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  • HM Macahé

Episódio 29. Conexão Macaé-Campos: A Madrinha da SMB Lyra dos Conspiradores.


OUÇA O EPISÓDIO:




No último episódio, nosso querido maestro Jorge Macedo se referiu à Lyra de Apollo, Sociedade Musical de nossa vizinha Campos dos Goytacazes que, segundo ele, foi a madrinha da nossa Lyra dos Conspiradores. Por uma feliz coincidência encontrei em meus arquivos um noticiário, de 1911, do jornal O Regenerador, praticamente narrando o passeio à Macaé, de nossa Sociedade Co-irmã.



O passeio dos Campistas Ansiosamente esperados, chegaram a esta cidade em comboio especial, às 9 ½ horas da manhã, os nossos vizinhos Goytacazeanos, precedidos da apreciada banda da SM Lyra d'Apollo, promotora do passeio. Ao chegar o comboio à gare da Macahé, foram os ilustres visitantes delirantemente saudados por enorme massa popular, compostas de muitas Exmas. Senhoras, senhoritas, cavalheiros e pela correcta banda da SPM Nova Aurora e sua caprichosa diretoria. Como prova do alto apreço em que aqui são tidos os excursionistas, dignos representantes do heróico povo campista, muitos vivas foram erguidos e muitos foguetes atroaram os ares. Da estação seguiram os passeiantes acompanhados pela incalculável mole, a pé, em demanda do centro da cidade, e aí chegados, cumprimentaram a Câmara Municipal e as redações do nosso colega o Século e desta folha. Depois seguiram em direção ao edifício da Nova Aurora, cujo átrio e salões se achavam soberbamente ornados. Nos salões dessa Sociedade foram trocados muitos cumprimentos falando, nessa ocasião os Srs. Agenor Caldas, pela Nova Aurora e Luiz Barboza, que respondeu em nome da Lyra d'Apollo. Depois de haver executado uma peça musical com a costumada correção, dirigiu-se a Lyra d'Apollo à sede da Lyra dos Conspiradores, que se achava caprichosamente engalanada.




Ali foram trocados entusiásticos brindes às duas sociedades co-irmãs, às populações campista e macahense. Ainda ali, a Lyra d'Apollo arrebatou os ouvintes com a bela peça "A Cavalaria Rusticana", que tocou com a mais irrepreensível maestria. Usaram da palavra os Srs. José Cyriaco, Luiz Barboza e muitos outros cavalheiros. Após essa cerimoniosa recepção, parte dos passeiantes foram, uns em visita à Bateria Marechal Hermes, Imbetiba, Outeiro de Sant'Anna, onde se realizava a festa da miraculosa Santa que lhe dá o nome e outros passeiavam a cidade, Praia da Concha, etc. A Lyra d'Apollo seguiu para a Imbetiba em visita ao seu prezado consócio Sr. Alberto Lima, chefe das Oficinas da Leopoldina e digno presidente do Lyceu dos Operários. No Hotel Balneário foi servido o almoço aos festejado hóspedes, sendo o serviço muito elogiado, atenta a sua boa direção por parte do sei proprietário, Sr. Luiz Manhães e seus auxiliares. Às quatro horas da tarde deixaram os nossos vizinhos as plagas macahenses em demanda dos seus penates, sendo acompanhados até a estação por grande multidão que os aclamava. Os passeiantes ao saírem mostraram-se muito satisfeitos com a modestissima recepção que lhe fez o povo macahense, em cujos corações deixaram saudades imensas.

Jornal O Regenerador - Órgão do Partido Republicano de Macahé. Ano 2 - n°30, de 05/08/1911.



Nossa obstinação não obedece fronteiras e por isso saimos em busca de respostas para conhecer melhor esta co-irmã, madrinha da nossa também dissidente Lyra dos Conspiradores. Nessa busca, encontramos o maestro Ricardo de Azevedo, 82 anos de muita vida e músico desde os seus 13 anos. É membro da Lyra de Apollo desde os 15 anos de idade, quando a banda ainda tocava peças da Cavalaria Rusticana, como mencionado no jornal O Regenerador. Presidente desta Sociedade Musical desde 2008, ele nos conta um pouco mais sobre a história deste lugar...


Ricardo: a [SM Lyra de] Apollo é madrinha da [Lyra dos] Conspiradores e a [Lyra] Guarani é madrinha da Nova Aurora. E a Apollo também é madrinha da Lyra Conspiradora, daqui de Campos. Em 1911, quando a Lyra de Apollo foi à Macaé, ela ainda não estava nesse prédio, que foi inaugurado em 1912. A sede era na [Rua] Barão de Cotegipe. Aqui, eles compraram o terreno em 1909 e em 1912 foi inaugurado o prédio.

Ao centro, sede da SM Lyra de Apollo, inaugurada em 1912 nos arredores da praça São Salvador e ao lado da Catedral, no centro histórico da cidade de Campos dos Goytacazes.

Fonte: Arquivo de Leonardo Vasconcellos, s/d.


Magno: você falou que era muito comum nessa época abolicionista, no Brasil, essas bandas serem madrinhas de outras, para criarem outras bandas…


Ricardo: as bandas mais velhas batizavam as mais novas, que surgiam. A Lyra de Apollo, em 1868, já estava se organizando… que foi uma dissidência de uns músicos de uma antiga banda de Campos, chamada Lyra Nossa Senhora da Conceição. Os dissidentes dessa banda que vieram a formar Lyra de Apollo. Outros dissidentes da NS da Conceição também fundaram a Lyra Conspiradora.


Magno: você me falou uma coisa interessante sobre como que se deu origem a Lyra de Apollo. Ela foi fundada em 1870. Qual a data, exatamente?


Ricardo: 19 de maio de 1870. A banda teve origem mesmo, antes de 19 de maio, ela andava pelas ruas estreitas de Campos arregimentando voluntários para a guerra do Paraguai. E esse "19 de maio" foi justamente uma homenagem porque foi o final da guerra. A Lyra de Apollo era a banda, também, que prestava serviço para o "Tiro de Guerra 29". Era onde os jovens de Campos prestavam serviço militar. E a Lyra de Apollo também era banda oficial da Escola de Marinha, porque em Campos tinha a Escola de Marinha no prédio do Exército, do outro lado do Rio Paraíba, onde é o 56 BI.


Magno: e a Lyra de Apollo surgiu como uma banda civil, né?


Ricardo: banda civil, sempre foi banda civil. Mas prestava serviço para essas organizações militares. Era uma banda oficial para os desfiles militares, aqui em Campos.


O maestro também nos revela o nome artístico pelo qual carinhosamente é chamado…


Ricardo: meu nome, no original, é Ricardo de Azevedo. Artisticamente Ricardo "coração de leão". É porque eu sempre fui admirador do rei Ricardo coração de leão, rei da Inglaterra.

Maestro Ricardo de Azevedo, o "Coração de Leão".


Magno: eu falei pra você que na matéria desse jornal [O Regenerador], teve um momento que a Lyra de Apollo foi visitar a Lyra dos Conspiradores e tocou uma peça da Cavalaria Rusticana. Você disse pra mim que ainda novo, na Lyra de Apollo, você chegou a tocar alguns atos dessa peça, que é uma ópera, né? Ricardo: As bandas [de Música], no passado, tocavam muitos clássicos, porque tinha público para ouvir. O público se interessava muito por cultura, ópera, essas coisas. Hoje não tem. Você toca mas tem pouco público que tem conhecimento de cultura pra ouvir trechos de ópera, hoje. A Cavalaria Rusticana é uma ópera de 4 atos. Então as bandas tocavam trechos, né. Não tocavam completo, tocavam trechos.

Magno: é porque, assim, a formatação da banda sinfônica é diferente das outras formações, de orquestra sinfônica, filarmônica… Ricardo: mas mesmo banda sinfônica não toca completa, porque é muito grande. A própria sinfonia de "O Guarani", as bandas tocam mais é a abertura, porque a ópera são 4 atos, também. Naquela época a cultura era essa, tocar clássicos. Hoje não temos público de estar ouvindo clássicos porque as próprias Orquestras Sinfônicas, hoje, até fracionam muito essas apresentações porque, infelizmente, nós não temos público dedicado à Cultura. O pessoal, hoje, ouve muito lixo. Magno: vamos dar um salto no tempo, então. Você está a frente da presidência da SM Lyra de Apollo desde 2008. E como maestro, desde quando?

Ricardo: eu tive antes, em 1982, 83, eu fui regente. Já fui presidente em outra época, também, em 1985. Depois eu me afastei porque eu fui pra Niterói e outro grupo ficou dirigindo, aqui. Depois que o prédio pegou fogo, eu retornei e tomei a rédea da situação, pra agilizar a situação da banda. Até que eu consegui afastar a outra diretoria, somente em 2008. O incêndio foi em 19 de novembro de 1990.

Em 19 de novembro de 1990, um grande incêndio destruiu quase todo o prédio da Lyra de Apollo, assim como o acervo documental e instrumentos. Tombado pelo Inepac em 1982, desde 2012 a sede vem sendo restaurada com recursos próprios.

Fonte: "Google imagens"

Magno: eu fiquei muito impressionado… porque tem toda uma questão da sua idade, da sua experiência e dessa garra que o senhor tem. Me impressionou muito porque o prédio sofreu esse incêndio em 1990, você tomou a frente da presidência em 2008 e, em 2012, iniciou-se o processo de restauração do prédio… Ricardo: em 2012 eu contratei uma empresa pra começar a restauração do prédio. Nós já estamos com 80% de obra concluída, sendo tudo com nosso próprio recurso. Aqui não tem recurso público investido na Banda. A Banda é patrimônio Estadual, tombado pelo INEPAC, e patrimônio imaterial do município. Mas nunca ninguém botou dinheiro aqui, não. O dinheiro aqui, graças a Deus, é porque nós temos dois pontos comerciais de aluguel. E com esse dinheiro é que tivemos condições de começar a restauração do prédio. Magno: é uma união muito forte entre vocês. Entre você, maestro, e a banda… Ricardo: nós temos uma coisa muito forte, aqui: acreditamos muito em Deus e temos uma união muito forte, entre todos. Magno: que bom! Esses 20% que faltam é internamente ou contando com a fachada?

Ricardo: a fachada vai ser mais demorada porque, além de ser uma obra cara (no momento não temos dinheiro pra isso), mas também vai ter que ter profissionais de fora pra trabalhar e isso é uma obra pro final. Mas a parte interna já temos projeto de incêndio pronto. Já estamos concluindo o projeto elétrico; botamos assoalho de madeira; fizemos a escada totalmente original. Material da escada veio de Santarém-PA. Os barrotes novos vieram de Rondônia.


Novos assoalhos, escada e colocação das Liras no topo do prédio da sede, seguindo o original, são partes do processo de restauração deste patrimônio histórico, iniciado em 2012.

Imagens: Facebook da "SM Lyra de Apollo".

Montagem: Magno Elias


Considerações finais:

Estas foram as palavras do maestro Ricardo de Azevedo, o coração de leão. São, praticamente, 70 anos de Lyra de Apollo. Gostaríamos muito de agradecer a atenção do maestro desta centenária Banda Lyra de Apollo, madrinha da nossa querida Lyra dos Conspiradores. Quem sabe, num futuro próximo, não possamos realizar novos encontros como aquele, de um tempo distante, lá pelos idos de 1911. E, quem sabe também, a Banda da Lyra dos Conspiradores não volte a se formar para tocar com aquela que é sua co-irmã e madrinha abolicionista de Campos. Eis o nosso propósito aqui, no Histórias da Música em Macahé: de não só contar histórias, mas relatar fatos e curiosidades que possam nos despertar para algo e nos fazer refletir sobre as lições que podemos tirar do que está sendo contado. Afinal de contas, é no passado onde buscamos algo que se perdeu e que pode ser referência para um novo ponto de partida, desde que não se repitam erros novamente. Que possamos sair mais do plano imaginário e ir de encontro ao plano real, do possível. É só nos darmos a mão!! Lembrando que as referências de consulta e o fundo musical se encontram no final da página do blog referente à este episódio. Vamos ficando por aqui, até breve e um grande abraço!!

Referências:


Fundo Musical

  • "Intermezzo from Cavalleria Rusticana", de Pietro Mascagni. Executada pela The University of Texas Wind Ensemble, com regência de Jerry Junkin, em Tsuen Wan Town Hall - Hong Kong, em 29/05/2014;

  • Trecho de "Cavalleria Rusticana - Selections from the Opera". Executada por Tamagawa Academy Wind Orchestra, ao vivo no Midwest Clinic, International Band and Orchestra Conference - 2016. Arranjos de E. Suzuki & K. Shishikura;

  • Trecho de "Cavalleria Rusticana - Highlight from Melodrama in 1 Act". Executada por Band of the Bukit Batok Community Club (Singapura), com arranjos de Eiji Suzuki, no West Winds in Concert - SOTA Concert Hall, em 30/09/2017.


FIM.







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