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  • HM Macahé

Episódio 30. Cláudio Ulpiano: filosofia e arte na construção de um novo mundo.


Imagem: facebook 'Acervo Claudio Ulpiano'.

OUÇA O EPISÓDIO:




Introdução


Vivemos mergulhados num mundo regido pelos princípios lógicos e físicos, com suas realidades psíquicas e físicas. Passamos a vida inteira lidando com coisas que observamos no mundo e com coisas que são originárias do nosso próprio psiquismo. Regulamos nossas vidas pela utilidade das coisas que o mundo oferece. Isso parece normal porque nossa inteligência é um "órgão" preparado exclusivamente para dar conta das nossas questões utilitárias. Mas para além desse mundo do físico e do lógico onde estamos mergulhados, há um outro que não é regido nem por regras físicas e nem pelas lógicas, e não se confunde com o plano teológico - que também dirige formas e sujeitos, permanecendo oculto, devendo ser apenas pressentido, induzido. Estamos falando de um plano de imanência… é onde se encontram oscilações, variações, processos que pertencem a um tempo flutuante, com suas ondas, que aparecem a partir de um agenciamento de forças imensas do cosmo e sensações moleculares: as personagens rítmicas da descoberta de Messiaen. Elas se concebem, autoproduzem-se, correlacionando o grande e o pequeno infinito: as sensações e as forças. Um pouco de tempo em estado puro...


O Tempo, segundo os estoicos.


Segundo os estóicos, há duas distinções do tempo: Cronos e Aion. Cronos é o tempo dos corpos. É o presente atual, a periodicidade que constitui o realismo. Um tempo pulsado, como na música; a sucessão; o tempo empírico; a representação. Aion é o tempo do incorporal, que não se confunde com o espírito: e que não é menos corpo, com seus afetos e intensidades… se no desenvolvimento de uma forma qualquer, definida por suas propriedades intrínsecas, arrancam-se partículas que se definem por suas relações de velocidade e lentidão, suas relações de movimento e repouso - como o tordo (pássaro da ordem dos passeriformes), la grive musicienne, que se constitui como personagem rítmica, na relação de forças e sensações - temos uma individuação por ecceidade. Se, a partir de uma forma, arrancam-se as partículas informais, que entre si só tem relações de velocidade e de lentidão, então foi arrancado do tempo pulsado o tempo não pulsado. Philip Glass e Steve Reich, os minimalistas, opõem-se, na música repetitiva metálica, como Cronos e Aion… o tempo pulsado é um tempo territorializado, é simplesmente uma forma sonora marcando território.


Pequenos esboços de pássaros, obra em 6 movimentos do compositor, organista, pianista e ornitólogo francês Olivier Messiaen, citado por Cláudio Ulpiano em 'La grive musicienne (o canto do pássaro Tordo), presente no 4º movimento. Messiaen se caracterizava pela complexidade rítmica e harmônica em suas composições.

Aion - um tempo liberado de qualquer tipo de medida, uma multiplicidade de durações qualitativas não coincidentes, sem a possibilidade de impor uma cadência métrica comum a estas durações. Não há meios de produzir a homogeneidade entre as durações. Havendo individuações que não são do tipo forma e sujeito. E a individuação musical, da pequena frase de Vinteuil, é deste tipo, do tipo ecceidade, aformal. Exemplo de uma individuação que pertence a um tempo flutuante, construída com durações diferenciais, sem uma métrica comum. Qual é a superioridade dos signos da Arte sobre todos os outros? É que todos os outros são signos materiais. São materiais, em primeiro lugar, por causa de sua emissão: eles surgem parcialmente encobertos no objeto que os porta. As qualidades sensíveis, os rostos amados, são ainda matéria… Os signos da arte são os únicos imateriais… Para fazer e dizer exatamente como Liszt e como Proust: uma paisagem sonora interiorizada nos sons. "Enquanto descobrimos o sentido de um signo em outra coisa, ainda subsiste um pouco de matéria rebelde ao espírito. Ao contrário, a Arte nos dá a verdadeira unidade de um signo imaterial e de um sentido inteiramente espiritual. A essência é exatamente essa unidade do signo e do sentido, tal qual é revelada na obra de arte." (Proust e os signos)...


Trechos do livro "Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento", cap. 15. Autor: Cláudio Ulpiano).



Um filósofo singular.


Cláudio Ulpiano Santos Nogueira Itagiba nasceu em Macaé em 14 de novembro de 1932. Era filho de Ivair Nogueira Itagiba e de Maria da Penha Santos. Ivair era jurista, escritor e político e foi prefeito de Macaé nos anos de 1930. Ulpiano era uma apaixonado por cinema, teatro, música, pintura e procurava aplicar o pensamento filosófico a todas as manifestações do cotidiano. Escreveu duas peças teatrais com o dramaturgo André Monteiro: "Quinta Estação" e o infantil "O Conquistador". Ulpiano foi professor universitário nos anos 80 e 90 e deu aula para várias turmas de curso livre, em Macaé e no Rio de Janeiro, despertando o amor pela beleza do pensamento filosófico em toda uma geração assumidamente ulpianista de músicos, artistas em geral, bailarinos, escritores, jornalistas, engenheiros, advogados, médicos, psicanalistas e psiquiatras. Muitos deles bastante conhecidos na mídia, como podemos destacar alguns: as atrizes Camila Pitanga, Cláudia Abreu e os músicos Sacha Amback e Paulinho Moska. Sobre este último, temos uma história interessante que ocorreu em Macaé e que contaremos já já.


Ulpiano tinha uma visão libertadora da filosofia, o que confrontava com o pensamento oficial, que via a filosofia como uma disciplina rígida. Suas explanações sobre os temas ligados à Arte iam de encontro aos conceitos da arte moderna em contraposição à arte clássica, no sentido de mergulhar em um mundo novo e rompendo com o modelo clássico do nosso cotidiano. Segundo Ulpiano, em uma de suas aulas disponíveis no Youtube "são dois os principais objetivos de toda a arte: tocar na sensibilidade, tocar nos afectos e nos perceptos. Ou seja, alterar os nossos afectos e alterar os nossos perceptos. Alterando nossa sensibilidade através da arte significa dizer que estamos alterando nosso modo de viver". A arte existe para quebrar os hábitos (a exemplo de Schoenberg, na música) criando novas linhas de entendimento do mundo. Há uma ideia fechada de que todo modo de vida é regulado pelos hábitos, mas a única maneira de quebrar esse domínio é exatamente pelas formas da arte. O cinema, ao fazer isso, passa a alterar nossa sensibilidade. Passamos a ouvir e a ver de maneira diferente. Se a arte não fizesse isso, viveríamos mergulhados eternamente em nossos hábitos."


Em uma resenha sobre a peça teatral 'O Conquistador', em cartaz no ano de 1993, Ulpiano diz: "A função da arte não é devolver à natureza o seu próprio ser representado. Mas fundar vertigens, passagens por abismos, convulsões e ritmos. E Paul Klee [pintor] é esta passagem, este ritmo, esta vertigem, a tensão que mostra as forças invisíveis que determinam as variações e as turbulências. Nem infantil, nem adulto, mas um processo que se desdobra: em caos e ordem, em canções, danças e gestos de 'O Conquistador'."


Peça Teatral 'O Conquistador', escrita por Ulpiano em parceria com André Monteiro. 1993.


O professor e músico Bruno Py direcionou sua tese de doutorado, no ano passado, justamente para esse caminho que leva a música a se cruzar com os conceitos filosóficos das obras de Deleuze. "Música e Individuação em Deleuze: a Noção de Hecceidade e os Processos Criativos em Música", é o título deste primoroso trabalho e que deve servir de consulta para que músicos busquem novas maneiras de produzir música no processo de criação. Ao falar sobre 'Hecceidade', ele encara a música como "expressão de intensidades genéticas envolvidas nos processos de individuação, que se dá a partir de relações de forças e potências… "A música, diferente de um corpo funcional, por sua natureza expressiva, dinâmica e movente, torna perceptível forças habitualmente imperceptíveis - que não se dão diretamente aos mecanismos da percepção. Ele também diz: "A música é um corpo que exprime a essência pelos seus atributos. E os atributos da música são o seu absoluto, multiplicidade indivisível. Os atributos são, também, o desenvolvimento das potências, da essência. As músicas concretas e eletroacústicas produzem uma abertura para que os atributos do som apareçam e se desenvolvam sem reservas, recalques ou censuras…"


|Fim da 1ª parte|



Voz de Gerson Dudus: “porque eu já gostava de Paulinho Moska e fiquei gostando mais ainda [risos]. Descobrir que tinha essa relação direta com a filosofia que eu amo, é muito legal.”


Em 04/06/2013 um importante evento ocorreu em Macaé. É lançado o livro "Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento", 14 anos depois da morte de seu autor. Baseado em sua tese de doutoramento, quando matriculado na Unicamp, em 1998, o livro foi revisado por sua esposa, Silvia Ulpiano, ex-alunos e especialistas dedicados ao assunto. A cerimônia foi realizada no auditório que leva o seu nome, na Cidade Universitária. Foi neste evento que um convidado mais que especial esteve presente e quem nos conta mais detalhes é o meu amigo Gerson Dudus, professor, jornalista e poeta que, à época, esteve à frente da Editora Funemac, responsável pelo lançamento do livro…


Capa do livro 'Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento, de Claudio Ulpiano, lançado em 2013 pela extinta Funemac Livros.


Gerson Dudus: Tinha um projeto de cinema com debate em que os pesquisadores vinculados ao Centro de Cultura Cláudio Ulpiano vinham para cá [Macaé] para discutir determinados filmes que passavam no auditório da Funemac, que ganhou o nome de Cláudio Ulpiano, inclusive.


Magno: pessoal do Rio [de Janeiro]?


Dudus: Sim. É um núcleo gerido pela Sílvia, que era a esposa do Ulpiano. Aí depois esse acordo não continuou, entre a Funemac e o Instituto, porque a gente queria – eu digo “a gente queria” porque, depois, quem acabou entrando nessa função fui eu. Eu acabei gerenciando os projetos de lá e acabei ficando com a Editora [Funemac], num momento que o negócio não estava indo pra frente. Aí já tinha sido acordado, já tinham feito a revisão. Todo o trabalho editorial já tinha feito pelo [Magno: Meynardo Rocha] Meynardo e a equipe dele. Eu cheguei, o livro veio da Editora pronto. Os pacotes já estavam chegando, de um trabalho que já tinham feito. E aí comportava a mim lançá-lo. Eu fiquei muito feliz com a tarefa porque eu amo Deleuze, né. Eu conheci [as obras de] G. Deleuze na época que estava fazendo faculdade na Cásper Líbero, de Jornalismo. Comecei a estudar Deleuze lá com um grupo de estudos que se chamava USINA. Me interessei muito, li o livro, fui entender melhor quem era Cláudio Ulpiano.


E aí me contaram, conversei com Sílvia [Ulpiano] e ela falou que Cláudia Abreu tinha sido aluna dele... um pessoal descolado, ia para as aulas dele – porque ele fazia aula em casa aqui e no Rio de Janeiro – eram cursos livres e o povo ia lá ouvir e participar. E o Paulinho Moska tinha sido aluno dele. Aí quando eu soube disso eu falei: “caramba! Então era isso que eu sentia em algumas músicas e tal. Fui olhar alguns discos (eu tinha 3 CD’s dele) e percebi que tinham conceitos deleuzianos ali. Tinha um modo de você construir o texto que tinha relação com conceitos do Deleuze. E aí, eu fiz a proposta do Paulinho Moska fazer um show intimista, ali mesmo no auditório e que falasse da experiência dele com o Ulpiano e com a filosofia. E como isso, em certo sentido, tinha entrado na música. Essa foi a proposta. Os caras acharam sensacional... “mas será que o Paulinho vai querer?” Foi aquela história, pra conseguir o telefone da produtora e tal. Mas o que achei curioso foi que, quando liguei quem atendeu foi ele. Então foi mais fácil de conversar. Depois que conversei com os produtores. Mas a primeira conversa, falar o que eu imaginava do show e por onde passava a história, fomos eu e ele mesmo. Foi muito legal e ele ficou muito feliz: “cara, que ideia maneira. Gostei muito da proposta, acho muito bonito o que vocês estão fazendo. Vou ter que sentar e lembrar das músicas pra fazer uma playlist adequada. Tô gostando muito porque é muito diferente do que tenho feito, do que se exige de mim.”


Em 11/06/2013 realizou-se o evento, em Macaé, do lançamento do livro 'Gilles Deleuze: a Grande Aventura do Pensamento', de Cláudio Ulpiano. Dentre os presentes o músico e ex-aluno do professor Ulpiano, Paulinho Moska.

Foto: Ana Chafin. Fonte: site da Prefeitura de Macaé)

Errata: no podcast foi falado o dia 04/06. O dia correto é 11/06.


Magno: tem algum disco dele, mais marcante assim, que te chama a atenção e que carrega essas influências?


Dudus: tem o “Mobile”. O Mobile tem algumas músicas... todo mundo ficou maluco, né cara! “Um Mobile no Furacão” já tem conceitos...


“Você diz que não me reconhece

Que não sou o mesmo de ontem

E que tudo que faço e falo não te satisfaz

Mas não percebe que quando eu mudo

É porque estou vivendo cada segundo

E você como se fosse uma eternidade a mais

Sou um móbile solto no furacão...”


Dudus: Isso é tipicamente deleuziano. A gente está no DEVIR. Na verdade, o Deleuze diz que a gente precisa estar no devir. Porque qualquer outra coisa é uma territorialização inadequada, ruim, que não vai fazer com que a gente se desenvolva, com que a gente vá para algum outro lugar, com que a gente perceba por onde as forças estão caminhando. As forças são o que? São tudo o que nos envolve, a nossa subjetividade junto com a subjetividade do que nos encontra, do que nos atravessa. Então eu estou vindo pra casa e aí toca um Blues, e aquele Blues me punge, mexe comigo. Eu não ia saber que no Uber estaria tocando um Blues. Mas aí eu chego diferente para trabalhar, porque a música me tocou e me transformou. Eu posso estar ou não preparado para aquilo. Eu posso ter entrado no carro, o Blues tocando, e eu nem estar ouvindo porque estou tão cheio de preocupação na cabeça, que aquilo não me fez diferença. Mas se aquilo me tocou é porque eu estava aberto para a música, aberto para a arte, estava aberto para as forças que estavam ali e que são do acaso. E aquilo me transformou, eu cheguei outro, mais feliz, mais pronto para estar em sintonia com a vida. Essa transformação, essa metamorfose ambulante, que é o devir, é um dos conceitos fundamentais da filosofia do Deleuze e está na música do Paulinho de diversas maneiras.


“A Seta e o Alvo”, uma das músicas que eu mais amo dele, é uma das minhas músicas da vida. Essa luta entre a eternidade, a eternidade é o que? “Ah, eu me apaixonei por você, porque você era assim e assado, mas você mudou...” Que bom! Eu estou vivo. As coisas me modificaram, eu não penso mais como antigamente porque eu estou em desenvolvimento, estou mudando. Eu estou aceitando o que a vida me propõe. Outras direções. O conhecimento está me fazendo perceber coisas que não percebia antes. Então eu mudei. Nessa brincadeira tem várias músicas do Paulinho e ele comentou. O que foi legal do show, foi que ele cantava e falava: “essa música eu fiz depois de uma aula com Cláudio Ulpiano.” Essa brincadeira deu certo porque, efetivamente, os conceitos estavam lá, entendeu? Tinham marcado a vida dele e influenciaram inclusive na poesia das letras das músicas dele. Ele também foi afetado pelos conceitos filosóficos do Deleuze e isso fez diferença no modo como ele compõe, no modo como ele vê a vida. Isso aparece em vários momentos, em várias músicas dele.


O que é interessante na cultura, para mim? A cultura é o tempo todo intercomunicante, ela não fala sozinha. A dança não fala sozinha, a música não fala sozinha, a literatura, o cinema... eles, o tempo todo, estão brincando com referências da vida, da história, dos fatos da realidade. Ela te dá outros modos de se relacionar com a realidade. Ela te abre outros campos, outros caminhos. Ela te propõe outras histórias possíveis, outros encaminhamentos. Então, o que eu achei legal. De levar um show de música para o lançamento de um livro de filosofia é isso: as coisas estão interligadas, nada está sozinho.


FIM.



Referências:




Fundo musical:


  • La grive musicienne (canção do Tordo), do compositor francês Olivier Messiaen. Faz parte da obra Petites esquisses d'oiseaux (Pequenos esboços de pássaros), uma obra para piano composta em 1985, contendo 6 partes. (https://youtu.be/1hsR3i15gJM);

  • Reich/Richter for large ensemble - Ensemble Intercontemporain. Trilha sonora de 37 minutos, sem pausas, composta pelo músico Steve Reich para um filme de Corinna Belz em parceria com o pintor Gerhard Richter. 2019. (https://youtu.be/JT0-itPMAic)

  • Contrasenso, do álbum 'Contrasenso', de Paulinho Moska. Lançado em 1997 pela Emi Records. Música citada pelo prof. Cláudio Ulpiano em uma de suas aulas; (https://youtu.be/AQ731VCqBA8);

  • Um móbile no furacão, de Paulinho Moska. Do álbum 'Móbile', lançado em 1999. (https://youtu.be/pcAnOomaz6c);

  • A seta e o alvo, do álbum 'Contrasenso', Paulinho Moska. (https://youtu.be/En1IPZIGens).

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