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  • HM Macahé

Episódio 31. As poesias sonoras do Projeto COR VIR.



OUÇA O EPISÓDIO:




Gerson Dudus: "Foi uma coisa muito linda, um negócio maravilhoso. O modo como tudo isso foi acontecendo, que é o acaso também. As forças foram juntando a gente pra produzir essas coisas. E isso foi muito legal".



'Apneia' - Gerson Dudus


“Em verdade cantar é um outro sopro.

Um sopro por nada. Um adejar no deus. Um vento.”

Rilke/Sonetos a Orfeu I


Durante esta pandemia eu li o livro de Franco Berardi que se chama Breathing e foi traduzido para o português brasileiro como Asfixia.


Durante esta pandemia vi um post do insta em que o autor fazia uma retrospectiva nos mostrando que esse necrogoverno começou com enormes incêndios na Amazônia - o pulmão do mundo. E que, agora, Gaia nos envolve numa pandemia que nos sufoca.


Durante esta pandemia lembrei que anos atrás ajudei uma poeta e fonoaudióloga a preparar um trabalho sobre Respiração para um Congresso Multidisciplinar em Saúde que não aconteceu.


Durante essa pandemia fiquei pensando nos sentidos tão prementes de termos teológicos importantes como ruach - palavra feminina hebraica para vento/espírito, ou nefesh - fôlego que Elohims infunde e nos torna vivos. Ou a palavra grega fundamental pneuma - que também é sopro/alma.


Durante essa pandemia, hoje, 16 de maio, passamos a Itália e a Espanha em número de casos. E passaremos todos.


Durante essa quarentena, hoje, conversando com uma amiga atriz que confidenciava o medo de novamente abrir-se pro amor, proferi a frase que me veio num sussurro:


“Hoje precisamos muito de verbos em

ar”.



Introdução


Spoken Word, poesia falada, poemas com desenho sonoro. Tudo isso e mais um pouco compõem o EP Cor Vir, projeto criado pela sinergia entre um músico e um poeta: Bruno Py e Gerson Dudus. Todas as faixas foram compostas e musicadas durante a pandemia, entre fevereiro de 2020 e agosto de 2021. O EP é baseado no livro homônimo lançado em 25 de julho pela Editora artesanal Ocre Cartonera. É composto de 17 poemas produzidos durante a vivência na pandemia. O título remete tanto a Coronavírus quanto à expressão latina 'Cordis Viribus', que significa força do coração. É portanto um devir dentro do tempo sombrio que o mundo atravessa, muito especialmente o Brasil, mergulhado num governo fascista e neoliberal. Sobre a Editora artesanal Ocre Cartonera, ela se propõe a lançar livros de autores macaenses contemporâneos. Os livros usam papelão reciclado e pintado a mão como capa e papel reciclado no miolo, numa utilização sustentável de recursos.


Capa do livro Cor Vir, de Gerson Dudus, lançado em 25 de julho deste ano pela Editora Ocre Cartonera.


Pois bem, pessoal, o Histórias da Música em Macahé convida novamente o poeta Gerson Dudus para nos contar sobre este EP e sobre esta grande parceria…


Gerson: eu sonhava com um projeto de poesia falada, com desenho sonoro - com uma coisa muito bem pensada, que acompanhasse os poemas ou que tivesse efetivamente uma sinergia com os poemas - há muito tempo. Mas nunca dava certo, nunca propus pra outros artistas isso. Tentei aprender a fazer mixagem em casa com uns programinhas, não rolava e não era aquilo que eu queria, não sabia muito bem como fazer. Até que eu li um poema de um outro autor, chamado Alberto Pucheu, que pra mim é um dos maiores portas brasileiros hoje. Um sujeito que eu trouxe aqui, no Plus Poesia 2019, num evento que criei aqui que vai do dia do poeta, 20/10, até o dia da poesia, 31/10. Ele veio aqui falar sobre a pesquisa dele, de poesia brasileira contemporânea. Eu li um poema dele e falei: "o que que é isso! Meu Deus!!" E daí eu não aguentei… eu li uma parte desse poema. "Poema para a catástrofe do nosso tempo". Eu li e mandei pra ele e pro Bruno Py…


‘Poema para a catástrofe do nosso tempo’ - Alberto Pucheu.


Trechos da 1ª parte:


... só vai mudar, infelizmente,

no dia que nós partirmos

para uma guerra civil aqui dentro,

e fazendo o trabalho

que o regime militar não fez,

matando uns 30 mil… Se vai morrer

alguns inocentes, tudo bem”,

“minha especialidade é matar,

não é curar ninguém”, “o erro

da ditadura foi torturar

e não matar”, “Pinochet

devia ter matado mais gente”,

“vamos fuzilar a petralhada”,

o presidente, em campanha,

afirmou que o objetivo

de seu governo é fazer

com que o Brasil volte

40 ou 50 anos, ou seja, volte para

os piores anos, para os porões,

para os calabouços mais sombrios

da ditadura militar.

A partir de então, é preciso dizer

que o futuro é o passado, que

o que está à frente é o que está

40 ou 50 anos atrás, a partir

de então, tudo é o fim,

tudo é pior do que o fim,

tudo é o fim e o dia seguinte

do fim, a sobrevivência

fantasmática, desossada,

descarnada, desfigurada,

diária, frente ao pior,

ao mais do que pior.

Em campanha, repetindo

publicamente

o que nenhuma instituição

lhe limitou dizer nem fazer,

ele já havia dito tudo:

“Vamos fazer uma limpeza

nunca vista na história

desse Brasil”, “vamos varrer

do mapa esses bandidos

vermelhos do Brasil”,

“essa turma, se quiser ficar

aqui, vai ter que se colocar

sob a lei de todos nós.

Ou vão para fora ou vão

para a cadeia. Vai tudo vocês

para a Ponta da praia”...



Gerson Dudus: falei: “Bruno, queria muito fazer alguma coisa com esse poema. Porque ele é muito forte e diz muito do que a gente está passando hoje.” Ele [Pucheu] foi anterior à pandemia, mas eu só li em 2020. Aí eu saí falando esse poema em vários lugares, um pedaço dele, pois ele é grande. Ele tem 21 partes. Tem 70 páginas. Quando eu mandei pro Pucheu, ele falou assim: “que isso, Gerson? Eu não vou poder mais ler os meus poemas. Você fez a leitura definitiva desses poemas. Muito obrigado, não sei como te agradecer. Você encontrou o tom. Meu Deus!!” Aí meu ego bateu lá em cima e, ainda por cima, Bruno me liga e fala: “cara, que poema é esse! A leitura ficou sensaciona!!” Aí eu pedi pra Isabela Ingra pra ler o poema também, mas não casou o modo visceral como eu estava interpretando com o modo como ela interpretou. Então aparece a voz dela em alguns momentos que ele [Bruno Py] aproveitou na mixagem.


E o resto é uma colagem musical extraordinária, que só podia ter saído da cabeça do Bruno, em que ele pegou todas as músicas da top list dos sucessos durante a ditadura toda. De 1964 à 1985 ele pegou as principais músicas que tocavam na rádio e foi cortando, picotando, 2 ou 3 segundos delas, durante todo o processo da minha leitura. E cada vez que aparece música, ela tem a ver com determinado afeto, com o sentido daquilo que estou dizendo. Então só essa composição já valia o disco, na minha opinião. Porque o poema está falando sobre hoje, mas tem tudo a ver com o ontem, tem tudo a ver com aquilo que a gente não aprendeu. Ou seja: não conseguimos fazer o luto das nossas mortes. Ele [Pucheu] está dizendo isso. Nós não fizemos o que tínhamos que fazer, nós não prendemos os torturadores, os generais que tinham a ver com o submundo da perversão do sistema naquela época. Nós não fizemos o que outros países fizeram. A Argentina fez, o Chile fez. Nós somos a única república que não prendeu os militares responsáveis pela tortura. E isso abriu essa ferida imensa, essa coisa purulenta que a gente está vendo pelas ruas hoje vestida de verde e amarela que, inclusive, são as cores do pus. E isso vai para algum poema meu.



Tanatocracia - Gerson Dudus


“A nossa bandeira jamais será vermelha…

Será roxa ou preta.

Vans escolares transportarão cadáveres

e zumbis continuam a comandar o país…”



Tanatocracia é um dos poemas de Gerson Dudus que fazem parte do EP Cor Vir. Está também no formato de vídeo-poema disponível no Youtube e é uma composição construída a partir da narração do poema e da experimentação sonora da palavra ‘democracia’, feita pelo próprio Gerson. Uma caixa de ruídos foi construída num gabinete de computador usado, acoplando cordas, molas, variados objetos e ventoinhas controladas por um potenciômetro. Ao serem manipulados, estes objetos produzem ruídos e ressonâncias que são captados por sensores instalados na parte externa do gabinete, pré-amplificados por uma mesa de som e processados em tempo real por filtros em um editor de áudio. A manipulação da caixa de ruídos também interage com o áudio do discurso de posse do despresidente Bolsonaro, que é processado por filtros em tempo real e é projetado no interior da caixa de ruídos. (Bruno Py)


Video-poema 'Tanatocracia', disponível no Youtube.



Gerson: essa aqui [Tanatocracia] é a maior demonstração da influência da música contemporânea - da música eletrônica, eletroacústica e da música concreta - dentro do trabalho da gente e de como a gente pensou esse projeto, eu e o Bruno. Depois eu falei com ele pra continuarmos, mas ele estava nessa roda viva do fim da tese dele, e daí não rolou. E quando ficou marcado a defesa da tese, ele me chamou pra voltar o projeto… Eu disse pra ele que eu estava lançando o livro chamado ‘Cor Vir’, que é a minha vivência da pandemia, dos meus afetos nesse período dos últimos 2 anos. Eu vou escolher alguns poemas, a gente pode fazer um EP, com umas 7 ou 8 músicas… e mandei os poemas. Ele amou todos. A leitura, teve um ou dois que ele pediu pra melhorar ou gravar de novo, ou mudar o modo de leitura. Teve momentos que li de maneiras diferentes o mesmo poema e mandei. E daí foi se compondo, a cada 20 dias, um mês, ele mandava um. O processo demorou. O disco chama também Cor Vir, que é uma brincadeira minha com a questão do Devir: Cor, em latim, é coração. E também para lembrar coronavírus, porque Cor Vir está em coronavírus também. Mas também tem uma expressão latina chamada ‘Cordis Viribus’, que é a força do coração.


Então tem a brincadeira fundamental com o DEVIR, que é um conceito fundamental pra mim e pra ele, que somos deleuzianos. Tem a questão do CORAÇÃO, mas o coração de um modo diverso, talvez, daquele coração “romantiquinho” de como se entende a poesia, né. E tem a questão do conceito de FORÇA, que é um outro conceito deleuziano importante. A força do coração, em certo sentido, é a força da subjetividade, a força do modo como você lida com tudo isso que te atravessa, o que você está vivendo. Então o Cor Vir foi o meu lançamento de livro físico, que também foi um trajeto muito legal, porque a gente criou uma editora artesanal, que é a Ocre Cartonera. O primeiro lançamento da Ocre foi o meu livro. O próximo lançamento vai ser o da Isabela Ingra; o da Carla Pereira; o do Marquinho [Marco Aurélio]; o da Sandra Wyatt… então são poetas que estão em produção aqui na cidade. A gente vai editar de maneira artesanal, num processo todo sustentável, pra mostrar que a coisa está viva aqui. Ela continua, não aparece muito mas está viva, muito viva. O Cor Vir saiu primeiro como livro e agora vai sair como outro projeto, de sinergia, maravilhoso, que é através da pesquisa musical do Bruno Py. Foi uma sinergia, uma interação, uma confluência muito legal.


Logotipo da Editora Artesanal Ocre Cartonera, criada por um coletivo de artistas macaenses, e que faz uso sustentável de material reciclado para a confecção de seus livros.



'Profecia Sobre o Carnaval do Ser' - Gerson Dudus


Então Orfeu me disse:

O fim está próximo

Ama teu próximo


Poeta, essa é a era da estultícia

O tempo do intolerável

Os poderosos vão proclamar a idiocracia

E um imbecil governará o grande país do norte

E um energúmeno governará o grande país do sul

E conclamarão a expulsão da verdade e da justiça

Em nome de deus

E abençoarão o ódio e a violência

e seu veneno será distribuído como um néctar aos povos


E muitos serão fascinados pelos facínoras

E muitos serão infectados pelo ressentimento e pela raiva e pelo medo


E se fosse possível todos e cada um seriam violados pela escuridão


Poeta, escuta:

do pântano fétido da desolação

Do interior da cloaca da Terra

Talvez surja um fóton

A cintilla anima


O palhaço

Meio Dioniso meio Cristo meio Exu

Que arrancará do torpor

as pequenas os insignificantes as invisíveis os nus


E a energia represada explodirá em alegria

E as ruas se tingirão de cores e vozes

E eles cantarão a manhã

E a manhã ouvirá o chamado

E o Dia da Abundância virá

Pleno de amores

Para todas todos, todes

Mas não para eles.



Referências:




Fundo Musical:




FIM.


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