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  • HM Macahé

Episódio 28: Maestro Jorge Costa de Macedo.



OUÇA O EPISÓDIO:

Conversa realizada dia 25/08/2021.


No episódio 26, ao falarmos sobre os ferroviários e a música em Macaé, tivemos a oportunidade de conhecer um pouco sobre o maestro Jorge Macedo. Músico, ex-regente da Banda da SMB Lyra dos Conspiradores, professor aposentado do Senai e também regente da Banda Marcial do Senai nos anos 70, Jorge Costa de Macedo nasceu em Santa Maria Madalena, em 1937. Chegou em Macaé ainda bem pequeno, aos 4 anos de idade, residindo numa rua apelidada de Rua da Poça, trecho da antiga Rua Capitão Jorge Soares e atual Dr. Luiz Belegard. Em 1951, aos 14 anos, ingressa na Escola Profissional Ferroviária 8-1-SENAI-Leopoldina e lá prosseguiu os estudos, seguindo carreira até se aposentar, em 1983. Além de aluno, foi monitor, instrutor, professor da escola de aprendizes e professor de ensino industrial, este último equivalente ao ensino de nível superior. Aos 18 anos inicia seus estudos musicais na SMB Lyra dos Conspiradores, chegando ao posto de maestro da Banda nos anos 80...


Jorge: depois de cursar o Senai, eu fui pra oficina... não de aprendizagem, mas pra colocar [em prática] aquilo que eu aprendi no Senai. Um fato interessante: quando eu tinha 18 anos, seu Adolfo, que era professor de música da Lyra, falou assim pra mim: "oh, Jorge, você tem terno preto?" Você tinha que ter um apetrecho pra cursar a banda. Então, eu saí da oficina e fui pra Lyra, pra desenvolver a música e não saí mais. Inclusive, até hoje eu não sou médico, não sou engenheiro, não sou nada. Sou apenas professor e deixei uma marca, né.


Francarlos: apenas, não. Você é um professor que deixou sua marca, onde você passou.


Jorge: Aonde estava o meu período de música era na Lyra. Dali eu trabalhava na oficina e estudava música. Foi onde comecei a aprender Clarinete, depois Requinta, E Saxofone foi só nos bailes.

Requinta, também chamada de Clarinete em Mib (Mi bemol).

Requinta é um instrumento de sopro da família das clarinetas, classe das madeiras, menor e mais aguda do que a Clarineta Soprano em Sib (Si bemol) sendo classificada, portanto, como Clarineta Sopranino.


Francarlos: pra avivar um pouco mais a sua memória, teve uma passagem com você na Lyra, que eu me lembro muito bem. Porque eu já falei pra Magno, quando eu vim pra Macaé me chamaram pra tocar na Nova Aurora. E lá eu tive um...


Jorge: você tem a cara mesmo de Nova Aurora.


Magno: [Risos]


Francarlos: não tenho, não. Quando cheguei pra tocar lá, eu fui chamado por seu Celso, que era muito meu amigo. Eu o conhecia do Rio. Quando cheguei lá na Nova Aurora, eu presenciei uma cena do maestro Tinho (Deus o tenha) que me decepcionou. Durante um ensaio ele agrediu um músico, jogou a batuta no músico, porque o instrumento dele estava semitonado. Eu vendo aquela cena fiquei quieto, nunca mais voltei lá. Fiquei à deriva. Daí um dia encontrei no antigo Bar Pigali, o Zamir. Zamir conhecia meu pai também, que trabalhava em Macaé, trabalhou em Rocha Leão e tal... Ele começou a conversar comigo (porque ele me via em banda e tal) e falou assim: " você não gostaria de tocar na Lyra, não? Você saiu da Nova Aurora..." Eu falei pra ele que foi umas coisas que aconteceram, nem contei o que foi. Ele falou: "a Lyra está de portas abertas pra você". E eu fiquei um bom tempo na Lyra e passou a ser a minha Banda. Outra coisa, além do mais...


Jorge: você chegou a ser meu informante.


Francarlos: sim, eu fui informante seu ali dentro. Olha só, dona Néia, seu Rosevil [seu Rosa], os avós de minha mulher, pai de Lurufe, eram tudo da Lyra. E a família da mãe da minha mulher era tudo Nova Aurora. Dona Mulatinha, Aí eu conheci o pessoal que era Lyra, Glorinha, que era Lyra roxa... daí gostei daquela turma ali, onde me senti melhor, em casa. Ganhei até uniforme, na época. Tem aquele menino que era alfaiate, ali perto do Luiz Reid, levei meu uniforme pra ele ajustar e tal... e fiquei tocando na Lyra algum tempo. Ali conheci Nilson Graça, te conheci [maestro Jorge], conheci Jodyr, que veio se tornar um grande amigo meu depois.


Jorge: Jodyr que era Nova Aurora e depois foi pra Lyra.


Francarlos: exatamente. Jodyr era um cara maravilhoso.


Jorge: Passou a ser o flautista da Banda. Participou de todos os concursos tocando Flauta.


Francarlos: tocava Sax muito bem, também, Tenor e Alto.


Jorge: marcou muito a vida da gente, né. Quando chegou essa época, eu fui para a oficina. Chegando lá na oficina, fiquei lá um determinado tempo, fui convidado pra ser monitor do Senai. Depois passei a professor de ensino industrial. Depois do ensino industrial, eu me aposentei.


Magno: você entrou [no Senai] em 1951, com 14 anos. Completou os 3 anos [de curso], virou monitor. De monitor foi pra professor?


Jorge: é, pra professor. Depois de professor fui para professor de ensino industrial, que dava equivalência com a faculdade. Eu me aposentei em 1983,


Francarlos: Jorginho, faça uma síntese do seu tempo na Lyra.


Jorge: olha, a Lyra só me deu prazer. Ali eu vivi uma época da minha vida buscando alguma coisa em música. Agora, tudo de ouvido. De ouvido quero dizer: procurando melhorar o som do meu Saxofone. Uma série de detalhes que marcaram a minha vida até profissional, porque eu tocava profissional, sábado e domingo eu tocava baile.


Francarlos: a nossa proposta é a seguinte: é resgatar vocês, que foram [são] muito importantes para a cidade.


Edilce (esposa de Jorge): você esqueceu de falar pra eles da sua época de maestro na Lyra, as alegrias que você teve...


Magno: a sua atuação como maestro na Lyra foi mais nos anos 80?


Jorge: foi 86. O auge da Lyra foi 1986.


Reportagem de O Globo sobre o 11º Encontro Estadual de Bandas de Música, realizado em Conceição de Macabu-RJ. Ano: 1986.

(Acervo particular de Jorge Macedo)


Francarlos: em 86 só se ouvia falar em Lyra, no Estado do Rio. Jorginho, quando estava maestro da Lyra, em 86, eu estava tramitando entre Rio e Macaé. As vezes eu chegava de viagem, ia direto ensaiar. E teve um concurso de Banda que quase não fui. Eu morava em Niterói e o concurso foi em Niterói. Foi esse lá no São Bento. Eu não vim pra Macaé e fiquei esperando a Banda lá. Aí quem levou a minha roupa foi "Bracaiá". (Risos).


Jorge: ele tocava prato e substituía o Carlinhos.


Mário "Bacalhau". Anos 80

(Imagem: acervo particular de Jorge Macedo)


Francarlos: o Bracaiá tocava Trombone, e Mário "Bacalhau" não gostava que chamava ele de Bracaiá, mas era Bacalhau. Foi ele que levou minha roupa pra eu vestir. Em Niterói nós tocamos "O Bêbado e o Equilibrista", homenagem `à Elis Regina. Ficou um arranjo muito bonito, diferente, que empolgou os jurados.


Magno: você fazia os arranjos da Banda?


Jorge: nunca fiz arranjos, não.


Magno: você tem músicas, composições autorais?


Jorge: cheguei começar a compor mas depois parei. Quem compunha pra Lyra era Salvador Pessanha. Quem fazia mesmo os arranjos, e nós ganhamos com arranjos dele foi o Zé Carlos, de Itaperuna.


Francarlos: Zé Carlos, se não me engano, ele fazia arranjos para várias Bandas. Mas pra cada Banda ele fazia de um jeito diferente.


Jorge: a música "Chuva de Prata", por exemplo, ganhamos o concurso. Ganhamos em Conceição e em Niterói, na praça São João.


Francarlos: eu lembro que a "Não deixe o Samba morrer", no meio dela, quando entrava o refrão, a gente cantava lá atrás (o pessoal da percussão) junto com a Banda.


Jorge: teve uma hora que escapuliu a batuta da minha mão. E era a hora do samba. E quando caiu, eu pensei: e agora!? Eu abaixei, num tablado bem alto, e quando peguei a batuta novamente o Estádio quase veio abaixo. Eu peguei a batuta e continuei regendo. João, irmão de Nilson Graça, clarinetista, me pegou pelas pernas e saiu comigo correndo. Foi a primeira vez que a Lyra tinha conquistado em Friburgo. Me agarrou pelas pernas e saiu carregando comigo. "Vou cair, vou cair..."


Francarlos: a Lyra marcou uma época relamente muito interessante. Essa década de 80 foi assim, um negócio que eu peguei mais a coisa inflamada...


Jorge: muita luta, muita luta!! A Lyra de Apolo veio a ser madrinha da Lyra [dos Conspiradores].


Acima: maestro Jorge Macedo regendo a Banda da SMB Lyra dos Conspiradores durante XI Encontro Estadual de Bandas, realizado no Campo de São Bento, em Niterói.

Abaixo: maestro Jorge Macedo segurando troféu e comemorando vitória da nossa sociedade centenária.


Francarlos: tinha uma peça que a Lyra tocava muito bem e a gente gostava, era 'No Jardim do Monastério" (In a Monastery Garden). A gente executava isso com uma clareza. Os músicos numa felicidade!


Edilce: será que essas Bandas, que participavam de concurso com a Lyra, ainda existem?


Francarlos: a Campesina [Friburguense], de Friburgo, ainda existe. Muito boa! A Euterpe Friburguense, grande Banda também. A Euterpe, quem foi um dos primeiros regentes foi o Joaquim Naegele, que era saxofonista, arranjador e fez muito Dobrado. Por aí se toca muito Dobrado dele. Tem até um sobrinho dele que é médico cirurgião em Macaé. E o irmão dele, o Vagner, tocava com a Tabajara no Rio. E tinha um outro irmão dele que era o Kuntz, que era um compositor de Friburgo dessa família. Eles faziam arranjos de clássicos e tinham composições próprias, clássicas.


Magno/Francarlos: Jorge gostaria de falar mais alguma coisa?


Jorge: desejar à vocês sucesso no trabalho que vocês estão organizando.


Magno/Francarlos: nós que agradecemos.


Sem máscara, mas só o tempo suficiente para registrar este importante momento da visita ao nosso maestro Jorge Costa de Macedo. Da esq./dir.: Magno; Francarlos e Jorge.

Foto tirada em 25/08/2021 em sua residência, no bairro Imbetiba.

Créditos de imagem: Edilce.




Fundo Musical:

  • Abertura da Ópera 'Fosca', de Antônio Carlos Gomes, executada pela Banda Sinfônica da Polícia Militar do Estado de São Paulo no Teatro Catanduva;

  • O Bêbado e o Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc. Executada pela Banda Sinfônica do Recife, sob a regência de Nenéu Liberalquino e arranjos de Hudson Nogueira;

  • Chuva de Prata, de Ronaldo Bastos e Ed Wilson, executada pela Banda da SM Fraternidade Cordeirense no projeto 'O Som das Bandas - Balançando o Coreto', gravado nos estúdios da Rádio MEC, em 08/01/2012;

  • Não deixe o Samba Morrer, de Edson Conceição e Aloísio Silva, executada pela Banda de Música Deozilio Pinto, em 2009, na Sala Cecília Meireles.


FIM.

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