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  • HM Macahé

Episódio 11 - Um Espaço Histórico - do convívio social à cativeiro - (parte 1)

Atualizado: 26 de abr. de 2021



OUÇA O EPISÓDIO:




Voz de Luiz Pinheiro:


" Na eternidade expressiva deste bronze, a sociedade Macaense perpetua o seu agradecimento a Manoel Paes Filho, cuja valiosa e desinteressada contribuição possibilitou a realização deste magnífico empreendimento" - Macaé, 15 de Novembro de 1941."


Placa de inauguração do Clube dos Abaetés - 15/11/1941.


Velhinho: Ah, que saudades dos tempos em Macaé, quando eu ia ao Clube dos "Abaetés"!!


Numa dissidência com o Tênis Clube, em finais dos anos 30, Manoel Paes Filho, o Manequinho, dá início, com outros amigos e sócios, às obras do que veio a se tornar o Clube dos Abaetés, inaugurado em 15 de novembro de 1941. Abaeté é um termo oriundo da língua tupi e significa “homem verdadeiro”, através da junção dos termos abá - “homem” - e eté - “verdadeiro”. É, parece que aquela confusão toda influenciou a turma a colocar esse nome, não? O que será que deve ter acontecido?


"O Clube, que mais tarde se tornaria a sede do Ypiranga F.C (agremiação fundada em 1926 no Hotel Alfredo, na Rui Barbosa), era o lugar dos bailes suntuosos, da realização dos concursos de misses, do convívio social, no qual boa parte da elite macaense circulava soberana…" (trecho tirado do Relatório da Comissão da Verdade, cap. 7). A cultura das agremiações esportivas em Macaé foi efervescente na primeira metade do séc. XX, o que acarretou em concorrências entre si, criando em seus adeptos, identidades por questões ideológicas, tornando as torcidas mais do que uma mera diversão, e sim, uma manifestação de identidade de grupos políticos ou de pertencimento social. (Trecho tirado do mesmo relatório, cap. 7, e readaptado).


Baile nos anos 50

(Imagem: Facebook - Coleção Leonardo Rocha - Observatório Macahé Antiga)


De qualquer maneira, é sempre interessante ouvir histórias, como as de Dilton Pereira, 91 anos de vida, de mente bem conservada e com boas lembranças daquele lugar que nem muro tinha em volta e cuja beleza podia ser apreciada de longe. Reproduzo, agora, um relato escrito por Dilton, cujo título se chama "Um espaço histórico". Vamos lá:

UM ESPAÇO HISTÓRICO

Dilton Pereira


"...Abandonado, degradado, arruinado. Esta é a realidade atual de um espaço que guarda momentos marcantes da nossa história esportiva e social. Já sabem do que falo: das ruínas do Ypiranga. Quando nasci, em 1929, alí já era quadra de basquete do Independente. Também alí armavam-se espaços para lutas livres e de boxe, até mesmo torneios. Comprado, no terreno foi construído o Clube dos Abaetés, que faliu, foi comprado pelo Ypiranga na gestão Romeu Pereira, Roberval Pereira da Silva e Luiz Carlos Almeida. Como sede social do Ypiranga, teve dias de grande brilho. Foi sede de um Campeonato Fluminense de Basquete, evento que mobilizou a cidade. Grandes shows foram realizados na quadra (depois ginásio coberto). Lembro os de Cauby Peixoto, Roberto Carlos, Carlos Galhardo, Cantores de Ébano. São inesquecíveis as serestas das sextas-feiras, os Bailes de Carnaval, além de muitos bailes beneficentes. Eu mesmo promovi um, em benefício da Sopa dos Pobres. Voltando ao passado, para a inauguração do Clube dos Abaetés, foi promovido um Baile de Gala, traje a rigor, Orquestra de Napoleão Tavares, na época, a mais famosa do interior do Estado. Tudo virou ferrugem, lixo…"


Orquestra de Napoleão Tavares, contratada para inaugurar o Clube dos Abaetés.

(Imagem: Revista da Semana, 22/10/1938)


Nos anos 50, a Rádio Emissora de Macaé ZYP-21, fundada por Dantas Filho, aluga o espaço do Clube, já falido, atuando até início dos anos 60 quando o radialista e político Iltamir Abreu compra a rádio, modernizando seu sistema de comunicação e, em 1962, inaugura a Rádio Princesa do Atlântico, agora no bairro Visconde de Araújo.


Revista 'Vida Fluminense' com matéria sobre a Rádio Emissora.

(Ano: 1958)

Em junho de 1963, o Clube, já pertencendo ao Ypiranga, inaugura seu ginásio de esportes sob a gestão de Rômulo Lago Leite, homenageando um grande dirigente do clube, Roberval Pereira da Silva, onde foi promovido um grande torneio de futebol de salão para estrear as novas instalações.


Mas voltando ao relato de Dilton Pereira, as boas lembranças que o remetem àquela época dos anos 40 e 50, escondem também momentos difíceis que o clube viveu em 64, e que muitos de sua geração ainda se esforçam em tirar da memória. É que o cenário político nacional e internacional não era dos melhores e a elite brasileira, tradicionalmente acostumada com seus privilégios desde os tempos de Brasil-Colônia, não tinha condições de digerir todas as demandas populares que clamavam por mudanças democráticas. Como resultado, estoura o golpe civil-militar de 64, e uma avalanche de perseguições e prisões atingiu nossa cidade. E o clube que, outrora, foi palco de atrações culturais marcantes da vida social dos macaenses, deixa também sua marca como o clube que serviu de campo de concentração, prendendo seus conterrâneos em sua própria terra. Vereadores e suplentes cassados e afastados do cargo, ferroviários, camponeses, professores, estudantes, artistas, idosos e até jogadores do próprio clube, muitos deles, tornaram-se reféns de uma velha ordem revestida de nova, durante quase 2 meses.


Estranha: ei, amigo! Estava ouvindo de longe você falando essas coisas aí. Isso não tem nada a ver mais não! Faz o seguinte, esquece isso. Continua falando de música. Melhor!


Eu: Vamos falar de música, sim. Sem problemas. Já que você quer falar de música, saiba de uma coisa: a música é muito poderosa. Ela encanta e esconde muitos segredos, e quase nunca o autor está presente entre nós para revelar as intenções de sua criação e nem sempre o ouvinte consegue desvendar, por ele mesmo, os segredos dela. Além das intenções de quem compôs a música, há também as intenções de terceiros que detém o domínio dela e usam-na para diversos fins de entretenimento. E isso também esconde outros segredos. Vamos ao exemplo que quero citar: os bailes no salão frontal do Ypiranga, aos sábados, continuaram normalmente mesmo com as pessoas presas lá atrás, no ginásio. E o que isso significa? É por quê o clube precisava de dinheiro? Obviamente que não! A intenção era distrair a sociedade, mascarando a dura realidade que acabara de se instalar e aparentar um clima de normalidade.


Estranha quase amiga: é, amigo! Não queria falar dessas coisas, mas já que você trouxe à tona a polêmica, tenho que dizer: muitos frequentadores do clube sabiam que tinha gente presa lá. Macaé era bem pequena comparada com os dias de hoje e o boato se espalhou rápido. E tem outra: você já ouviu falar do Armandinho?


Eu: não!


Armandinho, jogador macaense de destaque no cenário esportivo nacional, foi uma das vítimas do golpe civil-militar de 64, feito prisioneiro dentro do ginásio do Clube em que jogava profissionalmente.


Amiga: pois é! Seu nome é Armando de Sá Vasconcelos. Ele era macaense e foi autor do primeiro gol na inauguração do Estádio Caio Martins, em 27 de julho de 1941, quando jogava pelo Vasco da Gama na partida contra o Canto do Rio.

Eu: pô, bacana! Mas o que isso tem a ver com a nossa conversa?


Amiga: Armandinho também foi atleta do Ypiranga F.C. e acabou se juntando aos presos políticos no mesmo ginásio onde por tantas vezes ele jogou com a camisa do clube. Dá pra acreditar? E sabe por quê? Porque além de grande jogador, ele também era um cidadão esclarecido que exercia seus direitos civis e políticos.


Eu: Dessa eu não sabia! Mas é tanta coisa bizarra que acontece, né, amiga? Eu soube também que na época desse atentado à nação, os frequentadores dos bailes olhavam os presos pelas gretas da parede e teve gente pedindo até pra botar fogo neles! Até procissão passava na frente do clube com alguns presos expostos na calçada para serem excomungados pelos "fiéis"! Existe um relato muito emocionante que eu vi no relatório da CVM, do senhor Lauro Martins. Na época, ele era ferroviário e tinha 25 anos de idade, quando foi submetido àquela situação. E 50 anos depois, em 2014, ele retornou ao mesmo local acompanhado por uma comissão e, mesmo em meio aquele ambiente abandonado e sombrio, somado às lembranças do que tinha passado ali, ele se depara com uma samambaia que crescia em meio ao degrau de concreto da arquibancada, exatamente no mesmo lugar onde ele se deitava todos os dias, passando frio no chão duro. Surpreendido, ele chamou aquela planta de 'samambaia da esperança' e que, se ela brotou naquelas condições é porque o sonho dele pela democracia, de alguma maneira, deve ter valido a pena. Ou ainda estaria brotando.


Sr. Lauro Martins nos escombros do ginásio Roberval Pereira da Silva, no Ypiranga, onde foi preso por ser um ferroviário consciente. Na foto aparece a "samambaia da esperança" em meio ao concreto.

(Imagem: relatório da CVM - 2014)

Mas eu ainda não expliquei onde quero chegar: ao falar sobre a música e deste poder abstrato e envolvente que ela tem, o que quero dizer é que este poder abstrato foi o disfarce de um poder concreto e real, representado pelas forças de repressão naquele momento. A música foi usada maldosamente para criar um ambiente festivo e alegre, num cenário cinzento onde não se tinha nenhum motivo para comemorar.

Referência:

  • Relatório da Comissão da Verdade de Macaé. Disponível em: https://www.cmmacae.rj.gov.br/wp-content/uploads/RELATO%CC%81RIO%20CVM%20DIGITAL.pdf acesso em: 30 mar. 2021.


Agradecimentos: ao Luizinho Pinheiro e Rubem Pereira por alguns esclarecimentos e também por cederem algumas imagens que puderam ilustrar alguns momentos da história do Clube. À minha companheira das lutas diárias, a Camile, por fazer a estranha que virou amiga em nosso diálogo. (Risos) e ao historiador e pesquisador Marcelo Bonavides, de Fortaleza-CE, que gentilmente disponibilizou algumas músicas da Orquestra de Napoleão Tavares, que fazem parte do acervo do Arquivo Nirez. À todos vocês, nossa gratidão!

Fundo musical:


  • 'Sapateia Morena', samba de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. Gravado por Mário Petra de Barros e Quarteto de Bronze e acompanhamento de Napoleão Tavares e Sua Orquestra. Gravado em 27 de maio de 1941 e lançado em agosto do mesmo ano;

  • 'Frenesi', canção de Alberto Dominguez e gravada por Juan Daniel com acompanhamento de Napoleão Tavares e Sua Orquestra. Gravado em 05 de maio de 1941 e lançado em julho do mesmo ano;

  • 'Lenda do Abaeté', música de Dorival Caymmi, tocada aqui pelo mestre Baden Powell no disco Enciclopédia Musical Brasileira, de 1994;

  • Pout-pourri 'Perseguição / O Sertão vai Virar Mar, de Sérgio Ricardo, gravadas, pela primeira vez, em 1963 e que fizeram parte da trilha sonora do filme Deus e o Diabo na terá do sol, de Glauber Rocha. A gravação que ouvimos aqui faz parte do programa Ensaio, gravado em 19/07/1990, e lançado pelo Sesc São Paulo.

Considerações finais: E finalizamos aqui o primeiro bloco sobre este lugar controverso que, mesmo tendo passado por esse momento sombrio em sua história, deu a volta por cima e continuou a realizar seus eventos sociais e desportivos, e que contaremos aqui pra vocês no próximo episódio de Histórias da Música em Macahé. Um grande abraço!!

FIM.

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