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  • HM Macahé

Episódio 15 - 114 anos do SindMusi-RJ e os desafios atuais - bate-papo com Luciana Requião.



OUÇA O EPISÓDIO:



Entrevista realizada em 15/04/2021.



Apresentação:


“A classe operária brasileira tem sua origem em meados do século XIX, em um contexto de decadência da utilização do trabalho escravo, onde a economia se baseava na produção de monocultura do café para exportação. Foi com o capital do café e subordinado aos interesses do capital financeiro inglês que surgiram as primeiras indústrias no Brasil. O surgimento e desenvolvimento do capitalismo trouxe consigo o surgimento de uma nova classe – o proletariado. Surgiram então as primeiras formas de organização da classe operária. Foram organizadas as Sociedades de Socorro Mútuo e Uniões operárias, que tinham um caráter assistencialista e que acabaram por dar origem aos sindicatos. O objetivo inicial era ajudar os associados no caso de doenças, invalidez, desemprego, pensões para as viúvas, etc...” (Teses do 3° Congresso da Liga Operária - Movimento Sindical no Brasil: Balanço histórico - As origens e o início da organização sindical classista no Brasil)


“Entre 1900 e 1907 ocorreram, no Rio de Janeiro, pelo menos, 11 movimentos grevistas (organizados por estivadores, sapateiros, tecelões, marítimos, motorneiros, ferroviários, cocheiros e carvoeiros) e, em 1906, se realizou o Primeiro Congresso Operário que deu origem à Confederação Operária Brasileira. Em 5 de janeiro de 1907, o Presidente Affonso Pena assinou o decreto 1.637, que “criava” os sindicatos profissionais e as sociedades cooperativas. A lei dizia que os sindicatos poderiam se constituir livremente, sem autorização do governo, para estudo, a defesa e o desenvolvimento dos interesses profissionais de seus membros. A partir desse aval concedido a todas as categorias profissionais, inclusive as liberais, foi criado o Centro Musical do Rio de Janeiro, em 4 de maio de 1907...” (site do SindMusi – “Nossa História”)


Decreto 1637, de 05 de janeiro de 1907. Cria sindicatos profissionais e sociedades cooperativas.

(Fonte: site da Câmara dos deputados)


Centro Musical do Rio de Janeiro; Sindicato da Guanabara; Sindicato Municipal dos Músicos; Sindicato do Estado dos Músicos Profissionais e, finalmente, Sindicato dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro. Vários foram os nomes pelos quais o sindicato teve, porém seus objetivos sempre foram os mesmos: representar os músicos fluminenses, defendendo os seus direitos e interesses.


Francarlos, membro do nosso projeto e também delegado regional do SindMusi-RJ, que engloba várias cidades da região dos lagos e do norte-fluminense, entrou em contato com Luciana Requião, musicista e diretora do Trabalho do sindicato, para nos contar a trajetória desta instituição centenária que completa, hoje, 114 anos de história e é alvo de uma política econômica que visa a dissolução completa não só dele, mas de todos os sindicatos que representam os trabalhadores. A falácia do empreendedorismo; a flexibilização das leis trabalhistas; a lógica da meritocracia; a não obrigatoriedade da contribuição sindical, são alguns fatores desse modelo neoliberal que anda de mãos dadas com um governo de perfil ultraconservador e autocrático, fragilizando os sindicatos de maneira sistemática.


Luciana Pires de Sá Requião, doutora em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF); Mestre em Música e Graduada no curso de Licenciatura em Educação Artística pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Como pesquisadora vem desenvolvendo projetos nas áreas da Música e da Educação, atuando principalmente nos temas: formação profissional, sociologia do trabalho, economia da cultura e processos de ensino-aprendizagem musical. Desenvolve, desde 2010, projetos de extensão nas cidades de Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty na formação inicial e continuada de professores não especialistas em música. Dentre seus principais trabalhos como arranjadora e instrumentista (violão, baixo elétrico e baixolão) destaca-se o Trio Violão Brasileiro e a Orquestra Lunar. É professora associada do Instituto de Educação de Angra dos Reis e do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da UFF. Atua no Programa de Pós Graduação em Música e no Programa de Mestrado Profissional em Ensino das Práticas Musicais da UNIRIO. Coordena o Grupo de Estudos em Cultura, Trabalho e Educação e é autora dos livros “O Músico-Professor” (2002), "Eis aí a Lapa...: processos e relações de trabalho do músico nas casas de shows da Lapa" (2010) e "Trabalho, Música e Gênero" (2019). Em 2018-2019 fez estágio de pós-doutorado junto ao Laboratório de Etnomusicologia da UFRJ. É membro da diretoria do Sindicato dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro, como Diretora do Trabalho, na gestão 2015-2018 e 2019-2022.



Francarlos: oi, Lu.


Luciana: oi. Tudo bom? Boa noite.


Francarlos: seja bem-vinda.


Luciana: obrigada.


Francarlos: deixa eu apresentar você para os meninos: Ulysses Cabral, contra-baixista e Magno Elias, baterista... eu gostaria que você se apresentasse pra galera e fique à vontade pra falar sobre o sindicato, a história do sindicato... que você é diretora do trabalho, sabe tudo a respeito.


Luciana: tudo já é muito difícil, né! (Risos)... esse tudo vai completar 114 anos agora dia 04 de maio. O Sindicato completa 114 anos de idade. Não é pouca coisa não, né? Mas, me apresentando: eu sou Luciana, estou como diretora do trabalho no sindicato, na segunda gestão, que muito me orgulha. Sou baixista, professora da Universidade Federal Fluminense... assim, eu não sou especialista no sindicato, não saberia contar os pormenores. Vou falar uma coisa mais geral, assim. Nosso sindicato é um dos mais antigos do Brasil e, talvez seja o mais, senão o mais antigo sindicato dos músicos do mundo. Ele tem mais de 100 anos, vai fazer 114 anos agora no dia 04 de maio. Ele começou não como sindicato, começou como Centro Musical do Rio de Janeiro. Existe um livro falando sobre ele chamado “Acordes e Acordos – A História do Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro", que conta a história do início... ele ainda como Centro Musical, que vai de 1907 à 1941.


Capa do livro 'Acordes e acordos: a história do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado Rio de Janeiro, 1907-1941'


Quando ele nasce, ele nasce num momento no início do século passado, aonde o Rio de Janeiro é a capital do Brasil e naquele movimento da Belle Epoque, o Rio de Janeiro querendo ser a Paris dos trópicos. Imagina só, um movimento cultural que não estava acontecendo aqui. Então o Centro Musical, quando é formado, ele é formado no intuito de botar uma ordem na casa, de que os cachês fossem padronizados, seguindo uma determinada tabela, que os músicos fossem contratados sob determinadas condições. Mas não era qualquer músico também não. Isso é importante que fique bem claro. Era um certo protecionismo de uma certa classe de músicos que eram chamados de professores. Mas professores não no sentido de professor que dá aula. Professor no sentido de daqueles que professam a profissão. Eram aqueles que tinham a legitimidade para exercer a profissão. Para você entrar pro Centro Musical, você tinha que ser indicado, tinha que passar por um comitê que ia dizer se você poderia ou não. E uma vez que você entrasse para o CM, você tinha que seguir as regras. Se você aceitasse um cachê mais baixo você estava banido dali.


Então foi uma maneira de organizar uma profissão que estava em ebulição na época, porque os teatros começaram a se proliferar aqui, os concertos, os cafés cantantes... tem até uma história interessante de um cara chamado Pascoal Segreto, ele foi o cara que tinha os cassinos, as casas, os teatros... ele que implementou o entretenimento no Rio de Janeiro. Então ele (CM) nasceu muito com essa ideia de regulamentar de alguma forma, de criar regras pra esse trabalho, né. E isso é um pouco a função de um sindicato: de organizar a classe de trabalhadores, de determinada profissão, de determinado ofício. De forma que o trabalho não fique a mercê dos contratantes, por exemplo. Que é o que acontece muito hoje. E você vê que os contratantes pagam o que querem, da forma que querem, quando querem, e a gente fica uma pouco a mercê disso porque infelizmente a gente não tem fiscalização.


Mas voltando lá pra trás, em 1907, aqui no Brasil, já tinha autorização para criação de sindicatos e sociedades cooperativas. O nosso sindicato, que nasceu como Centro Musical, e meio que lendo as atas e nesse livro da Eulícia Esteves que eu comentei no início, o ‘Acordes e Acordos’, eles não queriam muito que fosse sindicato, eles queriam continuar como uma sociedade cooperativa. Mas, em 1932, o Centro Musical, por toda sua trajetória, ele foi reconhecido como entidade de classe pelo Ministério do Trabalho e a Carta Sindical chegou em 1941. Depois de 41, a gente passou, aí sim, a ter o Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro, que também teve seu nome transformado em vários momentos: já foi Sindicato da Guanabara, Sindicato Municipal, Sindicato do Estado dos Músicos Profissionais, até chegar no nome que ele tem hoje, que é Sindicato dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro... Muito ‘en passan’, muito brevemente, é mais ou menos essa a trajetória desse início dessa instituição que não começou como sindicato mas se transformou num sindicato nos moldes que a gente tem hoje.


Em 1932 o Ministério do Trabalho reconhece o Centro Musical do Rio de Janeiro como uma entidade de classe. Como resultado, o CM reforma seu estatuto.


Ulysses: uma coisa que a gente nota muito é essa desunião dos músicos. Alguém quer te contratar pra fazer um trabalho, você dá um preço e vem outro e dá um preço menor, né? Logicamente o contratante vai pegar o que cobrar menos, independente se ele toca melhor ou toca pior, o que for... eu já passei por situações dessas. É muito interessante essa coisa da visão da cooperação, da cooperativa. mas eu acho que ainda falta um trabalho educacional também sobre isso. O que que você acha? A formação de uma mentalidade...


Luciana: sim, exatamente. Eu conheci o sindicato eu devia ter uns 18, 19 anos. Mas foi muito por um acaso. Então a gente não tem realmente uma... estou falando de 40 anos, 30 anos atrás. A gente não tem uma formação política mesmo, que nos faça ver a importância desses tipos de associações. O que acontece muito, hoje, a gente está vivendo uma grande crise. Os sindicatos do mundo inteiro estão acabando porque dentro dessa política neoliberal não tem interesse nenhum que tenha sindicato de classe que lute por nada. Então, as empresas vão migrando pra lugares onde não tem sindicato, inclusive. Isso é um clássico.


Agora, no campo da música a gente tem uma situação muito peculiar, não peculiar, mas uma coisa muito forte que acontece, que é essa adesão, essa ideia do empreendedor. O empreendedorismo, ela é a resposta neoliberal para o desemprego. Então não tem desemprego. O cara vai vender brigadeiro no sinal, vai fazer sei lá o quê. E o músico, ele pegou muito essa ideia, até por conta da própria informalidade habitual da profissão. Então assim, muitos poucos músicos nos últimos 20 anos, por exemplo, só para citar um período, conseguiram ter trabalhos formalizados. E isso faz falta você poder comprovar que você é trabalhador. Então o músico aderiu muito a essa ideia do empreendedorismo e isso afasta ele ainda mais. Porque isso é uma falácia, na verdade. Ele não tá empreendendo nada, tá só travestindo aquela situação precária... mas isso acaba que fica - essa ideia paira no ar, essa ideia de que você tá livremente exercendo uma função de empreender alguma coisa - isso afasta completamente a ideia de um sindicato de trabalhadores, daqueles que tem a sua força de trabalho, que precisam lutar por seus direitos frente a um patrão. O empreendedor não tem patrão, ele faz um contrato entre empresas, entre PJs...


Ulysses: e correndo todos os riscos sozinho, né?


Luciana: pois é. Eu sempre falo do caso do Silvio Santos. É a mesma coisa que você falar: "olha, todo o camelô vai virar Silvio Santos". Não vai. É um ou outro. A ideia do empreendedorismo é muito perversa. Até porque como o músico não tem essa formação contábil, a gente tem muitos casos ruins em relação a isso. Uma é essa questão contábil: se ele ganha um pouco mais do que o valor permitido pelo MEI, ele muda de status, ele não sabe disso. Ninguém avisa. Ele vai ter que arcar com todas as consequências de mudar de microempreendedor individual para o próximo, acho que é microempresário. Assim como acontece de você ter um menino que estudou violino numa ONG, de repente ele passa a professor dessa ONG, aí ele ele precisa ter um MEI para poder receber, mas ao mesmo tempo ele é office boy em uma empresa, ele é mandado embora da empresa e na hora de pedir o seguro-desemprego ele não pode, porque ele, no final da conversa, ele é empresário. É muito cruel, infelizmente.


Ulysses: falta uma mentalidade, mesmo. Uma educação voltada pro coletivo, pro bem-estar social, enfim, uma educação cidadã.


Magno: como que o sindicato encarou essa diluição do Ministério do Trabalho?


Luciana: ele virou uma Secretaria, né. O que está acontecendo com a gente é uma situação muito complicada, em relação à previdência, ao trabalho, essa legalização do trabalho intermitente. Isso tudo é muito complicado. As consequências a gente tá vendo já, esse enorme desemprego que tá acontecendo. No campo da música, a gente vê, tem estatísticas pra mostrar, que as pessoas estão deixando a profissão porque é muito difícil se sustentar nessa profissão. Aí o paradoxo do empreendedorismo: se você, de fato, não tem condições de empreender, é muito difícil você conseguir permanecer nessa profissão, ou seja, ter sua subsistência garantida pelo fato de ser músico. Baixista, por exemplo, é muito difícil isso hoje em dia. Esse desmonte todo dos Ministérios, da Cultura, do Trabalho, é muito sintomático. Agora, a Cultura, em termos de economia, ela vai muito “bem, obrigado”. Os números do que se lucra com a cultura, com a música, se você for ver qualquer estatística, mesmo com a pandemia, houve lucro. Agora, é uma coisa impressionante, porque está nas mãos erradas porque o real produtor daquilo não recebe, ou então você vê uma alta concentração daqueles valores na mão de poucos. Tanto que você vê que as grandes gravadoras hoje só investem naquele artista top internacional. E aí tem esse termo: a calda longa, que são os milhares de outros compositores, músicos, intérpretes, que estão ali, de alguma maneira alimentando essa indústria sem receber praticamente nada por isso. Vê só para você receber alguma coisa pelo Spotify, por exemplo. Não basta ser milhares, tem que ser milhões de audições pra você receber alguma coisa.


#JustiçaNoSpotify. Em campanha internacional organizada pela Union of Musicians and Allied Workers (UMAW), músicos brasileiros que disponibilizam suas músicas na plataforma Spotify reivindicam uma política de lucros mais justa, com aumento nos royalties em 1% por streaming e a valorização do trabalho dos artistas.

(Fontes: site 'tenhomaisdiscosqueamigos.com' e Tweeter da UMAW)


Ulysses: aí entra uma questão interessante que você levantou: que hoje em dia nós temos a música enquanto arte e cultura, e temos a música enquanto entretenimento, enquanto indústria cultural. Aí fica uma coisa complicada de lidar. Esses que estão lucrando, eles lucram com qualquer coisa.


Luciana: exatamente. Você tocou num ponto importante. Eu acho muito importante a gente separar essas duas coisas. Primeiro que a Arte é uma coisa que qualquer pessoa pode fazer. Não são os dotados, talentosos, nada disso. Eu não acredito nisso. A música, arte e cultura faz parte da formação humana. Eu sou professora, então eu acredito nisso. Agora, aquela história: o rei Midas tudo que ele tocava virava ouro. O capitalismo tudo o que ele toca vira mercadoria. E com a Arte é exatamente isso que acontece. Só que, o que rege a produção da mercadoria não é o valor de uso que ela tem, é o valor de troca. Então aquilo que pode ser trocado... tem um dinheiro investido e aquele dinheiro virar mais dinheiro, é isso que vai ser investido. Então a pessoa que investe em cultura enquanto um entretenimento, enquanto um ramo da economia, ele não tá interessado exatamente no que está sendo produzido, ele está interessado no resultado que aquilo vai ter. Daí o problema que a gente teve com a lei Rouanet, que dava isenção fiscal para as empresas, pra elas investirem em cultura. É óbvio que elas investiam em cultura que poderia dar algum retorno para elas, e não nesse investimento que precisa. E essa outra arte que você fala, que não tá ligada a essa indústria, ela precisa de subvenção, só que ela não tem porque ela está associada a uma questão de marketing cultural. Então, entre dar um dinheiro pra Fernanda Montenegro ou pro Circo de Soleil ou pra Ivete Sangalo, é claro que eles vão ser os preferidos do que dar pra mim, pra vocês, né?


Hoje mesmo eu estava lendo uns artigos... essa alta concentração do dinheiro, do poder sobre a indústria na mão de poucos, elas causam problemas complicados. Por exemplo, essa questão das plataformas de acesso. Hoje, você não tem mais o produto, ninguém compra um disco, um CD. Todo mundo compra o acesso, através dos Spotify da vida. E quem controla isso é a inteligência artificial e seus algoritmos, que começa a te sugerir mais do mesmo. E tem alguns estudos que falam muito seriamente sobre o prejuízo que isso pode ter para a diversidade cultural, por que é aquela coisa, realmente, do mais do mesmo. E a inteligência artificial, segundo os estudiosos, dizem que a inteligência artificial começa a compor músicas. Inclusive tem até um disco de uma cantora que é todo produzido pela inteligência artificial. Se você coloca lá os parâmetros, ele consegue produzir música tipo Beatles, tipo “não sei o quê”, e isso aí é uma loucura. Eu estive num seminário sobre música e negócios - eu me meto muito nessa coisa de música e negócio porque eu quero entender a cabeça desses caras - e eu fui que teve em 2019, antes da pandemia, e eu ouvi um americano falando assim: “porque que a gente vai torturar as nossas crianças ensinando música para elas se os robôs podem compor?” Olha só uma coisa dessa! Eu fui embora, nessa hora. Não tem como dialogar com uma pessoa que fala uma coisa dessa. É assustador, né!


A inteligência artificial tem revolucionado não apenas a distribuição de conteúdo, mas também a sua criação. Sendo arte ou não; se ameaça o trabalho do músico ou não, o que importa para o mercado é o potencial lucrativo das novas tendências.

(Fonte: site 'musicasemsegredo.com') obs.: texto adaptado por HMM


Magno: Em 2010 você lançou um livro, você tem dois livros. “Eis aí a Lapa: Processos e Relações de Trabalho do Músico nas Casas de Show na Lapa”. Eu queria que você me explicasse quais foram os motivos que levaram a escrever esse livro...


Luciana: então, esse livro, na verdade, é minha tese de doutorado, que eu fiz na Faculdade de Educação... essa época eu estava tocando muito na Lapa, aquela efervescência de gafieiras, e eu fui pesquisar um pouco - inclusive foi uma das maneiras que me aproximei do sindicato também - porque eu fui no sindicato entrevistar o diretor do trabalho da época - a presidente na época acho que era a Déborah Cheyne – e esse “Eis aí a Lapa...” é tentando fazer uma ironia, porque tem na letra do samba: “Um samba um sorriso de mulher, bate-papo de café. Eis aí a Lapa...” que é uma visão totalmente romantizada do que a gente via ali em termos de trabalho. Porque a precarização era muito visível, foi um período de quatro anos de observação in loco. Eu como pesquisadora mas como musicista ali. E aquela coisa, a remuneração era de acordo com a vontade dos patrões. Você tinha que arcar com os prejuízos. Se você ia tocar numa casa e não tinha gente para assistir você ia embora com a mão na frente e outra atrás. Então assim, é uma total desregulamentação para uma profissão que é regulamentada, que tem suas formas de contratação. Mas que, mesmo quando a gente tinha Ministério do Trabalho, eles não davam conta de fiscalizar. O sindicato não pode ir lá multar ninguém. Não é esse o papel do sindicato, né.


A gente precisava ter um Ministério do Trabalho que funcionasse, que fiscalizasse o trabalho. E na lapa 90% das casas, pelo menos naquele momento, trabalhava na base da informalidade e de uma suposta parceria entre os músicos e os donos das casas. “Tipo assim ó: eu vou deixar você aqui tocar na minha casa, que é muito bom para você, porque você vai mostrar seu trabalho e, quem sabe daí... é um papo tipo tradicional que a gente escuta na música, né! Porque você ensaiou, você estudou, imprimiu as partituras... você pega o transporte para chegar até à casa, você precisa se alimentar, precisa se alimentar, tem que passar o som... você não sabe se vai ter gente ou não, mas tem que passar o som. Você está à disposição do empregador e a nossa lei, a lei do músico está dizendo lá: “todo o momento que você tá à disposição do seu empregador, é trabalho e tem que ser remunerado por isso. Agora, eu acho que nunca na minha vida fui remunerada por passar som. Acho que é uma coisa de Brasil. Tá na lei, mas e daí que tá na lei, né!


Francarlos: uma vez eu tive até um embate com um camarada a respeito disso. Porque, a partir do momento que você é contratado, você já está trabalhando para ele. Porque tem exigências que eles fazem. Você tem que se preparar pra isso.


Capa do Livro 'Eis aí a Lapa... Processos e Relações de trabalho do músico nas casas de shows da Lapa', um resultado de sua tese de doutorado, baseado em pesquisa in loco sobre as condições de trabalho dos músicos cariocas no bairro da Lapa.


Luciana: eu tinha separado aqui uns períodos, que a gente teve alguns momentos importantes de crise no trabalho da música. Não sei se eu falo isso... assim, pensando nessa questão da trajetória do sindicato, é importante notar esse papel do sindicato de estar ao lado, ser uma entidade de representação do músico, porque a gente sozinho não faz nada. Eu, Luciana, não adianta eu chegar lá em Brasília e querer falar com o presidente. Talvez o sindicato, como entidade, consiga nos representar. Daí a importância. Mas para falar um pouquinho aqui de crises que a profissão musical teve no decorrer da história, que foi importante a existência de uma entidade de classe. Por exemplo: nos anos 30, quando a gente teve o fim do cinema mudo, teve uma enorme crise de desemprego de músicos, que tinham nos teatros e nos cinemas, tanto entre as sessões, tinha uma musiquinha ali. Mas também durante as sessões os músicos tocavam. E quando veio o cinema falado, foi a primeira grande crise. Nos anos 40, uma outra grande crise que foi o fechamento de cassinos, que também eram um enorme campo de trabalho para os músicos.


Entre 1907 e 1920, foram inaugurados 230 cinematógrafos no Rio de Janeiro, gerando oportunidade de trabalho aos músicos. Nos anos 30 chega o cinema falado, provocando a primeira grande crise aos "professores", como era chamada a classe de músicos que professavam a sua profissão.

(Imagem: Cinema Avenida, esquina da Avenida Rio Branco com a Rua da Assembléia. Funcionou de 1907 à 1921). Fonte: site do SindMusi-RJ


Nos anos 50, quando veio aquele gravador multipistas, também foi um problema, porque você conseguia fazer as sessões de gravação e não precisava ser todo mundo tocando ao mesmo tempo. Você poderia dobrar, fazer dobras, né? Um violino só virava uma orquestra. Nos anos 60 você teve o Hi-Fi, que começou a música eletrônica substituir a música ao vivo. Nos anos 70 também, com os sintetizadores, com os teclados sintetizadores, que faziam sons de tudo quanto é instrumento. Nos anos 70, 80, a música estrangeira que invadiu o mercado. E teve uma coisa - só para mostrar como a gente passou por crises, a gente está passando por uma crise agora, enorme, por conta dessa pandemia – mas como nossa história toda é marcada por crises. E, se a gente não tem onde se amparar, a gente realmente fica perdido. E hoje, a gente tá mais perdido do que a gente teve nessas décadas todas, justamente porque muitos músicos sequer sabem como a gente já comentou, sequer sabem da existência de um sindicato. Eu tive na UniRio uma vez conversando com estudantes, é impressionante! O pessoal, as vezes de 20 anos que não tem ideia do que é isso. Então, daí a gente vê o problema, porque o sindicato se acabando, acabando as proteções trabalhistas, o sujeito hoje de 20 anos não vai saber o que é um décimo terceiro, não vai saber o que é férias. Não tem nem como você lutar por uma coisa que você não sabe o que que foi, não é isso?


Magno: é um projeto destruidor, né... a gente tá trabalhando um pouco com a questão da memória aqui da música, no município - que aqui o município engloba a cidade e a região serrana, que tem uma região serra grande - e é engraçado isso, você conversando com jovens de 20 anos ainda, mas é que depredando as coisas hoje é que as gerações daqui a alguns 10, 20 anos não vão saber mesmo e a intenção da coisa de destruir hoje é isso: tirar essa lembrança, tirar o que já aconteceu, uma história grande como o Sindicato dos Músicos...


Francarlos: eu vou frisar um ponto aqui: só existe uma delegacia regional do sindicato no Estado do Rio de Janeiro, que é Macaé. E como surgiu isso? Teve um evento do sindicato e eu fui convidado para esse evento... eu sou sindicalizado desde 1980. E nesse evento, eu conversando com a Déborah Cheyne - ela não era presidente (não me lembro como era o nome do presidente) ... Vitor... e eu fui convidado para esse evento. E ao chegar lá, eu conversando lá com Vitor, a Déborah se interessou pelo assunto, me chamou e falou assim: “escuta, pelo tempo que você é sindicalizado, você já é um sócio remido. Vamos dar entrada nisso?” Ela era vice-presidente se não me engano... “vamos dar entrada nisso porque você já é sócio remido e tal e a gente precisa conversar melhor”. Aí começamos a bater um papo a respeito, ela foi e chamou o João Bani, que estava lá, chamou a galera... então a gente começou a conversar e, ao chegar no sindicato, eles me convidaram para bater um papo se eles não podiam vir a Macaé conversar com alguns músicos. Aí eu marquei uma reunião com eles aqui na Nova Aurora, consegui o empréstimo da Nova Aurora, trouxe a galera. E eu convidei, fui na rádio, dei uma entrevista. Na hora apareceu lá meia dúzia de músicos para assistir um bate-papo entre nós. Fizemos uma mesa redonda e conversamos.


A cantora Eliana Pittman e Francarlos, em evento onde receberam o diploma de sócios remidos do SindMusi-RJ, em 17/12/2015. Ao lado, diploma de Francarlos.


No final da história, o Vitor virou e falou assim: “porque que a gente não cria uma ponta do sindicato em Macaé? Aí eu falei assim: “porque ao invés de Macaé, a gente não faz Regional, abrangendo Macaé, o Norte-Fluminense, um pouco da Região dos Lagos e tal? Aí ele perguntou: “você teria condição de atender isso?” eu disse: tenho. Porque hoje a gente tem celular, a gente tem mil coisas, a internet tá aí para tudo. Eu posso fazer um trabalho aqui... conclusão: o papo rolou tanto que foram ao Ministério do Trabalho e conseguiram por lá me chamar para eu ser o delegado sindical. Eu aceitei essa empreitada, fui para o Rio e comecei a trabalhar no sentido de juntar a classe por aqui. Fiz alguns contatos com Itaperuna, Campos, Rio das Ostras, Cabo Frio, São Pedro da Aldeia. Fiz muitos contatos e nesses contatos que eu fiz, o que eu pude perceber - marquei algumas reuniões com músicos em algumas cidades - eu cheguei à Campos pra uma reunião. E quando eu cheguei lá numa escola, que um amigo meu me arrumou para fazer uma reunião, só estávamos eu e ele. Aí batemos um papo, ficamos lá o dia inteiro conversando, eu almocei por lá e vim embora. Em Macaé eu tentei uma reunião na Fundação Macaé de Cultura, até o magno eu acho que tava presente. E pedi que convocasse todos os professores e alguns. Tinha uns dois ou três professores e uma meia dúzia de alunos. E ali também eu percebi que não havia um entendimento a respeito do que era um sindicato. Não perdi meu tempo não, porque eu expus o que eu tinha que expor e logo depois veio uma eleição no sindicato, onde foi formada uma chapa que eu tive o prazer de conhecer a Lu melhor. Sabia que ela já atuava no sindicato e a gente montou uma chapa, que a Luna Messina veio para presidência, fizemos uma chapa correndo, pra poder concorrer. E acabou sendo chapa única, né?


E no dia da eleição, eu fiquei apavorado porque apareceram trinta e poucos música para votar, contando com a gente, né? E a gente conseguiu montar uma chapa e vem lutando para tentar reerguer o sindicato, segurar a onda e tal, não deixar a peteca cair. Aí veio essa coisa do golpe de 2016, onde começaram a sucatear a gente, e eu tenho tido muita dificuldade aqui na área justamente por faltar um papo desse nível. Eu até acredito que esse esse podcast nosso vai ajudar muito na reconstrução de alguma coisa que a gente não pode deixar cair.


Luciana: tem uma coisa importante de dizer, que é o seguinte. Por exemplo: o Sindicato dos Professores - eu sou também sindicalizada no sindicato de professores da UFF - se eu for presidente, ou tiver qualquer cargo lá no sindicato dos professores, eu posso não trabalhar todas as horas que eu sou contratada para trabalhar, porque eu vou tá trabalhando no sindicato e continuo recebendo meu salário. Então isso dá um conforto para aquele dirigente sindical, dele continuar tendo o seu salário e não pode ser demitido. Dirigente sindical não pode ser demitido. Agora, no caso da música, como o trabalho formal é uma coisa que praticamente não existe, só para alguns músicos de orquestra - muito pouco hoje em dia também - é um trabalho totalmente voluntário. A gente está lá porque a gente acredita que é importante haver um sindicato. Tem gente que acha que a gente ganha dinheiro para tá lá, né! O que torna tudo mais difícil, claro, porque a gente não pode estar lá 8 horas por dia, porque a gente precisa trabalhar também pra poder viver. Mas a gente doa o nosso tempo para a instituição, o que torna o trabalho bem pesado. Poucas pessoas estão dispostas a fazer isso. Eu acho uma grande questão que faz parte da educação também. As pessoas exigem as coisas, querem as coisas de mão beijada, mas pouquíssimas pessoas estão dispostas a doar o seu tempo em torno de uma causa que é coletiva.


Então essa questão da individualidade, que tem a ver também com toda essa história que a gente já conversou de empreendedorismo, de cada um por si, do livre mercado, isso tudo acaba que afeta também nessa questão. Quando a nossa chapa foi formada, foi bem difícil formar essa chapa. Muitas pessoas ali não se conheciam, porque foi uma coisa de “traz um traz outro”, porque tinham que ser 16 pessoas, se não me engano são 16 nomes. Pra uma situação que você só vai trabalhar e ainda vai ouvir reclamação. Agora a gente vai, ano que vem, precisar formar uma outra chapa pra concorrer, que a gente termina nossa gestão em 2022. E a gente tá muito preocupado. Se essa juventude não sabe sequer o que é um sindicato, quem é que vai assumir uma instituição que como eu falei: é mais que centenária; a gente tem três imóveis. É uma instituição que tem um porte, que tem uma história e tem um porte, e a gente fica muito preocupado com isso.


Francarlos: quando a gente montou a chapa, para gente concorrer, logo depois a gente fez uma reunião para decidir como é que a gente ia fazer pra um trabalhar, outro trabalhar, para não ficar todo mundo embolado lá dentro, sem necessidade. Aí eu me coloquei à disposição para ir todas as quintas-feiras pro Rio, toda quinta-feira do meu plantão. Saía daqui 7:30 da manhã, chegava no Rio 11:30, meio-dia, ia para o sindicato e ficava até as seis da tarde. Voltava 19:30 pra Macaé, toda quinta. Você acredita que, quando eu voltava pra Macaé, eu já ficava pensando na próxima quinta-feira que eu teria que ir de novo? E doido que chegasse o dia? (Risos)


Luciana: você me fez lembrar uma coisa importantissima da gente mencionar, que é a questão da aposentadoria. Porque eu tô fazendo um trabalho lá no sindicato com os documentos que tem lá. Tem um acervo documental imenso, de mais de 100 anos de existência, com as fichas de matrícula ao sindicato do Villa-Lobos, do Pixinguinha, do Dino 7 cordas... uma coisa maravilhosa! Mas a gente tem uma forma característica, peculiar de contratação de músico que é a nota contratual, e são várias vias: uma ficava com o INSS, outra com o músico, outro com o contratante, outra com o Ministério do Trabalho, se não me engano, e outra com o sindicato. Agora, cadê que músico o guarda as suas notas contratuais, né? Então a gente andou recebendo - quando você falou das quintas-feiras, lembrei disso – a gente andou recebendo músicos que estão em idade de se aposentar mas não tem os comprovantes de trabalhador, que seriam esses recibo. E nós temos. Então, a gente tá fazendo um trabalho lá de organizar esse material, pra poder entregar para o músico uma cópia e que ele possa ir, de fato, no INSS e se aposentar. Eu sou a prova viva de que isso funciona, porque eu fui averbar meu tempo de serviço. Quando eu cheguei lá no INSS tava tudo lá. Todos os lugares que eu tinha tocado por meio da nota contratual, que é a forma legal da gente estabelecer um contrato, porque ela recolhe o nosso INSS. Então a coisa funciona. Agora, os músicos nem sequer gostam muito de receber por nota contratual justamente porque tem esse desconto, só que esse desconto é do INSS da pessoa.



Francarlos: Ah, então você vai encontrar minha ficha lá, Lu.


Luciana: eu já encontrei, Chiquinho. (Risos) eu acho que até fotografei. Eu vou procurar aqui pra te mandar a foto...


Francarlos: é bem provável que você encontre lá também algumas notas contratuais do tempo que eu trabalhava no Rio. Eu trabalhei com D’Ângelo, com Anselmo Mazzoni, com esse pessoal todo. E a gente assinava a nota.


Luciana: a gente tem nota do Teatro Opinião, enfim... vai desde o início do século. Tem toda uma história da música. Eu tenho muita vontade de fazer isso um dia ia: escrever a história da música por meio dos documentos do sindicato. Claro que não vai ser A história, mas UMA história, a história do trabalho formalizado...


Francarlos: eu falei porque, quando estive no INSS, quando eu me aposentei do Estado, o diretor da agência que eu fui falou assim: “olha, depois que você fizer 65 anos, procura que você tem alguma coisa para trás que pode te dar uma outra aposentadoria”. Ele falou assim mesmo, mas ele não quer me dizer o que que era. É isso! E eu já passei do 65, estou indo pro 68.


Ulysses: mudando um pouquinho, mas ainda numa linha, num olhar social, um papo de baixista para baixista (risos), eu tenho notado de um tempo para cá, um número muito crescente de mulheres baixistas, e tô achando isso muito interessante, porque o baixo e geralmente é visto como um instrumento meio bruto. A primeira vez que eu toquei (contra)baixo na minha vida, quando vi aquelas cordas eu falei: meu Deus do céu, como é que eu toco isso? (Risos)... e eu tô vendo muito essa força feminina também na área da percussão, na área do Magno aí. Percussionistas e bateristas fabulosas. Como é que você vê essa coisa do ‘feminino’ ocupar um espaço que é muito fechado pra coisa masculina?


Luciana: essa questão da mulher na música eu acho que é um capítulo realmente, a parte não, mas um capítulo, né. Em 2019 eu fiz um livro de entrevistas com 19 musicistas, mas com musicistas já na faixa dos 50 anos, ou seja, que tinham tido uma grande trajetória na música. Tem dois aspectos interessantes aí, se vocês procurarem na internet, vocês vão achar. Chama “gênero, música e trabalho trabalho; ou “trabalho, música e gênero... esqueci o nome. (correto: Trabalho, música e gênero: depoimentos de mulheres musicistas acerca de sua vida laboral. Um retrato do trabalho no Rio de Janeiro dos anos 1980 ao início do século XXI) Está disponível na internet. Mas tem duas questões aí: uma é como elas viveram, trabalharam na década de 70, 80, 90, anos 2000. Então tem muita história para contar, da transformação da própria indústria. Mas essa questão da mulher é complicada, porque o mundo da música é um mundo muito masculino.


Capa do livro "Trabalho, Música e Gênero - Depoimentos de mulheres musicistas acerca de sua vida laboral. Um retrato do trabalho no Rio de Janeiro dos anos 1980 ao início do século XXI", de Luciana Requião.


Lá no sindicato mesmo, se você pegar, for ver pelos números de associados, 82% é de homem. É um mundo bastante masculino. Tem essa questão da mulher ser vista como sexo frágil, coisa e tal, tornou antigamente muito complicado você ver uma mulher tocando bateria, uma mulher tocando sax barítono, ou trombone. E tem um aspecto que é real, por exemplo: quando fui gravar uma vez um CD, meu Baixo não estava legal, peguei um Fender emprestado. E eu toquei gravando sentada e o Fender era tão pesado pra mim que eu fiquei com a perna roxa só de ficar com ele sentada. Se eu tivesse que fazer um show tocando em pé segurando o Fender, não ia dar para mim. E olha que eu não sou uma mulher pequena! Tem uma baixista sensacional, que eu nunca vi na minha vida, que é Russa que mora aqui no brasil e fez aquela peça da Elza Soares. É impressionante porque nós mulheres não estamos acostumados a ver mulher tocar com tanto virtuosismo. Até pra nossa aprendizagem é uma coisa complicada. Por exemplo: eu vou tocar baixo e a minha referência é Luizão Maia. A outra que toca trombone, a referência é sempre masculina. A gente não pode deixar de falar, e nessas entrevistas aparece muito que a mulher às vezes ela abre mão por conta de família por conta de filho, por conta de uma série de coisas...


Francarlos: qual o percentual de mulheres na nossa diretoria?


Luciana: nossa diretoria ela realmente é bem diferenciada do resto. Pra começar a gente tem uma presidenta, né! E não é a primeira, já teve a Déborah. E a gente tem ... nossa chapa acho que é meio a meio, né.


Francarlos: na diretoria: eu, Zé Maia, Bernardo, Gustavo ...


Luciana: de mulher tem: Clarice Magalhães, grande pandeirista; Cristina Bhering, tecladista; Andrea Ernest Dias, flautista; eu, como diretora do trabalho; a presidente Luna Messina, cantora... estamos segurando a peteca lá, porque estamos em um dos piores momentos que o sindicato vive, a gente está de portas fechadas por causa da pandemia...


Magno: eu queira aproveitar esse ensejo que você falou dessa crise que agora o sindicato tá vivendo. Vou fazer uma pergunta que talvez não sei se tem resposta: qual tem sido, ou quais têm sido os desafios do sindicato nesse período da pandemia? Eu acho que tá de portas fechadas, mas o trabalho continua. Queria saber o que vocês tem feito - o Chiquinho também como representante... Vocês relataram uma situação, como o Chiquinho relatou aqui na região onde eu também vivo. Até porque o Chiquinho não falou, você podia lembrar pro pessoal a abrangência aqui da sua atuação. Quais são os as cidades? Lembra de novo?


Francarlos: vamos lá: Macaé, Campos, Bom Jesus do Itabapoana, Itaperuna, Italva, Conceição de Macabú, Quissamã, Carapebus, Laje do Muriaé, que ainda pertence a nós. Agora, descendo: Rio das Ostras, Cabo Frio, São Pedro da Aldeia, Barra de São João, Silva Jardim. São 9 ou 10 municípios. E eu consigo me comunicar com todos da região. Eu consigo me comunicar com todos eles através de um núcleo. Sempre tem um músico em alguma cidade que representa uma galera. Fulano de tal mora em Itaperuna, é um cara que exerce uma liderança em Itaperuna, quer falar com você. Aí eu boto o cara na linha, converso, esclareço. Mando o material, peço o endereço, tenho distribuído o material na região. “Ah, ligou um cara de Cabo Frio. Você é o delegado?” Sou não, estou! Estou delegado e faço parte da diretoria. Explico como é que funciona... antes da pandemia, eu havia programado um workshop em Cabo Frio, que eu ia até convidar a Lu, o Bernardo, que é o vice-presidente e a presidente pra ir lá. Aí entrou a pandemia, justamente no mês de março.


Magno: acho que vou lançar minha última pergunta: quais são os desafios ou quais são as estratégias do sindicato para poder fazer um trabalho de conscientização mesmo? Porque é o que eu estou percebendo aqui, diante dos relatos, é que precisa de uma comoção (risos) dessa classe artística musical daqui, da maioria. Acho que é isso. O sindicato tem algum planejamento pra trabalhar isso? O Chiquinho já acabou de falar de um workshop...


Francarlos: eu vou te dar uma resposta e vou deixar pra Lu pra dar a outra resposta lá. A que vou te dar é o seguinte: a estratégia do sindicato é mostrar pra essa galera que o sindicato existe pra ajudá-los, não é pra detonar ninguém. Veja bem! Então, quando eu chego para falar sobre sindicato, a maioria vira e diz o seguinte: “pra que serve um sindicato na minha vida?” Aí eu vou tentar esclarecer pro cara o que o sindicato pode fazer por você. Eu não respondo pra ele, eu pergunto pra ele o que o sindicato poderia fazer por ele... é onde a gente não obtém resposta, porque eles não foram preparados lá atrás por alguém pra fazer isso. Eu tô muito novo ainda nessa área de delegacia regional. Isso foi 2017 para 2018, quer dizer, é muito pouco. Lá atrás, não houve essa iniciativa de se criar uma delegacia regional. Então a única que foi criada foi Macaé, só Macaé tem uma delegacia regional. Então dificulta também, isso. Você não pode criar delegacia em Macaé, uma em Rio das Ostras, uma em Cabo Frio, outra em Campos... porque isso? Você vai desmembrar demais e vai dar o maior tumulto. Você cria uma delegacia centralizada. Eu tô em Macaé e para qualquer lado que eu vou aqui, eu não estou tão longe, entendeu como? Dá para locomover. Claro que com a pandemia é impossível, mas eu estava fazendo isso, no início.


Magno: ter uma centralização é o ideal, então. Descentralizar é um problema? Porque?


Francarlos: é o ideal. A gente achou, na época, que se fosse descentralizar nós teríamos sérios problemas. Veja bem: se eu, daqui de Macaé, eu consigo controlar 9 ou 10 municípios por internet e tal, contatos e tal... se você coloca um delegado em Macaé... porque a Ordem dos Músicos ela já acabou, inclusive, com as delegacias de Cabo Frio, de Campos, de Itaperuna, porque não funcionavam, ficava tudo muito colado. Ficou tudo entregue na minha mão, também. Também estou delegado da Ordem (OMB) neste sentido, de unir as pessoas. Por exemplo: em fevereiro, eu tenho aplicado provas para músico, pra cantor, online. Como é que eu faço isso? O cara se comunica comigo... teve um cara de Italva que fez uma prova online comigo. O cara faz a prova, eu entro com ele aqui, a gente faz um ao vivo aqui. Ele toca, executa e eu faço avaliação dele, gravo e mando para a ordem, pro Celso, pro pessoal lá. Aí eles lá avaliam o cara para tirar a carteira. Para facilitar, por causa da pandemia. Não fosse a pandemia, eu iria até à cidade do cara, com ônus próprio - porque eu não sou remunerado, nem de um lado nem de outro - eu iria até lá. O máximo que eu peço a pessoa: “olha, arranja uma escola de música, um lugar que eu possa aplicar a prova e me dê um almoço, pelo menos isso. Eu apliquei uma prova para um cara de lá de cima, depois de Campos, e esse cara ficou tão grato, que eu saí daqui - depois que eu apliquei a prova - fui levar a carteira dele em Campos. Ele me recebeu lá, queria me levar na casa dele para almoçar. Eu falei: “não, cara eu só vim trazer a sua carteira e estou voltando”. Foi coisa rápida.

Luciana: vou tentar responder sua pergunta, eu acho que tem três pontos importantes de falar: primeira coisa é que o sindicato, querendo ou não, ele vai precisar se recriar. Porque isso? Justamente porque a gente não tem mais aquele trabalhador dos anos 40, aquele trabalhador assalariado e tudo mais. Então a gente tem um outro tipo de trabalhador. Agora, tem uma questão: o sindicato ele representa a categoria de profissionais. Essas categorias precisam querer ser representadas. Tem uma grande discussão hoje da gente tentar entender quem são esses músicos que querem ser representados, de fato. Se é que querem! Então a gente precisa estabelecer uma discussão ampla, talvez até chamando os estudantes, enfim, pra que eles tomem ciência e a gente entender se a gente quer continuar tendo o sindicato ou não. Então tem uma coisa de recriação, de fênix mesmo, de renascer das cinzas.


Tem uma outra situação complicada que a gente tem uma sede grande, porque o sindicato já foi próspero em muitos momentos da história e que a gente não tá conseguindo mais quase que manter. A gente tinha muitos funcionários. Hoje em dia a gente só tem uma funcionária, que é uma secretária, porque o sindicato ele nunca viveu, na verdade, pelo que me parece, posso estar até errada, da contribuição sindical, que é muito pequena. Como se fosse R$10,00 por mês, que é pago por meio de uma anuidade e que, sequer, hoje em dia é obrigatória. Já caiu a obrigatoriedade. Aí a gente tem que pagar a secretária, todos os direitos trabalhistas da secretária. Tem que pagar o condomínio, tem que pagar o IPTU da sala. Por mais que a gente não ganhe nada, o sindicato ele gera um gasto. A gente tem um artigo na lei, na lei da década de 60, que cria a Ordem dos Músicos, e regulamenta a profissão, que dizia que os artistas internacionais, quando vinham trabalhar aqui, eles tinham que deixar uma porcentagem. Isso não acontecia só no brasil. Em outros países, inclusive na França, acontecia até num valor muito mais elevado: 10% desse cachê, ia uma parte pro sindicato, outra parte pra Ordem.


Esse artigo está sendo contestado e o sindicato, desde que nós assumimos enquanto chapa, que não recebe mais esse valor, que era o art. 53, o que de fato sustentava o sindicato. Então hoje a gente vive não só uma crise de identidade - porque eu acho que o sindicato nos moldes lá do início do século já não é mais esse, é outro - e também uma crise financeira. Agora, dentro desse panorama todo, é muito complicado que a gente tá tendo que enfrentar, nesse período de pandemia a gente conseguiu fazer algumas coisas muito importantes. Primeiro que a gente conseguiu dar um auxílio muito pequeno, mas conseguimos dar auxílio de R$ 200,00 para diversos músicos que se cadastraram. A gente não fazia grandes exigências, bastava comprovar que era do Estado do Rio de Janeiro, que vivia no Estado do Rio de Janeiro. Não tinha prova, teste, nem nada disso. Era um pouco baseado na boa-fé. A gente teve doações para isso. Quero agradecer muitíssimo Chico Buarque de Hollanda, que foi o nosso maior doador pra essa campanha, que ajudou muitos músicos recebendo esse auxílio, que é muito pequeno mas, naquele momento, fez a diferença. Então isso foi uma coisa boa que a gente conseguiu fazer;


Com pandemia e desemprego, violinista acha sustento tocando em funerais.

(Fonte: site tab.uol)

A segunda coisa boa que a gente tá conseguindo fazer é digitalizar esse acervo do sindicato, e não só por questões históricas, mas por questões trabalhistas. Tem pessoas que podem precisar desses documentos para fazer a sua aposentadoria; e, por fim, a gente conseguiu... a gente é filiado filiado a uma federação internacional (FIM), a Federação Internacional de Músicos, e eles deram auxílio para alguns sindicatos da América Latina e nós fomos um desses sindicatos. Eles nos deram uma verba para a gente fazer alguma coisa pelos músicos. O que a gente conseguiu fazer dessa forma online? Foi justamente proporcionar formação. A gente fez 20 webinários, convidando 20 pessoas que pudessem tratar dos assuntos mais variados. Tratamos de direito autoral; tratamos de “como dar aulas online”; tratamos de planejamento financeiro; tratamos de “o que será a pós pandemia”... são vários assuntos para quem quiser conhecer é só ir no no canal do Youtube do sindicato que estão lá, os 20 webinários. E esses webinários viraram podcast. Então a gente tá agora em 2021, soltando toda quarta-feira a gente solta um Spotify na forma de podcast, mas também tem o vídeo lá. Então foi o que a gente conseguiu fazer nesse momento que as portas estão fechadas. A gente só vai lá na sede para trabalhar com acervo mas, fora isso, infelizmente não tem como fazer mais do que isso.


1º Ciclo Webinar do SindMusi, uma série de 20 vídeos com temas variados sobre o universo da música.

(Disponível no canal do Youtube do SindMusi-RJ)


Francarlos: Aliás, eu quero te parabenizar pelo webinário, que foi maravilhoso. Eu assisti a todos... Foi maravilhoso, todos maravilhosos, sabe? Muito bem feitos, ótimos, maravilhosos!!


Luciana: uma curiosidade é que toda abertura, a gente colocava uma ficha de matrícula, de proposta de admissão ao sindicato. E, claro, usei as fichas de músicos conhecidos, né. Então: Gilberto Gil, Ivan Lins... então a abertura era sempre com aquela ficha. Porque eu queria mostrar com isso que música é trabalho. Que quando você escuta aquela música na televisão, foram vários sujeitos que trabalharam para aquilo acontecer. Aquilo é o ganha-pão daquelas pessoas. Então, música é um campo de trabalho. Tá lá Ivan Lins com a foto 3x4 dele numa ficha do sindicato.


Fichas de admissão de algumas personalidades da música brasileira.

(Fonte: SindMusi-RJ)


Francarlos: eu gostaria que você fizesse as suas considerações finais, pra gente poder fechar com chave de ouro. Foi um prazer imenso poder contar contigo. A gente já é amigo, já trabalha junto, já se conhece... a gente já conhece até o cheiro um do outro, né! (Risos) Vou abrir meu coração: eu me amarro encontrar essa galera no sindicato às quintas-feiras quando eu chego lá. Aí a Lu, geralmente, ela ia na terça, né? Eu chegava lá e perguntava: cadê Lu? Aí o pessoal: “só vem terça”. Aí ela chegava, aparecia nada lá pra fazer uma pesquisa. Eu achava o maior barato isso, sabe? Estar com vocês... eu conheci um cara no sindicato que eu me amarrei nele. Achei aquele garoto maravilhoso: o Bernardo. Tive o prazer de conhecer o Zé Luiz, o pai Luizão. Tive o prazer de conhecer o pai. Cheguei lá conheci o filho, quer dizer... o Gustavinho, adorei o Gustavinho também. Então, pra mim, é um prazer imenso poder tá sempre com vocês aí. Vamos esperar que essa pandemia acabe, que a gente reative tudo, e vamos voltar. Quinta-feira é minha, tá?


Luciana: eu agradeço muito pelo convite, pelo interesse nesse assunto. Como a gente falou aqui: muitas vezes passa desapercebido, essa questão de haver sindicato. Afinal de contas os músicos as vezes acham que eles não são trabalhadores, que eles são artistas e que o artista não trabalha, né! Um papo super furado, né. Somos trabalhadores sim, geramos renda, movimentamos a economia... então agradeço muito a oportunidade de falar para os seus ouvintes.


Ulysses: a gente que agradece. É um “prazersão” conhecer você e seu trabalho.


Magno: muito obrigado pelo dia, não pela entrevista, pelo dia.


Francarlos: brevemente estaremos nos encontrando.


Luciana: valeu gente! Boa noite.


Atual diretoria do SindMusi-RJ.



Fontes de consulta:


Fundo musical:

  • Abertura da ópera Jupyra, composição do maestro Francisco Braga, fundador e primeiro presidente do Centro Musical do Rio de Janeiro. Executado aqui pela Orquestra Sinfônica Brasileira sob a regência do Maestro Roberto Minczuk;

  • Samba com dengo, Sete neguinhos, Sol carioca, das plantas, quem sou eu pra perdoar, Samba da zona. Faixas do CD do grupo Orquestra Lunar, de álbum homônimo lançado em 2007. Criada em março de 2005, a Orquestra Lunar é formada por grandes musicistas que exploram o vasto repertório da música popular brasileira;

  • Overture - Unveiling the Statue. Composição do genial Charles Chaplin que faz parte do filme 'Luzes da Cidade', de 1931 e executada pela City Lights Orchestra;

  • Medley de músicas do filme Moana, da Disney, com arranjos de Jay Bocook e executada pela Banda Sinfônica Nova Aurora;

  • Um a zero, de Pixinguinha e Benedicto Lacerda, executada aqui por Raphael Rabello e Dino 7 cordas em disco gravado em 1991, pela Kuarup Discos;

  • Paca Tatu Cotia Não, música de Nico Assumpção, tocada aqui por um duo formado pela baixista russa Marfa Kourakina e Nelson Faria, em seu programa 'Um café lá em Casa', no Youtube;

  • Bala com bala, música de João Bosco e Aldir Blanc, tocada aqui pelo trio Cesar Camargo Mariano, no piano; Luizão Maia, no contra-baixo elétrico e Paulo Braga, na bateria, no programa 'Um toque de classe', na antiga TV Manchete;

  • Construção, música de Chico Buarque que faz parte do disco homônimo, gravado em 1971;

  • Apesar De Você, música de Chico Buarque composta em 1970, mas que sofreu muita censura até, finalmente ser regravada em 1978 em disco homônimo ao do autor, com participações do MPB4 e Quarteto Em Cy.

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Considerações finais:


E assim terminamos mais um episódio do HMM. Hoje tratando de um assunto muito importante para os músicos que professam esta arte. Diante de um cenário de informalidade que vive a classe musical há bastante tempo, somado a crise econômica, as reformas do governo que precarizam o trabalho e, agora, a pandemia, o que mais nós músicos precisamos passar para aprendermos que é necessário buscar suportes legais que nos amparem em momentos como este que estamos vivendo? São muitos músicos em condições de vulnerabilidade social, dependendo de campanhas de doação de cestas básicas. O ato de solidariedade é justo. Mas por quê se chegou a essa situação dramática? Continuaremos agindo cada um por si depois de uma pandemia que tanto sofrimento tem causado? Talvez ainda sobre algum tempo para pensarmos nisso pois, lutar por direitos, hoje, se torna muito mais difícil. Muitos direitos já conquistados foram retirados e os direitos que se buscam, se tornam ainda mias distantes de conquistar.


O sindicato está aí, com pessoas comprometidas como Luciana e Francarlos, que dedicam grande parte de seu tempo em prol de melhores condições de trabalho para o músico. Enfrentam críticas infundadas mas estão sempre ali, firmes e fortes, porque sabem que estão no caminho certo. Parabéns ao SindMusi-RJ que hoje, dia 04 de maio, comemora seus 114 anos de vida e a todos os profissionais músicos pelo dia do trabalhador, comemorado no dia 1º de maio passado.


Vamos ficando por aqui e até o próximo episódio. Um grande abraço!!


FIM.


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