'Filinho', de família muito engajada na política da cidade - onde a família herdeira e guardiã da folia, fez renascer esta importante tradição e, que hoje, conta com uma legião de adeptos, de todas as idades, cores e crenças. Jean Carlos Chaves Batista, músico profissional, se tornou o idealizador do projeto e começou um trabalho de pesquisa e ensaios com amigos. Juntos tomaram a decisão de reativar a mesma, retornando com o auto à 6 de janeiro de 2013. Todos são músicos voluntários, tanto profissionais quanto amadores. Todo material da folia vem de doação, não há fins lucrativos, e alguns instrumentos são emprestados de amigos. O principal objetivo da Folia de Reis em Macaé é resgate e devoção, além de ampliar voluntariamente o grupo, dar aulas de instrumentos aos jovens da comunidade, formando novos talentos e membros da Folia.


Roberto Nunes Correa, em seu trabalho “Viola Caipira: das práticas populares à escritura da arte” afirma que "na Folia de Reis a voz é o elemento condutor na narrativa cantada, em diferentes momentos da função: há os cantorios devocionais, as atuações dos palhaços e as rezas cantadas, além do elemento “corpo” com suas danças ligadas à divindade… Na parte devocional, a estrutura musical das folias segue um padrão estabelecido de canto-puxado e canto-resposta, à maneira dos responsos. Na liturgia, responso é uma recitação alternada entre o celebrante e o coro. O Terno ou Companhia, nome dado a um grupo de foliões liderados por um guia, segue durante o giro da folia determinadas normas de comportamento. Giro é o percurso estabelecido para o cumprimento da função, que é dividido em jornadas."


Na folia macaense o guia é o próprio mestre, que também toca a melodia principal com sua flauta transversal. Em um momento do cortejo os foliões param e o guia puxa dois versos falados. Logo em seguida (ainda sem marchar), a banda começa a tocar uma toada de estrutura musical simples (AAB). Toada é a melodia usada para cantar os versos. O guia canta toadas de domínio público ou aprendidas com os mais antigos, ou mesmo improvisadas, mas raramente muda de toada durante o giro. No meio da toada o guia repete os dois versos para que todos memorizem bem. Acabando a música, a banda para de tocar e todos cantam, em forma de reza, os versos falados pelo guia anteriormente. Este processo se repete algumas vezes, diferindo apenas nos versos falados pelo guia, que se renovam a cada ciclo. Assim, o cantorio adquire uma monotonia que funciona como mantra, envolvendo a todos.


Os instrumentos fundamentais da folia são a viola, a caixa e o pandeiro. Para alguns guias estes instrumentos são sagrados pois eram os que os três reis magos tocavam. A Folia de Macaé se destaca pela grande variedade de cores e instrumentos, destacando a flauta transversal (tocada pelo mestre Jean). Além da flauta, está presente o saxofone soprano, que reforça a melodia da flauta; sanfona; escaleta; violas; violões; cavaquinho e grande diversidade de percussão: triângulo, ganzá, afoxé, maracá, tarol, surdo, Tantan, rebolo, pandeiro, pandeirola, Bumbo e prato de choque. Alguns destes instrumentos não podem faltar como a sanfona, tarol, pandeiro, Bumbo e prato. Outros instrumentos como a flauta, o sax, escaleta, cavaquinho e alguns de percussão foram incorporados pela folia macaense, enriquecendo a sonoridade da orquestra, o que torna a Estrela do Oriente diferenciada das demais.



O palhaço Fumacinha


Palhaço Fumacinha, com seus 14 anos, numa performance na II Festa da Raça, realizada na Praça do Descobrimento, em Niterói-RJ, no dia 10/06/2018.

(Imagem: print do Youtube, canal 'Caravela Brasileira')



Na Folia em Macaé atuam dois palhaços: Fumaça e Fumacinha. Pai e filho, com destaque para este último. Seu nome é Edgar e ele atua desde os 6 anos de idade seguindo os passos do pai. Um grande talento no improviso de chulas e cantoria de repentes...


FUMACINHA:


" Para quem não me conhece

Sou Fumacinha 'ligeiro'

Dona Martha, dá licença

Deixa eu entrar no seu terreiro… (casa da alferes e do festeiro)


Dá licença que eu cheguei

E sou semi-analfabeto

Nunca, sequer, estudei

Mas para cantar repente

Eu nunca tive receio

Onde tem folia de reis

Pode crer, estou no meio


Eu recordo muito bem

Dos lugares que eu andei

Tudo em prol da poesia

Dos atalhos que cortei

Com jeito humilde de ser

Muita gente eu conquistei

Das muié que me deixaram

Das muié que eu deixei

De onde que venho me lembro

Pra onde que vou, não sei

E agora uma salva de palmas

Pro dia de santos Reis


Vai embora, sanfona!”



Considerações finais:


A folia de Reis é rica porque reúne elementos culturais do indígena, do negro africano e dos portugueses, os três elementos formadores da cultura popular brasileira. O palhaço é este personagem sincrético, com sua indumentária, máscara, sua dança e suas declamações poéticas. É nele que vemos as maiores expressões. É ele que desperta mais atenção, que assusta, pois ele representa o mal simbolizado pelo rei Herodes e seus soldados arrependidos. Como foi falado no início, esta tradição cumpre um papel na sociabilidade e na transmissão de saberes. A Folia passou por muitas transformações e re-adaptações ao ter migrado para as cidades, além de sofrer discriminações e perder adeptos com o tempo. Roberto Nunes Corrêa, no mesmo trabalho, diz que “com os festivais e encontros de culturas tradicionais, estamos presenciando a construção de uma outra realidade para as manifestações devocionais e mesmo para as danças a elas associadas… são ocupações de espaços ficcionais completamente diferentes do costumeiro, onde os aspectos devocionais se perdem nas demandas técnicas do espetáculo. Esta situação - diz ele - lembra um pouco as transformações que estas mesmas tradições sofreram quando inseridas na indústria fonográfica.”


Em Macaé não é diferente. Depois de muito tempo retornaram as atividades do grupo e, com muito sacrifício, apoio de simpatizantes e dos próprios foliões, segue em frente não dispostos a parar mais. Para terem maior visibilidade, muitas das vezes o grupo realiza apresentações dentro e fora da cidade, em datas distintas daquelas oficiais. Portanto, se observarmos bem, diferente daquela época que a festa era uma tradição de fato, hoje há um grande esforço para mantê-la viva. Por isso a Folia de Reis é também resistência.


Em 2020, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado do Rio de Janeiro - SECEC-RJ, através do Departamento de Patrimônio Imaterial do Inepac, vinculado à Secretaria, realizou um trabalho de reconhecimento dos mestres foliões em diversos municípios do Estado, realizando entrega de carteirinhas aos membros das Folias. Ao todo foram 61 documentos entregues aos mestres e contra-mestres de 41 folias de 20 municípios. E o objetivo é identificar outros grupos para dar continuidade às entregas. A carteira isenta os grupos de folia de reis de apresentar licença especial nas delegacias, desde que organizadas em associação sem fins lucrativos e com objetivo de preservação, conservação e incentivo ao folclore brasileiro com base na Lei n° 4509, de 13 de janeiro de 2005. As carteirinhas surgiram no governo Brizola, em 1992, pela lei 1989 isentando os grupos de folia de reis da obrigatoriedade da licença especial que, até então, eram expedidas pelas delegacias de polícia.


A maioria dos membros da Folia de Reis Estrela do Oriente, de Macaé, é da própria comunidade. São jovens, adultos e idosos, com destaque especial às crianças, que participam diretamente deste folclore e que serão seus continuadores. Até antes da pandemia, contava com atualmente 42 integrantes, dentre eles o mestre Jean Chaves (o Jean Macaé), o contra-mestre bijuca e o acordeonista e contra-mestre Elias Jorge Lago. Na produção dos uniformes e adereços contam com a força da alferes Martha Chaves, integrante da família que deu origem a esta importante manifestação cultural. A folia representa Macaé por todo o Brasil. Não tem fins lucrativos, vive de doações dos voluntários e amigos que apóiam o reisado e não tem apoio do poder público.


A Folia de Reis Estrela do Oriente, de Macaé, é cultura do povo simples e trabalhador. É devoção e resistência!! Uma tradição sadia que merece todo o reconhecimento e, sem dúvida alguma, não pode e não vai deixar de existir.


“O futuro da folia

só o tempo irá dizer

se a criança de hoje em dia

a memória irá perder

deixa o folião mais jovem

um breve pedido, cantar

não parem no tempo, renovem

não deixe a folia acabar.”




Referências:


Fundo Musical:

  • Coletânea Folia de Reis. Autor não encontrado;

  • Áudio da Folia Estrela do Oriente;

  • Poesia de palhaço da Folia do mestre Calixto e grupo Estrela do Oriente, Valença-RJ. 2018;

  • Folia de Reis Irmãos Ferreira. Folia do Chico. Valença-RJ. 2019;

  • Folia Estrela do oriente no Festival em Italva, 2019;

  • Festa de Santos Reis, música da dupla Quintino e Quirino. Década de 70;

  • Performance do palhaço Fumacinha, antes da saída da Folia, em 6 de janeiro de 2018, na casa da alferes Martha Chaves;

  • Festa do Santos Reis, de Marcio Leonardo. Virou sucesso com a voz de Tim Maia em 1971, na gravação de seu segundo disco.

FIM.



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