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  • HM Macahé

Episódio 20: Edmundo Caetano - o melhor remédio é a música.



OUÇA O EPISÓDIO:



Edmund0 Caetano da Silva, macaense. Além do seu casamento com Gessy Carvalho Caetano, teve duas paixões às quais dedicou a maior parte de sua vida. Uma delas era seu laboratório de manipulação de medicamentos diversos, na Farmácia Caetano, cuja prática iniciou na Farmácia Granado, no Rio de Janeiro, onde trabalhou e a outra, a Música. Seu amor à música incluía apreciação das composições e dos compositores, formando uma biblioteca variada sobre a vida e a música de compositores famosos, destacando-se Verdi. Formou também uma discoteca bastante rica.


Parte do acervo discográfico de Edmundo Caetano, ainda bem preservados.

(Créditos: acervo particular de Terezinha Vasconcellos. Montagem: Magno)


Esse amor pela música o aproximou da Sociedade Nova Aurora, na qual exerceu a função de Presidente (sua foto encontra-se na galeria dos presidentes da Sociedade) e de Diretor de Patrimônio por curtos períodos tendo, realmente, sem nenhum cargo, se dedicado a incrementar a parte musical da sociedade através de apoio aos músicos, aquisição e manutenção de instrumentos, estantes, acervo de partituras¹ e outros. Além do incentivo para a realização de concertos memoráveis em Macaé e participação fora do município em concursos, encontros de bandas musicais como na Sala Cecília Meirelles e Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro e outras como, por exemplo, em Volta Redonda, obtendo sempre entusiasmado aplauso do público e reconhecimento dos demais regentes participantes.


Matriz da Farmácia Caetano, no centro da cidade. Era ali, e nas outras filiais, que alguns funcionários eram incentivados a estudar música na Nova Aurora, assim como músicos desempregados conseguiam emprego e até assistência familiar.

(Créditos: acervo particular de Terezinha Vasconcellos)

Nesse período, a banda tinha como regente o inesquecível Benedito Passos – o Maestro Tinho. Tornaram-se grandes amigos, unidos pelo amor à Música e o ideal de tornar a banda Nova Aurora excelência em música no estado do Rio de Janeiro. Reuniam-se para organizar a banda em todos os aspectos: repertório, participações, contatos com outras bandas, etc. Essa postura de ambos contagiava os músicos que se dedicavam dando o melhor de si para a concretização desse ideal. As noites de ensaio eram um evento, pois o pátio ficava repleto de apreciadores que se deleitavam com as performances dos músicos e do maestro. Era comum os jovens músicos trabalharem na Farmácia, seja porque chegavam na banda interessados em aprender algum instrumento e estavam desempregados (às vezes 2 ou 3 irmãos trabalhavam nas Farmácias e tocavam na banda), ou começavam a trabalhar em sua farmácia e convidados a assistir ensaios, acabavam se interessando a entrar nas aulas de música, descobrindo às vezes um talento até então oculto. Essas duas paixões da sua vida eram tão ligadas, que numa entrevista sobre o comércio em Macaé, dada ao Jornal do Brasil, ele cita com empolgação a importância da Nova Aurora para a cidade, o que levou o repórter a iniciar a matéria citando a instituição. Eis a reportagem:


Página com matéria jornalística do Jornal do Brasil sobre a chegada da Petrobrás e o aniversário de 166 anos de Macaé, comemorado em 29/07. A imagem acima é um recorte da página referente à entrevista com Edmundo Caetano.

(Fonte: Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. Jornal do Brasil, ano LXXXIX, edição 118, de 04/08/1979. Caderno B)


Nota:

1- Grande parte das partituras musicais encontram-se em poder da Banda Salesiana de Niterói, em sala própria que recebeu o seu nome.


Verbete de Terezinha Vasconcellos.



Encontro de Edmundo Caetano da Silva com músicos da Nova Aurora, durante sua gestão como Presidente da Sociedade Musical.


“Uma vez que os senhores ingressaram como músicos e vestindo o uniforme da Banda Nova Aurora, os senhores terão uma responsabilidade de compromisso que deverá ser cumprida, mesmo com sacrifício, não esquecendo nunca de sua sobrevivência e de seus interesses. Para isto, quando ocorrer algum problema inesperado, deverão se dirigir aos diretores do Departamento Musical (Assistente social).”


“Em primeiro lugar quero fazer ver aos senhores que a banda em si teve um grande impulso com a aquisição de instrumentos novos, sendo a maioria de importação. Assim como a reformulação de todos os instrumentos existentes, sendo também comprados novos estojos de instrumentos diversos, estantes importadas de origem alemã, cadeira de fórmica com respirador de ar, capas para estantes completas a tiracolo para uso das funções externas, fora da cidade.”


À esquerda: relação de instrumentos para importação na Europa. À direita: oferta de uma loja de música da Alemanha com algumas correções técnicas sobre os instrumentos solicitados.

(Créditos: acervo particular de Terezinha Vasconcellos. Montagem: Magno)


“Em suma, a banda tem um arquivo musical muito rico, muito variado, em sua maioria em música clássica, assim como música impressa, importada e bem conservada, com boa organização e muito grande, cada vez maior, porque continua aumentando sem interrupção, assim como os instrumentos também continuam aumentando...”


“Já é de nosso conhecimento que a Banda Nova Aurora, e podemos nos orgulhar, que já foi comentado dentro do recinto musical da Marinha, que a banda de Macaé é a maior banda de uma cidade do Estado que tem intercambio musical com a segunda banda do Brasil , que é a Banda Sinfônica dos Fuzileiros Navais. Haja visto que já foi adquirido verba para despesa de transporte ao arquivista da Marinha para uma viagem a Macaé fazer pessoalmente intercambio de Música. Pelo qual foi recebido pelo Regente Benedito Passos e o arquivista Marcio Graça.


“Musicalmente falando, a Banda Nova Aurora já fez dois concertos em recinto fechado: o primeiro no Cine Taboada, como os senhores devem estar lembrados, teve grande sucesso, foi muito aplaudido ao ponto do público se levantar, alguns com lágrimas nos olhos de alegria e emoção. Foi uma surpresa inesperada de modo geral. Foi um programa de música clássica, muito bem escolhido e bem programado pelo regente Benedito Passos e o segundo foi no Cine Clube de Macaé, juntamente com a Banda da Prefeitura de Cabo Frio, que chegou com uma comitiva de cento e tantas pessoas, em três ônibus especiais.”


As influências musicais de Edmundo Caetano foram, em boa parte, decisivas na construção do repertório erudito da Banda Sinfônica da S.M. Nova Aurora.

(Créditos: acervo particular de Terezinha Vasconcellos)



Zé Maria e seu Edmundo


Zé Maria com uniforme da Nova Aurora. (Anos 70)

(Créditos: acervo particular de Valdinéia)


José Maria da Silva, o Zé Maria, é um daqueles casos que podemos resumir bem quem foi a pessoa de seu Edmundo Caetano. Entramos em contato com Liliam Marcia e Igor, filhos de Zé Maria. Eles nos contaram um pouco como e por que seu Edmundo foi marcante na vida dele:


Liliam: a história que eu sei é a que meu pai contava, que hoje é falecido. Meu avô João, pai do meu pai, era marinheiro e turco. Casou com minha avó e foi exilado. Eles moravam no Rio. Minha avó, como era macaense, voltou pra Macaé com meu pai novinho e meu tio. Meu pai tinha 4 e meu tio 6 anos. Daí minha vó foi trabalhar de empregada doméstica pro seu Edmundo e dona Gessy. E ali eles criaram meu pai como filho. Meu pai tinha ele como pai. Tudo que meu pai aprendeu de farmácia foi com seu Edmundo e tudo que meu pai aprendeu de música foi com seu Edmundo. Tanto que meu pai é conhecidíssimo na Nova Aurora. Em agradecimento por tudo que seu Edmundo e dona Gessy fizeram pelo meu pai, meu pai deu meu irmão pra eles batizarem, serem os padrinhos do meu irmão. Infelizmente meu pai é falecido e meu irmão também.


Igor: Zé Maria foi morar com minha mãe, eu tinha 1 ano e meio, mais ou menos. O meu pai era Nova Aurora roxo, de não tocar em outra banda nenhuma. A única banda que ele fez algumas participações foi a de São Pedro da Aldeia, se não me engano, com dona Aparecida, que também era musicista da Nova Aurora. E, na época, eles iam enxertar a banda dela lá por ela fazer parte da Nova Aurora. Ele era farmacêutico, trabalhou na farmácia de dr. Edmundo. Eu lembro que ele falava muito isso comigo, de dr. Edmundo. Inclusive ele foi para a Leopoldina, foi músico do Conservatório da Leopoldina através de seu Edmundo. Eu já ouvi bastante essa história lá em casa, que é como essa pessoa fosse um pai pra ele e incentivou pra caramba na música. Se não me engano, pagou curso pra ele. Poxa, se meu pai estivesse vivo, com certeza ele ia contar uma história pra você assim... ele ia contar a vida, eu garanto pra você.


Conversei também com a dona Valdnéa, esposa de Zé Maria e mãe de Igor. Muito gentil e atenciosa, ela também nos conta que se lembra do Zé desde que ele era muito novo, quando trabalhava na farmácia:


Valdnéa: a mãe de José Maria trabalhava na casa do dr. Edmundo.


Magno: foi aí que tudo começou? Ele cresceu lá e depois foi trabalhar na farmácia...


Valdnéa: desde pequeno ele trabalha na farmácia. Eu sei porque o meu pai era cliente da farmácia e comprava remédio pra nós já com ele (Zé Maria).


Magno: o seu pai comprava lá e o Zé Maria trabalhava lá? A história de vocês começa daí, de se conhecerem ... Em relação à música, ele aprendeu por incentivo de seu Edmundo. Ele seguiu essa carreira e deu certo. (Risos)


Valdnéa: deu certo até o tempo que ele quis, porque o mundo evoluiu muito e os cantores (ela quis dizer: músicos) daqui de Macaé foram esquecidos. Por ele, a gente via que chamavam ele pra tocar fora e depois isso foi acabando.


Magno: ele sempre tocou pela Nova Aurora... ele tinha banda, além da Nova Aurora?


Valdnéa: tinha e seu Geraldo que tinha uma banda pra tocar fora de Macaé. Ele já foi tocar em São Paulo, pela Nova Aurora. Na sala Cecília Meirelles, no Rio. Nesse o Igor até foi comigo.


Zé Maria era clarinetista e saxofonista.

(À esquerda: Zé e sua esposa Valdnea (1995); à direita: carteira profissional da OMB, saxofone alto e sua boina cap da Nova Aurora que muito fizeram história junto a Zé Maria).



Continuação de "Encontro de Edmundo Caetano da Silva com músicos da Nova Aurora ..."


Vocês musicistas deverão dedicar muito mais à música do que a própria Sociedade, a qual nós representamos. Se os senhores ao passarem por aqui e tiverem a dedicação, compreensão e aproveitamento em matéria de música, tenho quase certeza que para o futuro, quando os senhores não tiverem mais fazendo uso de instrumento, seja por impossibilidade física ou mesmo por idade, vocês estarão sempre presentes nos ensaios, em funções de representações musicais, concertos, etc. Ouvindo e assistindo música clássica, bonita, suave, romântica, vivendo uma fase que passou em sua vida mas que vocês estarão sentindo em seus corações como se estivessem vivendo aqueles tempos que se passaram. É este o meio social musical que o futuro lhe reserva no seio dessa Sociedade.


Título de Sócio Honorário, prova dos grandes serviços prestados à instituição.



Agradecimentos: à Liliam, Igor e dona Valdinéia, pela atenção e confiança depositadas em nosso projeto para falar um pouco sobre Zé Maria. E também à Terezinha Vasconcellos por ceder parte do acervo pessoal de Edmundo Caetano. Muito grato, principalmente, pelo zelo e carinho com este importante acervo e que possibilitou com que fizéssemos esta homenagem.


Fundo Musical:


  • disco 'Verdi Choruses', com coral e acompanhamento da Orquestra da Academia de Santa Cecília, em Roma, e conduzido pelo maestro Carlo Franci. Lançado em 1964;

  • Anchors Aweigh, hino da Banda da Marinha Real Holandesa sob a regência do capitão Gijsbert Nieuwland.


Considerações finais:


Gostaram de conhecer mais uma história interessante? Pois é. Nós, do HMM, falamos sobre os acontecimentos musicais mas sempre relacionando o tema da música com outros aspectos da vida em sociedade. Portanto, afirmamos o nosso compromisso com a memória cultural do município, não estreitos apenas à música, apesar dela ser o nosso foco. Esclarecido isso, vamos nos despedindo ansiosos para o próximo encontro. Até breve e um grande abraço!!


FIM.

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