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  • magnoeliasbatera

Episódio 23: Macaé 208 anos - Hinos e Canções.

Atualizado: 29 de jul. de 2021


Foto: Evelyn Dutra


OUÇA O EPISÓDIO:



O HINO


Hino, por definição, é um termo usado nos tempos antigos para identificar canções em honra aos deuses, heróis e em cultos religiosos. Posteriormente passaram a ser símbolos patrióticos, canções que despertam o sentimento de glorificação a algum soberano ou de identidade nacional. Signos que mantém uma relação especial com as nações que representam. Enquanto as bandeiras e os brasões de armas portam-se como ícones visuais de um determinado país, os hinos nacionais apresentam-se como os ícones musicais da nacionalidade. A letra mais antiga que se tem registro é um poema japonês chamado Kimigayo, que significa "reino de sua majestade". Escrito no século IX, foi utilizado como hino nacional japonês no século XIX. Outro hino, com letra e melodia, é o hino nacional dos países baixos, chamado "O Guilherme". Composto no século XVI durante a guerra dos 80 anos para homenagear Guilherme de Orange que dirigiu a luta contra a dominação espanhola. Todos esses hinos têm relação com a glória de um governante e não o que hoje entendemos como nação.


É durante o século XIX, quando o nacionalismo vai ganhando expressão enquanto fenômeno, e vai se fundindo com a poesia, a música e a língua como elementos da nação, é que o hino nacional nasce como um instrumento poderoso de participação social, popular e também como símbolo patriótico oficial. Os hinos nacionais procuram captar momentos marcantes da vida nacional, numa consonância onde se reafirma os votos de lealdade ao país e as justificações nos mais variados aspectos. Nós, como sujeitos coletivos, experimentamos a nação em nós mesmos. A pátria adquire forma, configura-se no amor cantado a ela pelos atributos maternais, militares, naturais, monárquicos, divinos... complementarmente, com traços de exaltação à independência e à ideia de liberdade, na defesa de sua honra e glória. Deus, pátria e liberdade são as palavras mais encontradas nos hinos na maioria dos países do globo terrestre. As nações se imaginam como soberanas e precisam de um aval para isso: pelo plano divino, pelo reconhecimento internacional - através da liberdade e da independência, ou colocando nos seus filhos a noção de mãe, aquela que cuida. Por isso que eles devem honrá-la.


Há também aqueles hinos que transpõem o pensamento estreito e limitado do nacionalismo, e conclamam todos aqueles que, espalhados pelo mundo, compartilham suas angústias comuns, fruto de um modo de produção que não lhes proporciona um sentido real de existência. A luta pela liberdade, ao transpor as barreiras nacionais, se torna uma força extremamente poderosa. E isso é tão poético e entusiástico quanto necessário, num planeta que ainda sofre os males do caos da desigualdade social.



O HINO NACIONAL

No Brasil, o hino nacional passou por várias modificações até chegar na canção que conhecemos hoje. E essas modificações dizem respeito ao contexto em que elas foram produzidas. Em ocasião dos eventos de 1822, Francisco Manuel da Silva, violoncelista e compositor consagrado compôs, em 1823, um hino em comemoração à proclamação da independência do Brasil. Admirador da “Marselhesa”, ele achava que um hino vibrante e triunfal, como o seu, era mais adequado à celebração do acontecimento do que o composto por Dom Pedro I, belo também, mas, incapaz de motivar o entusiasmo do povo. Pouco divulgada, a composição só seria relembrada em abril de 1831, ao ser cantada pela multidão que festejava a abdicação de Pedro I, passando a ser conhecida, com letra de Ovídio Saraiva, como “Hino 7 de Abril”. Dez anos depois, bem orquestrado, o hino seria executado nos festejos da Coroação de Dom Pedro II, ganhando a denominação de “Hino da Coroação”. Embora não oficializado, mas já consagrado pela tradição como nosso Hino Nacional, foi em 1869 tema de uma peça magistral, a “Fantasia Sobre o Hino Brasileiro”, composta e tocada num sarau no Paço pelo célebre pianista-compositor norte-americano Louis Moreau Gottschalck. Proclamada a República, logo os mais radicais desejaram a feitura de um novo hino pátrio, considerando o antigo uma herança do Império. Daí a realização em janeiro de 1890 de um concurso para a sua escolha que teve a participação de 29 concorrentes. Só que o chefe do governo, marechal Deodoro da Fonseca, decidiu em boa hora que ao vencedor caberia apenas o título de “Hino da Proclamação da República”. Isso em razão dos apelos de vários políticos que pediam em nome do povo a manutenção do velho hino.

Assim, realizado o concurso, foi assinado o Decreto n° 171, de 20.01.1890, que conservava o “Hino Nacional” e adotava o “Hino da Proclamação da República”, ou seja, respectivamente, o de Francisco Manuel da Silva e o de Leopoldo Miguez e José Joaquim Medeiros e Albuquerque. O Brasil passava então a ter o seu hino oficializado, porém, de forma incompleta pois faltava-lhe a letra. Tal situação permaneceria ignorada até julho de 1909, quando o governo instituiu um novo concurso “para escolha de uma composição poética a se adaptar com todo o rigor à melodia do Hino Nacional”. Ganhadora, uma poesia de Joaquim Osório Duque Estrada (1870/1927) ainda esperaria vários anos para afinal ser declarada oficialmente a letra do “Hino Nacional Brasileiro”, pelo Decreto n°15.671, de 06.09.1922, véspera do Centenário da Independência e 99 anos depois da criação da composição. E, por falar em datas, Francisco Manuel morreu cinco anos antes do nascimento de seu parceiro Osório Duque Estrada. Em todo esse processo, destaca-se o fato de que Francisco Manuel era brasileiro nato, diferente dos demais compositores da américa latina, que eram estrangeiros. Além disso, o hino nacional foge à regra, pois a letra foi escrita muito depois da música, fato que se comprova com a morte de Francisco 5 anos antes de vir ao mundo Osório Duque Estrada.

Mas quanto trabalho para fazer um hino, não é? Fazer, não. Definir, talvez, seja o grande problema. Pois é. Macaé também carrega em sua história muitas ocasiões onde se renderam muitas homenagens à cidade. Tentaremos expor aqui alguns desses momentos. Lembrando o seguinte: em alguns casos que serão mencionados, não conseguimos obter, com sucesso, as gravações das músicas. Por vários motivos: ou porque se perderam, ou não foram gravadas, ou porque não foi encontrada ainda a partitura, ou também não foi publicada por alguém que tem a sua salvaguarda. Então vamos nessa!!


MACAÉ


O Hino do Centenário


Em 1913, Macaé comemora seu centenário. Em edição comemorativa aos 100 anos da cidade, o jornal 'O Regenerador - órgão do Partido Republicano de Macaé' publica, em quase todas as suas páginas, as devidas homenagens. Destacamos, aqui, uma nota referente ao dia do evento e também a letra do hino do centenário:

Jornal 'O Regenerador' (Orgam do Partido Republicano de Macahé), ano IV - nº30 - 29/07/1913.

(Fonte: acervo digital da Biblioteca Nacional)



O Hino do Sesquicentenário


O Hino de Macaé, que conhecemos, foi um resultado das comemorações do sesquicentenário do município, ou seja, dos 150 anos de sua emancipação político-administrativa, ocorrida em 29 de julho de 1813, transformando em Vila o que antes fora um Arraial. Extraordinariamente bem construída, sua melodia é riquíssima, inspirada nas mais elevadas tradições musicais. A letra retrata as maiores riquezas da cidade: sua gente, sua história e sua natureza. A harmonia entre seus elementos - musicais, líricos e expressivos - é irretocável. Os autores desta grande obra musical são nada menos que Antônio Alvares Parada, o Tonito, e Lucas Vieira. Tonito, professor, memorialista, poeta, um dos maiores conhecedores do passado de nossa terra, foi autor da letra que, na verdade, é um fragmento de uma poesia mais extensa. Lucas Vieira, pianista, compositor e maestro, autor desta rica construção melódica e harmônica. Cabe aqui um spoiler: há um trecho da melodia de nosso hino que lembra uma canção de Zequinha de Abreu, grande pianista e autor de 'Tico-tico no Fubá. A canção se chama 'Pensando em ti'. Claro que isso não tira o mérito de Lucas, mas o traçado melódico e o movimento harmônico que ele desenvolve a partir desta referência já revela a sua geniosidade, reflexo de suas influências tanto do Choro quanto da música clássica.


À esquerda: panfleto distribuído durante os festejos do sesquicentenário de Macaé. (fonte: Facebook 'Macaé das Antigas - postagem de Ricardo Aguiar, em 17/05/2020;

À direita: paritura do Hino de Macaé escrita a próprio punho por Lucas Vieira, datada de 28/09/1989. (Fonte: Macaé: Síntese Geo-Histórica)



O Hino do Bicentenário


O trabalho envolvido na gravação do novo arranjo do Hino de Macaé se resume em garantir que todas as qualidades da composição apareçam de forma adequada. A última gravação, que conta com arranjo do maestro Charutinho, data de 1997. Estabelece uma estrutura formal que foi mantida, assim como outros elementos. No caminho percorrido entre as primeiras notas na pauta e a finalização do áudio, todos os músicos colaboraram enormemente, sugerindo soluções e possibilidades, desde o arranjo até a edição. O espírito de colaboração esteve presente em todas as etapas do trabalho, garantindo a melhor qualidade possível a este presente para nossa bela cidade.


Com arranjos musicais de Bruno Py e produção musical dele e dos maestros Hélio Rodrigues e Wilson dos Santos, um grande elenco de músicos e cantores participaram da construção desta obra musical, mais requintada harmonicamente e, claro, não descolorindo a beleza herdada de seus autores originais. Ao todo, um total de 44 músicos integrantes da Banda Sinfônica Nova Aurora e do Coral da Cidade de Macaé deixaram sua marca na história. Verdadeiros atores deste registro fonográfico da versão do hino comemorativo dos 200 anos de Macaé.

Capa do CD, lançado em 2013, com nova versão do hino em comemoração do bicentenário de Macaé.



Ficha Técnica:


Arranjo: Bruno Py

Produção: Bruno Py, Hélio Rodrigues, Wilson dos Santos


Músicos:

Flautim – Márcia Estulano

Flautas – Thaís Muniz, Werlles de Paula, Luíza Nascimento, Cristal Donnini

Oboé – Daniel Martins

Clarinetes – Lauro Nunes Jr., Adilson Thomaz, Zé Rangel, José Luiz Guimarães, Anderson Aprígio

Clarone – Allan Pinheiro

Sax Alto – Amaro Santana

Sax Tenor – Samuel Daher

Sax Barítono – Eduardo Zavarize

Trompa – Vanderson Veiga

Trompetes – Márcio Júnior, Leandro Márcio

Trombone Tenor – Juliano Nogueira, Jeferson Povoa

Trombone Baixo – Hélio Rodrigues

Tuba – Glauber Menezes

Percussão – Erick Menezes, Magno Elias

Vozes – Glauco Zulu, Lita Lopes, Adriano Souza


Coral da Cidade de Macaé

Regência: Wilson dos Santos Souza


SOPRANOS:

- Alice Angélica dos Santos Souza

- Branca Cordeiro Peixoto

- Carine Ribeiro Souza

- Elza Corsino de Oliveira

- Girdley S. da Silva Azevedo

- Kézia da Rocha Amâncio

- Sônia Regina Cascabulho Valentim

- Sueli Rodrigues de S. Benante


CONTRALTOS:

- Neves Regina M. Zarour

- Regina Célia Pinto Ribeiro

- Regina Helena P. Junqueira


TENORES:

- Fernando M. de Azevedo

- Jônathas da Rocha Amâncio


BAIXOS:

- José Augusto Rainha

- José Domingos dos Santos Filho

- Luiz Carlos Benante

- Pierre Maciel Ribeir




CANÇÕES EM HOMENAGEM À CIDADE


O lirismo que inspira os artistas amantes de Macaé a comporem seus hinos, também os inspira a criarem belas canções populares, em vários formatos musicais. Como foi o caso do cantor e compositor Ruy de Almeida, natural de Petrópolis-RJ, que e m 16 de maio de 1951 gravou o samba-canção 'Macaé', em parceria com Braga Filho e com acompanhamento de Zimbres e sua Orquestra:


Macaé, Macaé! Tu és a princesa dos contos de fada Vestida de azul anil, Macaé! Teu rio ondulante É um raro brilhante Em teu corpo gentil


Teu jardim é uma linda esmeralda Que põe em beleza O teu porte de flor Por isso te rendo homenagem Princesa dos mares Meu sonho de amor!


E quando nas noites de lua Te vejo nos montes Alegre e feliz Te abraço com todo o carinho Ò linda princesa do meu país!



Foi no episódio 17, ao falar sobre o Conjunto The Rells, onde mencionamos a cantora Silvinha, irmã do empresário do Conjunto, Everaldo. Ela também nos brinda com sua música em homenagem à cidade, com acompanhamento de Pedro e seu Conjunto:


Cidade linda és tu

Macaé de encantos mil

Beleza que fascina e enlouquece

aquele que te conhece

és a cidade mais clara do Brasil


As tuas praias, encantadoras

repletas de sereias sonhadoras

quero viver contemplando o teu céu e o teu mar

és princesinha, podes te orgulhar



Outra canção também muito emblemática é resultado de um soneto de Ruben Carneiro Almeida Pereira, escrito em 1958 e musicado tempos depois pelo músico e compositor Jorge Benzê...


Macaé - Soneto de Rubem Almeida e foto de Manoel Olive

(Fonte: site www.macaeempauta.blogspot.com)


Conversei com Carmen Zanardi, que nos lembra de uma época em que os alunos estudavam canto orfeônico no Colégio Luiz Reid e cantavam um outro hino...


Carmen: o foco da música era no Luiz Reid, que nós tínhamos a aula de canto orfeônico com a dona Letícia Santos. E através de dona Letícia, que era apaixonada pela música e por ensinar para as alunas normalistas, que seriam futuras professoras - depois iam transmitir essas letras de hinos e de músicas que ela ensinava no Luiz Reid. Então essas letras passavam de uma série para outra, geração ... e onde nós guardamos com muito carinho a letra do hino da dona Benilda Santos, que a dona Letícia, irmã da Benilda, cantava sempre com os seus alunos. E eu tenho o registro dessa letra "... sempre alerta, avançar... Macaé...". Eu guardo com muito carinho. Sou macaense, nascida, criada. Já estou um tempo fora, mas Macaé presente no coração, sempre, nossa Princesinha do Atlântico.

Imagem tirada do Facebook 'Macaé das Antigas'. Postagem de Aluisio Barbosa Jr. (18/01/2020).




Fontes de Consulta:


Fundo musical:


  • "Kimigayo" (君が代?) é o hino nacional do Japão. É também um dos hinos nacionais mais curtos do mundo em uso atual, com um comprimento de 11 medidas e 32 caracteres. Suas letras são baseadas em um poema de Waka escrito no período Heian (794-1185), cantado a uma melodia escrita no período Meiji posterior. A melodia atual foi escolhida em 1880, substituindo uma melodia impopular composta onze anos antes;

  • A Internacional, hino internacionalista cantado por trabalhadores de todo o mundo;

  • Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Louis Moureau Gottschalk. Interpretada por Eudóxia de Barros no 11º Concerto da "Série Recitais Artmanhas do Som", em 23/06/2012;

  • Barão do Rio Branco, dobrado de Francisco Braga com arranjos de Dieter Lázarus. Executada pela Banda Sinfônica Nova Aurora no Teatro Municipal de Macaé em 10/06/2017;

  • Hino de Macaé, gravado em 1997, com arranjos do maestro Charutinho para Banda Sinfônica;

  • Hino de Macaé, versão comemorativa Macaé-200 anos, com arranjos de Bruno Py;

  • Macaé, de Ruy Almeida e Braga Filho, gravado em 16/05/1951 e acompanhado por Zimbres e sua Orquestra;

  • Macaé, de Silvinha. Gravado com Pedro e seu Conjunto. Sem uma data precisa;

  • Macaé, gentil princesa. Letra de Ruben Almeida e música de Jorge Benzê; Arranjos Leib Moraes. Do CD 'Crubixais';

  • Você é mais que sonhei, de Tim Maia. Cantado pelo Coral da Cidade de Macaé, com arranjos de Joel Bezerra. Disponível no canal do Youtube da Secretaria de Cultura de Macaé.



Considerações finais:


O HMM presta uma singela homenagem neste dia especial, ao usar como tema músicas que retratam o município, tanto na forma de hinos como nas diversas outras expressões de nosso cancioneiro. Lembrando que em alguns casos usamos músicas de fundo para ilustrar o assunto, não sendo, portanto, as músicas reais. Como nos casos do hino do centenário, onde escolhemos o dobrado 'Barão do Rio Branco' tocado pela Banda Sinfônica Nova Aurora, ilustrando uma época em que se tocava muito esse tipo de música. E também ao falar da professora Benilda Santos que, junto a sua irmã Letícia Santos, cantavam com seus alunos de canto orfeônico um hino criado por elas. Neste caso o fundo musical usado, para ilustrar, foi o aúdio referente ao vídeo recentemente publicado pelo canal do Youtube da Sec. Cultura de Macaé, com o Coral da Cidade cantando a música 'Você é mais que sonhei', de Tim Maia, com arranjos de Joel Bezerra. No mais, vocês podem conferir o restante da trilha sonora e também a fonte de pesquisa no final da página do blog referente ao episódio. Lembrando também que no episódio 19, referente às festas de padroeiro, vocês podem saber um pouco mais sobre a criação da Vila de Macaé e o questionamento do porque Macaé foi batizada de Vila de São João. Encerramos por aqui e espero que tenham gostado. Até breve e um grande abraço!!


FIM.

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