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  • HM Macahé

Episódio 12 - Cauby mineiro em Macaé - uma singela homenagem.

Atualizado: 26 de abr. de 2021


Agnaldo Timóteo. Anos 60.


OUÇA O EPISÓDIO:




No último sábado (03/04) faleceu, vítima da covid-19, o cantor Agnaldo Timóteo, o Cauby mineiro. Nascido em Caratinga-MG, foi construir sua carreira no Rio de Janeiro e lá conheceu, nos anos 50, a rainha do Rádio, a cantora Angela Maria, nascida em Conceição de Macabú quando ainda era distrito de Macaé. Chegou a trabalhar como motorista particular da cantora e adorava cantar para ela enquanto dirigia. Foi assim que Angela constatou seu enorme talento, dando aquele empurrãozinho na sua carreira.


O projeto Histórias da Música em Macahé lamenta sua perda e, em sua homenagem, apresenta ao público fatos e curiosidades sobre algumas de suas vindas em Macaé. Para isso, Francarlos entrou em contato com o historiador, escritor e dramaturgo Ricardo Meirelles, que gentilmente dedicou um pouco do seu tempo para nos contar algumas dessas histórias. O ano é 1982, início da abertura política e Agnaldo Timóteo, já tendo vindo à Macaé em anos anteriores para cantar, aparece como candidato a deputado federal. E daí a história começa. Conte mais, Ricardo:


Ricardo Meirelles: ele veio de helicóptero. Ele parou lá no Aeroporto e conforme ele havia combinado comigo, eu fui lá recebê-lo. Só que ele tinha pedido um carro com ar condicionado. Porque, na época, não era tão comum você ter carro com ar condicionado. Só pessoas mais 'abastecidas'. Mas eu falei que tudo bem, por telefone, que eu teria esse carro. E quando ele chegou, eu fui com Paulo Lessa com uma velha Brasília pra começar essa jornada dele. Porque em 82 foi a primeira vez que iríamos votar pra governador e ele era candidato a deputado federal. Daí viemos, né, depois de eu convencer que ele deveria entrar no carro, porque ele não queria entrar naquela Brasilia horrorosa. Realmente a Brasília era horrível, uma Brasília velha, poeirenta, com dois alto-falantes lá em cima, um pequeno amplificador pra poder a voz sair.


Foi muito interessante. Viemos andando com ele, paramos na Barra. Ele não queria parar de jeito nenhum, mas ali tinha um pequeno diretório do PDT... Convenci que ele descesse: "você tem que aparecer. Você é um candidato e tal. Todo mundo te conhece". Ele era o candidato mais conhecido porque era um cantor já famoso. Ele veio e desceu ali na Barra, pegamos um microfone, demos pra ele e começou a cantar. Foi uma coisa de louco, Chiquinho. Ele encheu a Barra de gente pra ouvir ele cantar. Ele cantou, cantou, e aí ele começou a gostar. Porque ele como candidato a deputado, o que ele precisava? Ele precisava de gente pra votar nele. Muita gente conhecia ele como cantor mas não sabia que era candidato, ainda. Interior do Estado, né! E quem nós tínhamos pra anunciar no interior do Estado era ele, porque ele era o nome, a pessoa conhecida.


Aí de lá, levamos ele pro bar de Duca, que era ali entre o Miramar e o Visconde de Araújo. Aí era um bar maior, tinha muitas casas ali, residenciais e tal. Quando nós anunciamos ele ninguém acreditava. "Ah isso é mentira, estão falando bobagem". Ele já estava entusiasmado com o que aconteceu na Barra, ele vai, sai do carro (nem pedimos pra ele sair)... Sai do carro, já pega o microfone com aquelas duas 'trombetas' lá em cima bastante ruins, e começa a cantar. E foi uma coisa de louco, porque aí, o que deu ali na Barra, que era uma rua pequena, apertada, ali entre o Visconde e o Miramar foi um sucesso. Aí as pessoas chegavam lá assim: é ele mesmo, é ele mesmo!! É Agnaldo! Aí começava a vir mais gente, mais gente e ele começou a cantar e não parava mais de cantar (risos). O bar de Duca vendeu quase todas as cervejas. Tava faltando cerveja porque aglomerou bastante. E ele ficou muito satisfeito porque ele viu a força que ele tinha como cantor e agora ele estava sendo anunciado como candidato a deputado federal.


Então, aquilo tudo que ele falou pra mim - ele ficou muito zangado comigo - e ele dizia assim: "mas eu falei que era um carro assim, com ar condicionado. Isso é uma porcaria velha, eu não vou entrar nesse carro!! Aí nós conversamos, também o Paulo Lessa me ajudou a conversar com ele. E ele foi, assim, acalmando. Depois que ele (Agnaldo) foi no bar do Duca, no Visconde, ele já era totalmente nosso. Entrou no bar, tomou cerveja, comeu um salgadinho lá também... Conversou com todo mundo, abraçou todo mundo. E mais tarde Luizinho, Luiz Pinheiro, o filho, levou ele no Ypiranga. E depois marcou um show pra ele no Ypiranga numa outra semana. Ele veio, cantou lá no Ypiranga muito bem... Mas primeiro Luizinho levou ele lá, tirou fotografia com dr. Humberto Assumpção, tirou comigo, com Lulinha. Tirou várias fotos ali no Ypiranga e depois, algumas semanas depois, ele voltou contratado pra cantar no Ypiranga, e Luizinho Pinheiro era o presidente, e trouxe ele pra fazer essa jornada.


Ângela Maria e Agnaldo Timóteo


Convidamos, também, nosso colaborador do projeto, Luizinho Pinheiro, ex-atleta e ex-presidente do Clube Ypiranga, para nos relatar alguns fatos da época:


Luizinho Pinheiro: Timóteo, naquele período de 1980, Timóteo cantou, na minha época ali, umas 3 vezes no Clube (Ypiranga). Na primavera vez eu contratei através de um empresário e ele cantou. E o público dele é um público grande, né! Eu notei isso. E cantava muito bem. Eu me lembro em detalhes, num período que ele teve aqui - aí ele já era candidato a deputado federal - ele veio a Macaé procurar o partido (PDT), e lá levamos ele numa Brasília. A única coisa que o partido tinha era uma Brasília velha. Aí ele (Agnaldo) falou assim: "mas esse é o carro?" É, o carro. Você entra aí que nós vamos lá pros bairros levar você. Aí levamos ele lá pela Barra de Macaé, por aqueles cantos. Aí ele fazia a campanha dele... juntava muita gente. Porque o povão gostava muito das músicas dele. Aí o povo pedia pra ele cantar e ele cantava no meio do povo, né. Ao mesmo tempo que ele pedia voto ele cantava. E ele veio por várias vezes no Ypiranga. Muito antes ele esteve umas 3 ou 4 vezes no Clube, cantando.


Depois de mim, parece que ele voltou e cantou no ginásio. Eu coloquei ele sempre pra cantar na época das serestas. Na época das Serestas eu convidava sempre um cantor romântico e nos intervalos, eu colocava os cantores pra cantar. Foi o caso dele, como foi o caso de Cauby, Carlos Alberto, Altemar Dutra. Até Carlos Galhardo também foi cantar. Nelson Gonçalves cantou, mas Nelson tinha um público maior e tive que colocar no ginásio do Ypiranga. E foi uma grande festa. Isso já foi em 75... E muitos outros cantores, cantoras de samba ... cantaram no Ypiranga: Clara Nunes, Alcione. Muita gente cantou no Ypiranga. Era assim toda sexta-feira. E Timóteo, acabou que nós fizemos amizade. De vez em quando, quando tinha que contratá-lo eu já ligava direto pra ele. E sempre foi com muito sucesso. O público era grande. E isso eu notava. Ele tinha uma preferência popular muito grande. O povão mesmo que ia apreciá-lo.


Continuação do bate-papo com Ricardo Meirelles...


Ricardo: em 2004 ele voltou a Macaé, vendendo CD...


Francarlos: eu estive com ele em frente ao hospital São João Batista vendendo CD.


Ricardo: exatamente. Eu era vice-prefeito, a guarda municipal não queria deixar ele lá porque não sei o quê, estava cantando, fazendo barulho... Aí eu conversei com o comandante da guarda... E falei com ele, pedi pra que deixasse ele vender o CD, tinha muita gente. Aí a guarda afastou ele um pouquinho dali do hospital, veio mais pro centro da praça... Ele vendendo e uma fila enorme de gente. Eu comprei (o CD), eu fui lá e fiquei na fila pra comprar o CD. Quando eu cheguei ele estava de cabeça baixa, uma camisa amarela cheia de flores, muito interessante. Ele de cabeça baixa, falou assim: "como é o seu nome?" Aí eu falei: Ricardo Meirelles. Aí ele deu um pulo da cadeira, levantou e falou assim: "eu conheço você!!" (Risos)... Ele lembrou dessa aventura que eu falei, dele ter vindo a Macaé cantar como candidato a deputado e que resultou numa boa votação. Depois ele veio outras vezes, trazido por Luizinho Pinheiro, já como cantor, né.


Francarlos: tinha uma coisa que eu gostava nele, era a empatia. Ele parecia um cara grosseirão mas não era. Ele chegava, abraçava todo mundo...


Ricardo: ele abraçava todo mundo, beijava, falava com as senhoras lá no Visconde, abraçou senhoras que eram fãs dele. Levaram o disco pra ele assinar, ele autografou.


Francarlos: quando Evandro Tavares levou ele na Emater, chegou lá abraçou todo mundo, tomou cafézinho com a gente...


Ricardo: depois que ele viu essa questão do carro (Brasília velha), ter passado e tal... "Você é candidato a deputado, precisa de voto, você tem que entrar nesse carro"... Ele aceitou e depois ele já nem ligava mais. Ele podia voltar pro Rio de Janeiro com aquela Brasília de tão feliz que ele estava. (Risos)


Francarlos: eu lembro que ele foi já casa do dr. Mendonça também...


Ricardo: exatamente, conversou, falou, cantou. Agora, ele era um excepcional cantor, não é Chiquinho? Você é um grande cantor, você sabe. Ele era um cantor espetacular. Eu gostava do repertório dele. Eu tenho disco dele aqui, embora uma elite achasse que a coisa dele (música) era meio cafona, mas ele cantava exatamente o repertório que o povo gostava.


Francarlos: mas ele gravou, também, Gonzaguinha, Chico Buarque...


Ricardo: gravou muita coisa boa. E mesmo essas músicas românticas dele, músicas de - o que chamaria hoje de sofrência - ele tinha um bom gosto nessas músicas. Ele gravou músicas muito bonitas, gravou versões muito interessantes.


Francarlos: ele tinha uma característica, ele reclamava muito, que na época chamavam a música dele de brega e falavam que Waldick Soriano era brega e todo mundo comprava. E ele ficava muito chateado com isso.


Ricardo: exato. E ele era fã do Anísio Silva e do Cauby Peixoto. Inclusive o Anísio Silva, que eu gosto muito também, era o contrário da voz dele, né. Porque o Anísio era aquela "vozinha" anasalado, pequeninha. Era bom pra cantar música de Bossa Nova, coisa que ele (Agnaldo) não cantava. Ele cantava uns boletos e tal. Mas eu gostava do Anísio Silva e ele também era fã do Anísio. Ele disse numa entrevista que os dois cantores que ele admirava era o Cauby Peixoto - o Cauby também já com um vozeirão - e o Anísio Silva, com aquela voz de Bossa Nova, vozinha pequena...


Francarlos: o Anísio Silva, ele sussurrava, né. E ele aquele vozeirão, voz de efeito, né?


Ricardo: aquela voz forte, aquela voz assim... Então a morte dele foi uma coisa triste porque ele ainda tinha muita coisa pra fazer com 84 anos, mas infelizmente...


Francarlos: em janeiro deste ano ele fez uma live no Cristo Redentor pra ajudar o pessoal das favelas, os pobres. O dinheiro foi revertido pra isso. Mesmo depois de ter tido um AVC, né?


Ricardo: exatamente, teve um AVC. E eu acho que isso fragilizou ele porque facilitou a doença do coronavírus que veio e ele não resistiu, embora resistiu com bastante vontade, mas não conseguiu sair dessa armadilha, né. E acabou ali mesmo. É lamentável, uma perda. E essa história dele aqui em Macaé está marcada, porque foi uma aventura que ele fez, e que depois ele gostou da cidade. Ele voltou outras vezes aqui, já não mais ...

Francarlos: ... Como político, voltou como cantor...


Ricardo: exatamente. Então ele teve muito sucesso. E depois, passado alguns anos, eu te falei que quando eu disse meu nome, ele levantou espantado, olhou pra minha cara e falou: "eu te conheço, eu conheço esse nome!"(Risos).


Francarlos: Ricardo, este seu relato pra gente vai ser importante... A gente faz um podcast, né? Mas aí o Magno teve uma ideia de fazer uma pequena homenagem ao Agnaldo Timóteo... falei assim: vou conversar com Ricardo, que sabe bem essa história, ele vivenciou isso, né? Ricardo, muito obrigado pelo seu relato. Foi muito bom!


Ricardo: obrigado à você pelo telefonema...


Francarlos: tá bom, Ricardo. Um abraço! Um bom dia pra você! Tchau!


Ricardo: um bom dia também. Tchau!!


Última foto em estúdio, no início do mês passado, em 05/03.

(Foto: Thiago Marques Luiz. site G1)


Segundo reportagem de Mauro Ferreira, divulgada no dia 29/03 no site do G1, dias antes de ser internado, Agnaldo ligou para seu produtor musical decidido a entrar em estúdio para gravar um novo disco em homenagem à 'Sapoti', a cantora que foi responsável por sua carreira de sucesso. Sim, ela mesma: Ângela Maria. Na noite de 05 de março, em estúdio situado na Barra Funda, distrito da região oeste de São Paulo (SP), gravou em algumas horas sete músicas do repertório da cantora fluminense. As gravações foram feitas somente com o toque do piano de Moisés Pedrosa, único músico presente no estúdio.


A intenção de Timóteo era gravar outras sete músicas em uma próxima sessão de estúdio para concluir o álbum. Mas, cerca de duas semanas depois, o cantor de 84 anos começou a ter sintomas de covid-19 e foi internado em 17 de março em hospital da cidade do Rio de Janeiro (RJ) com quadro grave que piorou nos últimos dias, a ponto de Timóteo precisar ser intubado na manhã de sábado, 27 de março.

Eis as sete músicas do repertório de Angela Maria – gravadas originalmente pela cantora entre 1951 e 1959 – e regravadas por Agnaldo Timóteo com o pianista Moisés Pedrosa em 5 de março de 2021 para (por ora) inacabado álbum em homenagem à Sapoti. São elas:


1. Adeus, querido (Eduardo Patané e Floriano Faissal, 1955);

2. Encantamento (Othon Russo e Nazareno de Brito, 1954);

3. Escuta (Ivon Curi, 1955);

4. Fósforo queimado (Paulo Menezes, Milton Legey e Roberto Lamego, 1953);

5. Não tenho você (Paulo Marques e Ari Monteiro, 1951);

6. Nem eu (Dorival Caymmi, 1952) – samba-canção gravado por Angela Maria em 1953;

7. Noite chuvosa (José Leal Brito e Fernando César, 1959);

Agradecimentos: aos nossos queridos Ricardo Meirelles e ao Luizinho Pinheiro pelos depoimentos prestados. Gratidão à todos vocês!!

Fonte de consulta:


  • Site G1. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/03/29/agnaldo-timoteo-comecou-a-gravar-album-em-tributo-a-angela-maria-duas-semanas-antes-de-ser-internado-com-covid-19.ghtml acesso em: 05 abr. 2021

Fundo musical:


  • 'Sábado no Morro', música de Mário Russo e Sebastião Gomes. Foi a primeira gravação do cantor mineiro, gravada em 1964. Coincidentemente ele falece em um sábado de aleluia, no dia 03/04/2021;

  • 'A casa do sol nascente', versão traduzida da música 'The house of the rising sun', de Alan Price, interpretada aqui por Agnaldo Timóteo no disco 'Surge um astro', gravado em 1965 pela EMI records Brasil;

  • Pout pourri 'Sorri/Perfídia/Lembrança, do disco 'Ângela e Timóteo, juntos', de 1979;

  • 'Noite chuvosa', música de Britinho, interpretada por Angela Maria no disco 'Angela Maria - Amigos', de 1996, com participação de Caetano Veloso. Esta música é uma daquelas que Timóteo escolheu em sua última gravação para homenageá-la;

  • 'Tango para Teresa', música de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, interpretada pelos dois cantores no disco 'Angela e Agnaldo sucesso sempre', de 1999;

  • 'Alguém me disse', de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, interpretada pela voz de Anísio Silva no disco 'Seleção de ouro - 20 sucessos', de 1960, remasterizada em digital e relançada em 1998;

  • 'Meu grito', composição de Roberto Carlos, da época da jovem guarda, feita em 1967 e interpretada pela voz de Agnaldo Timóteo no disco 'Seleção de ouro', remasterizada em digital e relançada em 1999;

Considerações finais:


E finalizamos nosso episódio de hoje novamente com sua primeira gravação, a 'Sábado no morro'. Por uma ironia do destino, este grande cantor nos deixa num sábado de aleluia, em 03/04/2021. Voltamos em breve em mais um episódio de Histórias da Música em Macahé. Um grande abraço!!

FIM.


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