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  • HM Macahé

Episódio 32. Música de Barbeiros no Norte-Fluminense.


Músicos barbeiros tocando uma valsa e coletando esmolas para a festa do Divino Espírito Santo, no Catete, cidade do Rio de Janeiro. Grupo composto de um tambor, clarineta, trompa, flautim e algo parecido com trombone. 17/04/1846.

(Fonte: livro "Life in Brazil", de Ewbank Thomas.

Imagem: litogravura do original "Rio de Janeiro Pitoresco", de L. Buvelot e A. Moreau)


OUÇA O EPISÓDIO:




Introdução:


Fígaro é sinônimo de Barbeiro. É também um personagem criado pelo dramaturgo e músico francês Beaumarchais, e faz parte da trilogia das comédias 'O Barbeiro de Sevilha", "Bodas de Fígaro" e pelo drama "A Mãe Culpada". Posteriormente transformado em ópera e tendo se tornado bastante popular, 'O Barbeiro de Sevilha' conta a história de Fígaro, um barbeiro que faz de tudo na sua cidade: arranja casamentos, ouve confissões, espalha boatos, enfim… um verdadeiro prodígio de imaginação, um personagem atraente em suas travessuras e artimanhas. Além disso, ele está sempre preparado para resolver inúmeras situações, pois não atuava somente como barbeiro. Num determinado momento da trama, Fígaro entra em um estado de quase loucura, pois é requisitado à todo momento por ser também comerciante, farmacêutico e dentista. 'Largo al factotum' significa 'Abra caminho para o faz-tudo' e é uma ária desta ópera, de Gioachino Rossini, cantada na primeira entrada de Fígaro. Em um trecho, canta o personagem: "Todos me chamam, todos me querem. Mulheres, rapazes, velhos, crianças. Dá-me uma peruca! Depressa a barba! Aqui a sangria! Depressa o bilhete! Os repetidos "Fígaros" antes da última seção é um ícone na cultura popular no canto lírico.


No Brasil, houve uma época onde os barbeiros também acumulavam muitos ofícios, inclusive o da música. Diferente de fígaro e de suas artimanhas cômicas, os barbeiros brasileiros, em sua maioria negros, eram personagens reais que buscavam sair de uma condição de subalternidade social ao aprender diversas habilidades.



Barbeiros Sangradores e Músicos


Os barbeiros sangradores músicos na América portuguesa e no Império do Brasil, desde pelo menos o século XVIII, eram em sua maioria negros: escravos, libertos e livres; africanos e crioulos. Praticantes de uma tradição europeia medieval, com contornos ibéricos e depois locais, estes profissionais – mistos de terapeutas populares, esteticistas, músicos e alfaiates – marcavam presença nos navios negreiros, fazendas, em pequenas cidades e sobretudo nas grandes cidades, tanto em suas lojas como no atendimento que faziam nas ruas, hospitais e residências. Desde o século XVI, segundo Georgina dos Santos, já havia regulamentação para barbeiros em Portugal: “prescrita por médicos e executada por barbeiros, a sangria impôs-se e manteve-se como a soberana das técnicas de tratamento, nas tendas, nos domicílios, nos cárceres e nos hospitais lisboetas durante todo o período moderno”. O aprendizado da sangria “nada tinha de livresco ou teórico, era oral, empírico e obtido nas tendas dos mestres barbeiros”. A Fisicatura-mor foi a última instituição médica a ceder cartas para cirurgiões-barbeiros, conhecidos também como barbeiros sangradores ou apenas barbeiros. Sediada no Rio de Janeiro a partir de 1808, a instituição era responsável pela regulamentação e fiscalização das diversas atividades relacionadas às práticas médicas em Portugal e em todos os seus domínios. A partir de 1828, quando a Fisicatura-mor foi extinta, os barbeiros e outros terapeutas seriam objetos de posturas da Câmara Municipal da Corte.


Em meados do século XVII, aparecia na Bahia e no Rio de Janeiro o primeiro tipo de música instrumental brasileira destinada ao lazer nas cidades; composta pelos negros, ficou conhecida como “Música de Barbeiros”. Nas fazendas baianas e cariocas, os senhores destinavam alguns de seus escravos ao aprendizado de certas profissões, como por exemplo, a de barbeiro. Logo, devido às habilidades manuais que estes homens detinham, além de que muitos apresentavam aptidão para tocar instrumentos, era na música que buscavam o seu divertimento das horas vagas. Eles interpretavam – muito à sua maneira livre – Chulas, Gandu, Fofa, Fandangos, Fados, Tiranas, Habaneras, Dobrados, Quadrilhas, Walsas, Lundus e Polcas num repertório bem diverso. Alguns desses gêneros são bem antigos e nem possuem registros. Da música desses deselegantes mas charmosos barbeiros descalços, nasceriam os 'Ternos'; as Bandas de coreto, as Militares e o Choro. Elas existiriam até meados do século XIX. Profissão exercida por escravos de ganho ou por negros forros, o ofício de barbear e cortar cabelos era de rápida execução, garantindo tempo livre a esses trabalhadores. A função era também decorrente da divisão social do trabalho urbano que surgia nas duas cidades, importantes centros comerciais da colônia e do Império. Além do barbear e da música, os barbeiros eram ainda utilizados para a extração de dentes e para a aplicação de sanguessugas.


Segundo o Dicionário da escravidão negra no Brasil “...a exemplo do que ocorria nas cidades, nas fazendas do interior e nos engenhos, formaram-se várias bandas de escravos músicos. Já em 1610 o navegante francês Pyard de Laval, descrevendo a recepção que um senhor importante do Recôncavo Baiano lhe ofereceu, registra o que talvez seja a primeira orquestra de negros escravizados no Brasil. A partir dessa data cresceu o número de bandas… Essas bandas, além de servirem para demonstração de status, de divertimento, eram na zona rural os únicos conjuntos chamados para animar as festas religiosas na Colônia…”. Tinhorão se arrisca em dizer que “nas fazendas foram as bandas de escravos os avós das atuais liras do interior [...] na cidade do Rio de Janeiro foi a música de barbeiros mãe do choro, avó do regional profissional do rádio e bisavó dos conjuntos de bossa”. O escritor Manoel Antonio de Almeida, em ‘Memórias de um Sargento de Milícias’, remete-se aos tempos de criança, nas primeiras décadas dos oitocentos, quando a música de barbeiros se portava na porta das igrejas durante as festas sagradas: “As festas daquele tempo eram feitas com tanta riqueza e com muito mais propriedade, a certos respeitos, do que as de hoje: tinham entretanto alguns lados cômicos; um deles era a música de barbeiros à porta. Não havia festa em que se passasse sem isso; era coisa reputada quase tão essencial como o sermão; o que valia porém é que nada havia mais fácil de arranjar-se; meia dúzia de aprendizes ou oficiais de barbeiro, ordinariamente negros, armados, este com um pistão desafinado, aquele com uma trompa diabolicamente rouca, formavam uma orquestra desconcertada, porém estrondosa, que fazia as delícias dos que não cabiam ou não queriam estar dentro da igreja…”

A existência de banda de música composta por escravos foi mencionada por diversos viajantes, inclusive. No livro Viagens ao Nordeste do Brasil, Henry Koster (1793-1820) se referiu à banda dos escravos de Simplício Dias da Silva: “[...] tem ele casa magnífica, banda de música composta por seus escravos, alguns dos quais educados em Lisboa e Rio de Janeiro”. Essa citação contém indícios de como se dava a educação musical dos escravos: muitos frequentavam conservatórios de música no Brasil e no exterior para aprender a tocar instrumentos variados. A existência de escravos músicos não foi exclusividade do Brasil. Joseph Antonio Emidy (1775-1835), por exemplo, nascido na Costa Oeste africana, na Guiné, vendido como escravo por traficantes portugueses, com passagem pelo Brasil e levado junto de seu senhor para Lisboa, Portugal, tornou-se um importante violinista e compositor em Cornwall. Ou ainda, conforme Diégues Jr., muitos foram os viajantes que descreveram bandas compostas por ‘pretos’: Outra referência encontramos em Thomas Lindley que, na Bahia de 1802, viu passar banda de música composta de ‘pretos retintos’; acrescenta que esses músicos eram ensaiados por barbeiros cirurgiões também negros que, segundo o viajante inglês, eram músicos itinerantes desde muito tempo. Martius, outro viajante, em 1817, viu no Rio de Janeiro uma orquestra de músicos pretos tocando músicas alegres, afirmando ainda que o príncipe formou uma banda de música vocal e instrumental com mestiços indígenas e pretos. A prática de formar bandas com escravos era rentável para os senhores. Destaca-se a rica proprietária baiana D. Raimunda Porcina de Jesus, a Chapadista, que recebia pagamentos pela participação de sua charanga de músicos tocadores de ouvido, nas festas do Bonfim, entre os anos de 1865 e 66. J.B. Debret, em ‘Viagem Pitoresca e histórica ao Brasil’, desenhou e descreveu uma loja de barbeiro, barbeiros ambulantes e um cirurgião negro: “O oficial de barbeiro no Brasil é quase sempre negro ou pelo menos mulato. Esse contraste chocante para o europeu não impede ao habitante do Rio de Janeiro entrar com confiança numa dessas lojas, certo de aí encontrar numa mesma pessoa um barbeiro hábil, um cabeleireiro exímio, um cirurgião familiarizado com o bisturi e um destro aplicador de sanguessugas. Dono de mil talentos, ele tanto é capaz de consertar a malha escapada de uma meia de seda, como de executar, no violão ou na clarineta, valsas e contradanças francesas, em verdade arranjadas a seu jeito.”

Litogravuras de J.B. Debret: Loja de barbeiro, Barbeiro ambulante e Cirurgião negro. Do livro "Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil - vol. II"; 1835.

(Montagem: Magno)


Surge também a figura do ladino. Ladino significava principalmente ser perspicaz. No ponto de vista senhorial, os negros ladinos correspondiam a esta definição. Para os africanos, ser ladino significava ter mais chance de livrar-se da escravidão. O termo ladinização refere-se as gerações de africanos natos que tiveram com o tempo de adaptar, reinventar e criar de novo seus valores e práticas culturais, além de assimilar muitos dos costumes locais, sob as novas circunstâncias e sob a pressão da escravidão deste lado do Atlântico. Os ladinos, no entanto, se adaptaram sem descartar tudo que haviam aprendido do lado de lá do Atlântico. Um tal barbeiro de nome Antonio José Dutra, natural do Reino do Congo, veio escravo para o Brasil e obteve alforria no início da década de 1820. Foi barbeiro sangrador, dentista, líder de Banda de Música e faz parte de um subgrupo dentre os ladinos que constitui uma elite negra do ponto de vista econômico, cultural e no mais das vezes religioso. Obteve propriedades e proeminência na comunidade negra e alguma respeitabilidade entre os brancos nas grandes cidades do Império. Portanto, o ladino é o africano escravo ou liberto que, por meio da transculturação, obtinham conquistas que diminuíam os danos de sua subalternidade social.


Também há relatos historiográficos de barbeiros de cor branca. Como é o caso de Guilherme Antonio Monteiro, de origem portuguesa, que encontrou morada em Macaé para exercer, além desta profissão, a de líder de banda de música. Aplicava sanguessugas e realizava extrações e implantes dentários. Foi também diretor da Sociedade Carnavalesca e tesoureiro da Sociedade Philo-scenica Macahense. O jornal da época noticia, entre os anos de 1864 e 1870, diversos anúncios sobre atuações da sua banda de música em eventos de bailes de carnaval (os chamados ‘bailes masqués’), em eventos eclesiásticos e em desfiles militares. Nestes eventos, além da presença marcante de Guilherme A. Monteiro, também figura um outro músico e líder de banda: José Nunes de Figueiredo. O jornal local não cita este último como barbeiro, porém, no Jornal do Commercio aparece, no ano de 1872, uma pessoa de mesmo nome compondo a chapa de uma tal Sociedade Protetora dos Barbeiros e Cabelereiros, no Rio de Janeiro. Figueiredo também irá compor, em 1873, o quadro de membros fundadores da SMP Nova Aurora. Foi também neste período, de 1864 a 1870, que ocorreu a guerra do Paraguai. O sentimento patriótico era muito exaltado e em muitas ocasiões desfilavam pelas ruas de Macaé as bandas de música de ambos os líderes.

Imagem acima: concorrência de bandas musicais nos bailes masqués macaenses, lideradas por Guilherme e José. (Monitor Macahense, ano II - nº 162, de 05/02/1864)



Pelos anúncios jornalísticos, percebe-se uma certa concorrência entre as bandas lideradas pelos dois. Porém, o jornal Monitor Macahense - de viés Conservador e ligado à aristocracia local - nunca, de fato, discorria sobre as bandas, suas origens, seus componentes e que instrumentos tocavam. Em uma de suas edições, diz o jornal: "...O Sr. Guilherme Antonio Monteiro não pode deixar de ser mencionado por seus bons serviços e pelo interesse que tem demonstrado por seu país de adoção. Artista e dispondo de poucos recursos, como músico, ele e seus companheiros prestaram-se a tocar pelas ruas, animando e entusiasmando o povo, e acompanhar constantemente os voluntários desde que aqui chegaram até o embarque indo levá-los ao vapor. O Sr. José Nunes de Figueiredo com seus companheiros também se prestaram e tudo isso espontaneamente e sem a menor retribuição...". (Monitor Macahense, ano III - nº 276, de 17/03/1865). Percebe-se o importante papel das bandas em acompanhar os voluntários que partiam e os que chegavam no porto de Imbetiba. Mas, afinal de contas, quem eram esses companheiros de Guilherme e José? E o que faziam além da música?


Recortes do jornal Monitor Macahense referentes às profissões e atividades exercidas por Guilherme A. Monteiro em Macaé.

(Montagem: Magno)


Com essa lacuna deixada pelo jornal, fomos procurar em jornais vizinhos informações que dessem pistas de como seria o formato dessas bandas em Macaé, em décadas anteriores as dos anos de 1860. Um primeiro exemplo é a Relação das pessoas que contribuiram para a festividade do Corpo de Deus (Corpus Christi), ocorrida em 10 de junho de 1830, na Villa dos Campos dos Goitacazes, onde aparece um tal 'Reverendo Lino Rebello com seus escravos músicos barbeiros' e o 'coronel Sebastião Gomes Barrozo com seus escravos timbaleiros'. Ambos se apresentaram na festividade. (Fonte: Correio Constitucional Campista, nº30, de 16 de abril de 1831). Em 1835, João Lopes da Silva Coito, juiz de direito e chefe da policia da Comarca de Campos, emite nota no jornal Monitor Campista recomendando ao juiz de paz da cidade que não permitisse mais pretos barbeiros tocando de noite a pretexto de festas de igreja, acompanhados de outros grupos dando vivas, fazendo assuadas e alterando o sossego público. Em uma dessas, em 11 de outubro daquele ano, João Lopes mandou a guarda da cadeia dispersá-los e obrigá-los a retirarem-se até as casas de seus senhores. (Monitor Campista, 21/10/1835). Por outro lado, 5 anos depois o mesmo jornal publicava anúncios para contratação de música de barbeiros: "Qualquer senhor juiz de festa, ou pessoa que precisar de música de barbeiros, e divertimentos de dança em corda teza, ou bonecros, dirija-se à rua Direita nº 179, que achará com quem tratar-se comodamente." (Monitor Campista, 14/04/1840).


Outro evento interessante ocorreu em dezembro do mesmo ano, quando dos festejos comemorativos do aniversário de nascimento do jovem D. Pedro II. Na programação: Te Deum em ação de graças; parada da guarda nacional; um baile organizado pela Sociedade de Dança Harmonia Campista; e uma música de barbeiros percorrendo as ruas tocando marchas e o hino nacional. (Monitor Campista, 04/12/1840). Curiosamente, duas décadas e meia depois, as bandas dirigidas por Guilherme A. Monteiro e José N. de Figueiredo percorriam as ruas da cidade de Macaé "animando e entusiasmando o povo". Provavelmente tocavam suas marchas e hino nacional, elevando o moral dos voluntários que iam e voltavam da guerra do Paraguai.

À esquerda: Monitor Campista, 04/12/1840. À direita: Monitor Macahense, 17/03/1865.



As Bandas de Música das Fazendas

As organizações das Bandas de Músicas nas Fazendas, para tocarem nas festas de Igrejas, nos arraiais, longe e perto das antigas vilas e freguesias, que são consideradas hoje, cidades, davam um cunho de verdadeira alegria naquele meio tristonho mas sadio, sem instrução, sem cultivo, onde imperava a soberania dos fazendeiros, grandes nababos, chefes dos partidos políticos, liberal e conservador. A existência de uma Escola de Música para escravos na Real Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, foi indicada no estudo de Antonio Carlos dos Santos. Para o autor a Real Fazenda de Santa Cruz funcionou como uma instituição formadora e modeladora do indivíduo (escravo negro) procurando ‘suavizar’ as suas maneiras e especializando-o como mão-de-obra, para suprir as necessidades da própria Fazenda e da aristocracia e comerciantes da cidade do Rio de Janeiro. Essa especialização, datada dos tempos jesuíticos, fez com que os escravos negros de Santa Cruz fossem requisitados para serviços diversos, inclusive mulheres musicistas eram contratadas. Também no Vale do Paraíba, formaram-se bandas com formações orquestrais, como na fazenda Soledade, do comendador Silva Pinto e na fazenda Paraíso, do Visconde do Rio Preto.


Fato também se comprova na freguesia de N.S. do Desterro de Quissamã, na fazenda de propriedade de José Carneiro da Silva, na época Barão de Araruama. Em "Macaé à Luz de Documentos Inéditos", Alberto Lamego se refere a uma viagem do Imperador D. Pedro II à nossa região, em 22 de março de 1847. D. Pedro II e sua comitiva chegam à fazenda de Quissamã - tendo antes passado em Macaé para testar um pequeno trecho finalizado do canal Macaé-Campos - e são recebidos com muita festa. “... Durante o banquete, oferecido ao monarca, e no baile em sua honra, tocou a banda de música, que o barão mantinha, formada por molecotes escravos, todos beirando os seus 15 anos de idade e ricamente fardados…”. Em dezembro de 1865 - 1 ano após o falecimento de José Carneiro da Silva, que já havia recebido o título de 1º Visconde de Araruama - é realizado em Macaé a solenidade do aniversário de nascimento do Imperador. Na programação solene, sem maiores detalhes, o Monitor Macahense refere-se à 'música' [Banda] que tocou no coreto, banda esta pertencente à Exm. Sra. Viscondessa de Araruama, indicando que a banda da fazenda de Quissamã de outrora continuou sua atuação. Foi graças a este evento de grandes proporções para Macaé, que integrantes da família Carneiro da Silva, ocupantes de cargos militares de alta patente, fizeram vultosos investimentos nas bandas de música do 2º corpo de cavalaria e do 12º batalhão de infantaria, algo inédito na cidade.


Em “Ciclo Áureo: História do 1º Centenário da cidade de Campos”, Horácio Sousa diz que “até 1878 existiam bandas de música que o povo apelidava de ‘música de barbeiros’. Uma delas era propriedade do Visconde de Itabapoana e a outra de Antonio Luiz Ferreira Pinto. Elas tomavam parte nas festas de São João (na matriz) e de Santa Cecília, como também nas festas nacionais. A última vez que funcionou músicas de barbeiros foi na inauguração da fazenda de São João, em 1878”. Importante observar é que, neste ano de 1878, já existiam várias sociedades musicais em Campos, como a Corporação Musical, do maestro Tiburcio Dias de Moura; a banda Phil’Euterpe; banda N.S. da Conceição; Lyra de Apollo, dentre outras.



Considerações finais:


Diante das informações limitadas do jornal Monitor Macahense referente às características das bandas de música e seus componentes, no período em que circulou, e das comparações feitas com o que ocorria na cidade de Campos dos Goitacazes, é preciso levar em consideração algumas transformações sócio-culturais impostas pelas elites locais na virada da primeira para a segunda metade do séc. XIX, impondo comportamentos e alterando a maneira das bandas atuarem. Como foi o caso do entrudo, folguedo popular de origem portuguesa proibido no Brasil a partir de 1854, devido a maneira como os foliões brincavam. Entra em cena uma moderna forma de se brincar carnaval, com baile masqué nos moldes europeus, realizado em recinto privado e com ingressos à venda. Em uma nota, o Monitor Macahense lamenta a pouca participação de foliões nos salões de festa. Num trecho da nota, diz: “... é para lastimar-se que tenha diminuído a influência com que começaram estes folguedos, sendo a nossa localidade em toda a provìncia a que tem primado nesta reforma do antigo entrudo bárbaro, estúpido e turbulento como ele era…”. (Monitor Macahense, 12/02/1864). Em outra nota diz: "... este divertimento que veio substituir entre nós as desagradáveis caldeiras d'água, vai todos os anos diminuindo e parece que tende para acabar de logo: bom será que se não regresse para a água, polvilho e pós de sapatos e outras amenidades desta natureza." (Monitor Macahense, 12/02/1869).


Com este novo quadro sócio-cultural da época em que circulou o nosso primeiro jornal, entre 1862 e 1870. a atuação das bandas de música no centro urbano de Macaé já não era mais como em décadas anteriores, apesar da rotina dos macaenses não ter mudado tanto. Ainda se via em alguns estabelecimentos a figura do barbeiro com suas múltiplas funções, assim como o personagem Fígaro, de Sevilha: era comerciante, farmacêutico e dentista. Como foi o caso de Guilherme A. Monteiro que, além dessas qualidades, também era músico, líder de banda e outras coisas já mencionadas. Isso ainda não esclarece se os companheiros músicos de Guilherme também eram barbeiros ou não, brancos ou negros, escravos ou libertos. Nada impede de apelidarmos estes, assim como foram apelidados em outros lugares, de "músicos barbeiros de Macaé" dos anos de 1860.



Referências:



Fundo musical:

  • Largo al Factotum, do disco "The Barber of Seville Highlights". Executada pela 'London Symphony Orchestra'. Com performances de: James Levine, Sherrill Milnes, Beverly Sills e Nicolai Gedda;

  • Brejeiro, tango brasileiro composto em 1893 por Ernesto Nazareth. Executada pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro sob a regência do maestro Anacleto de Medeiros na Casa Edison, em 1902, e faz parte da coleção "A Casa Edison e seu tempo", de Humberto Franceschi;

  • Marcha Solene Nossa Senhora dos Remédios. Executada pela Filarmônica 24 de Outubro-RN, popularmente conhecida como 'Banda d'.e Cruzeta', do maestro Humberto Carlos Dantas (Bembém). Lançado pelo selo "Nação Potiguar.2002;

  • Militar, marcha executada e gravada pela banda da Casa Edison, em 1903;

  • Hino da Independência, de D. Pedro I e Evaristo da Veiga. Executada pela banda do Corpo de Bombeiros Militar de MG em ensaio na Academia de Bombeiros Militar. 2020;

  • Banda Euterpe Madalenense em alvorada em frente à igreja Matriz, em comemoração à Santa padroeira Maria Madalena. Julho/2015;

  • No bico da chaleira, polca carnavalesca gravada em 1909 pela banda da Casa Edison. A música tornou-se sucesso carnavalesco fazendo um sátira aos bajuladores do então muito poderoso Senador e general José Gomes Pinheiro Machado, do Partido Republicano Conservador e morador do morro da Graça, no bairro Laranjeiras. Ironicamente a história desta música coincide com a sátira que usamos no podcast, sobre o bloco carnavalesco que saiu em cortejo de Laranjeiras até o bairro do Flamengo, no último jogo da Libertadores, em 27/11/2021.

FIM.

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