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  • HM Macahé

Episódio 2 - A música dos povos originários e a visão dos navegantes europeus.

Atualizado: 26 de abr. de 2021



Ouça o episódio:



Sejam todos bem-vindos ao 2° episódio do HMM… E hoje começamos pra valer a nossa programação. Vamos falar brevemente sobre um passado bem distante, quando Macaé e toda essa região, antes de terem seus territórios divididos por capitanias hereditárias e sesmarias, ainda eram regiões cobertas por matas e habitadas por povos nativos de diversas etnias. Mas infelizmente esses povos não deixaram registros escritos que pudessem contar pra gente sua visão de mundo e tudo mais. Os registros descobertos posteriormente são os de sítios arqueológicos, como os Sambaquis. Como exemplo temos o Sítio do Cajú, em Campos, e o de Tarioba, em Rio das Ostras. Há também as pinturas rupestres, mas os escritos oficiais só puderam se tornar realidade nas primeiras décadas da colonização, no séc. XVI, com as grandes navegações. Foram os europeus, com sua visão de mundo, suas crenças e hábitos, os responsáveis pelos primeiros relatos e impressões sobre a terra das palmeiras livre dos males, chamada pelos tupi-guaranis de Pindorama. O primeiro relato, que todos conhecem, é o da carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500. A partir daí vários outros viajantes também deixaram seus registros, inclusive os primeiros esboços de partituras musicais.


Mas antes de continuar essa história eu gostaria de falar sobre um livro que foi uma inspiração para mim e que incentivou a criação deste nosso projeto. É o livro Macaé, Memórias Recentes", que já se encontra em sua segunda edição. Foi através dele que eu descobri pessoas e lugares de Macaé do passado e que me instigaram a encontrar mais respostas. São várias entrevistas com personalidades macaenses, e a leitura é muito atraente, pois nela você encontra palavras destacadas em negrito, cujos significados se encontram num glossário no canto da respectiva página. E sempre no final dos episódios citaremos as fontes de pesquisa usadas para falar dos temas abordados e com certeza este livro, sempre que puder, será citado.


Livro Macaé Memórias Recentes

Disponível para download no site: https://educacaonaopara.com/


Então vamos lá!! Dando continuidade ao que estávamos falando… a região sudeste do brasil, onde estamos, segundo dados arqueológicos, começou a ser povoada ainda no período glacial, chamado de Pleistoceno Final. Isso é em torno de 10.000 anos atrás. O nível do mar do litoral era mais baixo e estima-se que as ilhas do Arquipélago de Sant'anna pertenciam à costa litorânea, formando pequenos montes e preservando ossada humana, o que nos faz supor que nessa região, coberta hoje pelo mar, estejam escondidos sítios arqueológicos de grande riqueza. "Análises sistematizadas desses sítios permitiriam o esclarecimento da pré-história do homem “macaense”, trazendo luz à sua estrutura social e colocando Macaé dentre as comunidades que podem orgulhar-se de contribuir para compreensão e engrandecimento da trajetória civilizatória da Humanidade". Na mudança para o Holoceno, o clima, de frio e seco, começa a mudar para quente e úmido, o nível do mar sobe e o povoamento fica mais favorável, pois muitas espécies marinhas viram fonte de alimento para os caçadores-coletores do litoral.

Mas calma aí!! Onde está a música nisso??!! Sim. É aí que começa a brincadeira. Já sabemos que a voz e o nosso corpo são fontes sonoras: o canto, as palmas, o bater dos pés, são recursos primários usados desde sempre. Na época em questão, muitas espécies de moluscos das regiões costeiras, e suas carcaças calcificadas, foram usadas pelos índios para diversos fins. As conchas eram usadas como ferramentas de corte ou de uso estético para pendurar no pescoço. Outras espécies, como os búzios, gastrópodes cuja carcaça possui formato cônico e univalve, eram usados como instrumento de sopro. O próprio Pero Vaz, em sua carta revela: "... depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e dançar um pedaço…".


Carcaças de alguns búzios


Frei Vicente de Salvador, ao se referir aos gentios, como eram chamados os povos nativos daqui, narra o drama de um cativo capturado em uma guerra que passou por um longo processo ritualístico de antropofagia, até que finalmente chega o dia. No caminho até o local de seu abate, se escutam sons de cantares e de instrumentos. Frei Vicente diz: "... e assim o trazem com grandes cantares e tangeres de seus búzios, gaitas e tambores…" Aqui se observam outras referências de instrumentos musicais relatados por ele. As gaitas seriam instrumentos de sopro da família dos aerofones, como os búzios e cornos. Existem outros feitos de madeira como a flauta pã e com o domínio da cerâmica muitos outros aerofones foram criados. Também têm a família dos idiofones, que são instrumentos de percussão por atrito e vibração, como os chocalhos e também temos os membranofones, feitos de tambores de madeira ou casco de tartaruga com pele animal. O próprio chão se torna uma percussão através do bater dos pés e, apesar de bem primitivo, revela uma relação muito íntima do homem com a terra. Então vale a reflexão de como ações simples e aparentemente primitivas podem esconder grandes valores. E é claro, fazendo música!


Cerimônia religiosa dos Tupinambás em gravura de Theodor de Bry. Na imagem, e segundo relato de Jean de Lery, é mostrado o momento onde os mesmos são atormentados pelo espírito de Anhangá.


Associada ao universo transcendente e mágico, a música para a maioria dos povos indígenas brasileiros é utilizada em rituais religiosos, socialização, ligação com ancestrais, magia e cura. Está presente em festas comemorativas, sazonais, guerreiras, ritos de passagem e congraçamento entre as tribos. Um outro aspecto é a natureza. O calvinista e missionário francês Jean de Lery, durante sua viagem à França Antártica, como era conhecido o Rio de Janeiro nessa época, foi a primeira pessoa a registrar em terras brasileiras, partituras de cantos Tupinambás. Um desses cantos se chama Canidé-Ioune, e faz referência ao pássaro de cor amarelada, que Lery descreve da seguinte maneira: "... a outra ave, dita canidé tem a plumagem do peito amarela como o ouro fino; o dorso, as asas e a cauda são de um belíssimo azul, e pasmamos ante tanta formosura ao vê-la como que vestida de ouro e por cima toda sombreada de roxo…" duas dessas melodias coletadas por lery influenciaram, em 1926, o maestro Villa-Lobos a compôr os seus três poemas indígenas, em homenagem à Roquette Pinto que, em 1912, realizou uma incursão à serra do norte em companhia de cândido Rondon, registrando num fonográfo músicas dos indios Parecis e Nhambiquaras.


Um dos primeiros registros em partitura de que se tem notícia, no Brasil. Escrito pelo francês Jean de Lery, em 1557, em sua viajem à França Antártica (Rio de Janeiro). Relata um ritual Tupinambá em saudação a ave Canidé, uma espécie de Arara.


Ok. Muito bonito tudo isso, não é?! Mas e em Macaé, o que nós sabemos daquela época? Bom, falar de Macaé, nessa época, com a divisão territorial que se tem hoje, não faz sentido. Mas em tempos de capitanias hereditárias dá para termos uma noção. Os territórios eram bem mais extensos e os rios sempre foram boas referências como limites territoriais. O Rio Macaé dividia duas capitanias: a de São Tomé, ao norte, e a de São Vicente,ao sul. E é nesta primeira onde viviam os índios Goitacá, um dos povos mais valentes e temidos do Brasil… Faziam machados de pedra, jangadas, trabalhavam com bambu, trançavam redes de fibra e cordas e também praticavam a agricultura. Caçavam tubarões com um pedaço de pau e usavam seus dentes em pontas de lança e faziam colares. E corriam tão rápido que pegavam veados à mão. Os Goitacá desapareceram no fim do século XVIII, exterminados por uma epidemia de varíola disseminada criminosamente entre eles. Está aí um antigo método de guerra biológica!! Calcula-se que eram cerca de 12.000. Infelizmente não há registros de seus costumes e de sua língua. Afinal, a impossibilidade de se conviver com eles, dificultou, por exemplo, saber como eram suas manifestações através da música. E dos registros arqueológicos descobertos, não há provas do que eles usavam para essa finalidade. Dentre os relatos que mais chegam perto do que gostaríamos de falar é a passagem que Osório Peixoto faz em seu livro 1001 anos dos Campos dos Goytacazes. Segundo ele, os goitacá "tinham o hábito de dançar e cantar em ocasiões festivas, usando o jenipapo para a pintura do corpo e penas de aves com as quais adornavam seus objetos". Presume-se que a língua dos Goitacá pertencia à família linguística Puri, a qual, por sua vez, pertence ao tronco linguístico Macro-Gê.


Índio Goitacá

(nota-se o uso de conchas adornando seu rosto)


Outras nações indígenas também habitaram nossa região. Alberto Lamego, importante geógrafo do norte-fluminense, em seu livro O Homem e o Brejo, cita um outro autor, Couto Reis, que relatou que em fins do séc. XVII "os Saruçús ainda existem nas montanhas e vales que medeiam entre os rios São João e Macaé, e se estendem até a margem sul do Macabú, aonde tem algumas aldeias". Relatos de outros autores falam também dos índios Guanhãs, Coropós, Puris, Tomiminós e Aimorés. Dentre outros povos conhecidos têm os tamoios, de Cabo Frio em diante e também os Tupinambás, que foram mais para o norte do país mas que também passaram por nossa região. Os verdadeiros descobridores das Américas influenciaram em muito nossa música. Os vários tipos de chocalhos, o canto nasalado advindo da língua Nheengatu que influenciou a sonoridade do Cateretê, da Catira e do Cururu. O bailado dos Caboclinhos e os Caiapós. As cantigas de ninar e até nos refrões curtos de algumas músicas, onde uma palavra sempre se repete no fim de cada verso, a influência musical do índio se faz presente.

Fontes de pesquisa:


Dentre as fontes de pesquisa usadas para compôr o episódio de hoje, temos:


• Carta de Pero Vaz de Caminha.


• Livro "500 anos, da Música Popular Brasileira", lançado em 2000 pelo governo do Estado do RJ em comemoração aos 500 anos do descobrimento.


• Livro "História do Brasil" - Frei Vicente de Salvador.


• Livro "Histórias de uma viagem feita a terra do Brasil" - Jean de Lery.


• E como não poderia faltar, o Livro "Macaé - Memórias Recentes". 1ª edição. Sob a organização de Marilena Garcia e Meynardo Rocha de Carvalho.


• Livro O Homem e o Brejo - Alberto Lamego.


• Apontamentos musicais dos viajantes - Anna Maria Kieffer.


• Influência da voz indígena na música brasileira, de Magda Dourado Pucci.


• Lúcia Gaspar: índios brasileiros, instrumentos musicais. Pesquisa escolar online, fundação Joaquim Nabuco.


• Artigo de Alan Carneiro sobre Roquette Pinto.


• Site do instituto de arqueologia brasileira – IAB.


• Site indigenasbrasileiros.blogspot.com

Fundo Musical:


E o nosso fundo musical de hoje está recheado de informações ricas sobre a música indígena. Depois de nossa abertura oficial com o hino de Macaé, começamos com aquele som de buzina, lembram? Já conseguiram imaginar o que é?


• No decorrer do episódio falamos dos Búzios, cujo som é produzido em sua carcaça calcárea. E aquele é um dos sons que ele pode fazer. Interessante, não é mesmo?


• Em seguida temos a canção "Nozani na", canção dos índios Parecis, de Rondônia, coletada por Roquette Pinto em 1912 e adaptada por Villa-Lobos para coro orfeônico. A versão que está neste episódio se encontra no disco Txai, de Milton Nascimento, gravada em parceria com Marlui Miranda no ano de 1999.


• E continuamos com a Marlui Miranda para a próxima música, Tchori Tchori, uma canção do povo Djeoromitxí, de RO, e que inicia seu famoso disco "Todos os Sons", gravado em 1995 com a participação do grupo Uakti.


• Seguindo, temos a canção Guarani Nhaneromoi'i Karai Poty, música que faz parte do disco Nande Reko Arandu do projeto "Memória Viva Guarani", lançado no ano 2000. Nas gravações deste disco, foram usados Violões de 5 cordas, Rabecas de 3 cordas e Tambores com peles de veado.


• No momento da captura do cativo, ouvimos um trecho do CD Teatro do Descobrimento, produzido pela pesquisadora Anna Maria Kieffer e grupo Anima, em 1999. Na música Terra Brasilis n°1, cantos Tupinambás e Salmo 130 (De profundis), é feita uma interpretação do momento em que o viajante alemão Hans Staden faz suas súplicas para que não seja morto em um ritual antropofágico. Por muita sorte ele se livrou dessa. Êtaa sorte!! Rsrs e está tudo relatado em livro por ele.


• A seguir, ouvimos sons de alguns Pios, pequenos apitos que imitam sons de animais, que muitas das vezes são usados para atrair a caça.


• Sobre a ave Canidé, que na verdade é uma espécie de Arara, ouvimos o primeiro dos três poemas indígenas do maestro Villa-Lobos, composto para canto orfeônico, interpretado, neste caso, pelo coral da Associação de Canto Coral, sob a regência de Cleofe Person de Mattos.


• Ao falar dos índios Goitacá, foi usada uma gravação do CD Etenhiritipá, canto dos povos Xavantes, gravado em 1994, que registrou um ritual que precede a caça e onde se pede sorte e fartura.


• Depois entram os Pataxós, descendentes dos Aymorés, tocando dois tipos de flauta Kricrok. Este registro faz parte de um CD chamado "O Canto das Montanhas", gravado em 1998 no 1° Festival de Dança e Cultura Indígena da Serra do Cipó, em MG.


• Em penúltimo lugar, a música "Toque de Guerra", do Caboclinhos de Cahetés, que compõe o disco "Instrumentos Populares do Nordeste, da gravadora 'Discos Marcus Pereira'.


• E fechando com chave de ouro, Kworo Kango, um canto dos índios Caiapós no ritual da mandioca. Adaptação e arranjos de Marlui Miranda.



Considerações finais


E vamos encerrando o primeiro capítulo deste vasto assunto, que será dividido em partes, para entendermos de que maneira a música brasileira foi se formando e se consolidando. Vamos entender um pouco como que os portugueses e os negros africanos contribuíram com essa formação já no início da colonização. Mas já deu pra sentir o gosto de como os primeiros e autênticos habitantes dessa terra, chamada Brasil, deram o pontapé inicial em toda essa história.


Os episódios desta série, apesar de seguirem uma linha do tempo, não serão reproduzidos de forma consecutiva. Neste intervalo falaremos de outros acontecimentos de nossa cidade, também para quebrar um pouco a rotina. E num outro momento, damos continuidade.

E lembrando que quem se interessar em contribuir conosco...

Encerramento


Gostaria de encerrar falando uma frase que foi usada numa campanha continental lançada no MS, promovendo a união dos Guarani de toda a América Latina. Esta campanha foi organizada pelo Conselho Indigenista Missionário em 2007, e diz o seguinte:


"Àqueles que não entendem nossa língua, vou traduzir. O povo Guarani era como um rio que corria lentamente em seu curso quando uma pedra gigante foi lançada dentro do córrego. A água espirrou para vários cantos. E os sobreviventes estão aqui hoje reunidos”, diz o Guarani- Kaiowá Anastácio Peralta, sob olhares de concordância de seus irmãos da Argentina, Bolívia e Paraguai."


Então é isso, meus amigos. No próximo episódio, falaremos de um importante músico que foi um dos pais do Choro, popularmente chamado de chorinho. É!! E ele é macaense. Quer saber de quem estou falando? Uhmmm, preciso guardar esse segredo até o nosso próximo encontro. Combinado? Então tá certo! Vamos ficando por aqui e um grande abraço!!



FIM.

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